Misoginia
na internet vira negócio lucrativo
Quando
criou o blog Escreva Lola Escreva, em 2008, a professora da Universidade
Federal do Ceará (UFC) e blogueira feminista, Lola Aronovich, não imaginava que
dar visibilidade a casos de machismo e misoginia a colocaria no centro de uma
campanha sistemática de ódio online. Muito menos que, anos depois, esse mesmo
discurso violento se tornaria altamente lucrativo.
"Desde
a primeira semana de blog tinha comentários misóginos, mas não necessariamente
ameaças", relata Lola, que criou seu blog para ter liberdade editorial
para falar sobre feminismo, cinema, literatura, política, entre outros temas.
"Em 2010, chegou até mim um link para sites masculinistas e comunidades no
Orkut. Comecei a entrar para ver o que eles estavam falando e vi que eles já
falavam sobre mim enquanto eu nem sabia da existência deles."
Com o
avanço da internet, esses grupos masculinistasampliaram seu discurso de ódio
contra as mulheres, se diversificaram e conquistaram legiões de seguidores.
Hoje, conseguem monetizar vídeos e transformam a misoginia em um negócio
rentável, movimentando milhares de reais com conteúdos que pregam o controle
sobre mulheres, deslegitimam o feminismo e reforçam estereótipos de gênero.
No
Brasil, há atualmente 137 canais no YouTubecom conteúdo explicitamente
misógino, somando mais de 105 mil vídeos e cerca de 152 mil inscritos, segundo
uma pesquisa realizada pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) para o Ministério das Mulheres, divulgada em dezembro do ano passado.
A
pesquisa mapeou a chamada "machosfera" e descobriu que cerca de 80%
desses canais adotam pelo menos uma estratégia de monetização, que incluem
anúncios, doações em transmissões ao vivo, assinaturas e venda de serviços e
produtos.
"Essa
machosfera se divide em subculturas com diferentes níveis de misoginia, como os
red pills, incelse até nomes menos conhecidos, como os ‘pick-up artists', que
ensinam técnicas de manipulação para conquistar mulheres e reforçam
estereótipos de gênero", diz Débora Salles, coordenadora do NetLab da
UFRJ. "Observamos que o ódio contra as mulheres se transformou num negócio
rentável, não só para esses canais, mas principalmente para as plataformas,
nesse caso, para o YouTube."
• O mercado da misoginia
Entre
as principais estratégias para transformar vídeos em fonte de renda, a mais
comum entre os canais analisados pela pesquisa é a exibição de anúncios no
YouTube: 52% deles exibem ao menos um vídeo com publicidade.
Em
seguida, destaca-se o Programa de Membros da plataforma – ferramenta que
permite ao público pagar uma assinatura mensal em troca de conteúdos exclusivos
–, adotado por 28% dos canais misóginos. Essas assinaturas podem custar de
R$12,50 a R$ 149 por mês, segundo a pesquisa.
No
entanto, uma das formas mais lucrativas de monetização são os Super chats –
doações feitas por espectadores durante transmissões ao vivo. Em 257 lives de
oito canais, o estudo identificou uma arrecadação total superior a R$ 68 mil,
com uma média de R$ 267 por transmissão.
Além
das ferramentas da plataforma, 28% dos canais analisados também vendem cursos,
produtos e serviços ou recebem doações por Pix. Em alguns casos,
influenciadores chegam a cobrar R$ 1 mil por consultas individuais que abordam
desde "treinamento emocional" até conteúdos que naturalizam violência
psicológica e humilhação. No caso da venda de e-books anunciados, os preços
ofertados variam entre R$ 17,90 e R$ 397.
"Atualmente,
as redes sociais são baseadas em uma economia da atenção que premia conteúdos
sensacionalistas e divisivos", diz Mariana Valente, professora da
Universidade de St.Gallen e diretora do InternetLab, centro independente de
pesquisa focado em internet e direitos humanos. "Isso faz com que a
plataforma não tenha interesse em controlar e eliminar esses
conteúdos."
