O
zumbido de mineradora de bitcoin que gera revolta em redutos de Trump
Nos
últimos cinco anos, um zumbido alto tem sido pano de fundo constante para o
canto dos pássaros e o latido ocasional de cachorros no vilarejo de Dresden, no
Estado americano de Nova York.
Vindo
da usina de geração de energia Greenidge
Generation, que passou anos desativada, o som irritou alguns moradores locais.
"É
um incômodo", diz Ellen Campbell, proprietária de uma casa no Lago Seneca,
a uma curta distância dali. "Prefiro não ficar ouvindo isso quando sentar
à beira do lago."
"Não
pedimos para ouvir esse zumbido constante."
A
questão aqui em Dresden, um vilarejo de cerca de 300 habitantes cercado por
estradas rurais sinuosas, linhas ferroviárias de via única e fazendas que
cultivam uva e lúpulo, parece uma história familiar sobre a tensão entre os
moradores locais que amam a natureza e o desenvolvimento econômico.
Mas o
incômodo deles também é um sinal de algo menos esperado — as políticas do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estão enfrentando
resistência de pessoas nas áreas rurais, cujos votos impulsionaram seu retorno
à Casa Branca.
A
causa? A mineração de Bitcoin.
Um
processo de uso intensivo de energia que depende de computadores potentes para
criar e proteger as criptomoedas, a mineração de
Bitcoin cresceu rapidamente no país nos últimos anos. O governo atual,
diferentemente da gestão de Joe Biden, pretende incentivar
o setor.
Trump
disse que quer transformar os EUA na capital mundial da mineração de
criptomoedas, anunciando em junho de 2024 que "queremos que todo Bitcoin
que resta seja fabricado nos EUA". Isso tem implicações para as
comunidades rurais dos EUA — muitas das quais votaram no republicano.
Instalações
como a da usina de energia perto de Dresden estão surgindo em todo o país,
atraídas pelos preços recordes das criptomoedas e pela energia barata e
abundante para alimentar os computadores que fazem a mineração.
Há pelo
menos 137 minas de Bitcoin nos EUA em 21 Estados, e reportagens indicam que há
muitas outras previstas. De acordo com estimativas da Agência de Informação
sobre Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês), a mineração de Bitcoin utiliza
até 2,3% da rede elétrica do país.
O alto uso de energia e seu impacto ambiental mais amplo
certamente estão causando alguma preocupação em Dresden.
Mas é o
inconfundível zumbido que é a trilha sonora do descontentamento em muitos
lugares com minas de Bitcoin — produzido pelos ventiladores usados para
resfriar os computadores, ele pode variar de um ruído mecânico a um barulho
ensurdecedor.
"Podemos
ouvir um zumbido constante", diz outra moradora de Dresden, Lori Fishline.
"É um barulho constante e alto que você simplesmente não pode ignorar. Ele
nunca esteve presente antes, e definitivamente afetou a atmosfera pacífica da
nossa baía".
Tamanha
é a irritação de Campbell com o apoio de Trump ao Bitcoin, que sua lealdade
política aos republicanos está sendo testada. "No momento, não estou muito
feliz com esse partido", diz ela.
·
Reação adversa no reduto de Trump
O
conflito no Lago Seneca está repercutindo em todo o país, o que pode
representar problemas para uma Casa Branca que pretende seguir uma agenda
pró-criptomoeda.
A pouco
mais de 160 quilômetros a oeste de Dresden, uma reação negativa na cidade de
Niagara Falls levou o prefeito local Robert Restaino — um democrata — a emitir
uma moratória sobre novas atividades de mineração em dezembro de 2021 e, no ano
seguinte, foram impostos limites de ruído de 40 a 50 decibéis perto de áreas
residenciais. "A poluição sonora deste setor não se compara a nada",
ele disse.
