terça-feira, 27 de maio de 2025

“A população brasileira se acostumou com juros absurdos”, diz Bresser-Pereira

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o economista e ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira afirmou que a taxa básica de juros no Brasil permanece em patamar excessivamente elevado por razões estruturais, históricas e culturais. Segundo ele, há um “hábito” nacional de aceitar níveis elevados de juros reais, o que dificulta qualquer política de redução sustentada da taxa, mesmo diante da pressão por crescimento e investimentos públicos.

“Os brasileiros estão acostumados a que a taxa de juros básica, abaixo da qual você não reduz em termos reais, seja 5%. Um pouco mais até, mas vamos dizer 5%”, explicou. Bresser-Pereira reconheceu que os juros são “absurdos”, mas argumentou que esse patamar elevado se tornou uma base habitual desde o regime militar, quando a caderneta de poupança passou a render 6% ao ano em termos reais.

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Para o economista, o núcleo do problema está na existência de uma “base de juros reais” muito superior à dos países desenvolvidos. “Nos Estados Unidos ou na Europa, a taxa de juros real está em torno de 1% ou 1,5%. Aqui, estamos falando de 7% a 8% reais. É sete vezes mais alta”, comparou. Ele ressaltou que mesmo uma base de 2% ou 2,5% já seria aceitável, dadas as especificidades brasileiras, “mas não oito”.

Bresser-Pereira observou que, diante desse patamar estrutural, o Banco Central, sob o comando de Gabriel Galípolo, não dispõe de instrumentos suficientes para reduzir os juros com rapidez. “O que o Banco Central tem que fazer é tentar levar a inflação em direção à meta. E a única coisa que ele pode fazer é manter esse juro desse jeito. Não tem outra coisa para fazer”, disse.

Ele também reconheceu a contradição entre os dados recentes de crescimento da economia e a política monetária restritiva. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) indicou alta acima do previsto no primeiro trimestre. Mesmo assim, Bresser-Pereira sustenta que isso não elimina a necessidade de manter a taxa elevada. “Nós estamos com esses juros altos e, no entanto, as empresas continuam investindo. Parece que esses juros também já estão incorporados nas empresas”, avaliou. “No fundo, quem paga essa carga absurda de juros é a população, não são os capitalistas.”

O ex-ministro enfatizou que os juros elevados drenam recursos fundamentais para outras áreas do orçamento público. “O juro representa 10% do PIB hoje. E se representa 10% do PIB, ele representa 30% do orçamento brasileiro. Quanto é que nós gastamos em saúde ou em educação? Muito menos”, afirmou.

Bresser-Pereira lamentou ainda a falta de mobilização popular para pressionar por juros mais baixos. “Para que o presidente Lula conseguisse forçar o Galípolo a baixar os juros, ele teria que estar atrás dele a população gritando por isso. Mas a população não grita por isso, grita se a inflação fica alta.”

Por fim, o economista refutou a ideia de que o governo Lula seja “neoliberal” por manter juros elevados. “Esse governo não é neoliberal, definitivamente. É que quando você define neoliberal pela taxa de juros, então todo mundo fica neoliberal assim. Não é por aí”, ponderou. Para ele, o desafio maior está na ausência de um projeto nacional coeso e consensual. “Estamos muito dispersos, desorganizados como sociedade, como nação. Nação é uma sociedade que tem um objetivo. E então fica muito difícil ter um projeto nacional.” 

¨      Guido Mantega: “A taxa de juros alta virou um instrumento para valorizar o real”

Durante entrevista ao programa Boa Noite 247, o economista e ex-ministro da Fazenda Guido Mantega abordou, com profundidade, a atual estratégia do Banco Central para enfrentar a inflação e o papel que as elevadas taxas de juros vêm desempenhando nesse contexto. A análise de Mantega se concentrou nas ações do diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo, e suas recentes declarações sobre a manutenção da Selic em patamar elevado.

