Marco
Buti: ‘Questões de gênero’
Faz
parte da formação convencional em Artes Visuais o estudoda hierarquia dos
gêneros pictóricos no Ocidente. Acima de todos, a pintura histórica, a partir
de narrativas religiosas, mitológicas e históricas jamais presenciadas por quem
as realiza visualmente. Depois, a pintura de gênero ou pequeno gênero, cenas da
vida cotidiana.
Em
seguida, o retrato. O predomínio é da figura humana, divina, extraordinária,
exemplar ou comum. Em seguida a paisagem, e por último a natureza morta,
gêneros “burros”, mais puramente visuais, que seriam menos providos dos
conceitos intelectuais tão valorizados por homens brancos com acesso à educação
de alto nível, desejosos de perpetuar sua posição, sua imagem e seus feitos,
mas nem sempre capazes ou dispostos a ver inteligência e arte no próprio fazer,
e não apenas no assunto nobre e edificante.
Faz
parte da formação convencional em Artes Visuais o estudo de GiorgioVasari,
fundador da primeira Academia de Belas Artes, e formulador do conceito das três
artes maiores: pintura, escultura e arquitetura, fundamentadas no desenho. O
teórico e artista também elaborou a divisão das atividades subordinadas à
pintura e à escultura.
Pintura:
miniatura, vitral, marchetaria, graffiti nas casas, niello, estampas em cobre,
esmaltes, damasquinado, pintura de vasos, tapeçaria. Escultura: baixo relevo,
argila, cera, estuque, madeira, marfim, fundição, cinzelado, encavo e relevo em
pedras preciosas e aço.
Não
será difícil notar, em nosso próprio conhecimento, a ignorância parcial ou
total de grandes extensões das linguagens artísticas possíveis e realizadas,
mencionadas por Vasari. Grande parte da história da arte ocidental é omitida
pela visão bifocal – principalmente pintura e escultura, ligadas a nomes
próprios e autoria única – deixando fora de foco, secundária, marginal, uma
produção que contém obras não menos brilhantes, reveláveis pelo estudo menos
dependente.
Não
será difícil notar que as artes maiores eram as mais aptas a impressionar pelas
cores e dimensões, e, no caso de escultura e arquitetura, também pela presença
no espaço público pré-imprensa. Mais aptas, portanto, à espetacularização e
propaganda dos poderes.
Não
será difícil notar que o padrão se mantém na atualidade, embora oficializando a
oposição. Mas o desenvolvimento contínuo da multiplicação de imagem e texto
superaria a todas de longe, como podemos constatar hoje sem muito esforço.
No
entanto, muitas são simultaneamente grandes obras de arte, únicas ou
multiplicadas. É insuficiente fixar apenas na capacidade de propaganda,
reivindicação, denúncia, confissão, sem vislumbrar as dimensões múltiplas, além
do comunicável, que a arte poderia alcançar.
A
segunda edição de Le vite de’ più eccellenti pittori, scultori e architettori
(1568), foi ampliada, incluindo nomes mais recentes, e retratos xilográficos de
cada artista, além do frontispício, impresso em tipografia e xilogravura. Ambas
estavam já bem desenvolvidas no século XVI. A reprodutibilidade de imagens e
textos – índice evidente de modernidade – estava disponível e atuante.
Quatro
artistas mulheres são registradas: Properzia de’ Rossi (escultora e entalhadora
de pedras preciosas), Plautilla Nelli, Lucrezia Quistelli, Sofonisba
Anguissola(pintoras). E um gravador: Marcantonio Raimondi, em cuja vida se
concentram todos os comentários sobre a gráfica, que Vasari demonstra conhecer
bem.
O
próprio Vasari desenhou os retratos dos artistas, muitos já falecidos. A
gravação das matrizes de madeira foi realizada por “Maestro Christofano”, autor
incerto, pouco mais que anônimo. Já está delineada a posição do gravador na
Academia: desprovido da inspiração divina através do disegno, segundo as
teorias em vigor, é hierarquicamente inferior aos praticantes das artes
maiores.
Numa
época em que a gravura de estampa era a única possibilidade de multiplicar
imagens, o gravador era visto principalmente nesse papel julgado pouco
brilhante, apesar do reconhecimento de Dürer como grande artista, por suas
gravuras independentes, nas próprias Vite de Vasari.
A
exclusão do gravador é bem estudada, mas pouco conhecida, ao limitar o estudo
das artes visuais pelos padrões convencionais. Concebido principalmente como
copista da imagem de outro, inicialmente excluído da Academia de Belas Artes,
foi finalmente admitido em posição inferior, sem ter direito à mesma formação,
sem concorrer aos prêmios de maior prestígio, sem poder ministrar aulas de
desenho, do qual estaria desprovido, dependente da imagem de terceiros.
Conforme
a opção – afetiva, interessada, descuidada, inevitável – por uma ou outra
modalidade, se operava a exclusão nos gêneros de menor prestígio, fama e
remuneração, ainda mais se a escolha aproximasse do artesanato, atividade
manual pouco digna para as Belas Artes. Mesmo com o as dificuldades de formação
e o provável esquecimento futuro, era mais possível o reconhecimento para uma
pintora do que para um gravador, ourives, esmaltador, tapeceiro. O mínimo
número de gravadoras conhecidas, leva a suspeitar que dentro do mesmo gênero
artístico secundário, a exclusão também atingia mais as mulheres, apesar da
falta de estudos, também significativa.
Durante
alguns séculos, no Ocidente, a Academia de Belas Artes, sem deixar de acolher
grandes artistas, tornou clara e institucionalizada a manutenção de formas e
privilégios através do ensino, concursos e premiações, gerando as melhores
encomendas – e fama pessoal. No entanto, trata-se muito mais de manter atitudes
e hierarquias, e menos uma forma imutável. Esta pode ser camaleônica, atendendo
aos interesses concretos do momento, apesar da aparente estabilidade secular,
exportada para as colônias.
