Donald
Trump está tentando reverter o New Deal
Após o
fim da Segunda Guerra Mundial, a classe patronal dos EUA – formada pelos
capitalistas – enfrentou ameaças sobrepostas, tanto domésticas quanto no
exterior. No lado doméstico, uma coalizão do Congresso de Organizações
Industriais (COI), em que atuavam dois partidos socialistas e um partido
comunista, tornou-se poderosa durante a Grande Depressão dos anos 1930. Juntos,
eles tiveram força para pressionar, obtendo sucesso, por políticas domésticas
conhecidas como New Deal.
Essas
políticas incluíram o estabelecimento do sistema de previdência social, do
sistema de seguro-desemprego, assim como do primeiro salário-mínimo a vigorar
no país como um todo. Abarcaram, também um programa federal de empregos que
empregou milhões. Junto com vários outros programas, o New Deal gerou
um desvio à esquerda nas prioridades do Estado. Para a classe patronal, pior do
que essas mudanças nos gastos, foram as mudanças correspondentes nas fontes de
receita do governo federal.
Os
impostos, assim como os empréstimos, cobrados das corporações e dos ricos,
foram drasticamente aumentados para financiar os programas maciços do New Deal
destinados aos trabalhadores. Isso realocou a renda e a riqueza da nação do
topo para o meio e o fundo da escala de repartição. Em oposição às políticas
econômicas dominantes de gotejamento de cima para baixo (trickle-down)
que estavam em vigor, o New Deal se constituiu como um
experimento em políticas econômicas de gotejamento de baixo para cima (trickle-up).
Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, a classe patronal não queria outra
coisa do que se desfazer do New Deal, trazendo de volta as
políticas de gotejamento de cima para baixo.
Um
segundo problema ameaçou domesticamente a economia dos EUA depois de 1945: o
risco de uma volta à depressão dos anos 1930. O financiamento dos déficits
devidos à guerra, que durou por cinco anos, finalmente tirou a economia dos EUA
da depressão da década marcada pela grande depressão.
Os anos
após 1945, em face desse risco, trouxeram os problemas da desmobilização das
tropas e da reorientação dos recursos para a produção em tempos de paz. Os
principais políticos e acadêmicos dos EUA, mais ou menos influenciados pelo
trabalho de Keynes, buscaram então, com urgência, defender e implementar
intervenções governamentais para evitar essa ameaça.
Ademais,
a classe patronal dos EUA passou a ver ameaças que vinham do exterior. A
principal delas partia da Rússia, que fora aliada dos Estados Unidos durante a
guerra. A serviço da classe patronal dos EUA, o presidente Harry S. Truman
(1945-1953) se esforçou para mudar o modo como o público via a Rússia e seus
aliados que, agora, formavam URSS.
O
aliado próximo durante a guerra foi então transformado num inimigo temível, que
estava empenhado em “derrubar os EUA pela força e violência”. Apesar de ter
sofrido enorme destruição durante a guerra, a URSS passou a ser vista pelos
principais políticos, pela mídia, pelos negócios e pelos líderes acadêmicos dos
EUA como um perigo extremo. Os comunistas e seus “companheiros de viagem”
passam, então, a serem expurgados pelo que desde então tem sido chamado de
macarthismo.
Por seu
turno, os líderes da Europa Ocidental também temiam esse suposto perigo; eles
se voltaram contra a URSS quando os países orientais da Europa se tornaram
aliados socialistas na URSS do pós-guerra. Os países que formavam a URSS
apoiaram e ajudaram revoluções bem-sucedidas contra um colonialismo europeu que
se encontrava enfraquecido.
Ao
mesmo tempo, as classes patronais da Europa temiam agudamente seus partidos
comunistas domésticos. Eis que estavam fortemente entrincheirados em seus
movimentos de resistência antinazistas e movimentos trabalhistas organizados. A
depressão da década de 1930 fortaleceu todos eles (tal como ocorrera nos
Estados Unidos).
