Paula
Furtado: Universo dos bebês reborn alerta para um refúgio afetivo e tempos de
solidão emocional
Brincar
de boneca (tão comum durante a infância para ajudar no desenvolvimento
emocional e cognitivo das crianças) tem se tornado um hobby da vida adulta; e o
que antes era um objeto colecionável ou brinquedo, percebo que os bebês reborn
agora ganharam contornos afetivos e têm despertado vínculos emocionais
profundos e, em alguns casos, contribuído para o bem-estar de pessoas em
momentos de fragilidade emocional.
Atualmente
vivemos em uma sociedade que valoriza a exposição e o compartilhamento de
experiências, por isso acho que o recente fascínio coletivo dessas bonecas
hiper-realistas está profundamente ligado à intensificação do uso das redes
sociais – o que desperta curiosidade e engajamento.
Influenciadores
digitais têm um grande papel em legitimar certas condutas ao mostrarem suas
rotinas com esses bebês, e, de certa forma, criam um mundo paralelo onde
algumas atitudes lúdicas são socialmente aceitas e até desejadas. Além disso,
acredito que o principal motivo dessa “febre” seja o tempo de solidão
emocional, ansiedade e distanciamento, onde essas bonecas acabam oferecendo uma
ilusão, de afeto e vínculo, que conforta muitos indivíduos.
Percebo
que a maneira como determinadas mulheres cuidam do objeto como filhas de
verdade pode estar relacionada ao quão realistas elas parecem e, em alguns
casos, pode ser um substituto simbólico de perdas (como luto ou infertilidade);
em outros, uma forma de preencher lacunas afetivas. Ela é incondicional: está
ali sempre disponível, dócil e pronta para receber cuidado, o que pode ser
extremamente sedutor para quem vivencia relações humanas desafiadoras. Além
disso, não chora, não fica doente, não reclama, não oferece os desafios de um
verdadeiro relacionamento.
Como
terapeuta, vejo que transformar as reborn em um “personagem” pode reforçar uma
idealização e um estado de negação da realidade. Isso pode dificultar a
elaboração de dores emocionais e afetar a autoestima feminina, que passam a se
definir por essa relação. A validação pública vira alimento emocional, o que
pode ser perigoso quando não há limites claros entre o simbólico e o real.
Quando
a boneca começa a ocupar o lugar das relações reais, impedindo a elaboração de
experiências dolorosas, temos uma fuga, e a pessoa se refugia nessa ilusão para
não lidar com a dor, o medo ou a frustração.
Não
posso deixar de destacar que muitas mulheres que cuidam de reborn enfrentam
olhares de julgamento ou piadas, especialmente quando o cuidado ultrapassa os
limites do simbólico. Por isso, diversas se refugiam em comunidades on-line ou
presenciais, onde encontram acolhimento e identificação. Percebo que esses
espaços oferecem pertencimento, ainda que reforcem padrões não saudáveis.
É
fundamental olharmos para esse fenômeno com sensibilidade. Por trás de cada
bebê reborn há uma história. Antes de julgar, precisamos compreender: o que
essa boneca realmente representa para essa mulher? Quando há sofrimento ou
prejuízo na vida real, entendo que o diálogo familiar e a escuta profissional
(atendimentos psicopedagógicos e arteterapêuticos) podem transformar essa
relação simbólica em um caminho de cura, e não de aprisionamento.
• De onde vêm os bebês reborn? Por
Veridiana Zurita
Nas
últimas semanas o tema dos bebês reborn viralizou na internet, ou pelo menos na
minha timeline. Fui atravessada por muitas perguntas sobre a prática reborn mas
principalmente sobre a reação diante de tal prática. A surpresa, o assombro, o
estranhamento dos usuários das redes sociais diante de algo denominado como
“bizarrice”, “anormal”, “doentio”. O que seria o normal e saudável, então?
Ensaios,
artigos, postagens, vídeos e reportagens de TV abordaram o tema com tom
semelhante; a prática traria benefícios para carências emocionais, traumas e
frustrações em relação a maternidade, mas a perda do limite entre realidade e
brincadeira significaria um risco para a saúde mental. Cada caso é um caso. As
reflexões que circulam nas redes focam na singularidade como parâmetro de
avaliação da prática com os bebês reborn. Ponderação importante, uma vez que
qualificar a prática como genericamente negativa significaria perder a chance
de observar sua complexidade.
No
entanto, há algo do “genérico”, no sentido de como tal prática se dissemina, se
replica e se prolifera que aponta para as subjetividades desse nosso tempo de
redes sociais. Seriam elas criadoras da demanda de bebês reborn? Não, mas elas
adensam uma cultura da performance da vida íntima, sempre no limiar do
documentário e do encenado, da espontaneidade roteirizada, das relações
subordinadas a captura da câmera do celular, da cena vivida como sinônimo de
compartilhamento nas redes, da diluição entre experiência e simulação,
simulação e experiência. A experiência não é simplesmente capturada pela câmera
mas simulada para ser capturada. Na lógica das redes, é somente a partir desse
modo de captura da cena simulada que as experiências parecem ter legitimidade.