• Políticas de proteção falhas
O
YouTube proíbe, segundo suas diretrizes de uso, conteúdos que promovam
violência ou discurso de ódio com base em sexo, gênero ou orientação sexual. As
regras se aplicam a vídeos, transmissões ao vivo, comentários e até a links
externos. A empresa afirma que, ao identificar esse tipo de conteúdo –
inclusive por meio de denúncias –, ele é removido.
Na
prática, porém, a eficácia dessas políticas tem se mostrado limitada. A
pesquisa realizada pelo NetLab da UFRJ aponta que os produtores de conteúdo da
machosfera empregam diversas estratégias para fugir da moderação do YouTube,
como uma linguagem própria para mascarar o caráter misógino das mensagens e
disfarce de seus vídeos como conteúdo de "desenvolvimento pessoal".
"Percebemos
que as plataformas e, mais especificamente, o YouTube, não tão conseguindo dar
conta desse problema", afirma Salles. "Quem tem o poder de tirar esse
conteúdo do ar é a plataforma, mas ela faz isso sem cumprir regras transparentes
sobre quem pode ficar e por que fica, ou quem sai e por que sai."
A
blogueira feminista Lola viveu essa ambiguidade em 2018, quando tentou criar um
canal no YouTube e descobriu que estava banida — apesar de nunca ter publicado
vídeos nem infringido regras nos poucos comentários que havia feito na
plataforma.
"Suspeito
que meu nome tenha sido usado por grupos masculinistas para comentários de ódio
até que eu estivesse banida", conta Lola. "Criei outro canal com um
novo e-mail, que também foi removido no ano passado após denúncias dos
masculinistas. Hoje, não posso ter nenhum tipo de remuneração lá."
"É
revoltante porque eu não conheço quase nenhuma feminista que ganha dinheiro no
YouTube, mas antifeminista é o que mais tem e eles ganham muito dinheiro com
isso", completa a blogueira.
Procurada
pela reportagem, a assessoria do YouTube não respondeu até a publicação deste
texto.
• Um problema que vai além do digital
Segundo
especialistas, a cultura da machosfera ajudou a criar um ambiente tóxico para
as mulheres nas redes sociais, especialmente aquelas com algum tipo de atuação
pública – como políticas, jornalistas e influenciadoras digitais– são
constantemente hostilizadas e tem as diretamente vidas afetadas.
"Determinados
discursos são silenciadores de mulheres e atacam diretamente sua liberdade de
expressão", afirma Valente.
A
criadora de conteúdo Ana Schreder relata que, desde que viralizou no TikTok ao
rebater comentários da comunidade Red Pill, passou a ser alvo constante de
ataques. Apesar de ter mudado o foco dos seus vídeos para temas como
autoconhecimento e bem-estar, a violência persistiu.
"Eles
se incomodam absurdamente com o meu jeito de ser. Só o fato de eu estar na
internet, sendo mulher, falando da minha vida, da minha autoestima, sem tentar
agradar a homens, já é motivo para ataques", afirma Schreder. "Pegam
vídeos meus do TikTok, publicam no X (antigo Twitter), fazem reações no
YouTube, e os comentários são nojentos."
Além de
conteúdo com misoginia disfarçada, a pesquisa também encontrou vídeos que
encorajam, relativizam ou justificam abusos e violências contra mulheres,
utilizando argumentos que culpabilizam as vítimas ou normalizam comportamentos
violentos.
"Meninos
muito jovens têm acesso a esses conteúdos e vão naturalizando piadas que vão
desde ‘lugar de mulher é na cozinha' até um comentário de ‘se sua namorada te
desagrada, você dá um tapão na cara dela'", ressalta a diretora do
InternetLab. "Isso vai se sensibilizando para múltiplas formas de
violência no mundo real."
