Estamos
à beira de um conflito global?
As
tensões crescentes entre as grandes potências globais e o avanço da corrida
armamentista nuclear acendem um alerta para a possibilidade de uma nova guerra
de proporção mundial. Em 2024, as despesas militares em todo o mundo atingiram
2,7 trilhões de dólares, segundo dados do Instituto
Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Esse é
o maior aumento anual registrado desde o fim da Guerra Fria, em um contexto em
que a discussão sobre o uso de armas nucleares volta a acontecer de forma cada
vez mais aberta entre os países.
Em
entrevista para o Pauta Pública da semana, a professora Monica Herz, do
Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (PUC-RJ), analisa o cenário geopolítico atual e os impactos dessa
instabilidade global para a América Latina e para o Brasil. Na sua perspectiva,
a ausência de uma política externa articulada entre os países da região
enfraquece a capacidade de resposta conjunta e torna o Brasil mais vulnerável a
pressões externas. “O Brasil tenta manter uma posição de neutralidade
ativa entre China e EUA, mas sem uma coordenação regional, essa postura fica
cada vez mais difícil de sustentar”, diz.
Herz
destaca que o aumento de conflitos nem sempre é resultado de decisões
planejadas e que, muitas vezes, surge do acúmulo de tensões em cenários de
crise. Ela também reforça que a sociedade civil tem um papel político de
resistir à escalada militar. “O que está em jogo é o tipo de sociedade que
queremos construir[…] temos que lutar contra essa escalada a partir de
fortalecimentos de posições políticas que estão voltadas para o bem-estar, para
a hospitalidade, para o humanitarismo e para os direitos humanos”.
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Leia os principais pontos:
·
Estamos diante de uma nova corrida armamentista nuclear e
mais perto mesmo de um conflito global?
A
tendência é o aumento do número de armas nucleares, o que seria ainda mais
preocupante. A palavra-chave para a gente entender o que está acontecendo é
fragmentação. Estamos observando um processo de fragmentação da natureza das
relações internacionais e desinstitucionalização. Esse processo é perigoso,
porque ele desestabiliza normas existentes, e, ao mesmo tempo, coloca para cada
um dos países, não só coletivamente os países da União Europeia, a necessidade
da defesa da sua soberania através da força física de forma nacional.
Previsões
são sempre muito complicadas nesse sentido. Mas, eu acho que está mais perto
[de desencadear um conflito global] porque existe menos estabilidade, menos
regras de interação. Não estou falando só de direito internacional. Eu estou
falando de normas de interação, de respeito ou desrespeito por esferas de
influência. Essas normas se estabeleceram ao longo da Guerra Fria entre a União
Soviética e os Estados Unidos. E a gente não tem
clareza nesse momento em relação a que normas vão se estabelecer em relação
entre a China e os Estados Unidos, por exemplo. Qual vai ser o lugar da Rússia
nessas novas normas? É um momento de profunda instabilidade. Isso é sempre
uma janela de oportunidade pro conflito e até pro conflito armado.
·
Nesse contexto de instabilidade, como fica a América
Latina e o Brasil?
Eu
diria que nós temos oportunidades, no sentido de tentar não fazer uma escolha,
como é a política externa do governo brasileiro atual, entre a China e os
Estados Unidos, mantendo as melhores relações possíveis com os dois países,
levando em consideração os nossos interesses econômicos e comerciais. A gente
não sabe até que ponto vai ser possível manter essa política de uma certa
neutralidade ativa.
Agora,
não se avança em uma coordenação de políticas externas entre os países
latino-americanos. Nós não temos uma organização latino-americana ou
sul-americana, como nós tivemos no passado, no caso da UNASUL, (União de Nações
Sul Americanas). Então, a ausência de uma política da região, seja pela
ausência de uma organização regional, seja pelo fato de que alguns líderes não
conseguem articular nada juntos.
Por
exemplo, à posição dos Estados Unidos em relação ao Panamá, sem capacidade de
dar nenhum tipo de resposta, à militarização da fronteira entre o México e os
Estados Unidos. E mesmo em relação ao conflito territorial que nós temos aqui
na região, que é o conflito entre a Guiana e a Venezuela, no qual a região,
como um todo, não consegue ter uma posição. Agora, há oportunidade, sim, no
sentido de que nós não fazemos parte, vamos dizer assim, daqueles focos mais
dramáticos de conflito, como no Oriente Médio, na Ucrânia e no Pacífico.