Longe
da imagem conservadora, alvo evidente, contra a qual artistas obrigatoriamente
se insurgem, a Academia se atualiza constantemente. Consciente de sua perda de
prestígio e poder como organização explícita, vai acompanhando as novas
estratégias empresariais. Numa época de pós-verdade, nega sua própria
existência.
Mas
sabe que o melhor meio de manter sua situação de poder é através do ensino,
direcionando o aprendizado para as manifestações convenientes, excluindo as
demais. Flexivelmente, a formação artística é terceirizada: como em clínicas,
acompanhamentos e residências, oferecidos por galerias e organizações culturais
independentes, onde predomina a ortodoxia contemporânea.
Em
residências, prevendo a realização de um trabalho artístico, o próprio ateliê
oferecido pode determinar as possibilidades. Na seleção, a tendência é para
jovens desejosos de se adequar aos parâmetros já delineados, buscando a
inserção no circuito. Enquadramento nas artes maiores do agora, nome próprio em
destaque, discursos, trejeitos e trajes adequados, coletivos como suposta
exceção nova e contestadora.
Em
porcentagem pouco pesquisável, mas elevada, circulam tanto artistas visando
expor e vender arte, quanto crítica, teoria, história e curadoria tentando
vender serviços para o bom funcionamento do sistema. Tudo alimentado,
parcialmente, de forma subalterna, pela arte feita por qualquer um, sem se
separar da vida.
Mas
prestígio muito maior se encontra nos cursos de Artes Universitários,
beneficiando-se do prestígio da ciência. Principalmente nas Universidades
Públicas, a finalidade só pode ser a formação independente, crítica e
emancipada de jovens artistas. Mas o ideal seria ter ali um corpo docente
totalmente alinhado às tendencias dominantes no circuito artístico, do ponto de
vista da academia anônima.
Se a
mentalidade tecno/burocrática predominante nessas instituições tende a
facilitar o ingresso de professores com reconhecimento oficial supostamente
mensurável, não consegue, no entanto, impedir de todo as presenças
indesejáveis, gerando alguma diversidade, ainda que desorganizada.
A
história da arte convencional se estrutura preponderantemente a partir das
formas artísticas de maior prestígio, comissionada por quem exerce algum poder
e possui a educação necessária para apreciá-la literária e conceitualmente,
padrão ainda inescapável do conhecimento que se pretende alto.
Continua
assim uma inacessibilidade ainda maior que o preço sem sentido da distante obra
única, e do ainda alto preço do ingresso, em sociedades desiguais: boa parte
dos conceitos manejados habilmente por curadorias e artistas– por vezes
chegando ao malabarismo – não estão ao alcance da educação mediana, onde a arte
tende a ser pouco valorizada e mal abordada.
Torna-se
necessária a mediação para um funcionamento razoável do sistema, como se
houvesse sentido num contato com a arte que não se inflama na atração direta
obra/espectador. Em lugar de emancipar pelo conhecimento autônomo, ao longo do
tempo de estudo, gera-se o espanto ingênuo com a novidade oculta, no curto
tempo da exposição, satisfazendo os números apreciados pelos patrocinadores.
A
contestação convencional da história da arte segue o mesmo padrão, tendo como
alvo preferencial as artes maiores – porém instaurando continuamente outras –
ignorando as contestações radicais praticadas ao longo dos séculos, não por
artistas singulares, mas por gêneros artísticos excluídos ou marginalizados
pelo pensamento e interesses dominantes.
Como
tornar a arte múltipla, circulante e presente a todo momento, ameaçando a
exclusividade. As reavaliações a posteriori também costumam seguir as velhas
hierarquias, devolvendo o reconhecimento a ex-excluídos, mas praticantes da
pintura, escultura e artes maiores do momento.
Deveria
ao menos levantar suspeitas, quando grandes organizações pouco respeitosas da
vida humana em sua atividade primordial, passam a apoiar a inclusão no
secundário patrocínio às artes. Ainda o velho vernissage com que o poder
disfarça sua brutalidade. Será uma maneira de simular a igualdade no restrito
mundo artístico, de forma apenas simbólica, enquanto se continua a manter
imutável a velha estrutura social brasileira?
A maior
antropofagia é a capitalista, quantificada, pragmática, eficiente, sem se
importar com consequências, sem ritual nem poética. Não será problema algum
igualar democraticamente a todos como consumidor e trabalhador precarizado.
Uma
atividade que valoriza em excesso a fama individual, automaticamente cria a
exclusão. Não só de artistas, mas de teóricos, galerias, museus, cidades,
públicos, culturas, até reduzir tudo a uma seleta corte global, de difícil
acesso, que se comporta como se fosse o mundo. As noções de arte e artista são
múltiplas e mutantes, mas a arte oficial age para não alterar as reais relações
de poder, apenas trocando as peças por outras, com os mesmos jogadores.
Mantendo
o circuito fechado das cortes, e de academias, galerias, museus, inaugurações,
jantares e leilões como lugar privilegiado da arte, com as contestações
controláveis, já previstas num meio que primaria – em concordância quase
absoluta – pela inclusão e multiplicidade.
“É
preciso que as coisas mudem para continuar as mesmas.” A já antiga frase do
personagem de Lampedusa parece destinada a não perder a atualidade.
Mas são
questões do passado: agora, finalmente, a arte se abre para todes – que
aceitarem as balizas de pensamento artístico, e puderem se amoldar aos
critérios, falta de critérios, delírios e interesses da gestão artística
contemporânea.
Fonte:
A Terra é Redonda

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