Os
moradores locais descreveram o som como semelhante ao de um jato 747, ou tão
irritante quanto ter dor de dente 24 horas por dia, alegando que o ruído
abafava o som das cachoeiras próximas.
E em
Granbury, no Texas, uma barreira acústica de mais de 7 metros de altura foi
erguida em 2023 em uma instalação de mineração depois que os moradores
reclamaram com as autoridades públicas que o barulho ininterrupto os mantinha
acordados e causava enxaqueca.
Todas
essas operações de Bitcoin foram abertas antes do retorno de Trump à Casa
Branca. Mas a oposição que elas geraram sugere que as autoridades públicas em
áreas de voto republicano provavelmente vão estar sob pressão contínua da
população local que se opõe à expansão da mineração de Bitcoin.
Se isso
acontecer, será que os sonhos de Trump em relação às criptomoedas podem ser
frustrados em seus próprios redutos?
·
A meia-volta de Trump
Há
menos de quatro anos, Trump disse que o Bitcoin "parece ser uma
fraude". No entanto, essas reservas desapareceram: desde então, a família Trump abriu a empresa de
criptomoedas World Liberty Financial, e Trump lançou sua própria criptomoeda,
$TRUMP —
220 dos seus principais compradores foram convidados para um jantar de gala
privado com o presidente na quinta-feira (22/5).
Os
filhos de Trump, Eric e Donald Jr., estão por trás de um empreendimento de
mineração de criptomoedas chamado American Bitcoin, que planeja negociar na
Nasdaq e tem como objetivo construir uma das maiores e mais eficientes
plataformas de mineração de Bitcoin do mundo, enraizada em solo americano.
A
mineração de Bitcoin cresceu muito nos EUA, em parte devido a uma repressão na
China em 2021, em decorrência de preocupações com seus danos ambientais.
Alexander Neumueller, especialista do Centro de Finanças Alternativas da
Universidade de Cambridge, no Reino Unido, diz que, embora seja difícil
rastrear todas as minas, está claro que os EUA são agora o principal produtor
de Bitcoin, minerando cerca de 40% do suprimento mundial.
·
De debates comunitários a batalhas legais estaduais
Dresden
fica na região dos Lagos Finger em Nova York — uma área rural cortada por lagos
glaciais profundos, que atrai turistas com suas vinícolas, cervejarias e
atividades ao ar livre. No condado de Yates, onde fica Dresden e a usina
Greenidge, cerca de 60% dos eleitores votaram em Trump em novembro passado.
De
acordo com os proprietários da mina, a Greenidge Generation, estão sendo
produzidos de 40 a 120 Bitcoins por mês na usina, além de alguma energia que
retorna à rede.
A
empresa — que recusou os pedidos de entrevista — argumentou que converteu uma
operação de queima de carvão em uma instalação de energia a gás relativamente
mais limpa que está em conformidade com as leis ambientais estaduais.
Mas, em
meio à preocupação pública, o Estado de Nova York e a Greenidge estão
atualmente envolvidos em uma longa batalha legal sobre o futuro da usina. Com
algumas das leis ambientais mais rigorosas do país, as autoridades de Nova York
estão questionando se a usina a gás é permitida sob os regulamentos que
permitiram a antiga usina a carvão. A geração de energia — e a mineração de
Bitcoin — foi autorizada a continuar durante o processo de recurso.
Abi
Buddington, proprietária de uma casa em Dresden que tem estado à frente da luta
contra a mina de criptomoedas, afirma que isso se tornou um grande problema
local.
"O
clima mudou, tanto ambientalmente quanto em nossa pequena e pacata
comunidade", diz ela, lembrando-se das vozes exaltadas em reuniões
polêmicas na prefeitura.
Buddington
está tentando mudar a mentalidade em Dresden e, por meio de sua rede, em outros
lugares do país.
"Há
alguns que se preocupam com o meio ambiente, e que podem ser de tendência
republicana", diz ela. "O que descobrimos a nível nacional é que,
mesmo nos Estados vermelhos, quando as autoridades eleitas são instruídas
adequadamente e conhecem os danos, elas se opõem bastante."