Segundo Mantega, a lógica de manter os juros altos tem menos a ver com o tradicional combate à inflação via retração do consumo e mais com o esforço para valorizar o real. “Eu acho que é uma estratégia que ele [Galípolo] tem de criar as condições para que o real se valorize. Porque mantendo as taxas de juros altas, ele está atraindo mais capital externo para o Brasil e assim desvaloriza o dólar e valoriza o real”, explicou. Para ele, o efeito cambial é hoje “a melhor arma que nós temos agora para combater a inflação”.

Na visão do ex-ministro, essa estratégia se dá em meio a um cenário de aparente resiliência da economia brasileira, mesmo diante de uma taxa Selic em 13,75%. Mantega citou projeções de crescimento do PIB que oscilam entre 1,3% e 1,6% no primeiro trimestre, expansão do crédito, investimentos da indústria e da agricultura e aumento no mercado de capitais. “A taxa de juros alta não está conseguindo reduzir o nível de atividade”, afirmou. “E isto, para a ortodoxia, significa mais inflação. O que não é necessariamente verdade”.

Ele destacou que parte da inflação recente não se origina da demanda interna, mas de fatores externos. “Essa inflação que nós estamos tendo é mais uma inflação de choque de oferta, de commodities, cujo preço é definido em dólar”, disse. “E o dólar ficou caro pro Brasil”. Mantega atribuiu parte da pressão cambial ao ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ao dizer que ele “armou essa arapuca” ao desvalorizar o real intencionalmente e alimentar expectativas negativas no mercado.

A estratégia atual, segundo Mantega, é manter a economia em crescimento e conter a inflação por meio da valorização do real, para, só então, criar as condições de iniciar uma trajetória de queda dos juros. “Quando isto acontecer, aí ele vai ter o argumento de dizer: ‘Tá vendo? A inflação está caindo’. Mesmo que a economia continue crescendo”.

O ex-ministro enfatizou que o juro real de 10% ao ano é incompatível com a realidade da inflação brasileira atual, que gira em torno de 5%. “É obsceno. O juro é obsceno”, declarou. Ele argumentou que o país não tem fundamentos que justifiquem essa taxa: “Não tem o menor sentido o Brasil ter os maiores juros do mundo. O Brasil tem reservas altas, dívida externa baixa, 90% da dívida interna está em reais”.

Mantega também criticou a meta de inflação fixada em 3%, que considera irreal. “Essa meta é absurda. A meta realista é aquela que nós trabalhávamos nos governos Lula. O Brasil dificilmente consegue uma inflação tão baixa porque a economia é toda indexada”, explicou. Para ele, metas muito apertadas pressionam desnecessariamente a política monetária, gerando juros artificialmente altos.

Por fim, o ex-ministro defendeu que, com o câmbio mais valorizado, a inflação de alimentos — que alcança 8% em 12 meses — tende a ceder. “Essa inflação não baixa com taxa de juros. Você pode botar o juro a 30%, não vai baixar, porque ela se deve às cotações dos alimentos no exterior e ao câmbio”. Ele ainda avaliou que o Banco Central, ao notar uma inflação mais moderada nos próximos meses, terá o argumento necessário para iniciar cortes na taxa básica.

¨      Haddad diz que recuo no IOF foi técnico e reafirma compromisso com ajuste fiscal

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a decisão de recuar em parte da taxação de investimentos no exterior por fundos brasileiros, via IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), foi técnica e imediata, tomada assim que recebeu alertas de impacto negativo. Em entrevista ao Globo, publicada neste domingo (25), Haddad disse que o tema foi debatido na mesa do presidente Lula, mas que sua decisão foi pessoal e baseada em avaliação técnica. A medida inicial gerou forte reação no mercado, interpretada como tentativa de controle de capitais — o que, segundo o ministro, "nunca esteve no horizonte do governo".