Segundo
a pesquisa do NetLab da UFRJ, o número de vídeos da machosfera no YouTube
aumentou significativamente desde 2022, com 88% publicados nos últimos três
anos.
No
mesmo período, os dados de violência contra mulheres também aumentaram. Entre
2021 e 2023, o número de feminicídios subiu de 1.347 para 1.463, segundo o
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Casos de violência doméstica e familiar
também cresceram quase 10% entre 2022 e 2023.
Embora
a pesquisa não estabeleça uma relação direta entre o crescimento desses
discursos e o aumento da violência, a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves,
afirmou à DW que o ódio contra as mulheres disseminado nas redes tem
repercussões em todo o país, afetando diferentes idades e classes sociais.
"Esse
tipo de discurso termina por autorizar a violência que tem crescido contra
meninas, adolescentes e mulheres idosas no Brasil", afirma Gonçalves.
"Estamos vivendo um momento muito complicado, e para o governo federal,
uma regulação mínima das plataformas é estratégica. Para o Ministério das
Mulheres, essa regulação é fundamental para que as mulheres não vivam nessa
situação constante de violência."
• Desafio da regulação
Ao
longo dos anos, à medida que o blog de Lola Aronovich se consolidava como uma
das principais referências do movimento feminista no Brasil, os ataques
misóginos e a perseguição por parte de grupos masculinistas também se
intensificavam. As agressões incluíam ameaças diretas e até a criação de sites
com o objetivo de difamar sua imagem.
Lola
conta que, até hoje com frequência, recebe ameaças diretas "Todo final de
ano eles me ligam para dizer que vai ser meu último Natal e Ano Novo viva.
Muita gente me pergunta como lido com isso e infelizmente, a gente se acostuma.
É horrível dizer isso, porque não deveríamos ter que nos acostumar, mas é
verdade."
O
ativismo de Lola e suas denúncias ao longo dos anos culminaram em 2018 na
aprovação da chamada Lei Lola pelo Congresso Nacional – a primeira legislação
brasileira a incluir o termo misoginia e que atribui à Polícia Federal a
responsabilidade de investigar a disseminação de conteúdos de ódio contra
mulheres na internet.
No
entanto, cerca de sete anos após sua criação, a blogueira afirma que a lei
ainda não foi devidamente implementada. "Desde que a lei foi criada,
tentamos marcar uma reunião com a direção da Polícia Federal para discutir
questões básicas, como a criação de um canal específico de denúncias e os
critérios de aplicação da lei, mas até hoje não conseguimos avançar."
Especialistas
destacam que a falta de regulamentação eficaz da internet, somada à não
aplicação das leis existentes, permite que conteúdos misóginos sigam circulando
e gerando lucro. Sem regulação, plataformas não são obrigadas a removê-los – o
que acaba dependendo apenas do quanto cada empresa está disposta a agir.
Segundo
Mariana Valente, o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, foi um passo
importante ao estabelecer diretrizes para responsabilizar provedores em casos
específicos, como a divulgação não consensual de imagens íntimas. No entanto,
ela ressalta que a legislação ainda é insuficiente para enfrentar o conjunto de
violências digitais com base em gênero. Para ela, discutir regulação não é
sinônimo de censura, mas sim de estabelecer limites para discursos que
ultrapassam a liberdade de expressão e incitam o ódio e a violência.
Mas,
segundo especialistas, a regulação não pode ser vista como solução única. É
preciso um conjunto de políticas públicas que envolvam diferentes áreas, como
educação, saúde, segurança e justiça, para enfrentar o problema de forma
estruturada. "Isso tem que ser colocado como uma realidade que precisamos
transformar e adotado como um objetivo por muitos atores sociais", afirma
Valente. "A regulação da internet não vai acabar com a misoginia, mas tem
um papel muito importante para proibir o que está acontecendo nas plataformas
digitais."
Fonte:
DW Brasil

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