Na
Europa, os movimentos de trabalhadores, os partidos comunistas e socialistas,
assim como os seus apoiadores, mobilizaram, treinaram, equiparam, financiaram e
coordenaram a resistência antifascista de vários modos. Em 1945 e nos anos
seguintes, esse trabalho de resistência gerou uma imensa popularidade desses
partidos e movimentos.
Os
empregadores em cada um dos países que compõe da Europa Ocidental temiam as
demandas econômicas promovidas pelos socialistas, comunistas, assim como pelos
sindicatos. Essas demandas, apoiadas pelo poder político dos trabalhadores das
fábricas, obtinham apoio maior devido à proximidade geopolítica da URSS.
Diante
dessas condições, os Estados Unidos e a Europa Ocidental forjaram um
compromisso que passou a ser compartilhado por suas classes capitalistas.
Formaram, assim, uma aliança sob o domínio dos EUA; esse país foi definido
então como a “liderança do mundo livre”. Essa aliança abrangeu questões
militares, mas também a mobilização de recursos (OTAN, FMI e Banco Mundial) com
fim de produzir crescimento econômico.
A
classe patronal em cada um desses países, juntamente com os de seus governos,
esforçou-se para isolar os comunistas, socialistas, militantes trabalhistas e
seus apoiadores. E eles foram tão longe quanto as condições o permitiam. As
ações variaram de prisão e deportação à perda de empregos, renda e influência
social.
O tema
central da aliança era declarar e travar uma guerra fria contra a URSS e seus
supostos “agentes” dentro dos Estados Unidos e dos países europeus. Os expurgos
dentro dos Estados Unidos incluíram as execuções de Ethel e Julius Rosenberg
como espiões soviéticos. Essas ações também implicaram em favorecer (e em
financiar secretamente por meio da CIA) muitos dos políticos e partidos
“pró-ocidentais” da Europa, assim como determinados meios de comunicação e
mesmo certos grupos estudantis. A aliança EUA-Europa incorporou o Canadá e o
Japão. O dólar americano e sua posição global sustentou as ações desse bloco de
países.
O
problema ideológico e político central para a classe patronal dos EUA depois de
1945 passou a ser encontrar modos de produzir a ruína do New Deal.
Minar a aliança dos Estados Unidos com a Rússia durante a guerra se mostrou
também como necessária.
A
solução encontrada foi uma campanha bem coordenada e bem financiada, munida com
argumentos coesos e articulada por instituições midiáticas, que visava saturar
a opinião pública global. Eis que uma reviravolta total na opinião pública e na
política era vista como necessária para resgatar o capitalismo norte-americano
e europeu de sua crise existencial, tal como percebida pelas classes patronais
desses países.
Ora, há
certas semelhanças com situação atual que levou Donald Trump a assumir o cargo
de presidente dos Estados Unidos por duas vezes, em 2017 e em 2025. Em ambas as
situações, tem-se uma classe patronal que se sente profundamente ameaçada,
especialmente devido à escalada dos perigos políticos e econômicos.
Hoje,
essa classe se preocupa com divisões e tensões sociais paralisantes. O
aprofundamento das desigualdades nas distribuições de renda e da riqueza fez
com que o prometido sonho americano ficasse fora do alcance da maioria. E isso
produziu uma irritação política nas classes subalternas que passou a ser vista
como perigosa.
A
classe patronal também teme o aprofundamento do endividamento do governo, do
setor corporativo e da maioria das famílias em meio ao declínio da posição
geopolítica do país, que lhe parece muito preocupante. O crescimento da China
nas últimas décadas posiciona esse país como o primeiro concorrente econômico
global sério dos Estados Unidos em um século (a URSS era uma economia pequena
demais para alcançar esse status). Entre as muitas consequências do crescimento
da China, surge a possibilidade de que posição global dos EUA possa entrar em
declínio.