“O que aconteceu agora é justificável. Por isso, atendemos prontamente ao pleito depois de uma revisão técnica”, afirmou Haddad. “Assim que eu identifiquei que havia um problema, reuni virtualmente a equipe para redigir o ato de correção”, explicou. Segundo ele, o decreto foi publicado no Diário Oficial antes da abertura do mercado, evitando especulações e distorções.

A decisão anterior, de taxar remessas de recursos ao exterior feitas por fundos de investimento, foi vista com preocupação por setores do mercado e por integrantes do próprio governo. Haddad reconheceu o ruído na comunicação e disse que o tema não contou com a participação da Secretaria de Comunicação Social (Secom), o que, segundo ele, é comum em medidas técnicas como os relatórios bimestrais de receitas e despesas.

Questionado sobre o impacto político da decisão, Haddad afirmou: “Quanto mais você dialoga, é franco e humilde em relação aos temas, mais constrói reputação”. O ministro também rebateu críticas de que a equipe econômica não teria avaliado corretamente os efeitos da medida. “Mostrar determinação para fazer o que é certo e rever aquilo que pode gerar problemas para a economia brasileira são posturas que se espera de uma equipe séria.”

O ministro ressaltou que a discussão sobre o IOF faz parte de um conjunto maior de medidas que já vinham sendo preparadas há mais de um ano. “Fizemos (o decreto) pela oportunidade de fazer um combo, prevendo receita, bloqueio, contingenciamento, mas essas medidas estão sendo analisadas há mais de um ano”, disse.

Haddad também aproveitou a entrevista para reafirmar o compromisso do governo com o ajuste fiscal. “Desde 2015, nós estamos com déficit estrutural. Queremos vencer essa etapa, mas depende muito mais do Congresso”, afirmou. Ele observou que o atual arranjo institucional brasileiro se assemelha a um parlamentarismo de fato: “Hoje nós vivemos um quase parlamentarismo. Quem dá a última palavra sobre tudo isso é o Congresso.”

Ao abordar a relação com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e seu sucessor, Gabriel Galípolo, Haddad destacou a necessidade de harmonia entre as políticas fiscal e monetária. “Galípolo herdou uma situação difícil, mas saberá fazer a transição corretamente para que haja harmonia”, declarou.

Sobre a possível candidatura em 2026, o ministro descartou a ideia e afirmou já ter comunicado ao PT que não pretende concorrer. “O presidente nunca me perguntou sobre isso. Mas manifestei para a direção do PT, com bastante antecedência, que não tinha a intenção de ser candidato.”

Na reta final da entrevista, Haddad comentou sua relação com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, com quem protagonizou embates no início do governo. “Isso já foi verdade. Acredito que no começo do governo nós tínhamos duas linhas um pouco diferentes. Mas isso foi se alinhando.”

Por fim, o ministro reafirmou a solidez da aliança entre Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. “O Alckmin tem sido um grande parceiro do presidente Lula. Uma pessoa honrada, séria, comprometida, leal. O tempo deu razão à decisão do presidente de convidá-lo para a chapa.”

Com essa entrevista, Haddad busca dissipar os ruídos causados pelo episódio do IOF, reafirmando a condução técnica da política econômica e o compromisso com responsabilidade fiscal, em um cenário de crescimento acima das expectativas e esforço contínuo para consolidar o equilíbrio entre gasto público e arrecadação.

¨      “Se a China comprar parte da dívida brasileira, o poder da Faria Lima será menor”, afirma Paulo Nogueira Batista Júnior

Durante a entrevista à TV 247, o economista Paulo Nogueira Batista Júnior também abordou os desdobramentos econômicos da crescente aproximação entre o Brasil e a China. “Se a China passar a comprar títulos da dívida brasileira, o poder da Faria Lima será menor”, declarou, sugerindo que essa cooperação pode reduzir a dependência do Brasil em relação ao sistema financeiro do Ocidente.