Cena capturada para ser experienciada. É ilusão achar que algum dia houve
experiência sem simulação, sem mímese, sem cena a priori, na qual nos
encaixamos, confrontamos, desconstruímos e reinventamos, mas agora, nas redes,
há um “plus”; a fantasmagoria de um público em potencial.
Quem
nunca viu (ou mesmo já fez) aquela selfie onde a pessoa documenta-se a si mesma
no abraço amoroso com um bebê? Isso quer dizer que o abraço foi menos
experienciado? Não, mas quer dizer que ele tem uma intenção que interpela a
legitimidade da experiência; ser visto, ser curtido. Amor e afeto como cena,
como roteiro ansioso por visualizações e curtidas, aquela gramática de
reconhecimento das redes. Há, portanto, um tipo de cuidado, um tipo de
maternidade, um tipo de exposição e reconhecimento de vínculo afetivo sendo
validado porque viraliza (ou não) na internet. Esse parâmetro de pertencimento
nas redes, cria uma universalidade, um sujeito genérico digital, que é porque
existe no digital. É a partir desse lugar “genérico” de participação e
performance social-digital – onde as singularidades em torno da maternidade e
da organização do cuidado são homogeneizadas (mais do que nunca) – que observo
a prática com os bebês reborn.
E daí
vêm uma avalanche de perguntas. O que tá por traz da reação necessariamente
negativa diante do bebê reborn? Que significante ele oferece à uma sociedade
organizada (também) a partir das redes sociais? Seria um espelho? Com o que se
surpreendem aqueles que rotulam a prática reborn como “bizarra” e “anormal”?
Por que nos perguntamos se é “saudável” ou não? À qual demanda de mundo a
prática reborn responde? À que tipo de maternidade ela responde? Que mãe e que
bebê é possível performar através da prática reborn? Que mãe e que bebê tal
prática mimetiza? O que seria a prática reborn senão uma paródia hiper-realista
de uma maternidade afunilada pela lógica das redes? Por que se estranha a mãe
reborn e nem tanto aquelas postando cada suspiro de seus filhos “reais”? A qual
realidade estão sujeitas as crianças continuamente compartilhadas na timeline
de seguidores?
Talvez
a inércia responsiva às câmeras performada pelas crianças, acostumadas com um
celular sempre testemunhando cada passo, não seja tão diferente dos olhos (sem
olhar vivo) dos bebês reborn. Por uma oposição eles se encontram. De um lado
bebês vivos que precisam parecer bonecos, do outro bonecos; que precisam
parecer vivos. Há algo de maquínico em ambos. Talvez o estranhamento estridente
da comunidade digital diante da prática reborn normalize a ficção que inspira
pessoas a quererem bebês bonecos. Talvez a realidade encenada, a maternidade
espetacularizada nas redes, a incansável tarefa de promover experiências de
cuidado transformada em manual de vendas, seja capaz de produzir um tipo de
desejo: ser mãe de um boneco basta!
É assim
que o estranhamento diante dos bebês reborn escancara um sintoma da sociedade
que normalizou um formato de maternidade que virou produto, faz tempo. Mesmo
que a relação com bonecas seja antiga, a prática com os bebês reborn inaugura
um tipo de brincadeira que ultrapassa o lúdico, a ficção e transborda um
hiper-realismo que responde à demanda de um tipo de performance de maternidade
celebrada nas redes sociais.
Mas
quem disse que a maternidade não é ficção? Quem disse que a realidade que a
prática com os bebês reborn mimetiza não é uma invenção? De que realidade
estamos falando? Bom, se há uma realidade inquestionável na maternidade é
aquela do tropeço, do inusitado, do erro, da falha, da falta, da falta, do
desconhecido, do que não se pode prever, precipitar, antecipar, encenar. Uma
mãe (seja lá quem for desempenhar essa função) está sempre diante da tarefa de
desidealizar a maternidade, justamente porque nela há pelo menos dois sujeitos
em formação. De um lado o sujeito que se pretende na função materna com suas
expectativas, memórias e história, e do outro o bebê que chora, sente fome,
frio, calor e cresce atravessado por satisfações e faltas nunca antes experimentadas.
Há conflito.