Tal
como ocorrera quando o governo Truman assumiu o poder em 1945, o segundo
mandato de Donald Trump se encontra definido agora por fortes pressões
acumuladas. E elas estão produzindo um movimento de ruptura em relação ao
passado como forma de enfrentar o declínio e as ameaças internas e externas.
A
solução da classe patronal dos EUA em 1945 foi destruir a esquerda doméstica e
transformar a URSS de aliada em inimiga. A solução de Donald Trump voltada para
os interesses da classe patronal vem a ser igualmente tentar destruir a
esquerda, mas transformando a Rússia de inimiga em aliada.
Apesar
das diferenças importantes no tempo e nas condições globais – o enfrentamento
em 1945 foi muito mais radical do que aquele projetado e efetivado agora –, há
semelhanças bem sugestivas. Em 1945, os empregadores iniciaram já o processo de
se desfazer o New Deal. Eles obtiveram êxito, mas este foi apenas
parcial.
Administraram
um Estado redistributivo que foi enfraquecido a partir dos 1980, mas tiveram
que aceitar a mudança para um Estado regulador da atividade econômica. Hoje,
Donald Trump busca completar o enterro do legado do New Deal, indo
além e buscando se desfazer do que dele restou, assim como do Estado regulador.
A
política de classe de Donald Trump leva adiante as ações de seus antecessores
ao longo do século passado. Os detalhes, não os objetivos, variam de acordo com
as circunstâncias. A transição da URSS para a Rússia facilitou a mudança de
postura política de Donald Trump em relação a este país. O declínio do
movimento trabalhista organizado dos Estados Unidos nos últimos 70 anos
facilitou o apelo eleitoral de Donald Trump à classe trabalhadora.
Por
outro lado, a ascensão contínua da China como concorrente econômico reforça as
preocupações da classe patronal sobre seu status e segurança. Mais
profundamente, o que perturba a classe patronal dos EUA agora é o declínio
entrelaçado do império dos EUA e da posição global do capitalismo
norte-americano.
Depois
de 1945, a classe patronal reafirmou seu domínio social. Ela reorientou o
governo federal para as tarefas duplas de expurgar os apoiadores do New
Deal do governo, sindicatos e outras instituições sociais e de
demonizar e conter a URSS como o inimigo global, como a fonte do mal maior. O
anticomunismo tornou-se a principal arma ideológica que atendeu a essa
finalidade.
A
barreira política erigida constrangia todos a apoiarem o sistema e a
denunciarem o comunismo. Constrangia também as pessoas a mostrarem simpatias
por dogmas como “a interferência do Estado na economia” é ineficiente,
esbanjadora e inferior ao que as empresas privadas “livres” podem e chegam a
alcançar.
Comunistas,
socialistas, sindicalistas, liberais de esquerda e democratas, ou seja, aqueles
associados ao New Deal, foram tratados como crentes na burocracia,
no autoritarismo e no totalitarismo. Na pior das hipóteses, eles eram vistos
como agentes das cruzadas de Moscou contra a democracia e a liberdade
individual. Colocar os comunistas domésticos e no exterior como alvo principal
permitiu que a classe patronal vinculasse a contenção doméstica às lutas da
guerra fria contra a URSS. Essas ações contra a esquerda em casa, enquanto era
travavada a guerra fria no exterior, visavam derrotar dois males ao mesmo
tempo.
Nos
últimos 80 anos, a classe patronal, diretamente e por meio de seu poder sobre
os governos, empreendeu um programa maciço de formação ideológica. Isso tornou
a luta entre mais versus menos intervenção governamental na “economia da
empresa privada” e no “livre mercado” uma questão importante no âmbito da
economia e das políticas públicas.
Economistas
profissionais debateram o keynesianismo versus o neoclassicismo. Políticos
moderados se uniram em torno de slogans que definiam a luta como sendo entre
“atender às necessidades das pessoas” versus sofrer com uma “burocracia
autoritária”. Políticos extremistas chamavam o Estado regulador como um mal a
ser combatido (muitas vezes usando comunista, socialista, liberal, democrata e
até terrorista como sinônimos).