Mas nem
todos estão convencidos. "Eles têm sido um bom vizinho corporativo",
diz o prefeito recentemente eleito de Dresden, Brian Flynn, sobre a mina.
"Sou a favor dos negócios, seja Greenidge ou a agricultura local... Acho
que é importante ter um mix de indústria e recreação."
·
Impactos da criptomoeda no mundo real
Batalhas
jurídicas como a do Lago Seneca estão trazendo à tona as realidades de um setor
que, à primeira vista, pode parecer restrito a bancos de servidores de dados,
distante do mundo real.
Os
"mineradores" de Bitcoin — que, na verdade, não estão extraindo nada
da terra — verificam as transações resolvendo problemas criptográficos
extremamente difíceis que exigem computadores potentes. Em troca, eles são
recompensados com Bitcoin.
Como o
preço do Bitcoin disparou até seu valor atual de cerca de US$ 100 mil,
quantidades cada vez maiores de poder de computação foram necessárias para
ganhar recompensas de criptomoedas, excluindo mineradores menores em favor de
grandes coletivos e empresas.
Além do
zumbido, o uso de energia da mineração tem impactos ambientais. Um estudo de
Harvard, revisado por pares, publicado em março pela revista acadêmica Nature
Communications mostrou que a mineração de Bitcoin expõe milhões de americanos à
poluição atmosférica a cada ano — e que 34 minas de Bitcoin consomem um terço a
mais de eletricidade do que a cidade de Los Angeles. (Houve alguma resistência
do setor de criptomoedas ao estudo, que foi chamado de "Ônus ambiental
do boom da mineração de Bitcoin nos EUA", em tradução
livre).
De acordo
com o Índice de Consumo de Eletricidade do Bitcoin de Cambridge, a mineração
utiliza globalmente cerca de 0,7% do consumo global de eletricidade.
Isso
tem um efeito em cascata nos preços da energia local, que também está
provocando uma reação negativa em algumas áreas.
Em
2017, os mineradores de Bitcoin inundaram Plattsburgh, em Nova York — uma
cidade de cerca de 20 mil habitantes, a algumas horas ao norte de Dresden —
devido às taxas de energia hidrelétrica baratas. "Estávamos recebendo
solicitações para Bitcoin de operadores do mundo todo", diz Colin Read,
que era prefeito da cidade na época.
No
entanto, eles usaram tanta energia que as taxas de eletricidade aumentaram.
Dentro de um ano, alguns moradores estavam pagando até 40% a mais durante os
meses de inverno, acrescenta Read.
No ano
seguinte, ele e outros parlamentares locais aprovaram regras para restringir a
atividade.
"Felizmente,
acabamos com isso", diz ele, observando que todas as operações de
mineração de Bitcoin, exceto uma, deixaram a cidade.
·
Oposição no coração do 'Maga'
A
resistência às minas de Bitcoin se estende a lugares com o maior apoio de
Trump.
Cyndie
Roberson estava aposentada e desconhecia a indústria de criptomoedas até que
uma operação de mineração de Bitcoin se mudou para sua pequena cidade na
Carolina do Norte em 2021. Os moradores locais se uniram e conseguiram proibir
novos empreendimentos de Bitcoin na área — mas a operação existente foi
autorizada a permanecer, e o ressentimento em relação à batalha a fez se mudar
para o sul, para o condado de Gilmer, na Geórgia.
Lá,
Roberson fez campanha contra a mineração de criptomoedas em uma região
fortemente pró-republicana. No condado em que mora, ela diz que cerca de 1.000
pessoas compareceram a uma reunião pública para se opor a uma mina, que acabou
não sendo autorizada a operar.