Ele defendeu que a relação bilateral seja construída em bases mais igualitárias e que a China está disposta a apoiar a reindustrialização brasileira. “A relação com a China não pode ser colonial. É muito bom que a China esteja disposta a apoiar a reindustrialização. Isso pode abrir espaço para uma rolagem mais saudável da dívida brasileira”, disse. Segundo ele, “na medida em que os chineses sentirem firmeza, a Faria Lima perde poder”.

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O economista afirmou que há mais interesse chinês no Brasil e no BRICS do que havia antes da era Trump. “A China precisa mais do Brasil agora. Eles podem comprar títulos brasileiros. Isso faria o Brasil ficar menos dependente do circuito financeiro do Ocidente.”

Ao comentar a participação do presidente Lula em fóruns multilaterais, Paulo Nogueira elogiou a visita à Rússia no 9 de maio. “Foi muito importante Lula ter ido também à Rússia. Ele fez a coisa certa ao ir a Moscou, para celebrar os 80 anos de vitória sobre o nazismo.” Para ele, os Estados Unidos, hoje, são “uma força destrutiva no mundo” e a China emerge como um “contraponto necessário”.

Por fim, Nogueira destacou a importância da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) como um espaço autônomo de articulação regional. “O fórum Celac é muito importante porque não envolve EUA e Canadá. A interação com a China é essencial porque o país é o maior parceiro comercial de praticamente todos os países da Celac. Ela abre espaço para uma cooperação em novas bases. A China é a maior economia do mundo e oferece alternativas aos países da Celac, enquanto EUA e Europa oferecem muito pouco”, concluiu. 

¨      Lula anuncia novos programas sociais para este mês e diz que em junho focará em "fazer política"

 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou neste sábado (24) que o governo federal lançará ainda neste mês novos programas sociais, entre eles uma linha de crédito para reforma de moradias populares e uma nova versão do Vale Gás.

“Isso [os novos programas] será anunciado este mês, porque mês que vem vou começar a fazer política”, afirmou o presidente durante cerimônia de lançamento do Programa Solo Vivo, em Campo Verde, no Mato Grosso. Segundo Lula, o foco do governo é, neste momento, apresentar soluções concretas para a população mais pobre, antes de se engajar de forma mais intensa na arena política.

O evento contou com a presença majoritária de assentados da reforma agrária e foi realizado em um Estado historicamente adverso ao presidente, marcado pela forte presença do agronegócio. Em sua fala, Lula defendeu o papel dos pequenos agricultores e reforçou a importância de democratizar o acesso à tecnologia no campo. “O que essas máquinas vão provar é que não é verdade que o pequeno agricultor é incompetente e o grande é competente”, declarou. “Quando você permite que a tecnologia chegue aos pequenos produtores, eles terão chance de ter a mesma produtividade dos grandes.”

O presidente também fez um duro pronunciamento contra a proliferação de desinformação no debate público. “Não vamos permitir que a mentira, a canalhice, a fake news ganhem espaço e a verdade seja soterrada”, disse. “Estamos vendo a política ganhar uma dimensão de mentira, de gente que não sabe viver democraticamente.”

O Programa Solo Vivo, lançado no evento, tem como objetivo fornecer equipamentos e tecnologia para que a agricultura familiar e os pequenos produtores aumentem sua eficiência e capacidade de produção. A medida é vista como um contraponto à concentração de recursos e incentivos nas mãos do agronegócio de larga escala.

As falas de Lula indicam uma nova etapa do seu governo, marcada por um reequilíbrio entre a gestão administrativa e a mobilização política. O anúncio de novos programas sociais ainda em maio se insere na estratégia de reforçar a popularidade do governo entre as camadas mais vulneráveis da população, ao mesmo tempo em que prepara o terreno para um enfrentamento mais direto com a oposição e a extrema direita nas redes e no Congresso.

A partir de junho, segundo o próprio presidente, o Planalto deve voltar suas atenções com mais intensidade à articulação política nacional, num momento em que disputas sobre orçamento, pautas conservadoras e regulamentações importantes ganham centralidade na agenda do Legislativo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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