·
Como o uso da tecnologia na guerra funciona na prática?
Temos
que separar a discussão sobre tecnologia da informatização do campo de batalha.
A
informatização do campo de batalha traz uma série de problemas. O primeiro é
que as normas de controle de armamento, de direito humanitário, que a gente tem
para diminuir um pouco a destruição e a dor que as armas produzem não estão
adequadas a essa informatização, particularmente no que diz respeito à
responsabilidade daqueles que geram a destruição.
Então,
nós temos esforços, sim, acontecendo dentro e fora do sistema ONU, fora do
sistema ONU, de repensar essas normas de controle de armas, de direito
humanitário, para, de alguma forma, adequá-las ao movimento de informatização
da guerra. Você vê isso muito claramente no caso dos drones. Quer dizer, você
não tem um ser humano claramente disparando. E aí você cria milhares de
mediações. Sim, tem alguém controlando o drone, mas a pessoa que controla o
drone é controlada por um outro sistema, que é controlado por outro sistema.
Você tem toda a discussão sobre inteligência artificial, como se a inteligência
artificial estivesse tomando decisões, e não os seres humanos.
Então,
toda a discussão sobre responsabilidade ética mesmo, responsabilidade moral e
responsabilidade jurídica pelo uso das armas está em crise diante do processo
de informatização, como se a gente estivesse numa corrida. Quer dizer, a
utilização de satélites e de armas contra satélites, e o impacto que isso pode
ter para o planeta, inclusive para questões ambientais. Acho que a discussão é
absolutamente pertinente. E ela também se refere a um certo barateamento da
guerra, a uma facilitação de acesso a armas profundamente letais, como é o caso
dos drones.
Na
medida em que essas tecnologias, particularmente aquilo que a gente chama de
tecnologias duplas, que têm um papel dentro do universo civil, mas também
dentro do universo militar, vão sendo barateadas pela massificação mesmo da
indústria, e da indústria de guerra em particular, coloca-se em questão a
possibilidade de grupos não estatais utilizarem essas armas. O que,
evidentemente, de novo, coloca em questão a responsabilidade em relação à
destruição e à morte.
·
Existe algum caminho para frear essa nova onda belicista?
Dá pra evitar um conflito global?
A gente
tem que lutar contra essa escalada a partir de fortalecimentos de posições
políticas que estão voltadas para o bem-estar, para a hospitalidade, para o
humanitarismo, para os direitos humanos, porque todas essas coisas são
ameaçadas por essa escalada militar.
Inclusive
o gasto, que, em vez de ser com comida, habitação, assistência médica, acaba
sendo com armamentos. Acho que essa é uma disputa política. Uma disputa sobre
como nós queremos organizar as comunidades políticas, como nós queremos ser
governados. Nós precisamos ser governados por lideranças, por partidos, por
formas de representação que têm valores que entram em contradição com essa
escalada armamentista, com o uso das armas e com a dor que elas produzem.
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Israel usa deslocamento forçado como tática de guerra
psicológica e física em Gaza
Forças
israelenses continuam utilizando de maneira sistemática ordens de evacuação
emitidas de última hora como um instrumento de violência, transformando a Faixa
de Gaza em um verdadeiro inferno na Terra para os palestinos.
Bombardeios
ininterruptos, um bloqueio quase total da ajuda humanitária e ordens de
evacuação fazem com que centenas de milhares de pessoas tenham que se deslocar
e fiquem encurraladas em espaços cada vez mais reduzidos. Médicos Sem
Fronteiras (MSF) é testemunha de que o estado constante de alerta e a
imprevisibilidade das ordens de deslocamento têm consequências devastadoras
sobre a saúde mental das pessoas. O deslocamento forçado por meio das ordens de
evacuação deve cessar imediatamente.
“As
forças israelenses estão destruindo todos os meios de vida para os palestinos
em Gaza por meio de táticas de guerra física e psicológica. Deslocamentos
forçados são parte da campanha de limpeza étnica praticada pelas autoridades e
forças israelenses em relação à população palestina, que não tem para onde ir”,
denuncia Claire Manera, coordenadora de emergência de MSF.