Ao
norte de Gilmer, a Comissão do Condado de Fannin decretou a proibição da
mineração de criptomoedas, enquanto uma comissão da Geórgia que representa 18
condados, principalmente rurais, publicou recomendações sobre como restringir o
desenvolvimento de minas de Bitcoin.
"Quando
você está no meu quintal, quando você está na minha cidade, tentando destruir
nossa propriedade e nossa paz, as pessoas vão te dizer: 'Absolutamente
não'", diz Roberson.
Embora
80% da população local tenha apoiado Trump em novembro passado, este apoio não
parece impedir que as pessoas se oponham a uma de suas principais metas em
relação às criptomoedas.
·
'Você pode construir sua própria usina de energia'
O
governo Trump não planeja acabar com todas as regulamentações em torno da
mineração de criptomoedas — mas está pronto para ajudar as empresas a abrir
usinas de energia próximas às minas.
Em
entrevista à Bitcoin Magazine em abril, o secretário de Comércio, Howard
Lutnick, afirmou: "Vamos fazer com que, se você quiser minerar Bitcoin, e
encontrar o lugar certo para fazer isso, você possa construir sua própria usina
de energia ao lado", argumentando que tais projetos acabariam com
"essas histórias de 'você está consumindo muita energia, e agora o custo
de operação da minha geladeira está mais alto'".
"A
próxima geração de mineradores nos EUA vai ser capaz de controlar seu destino,
controlar o custo da energia, e acho que isso vai turbinar a mineração de
Bitcoin nos EUA, afirmou Lutnick à revista.
De
acordo com Zack Shapiro, chefe de políticas do Bitcoin Policy Institute,
um think tank americano que pesquisa redes monetárias
emergentes, este processo já começou. "Há Estados que estão aprovando leis
que proíbem especificamente os municípios de proibir minas de Bitcoin",
diz ele. "É um mecanismo pelo qual as empresas de mineração podem
reagir."
E a
natureza da mineração de Bitcoin significa que, se encontrar resistência, pode
migrar rapidamente para um local mais favorável.
Quando
Colin Read enfrentou as minas em Plattsburgh, ele viu a facilidade com que elas
podiam mudar de local.
"Este
setor é muito flexível", ele observa. "Quando dissemos a essas
empresas que elas não poderiam ter mais energia sem enfrentar obstáculos, elas
fizeram as malas e foram para uma comunidade onde não havia requisitos tão
rigorosos."
·
Minas offshore no futuro?
A
oposição local não é o único desafio de Trump. Será que o mar, por exemplo,
poderia ser um local melhor para a mineração de Bitcoin?
Shapiro
acredita que, com os mineradores buscando o menor custo, eles poderiam recorrer
à energia renovável que sobra que
não pode ser usada para outras aplicações. "A energia eólica no oceano não
pode ser usada para abastecer uma cidade, mas você pode montar uma
plataforma offshore que capte a energia eólica e das marés, e
usar para minerar Bitcoin —, como não há outro comprador para usar essa
energia, é provavelmente para lá que as operações de mineração de Bitcoin vão
acabar sendo transferidas."
Também
pode ser que, na corrida das criptomoedas, o Bitcoin não seja a melhor aposta.
Read — que é economista da área de energia — é cético quanto à perseverança do
Bitcoin, que consome muita energia, porque acredita que outras alternativas
mais eficientes vão surgir.
Com a
Casa Branca incentivando o setor, as batalhas sobre a mineração de Bitcoin
serão inevitavelmente travadas em fóruns menores, em governos estaduais e
locais e em lugares minúsculos como Dresden.
Mas uma
constante na curta história do Bitcoin tem sido a volatilidade. Talvez
estejamos em tempos de prosperidade — mas uma queda no preço, mudanças nas
fontes de energia e alterações nas necessidades das criptomoedas podem
reformular fundamentalmente o cenário da mineração de Bitcoin, não importa o
quanto Trump queira mantê-la nos EUA.
Fonte:
BBC News

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