O
“livre mercado” global que se formou após 1945 permitiu que os Estados Unidos
se tornassem dominantes. E ele foi capaz de conter todos os rivais econômicos
em potencial que apareceram em certo momento (Japão, Alemanha, Grã-Bretanha,
França, Rússia e Itália). Sustentou essa posição por meio da OTAN, por um lado,
e pela demonizando da URSS, por outro. A luta contra o comunismo no exterior
justificava a manutenção desse domínio internamente. Lutar contra o comunismo
em casa justificou a destruição progressiva da coalizão em prol do New
Deal e a marginalização de suas políticas.
Os
líderes da guerra fria nos Estados Unidos, incrustrados nos dois principais
partidos políticos, executaram essas políticas de forma consistente. O
relatório de 2025 da Heritage Foundation atualiza e expande um
programa político que o regime de Trump está seguindo em grande parte. Esse
plano visa destruir o pouco que resta do New Deal: agora é preciso
remover também os aparatos estatais “regulatórios”. O regime de Donald Trump
também aceita implicitamente o que nega explicitamente: que o império dos EUA e
o capitalismo dos EUA estão em declínio.
As
tarifas são a bala mágica que visa subverter o que restou do New Deal de
modo bem rápido. Acima de tudo, elas estão sendo implementadas com a esperança
de que produzam o retorno da indústria perdida para os Estados Unidos. E isso –
note-se – foi prometido por cada um dos presidentes neste século, mas nenhum
deles chegou a cumprir a promessa. As tarifas podem, na melhor das hipóteses,
retardar o declínio, mas seus custos políticos, econômicos e ideológicos, assim
como as retaliações de muitas nações que suscita, farão com que a bala mágica
não atinja o alvo.
O mesmo
aconteceu com muitos impérios anteriores que não conseguiram impedir o próprio
declínio com balas mágicas igualmente falhas. As tarifas provavelmente falharão
de maneira muito parecida com as propostas de “retomar” o Canal do Panamá,
anexar a Groenlândia e espremer ruidosamente os ganhos de comércio do Canadá e
do México. Esses planos são disfarces agressivos e compensações exageradas para
a dolorosa realidade do império e da economia em declínio.
Vale
lembrar algo que vale para todos os impérios: quando a sua ascensão
inevitavelmente se transforma em declínio, aqueles que acumularam riqueza e
poder usam esses recursos para manter sua posição. Assim, eles descarregam os
custos do declínio nas classes média e baixa. Estes últimos sofrem mais e
enfrentam as consequências primeiro. As primeiras propostas de orçamento de
Donald Trump exibem claramente essa forma de compressão que supostamente alivia
os de cima na escala social. Para a maioria dos impérios, esse descarregamento
gera enorme divisão na sociedade e termina muito mal.
Os
recentes resultados das eleições nacionais no Canadá e na Austrália sugerem que
as classes desses países estão começando a entender os objetivos maiores do
regime de Donald Trump. Por isso, votaram contra políticos vistos como
insuficientemente opostos a eles. Algumas pesquisas nos Estados
Unidos apontam em direções semelhantes.
Os
líderes europeus também estão preocupados. A maioria deles tem sido longa e
profundamente cúmplice dos objetivos e métodos dos Estados Unidos. Os eleitores
podem puni-los por não resistirem às repetidas políticas e atitudes
anti-europeias que fluem do regime político posto em prática por Trump.
Os
líderes europeus correm o risco de que os eleitores de seus países os
considerarem culpados por manterem a antiga associação. Muitos rompem com
Donald Trump exagerando o apoio a Volodymyr Zelenskyy na Ucrânia e demonizando
a Rússia. As raízes da resistência se expandem e se aprofundam.
Fonte:
Por Richard D. Wolff, em A Terra é Redonda

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