Desde o
início da guerra, palestinos têm sido reiteradamente forçados a evacuar, muitos
fugindo repetidas vezes, conforme a experiência vivida por muitos trabalhadores
de MSF. Com a emissão de 31 ordens de evacuação desde que Israel rompeu o
cessar-fogo em 18 de março, os recorrentes deslocamentos forçados encurralaram
os palestinos em um ciclo de sofrimento interminável. Em 19 de maio, uma
única ordem de deslocamento de larga escala na região de Khan Younis abarcou
22% da faixa, afetando mais de 70 funcionários de MSF, enquanto outra, em 26 de
maio, cobriu 40% do centro e sul de Gaza.
“Nossos
colegas estão desesperados”, afirma Omar Alsaqqa, gerente de logística de MSF.
“Não restaram mais barracas e nem espaço para que as pessoas as montem. Não sei
o que responder quando colegas me perguntam para onde podem ir com seus filhos
no meio da noite. Estamos ficando sem opção para nos mantermos vivos.”
Estas
ordens de deslocamento e áreas militares onde o acesso da população é vetado
cobrem agora cerca de 80% de Gaza, e nenhuma única região de Gaza foi poupada
de ataques. Nesta segunda-feira, 26 de maio, equipes de MSF trataram 17
pacientes após um ataque ocorrido muito próximo ao centro de saúde administrado
pela organização em Khan Younis, na área central de Gaza, bem na região para
onde as pessoas deveriam supostamente se deslocar. A população evacua uma área
e depois é alvo de bombardeios em um suposto “local seguro”. Cerca de 600
mil pessoas foram novamente deslocadas desde 18 de março.
“Eu
despertei meus filhos e disse a eles que daríamos uma saída rápida. Eles
começaram a chorar. Pegaram suas mochilas. Eu estava apavorada, mas tentei
parecer calma, apesar de sentir o meu coração acelerar de medo”, explica Asmaa
Abu Asaker, funcionária administrativa de MSF, depois de uma ordem de
deslocamento ter sido emitida em sua vizinhança.
As
ordens são imprevisíveis e chegam com prazos ridiculamente curtos, colocando
pessoas em situações inviáveis. Elas chegam por meio de panfletos, notificações
de rede social ou ligações telefônicas, informando um ataque iminente e dando
às pessoas um tempo limitado para reunir seus pertences e buscar abrigo. O
próprio ato de forçar pessoas a fugir reiteradamente, muitas vezes no meio da
noite, sem ter para onde ir e arriscando suas vidas, está tendo não só um
impacto físico, mas causando danos psicológicos imensos.
“Desta
vez eu não quero juntar as minhas coisas. Sem malas, sem papéis, sem nada. Não
sei o porquê, talvez minha postura mental esteja errada, mas simplesmente não
consigo processar a ideia de abandonar minha casa novamente”, diz Sabreen
Al-Massani, psicoterapeuta de MSF que já foi deslocada várias vezes. “Começou
uma nova luta, sem farinha e mantimentos. Eu tinha minha própria vida, de casa
para o trabalho, trabalho para casa, uma vida normal. De repente, tive de
viver com desconhecidos em um ambiente difícil, sem acesso a itens básicos,
buscando água, lugar para carregar o telefone. Aí veio outra ordem de
evacuação: toda nossa área foi atingida.”
Ao
mesmo tempo em que as ordens de deslocamento forçam os palestinos a se
aglomerar em áreas cada vez menores, as forças israelenses também têm feito
ataques regulares sem emitir qualquer tipo de aviso. Em 9 de abril, mais
de 20 pessoas foram mortas em um bombardeio que teve como alvo um conjunto
residencial de sete prédios na Cidade de Gaza. Entre os mortos estavam
familiares de dois membros da equipe de MSF que estavam trabalhando quando os
ataques ocorreram e ficaram sabendo depois que seus entes queridos estavam
entre os escombros.
“Nós
estamos em um estado constante de alerta; podemos receber a qualquer momento
uma notificação para fugir. Não conseguimos dormir à noite achando que podemos
ser os próximos”, afirma Al-Massani, descrevendo os impactos sobre a saúde
mental dos palestinos.
MSF
apela às forças israelenses para que cessem imediatamente os deslocamentos
forçados e a campanha de limpeza étnica dos palestinos em Gaza. Também pedimos
aos aliados de Israel que cessem seu apoio e cumplicidade.
Fonte: Por
Andrea DiP, Claudia Jardim, Ricardo Terto, Stela Diogo, Rafaela de Oliveira, da
Agencia Pública/MSF

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