Apesar
de a maternidade aparecer nas redes como status, posição fixa, cena,
identidade, na realidade ela se impõe como construção singular da função
materna. O que as redes sociais nos oferecem como conteúdo digital a ser
produzido e consumido é a maternidade que vira cena pra ser curtida e
compartilhada. Na contemporaneidade digital é difícil dissociar a maternidade
de sua presença nas redes e toda uma gramática de pertencimento e
reconhecimento que a lógica dos seguidores empreende. Mães bem sucedidas nas
redes são aquelas que viralizam com dicas e tutoriais de cuidado, educação,
saúde e etc. Acontece que a maternidade não é instagramável. Mesmo que a frase
de Winnicott possa até virar estampa de camiseta passando pela sua timeline, a
mãe “suficientemente boa” não é o que o algoritmo quer. Ele quer performance,
regularidade de posts, a ininterrupta produção de conteúdo e de preferência com
o bebê na cena, porque é ele que captura nosso olhar. Mas a complexidade da
função materna não cabe em uma síntese de post. Ufa! A maternidade é tortuosa,
imprevisível. A maternidade é frustrada e produz frustração em uma jornada onde
aprender a lidar com a falta é uma via de mão dupla. Da mãe pro bebê, do bebê
pra mãe e idealmente de todas as pessoas que atravessem essa relação. A
maternidade é uma experiência cheia de vazio.
O que a
prática com os bebês reborn nos mostra não é tanto sobre o desejo de pessoas
quererem a todo custo experienciar a maternidade, mas sobre um tipo de
sociedade que afunila as possibilidades de estar no mundo dentro do registro de
um tipo maternidade. É como se a experiência do cuidado e da relação com a
infância estivesse encerrada em uma cena fixa, congelada, como aquele sorriso
das muitas selfies que capturam olhares inertes nas redes.
Há algo
na prática reborn que parece reafirmar, como paródia, um tipo de maternidade
pasteurizada, produzida para virar post, linear o bastante para compor o
infinito acúmulo de imagens homogêneas das redes, aquela repetição do mesmo,
sem diferença. De certa forma, o bebê reborn encena a paródia de um tipo de
maternidade que se pretende imune a desidealização. Diante da mãe, o bebê
reborn é um boneco e por mais realista que possa parecer, ali não há pulsão,
ali não há falta, apenas uma superfície que recebe (sem resistência) as
projeções de alguém que encena um tipo de maternidade.
E
encena pra quem? A presença de bebês, crianças e (principalmente) mães nas
redes passa a ocupar papel importante no dinamismo de um mercado de anunciantes
e de marketing digital. Cativam e capturam os olhares ávidos por uma nova
imagem nas redes e isso faz toda a diferença para a economia da atenção. Ter um
bebê segue sendo um troféu, como sempre foi em uma sociedade que circunscreve o
lugar da mulher pelo da maternidade, por um tipo de maternidade. Mas nas redes
esse troféu ganha um novo dinamismo. Bebês são agora embalagens de uma
matéria-prima que garante visibilidade e, se for bem feito, até pode
proporcionar pra mamãe alguma projeção profissional em um mundo de extrema
precarização. Se ele não falar, não chorar, não cagar, não sentir, não
demandar, melhor ainda. A “maternidade” virou um ramo da cultura influencer que
dinamiza as redes com dicas de cuidado e todo um menu de produtos e serviços
associados a ela. Nas redes, o cuidado é majoritariamente um mercado e muito
pouco um processo. O que se performa como influenciadora, denominada muitas
vezes de “instamom” é um estilo de vida, um tipo de vínculo familiar, um tipo
de bebê, um tipo de mamãe, um tipo de relação performada com realismo e
espontaneidade instagramável.
É
inevitável associar o crescimento da prática com os bebês reborn e a cultura
influencer. Cultura que encara cada aspecto da vida íntima como palco de uma
cena que atrai a atenção de anunciantes, product placements, publis e toda uma
dinâmica do marketing digital. A maternidade está em alta nesse mercado e sua
narrativa é pujante nas redes. Qual é a cena que se repete, que se replica,
reproduzida como infinita variação do mesmo? Fotos e mais fotos, textos
confessionais, tutoriais, receitas, brincadeiras, salas de parto transformadas
em estúdios de filmagem, chás de bebê organizados como shows de pop-stars que
ainda não nasceram, mamães e bebês felizes em cenas muito bem decoradas e toda
uma infância que precisa caber na lógica das selfies, roteirizada para uma
performance na praça pública digital.
Agora
com os bebês reborn qualquer um pode participar do mundo digital como mãe,
produzir conteúdo, viralizar, fazer um parto ao vivo em um programa de TV e até
ser patrocinada por uma marca sem nem mesmo precisar passar pela tortuosa
experiência da maternidade, digamos, com fluídos, choro, faltas e demandas
passíveis de frustração. Nas redes sociais parece não haver falta e essa
ausência de vazio, que está na própria mecânica algorítmica de produção
acelerada e ininterrupta de dados, transborda para nossas subjetividades,
produz nossas subjetividades. Nesse sentido, arrisco dizer que o tipo de
maternidade que as redes sociais celebram é aquela onde a falta não tem vez. É
isso o que a prática com os bebês reborn parece nos contar. As pessoas que não
puderem ter filhos, que tiverem um trauma de perda ou que não quiserem parir e
cuidar de um sujeito em eterna negociação com suas pulsões, poderá, mesmo
assim, participar do grupo identitário “mães”. Tem pra todo mundo, tudo é
possível. Essa é a promessa.
Fonte:
IHU

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