'Colônia
do Brasil?': como influência brasileira gera tensão em Portugal
"A
brasileirização de Portugal é
preocupante". Foi assim que uma página ligada à direita radical reagiu à
notícia de que uma rede de supermercados portuguesa passaria a aceitar o Pix
como forma de pagamento em algumas de suas filiais em Braga, no norte do país.
O
perfil Resistência Lusitana no X (antigo Twitter) compartilha com frequência
informações sobre imigração e criminalidade, além de atualizações sobre o partido Chega e seu líder, André
Ventura.
Na
postagem sobre o método de pagamento direcionado aos imigrantes brasileiros,
alguns comentários refletem a mesma preocupação dos moderadores da página:
"A brasileirização é a maior ameaça à sobrevivência da identidade
portuguesa", diz um. "Queríamos o contrário, a relusitanização do
Brasil", afirma outro.
Mas a
maioria das interações vem de brasileiros, que brincam com a ideia de que a
influência sobre o ex-conquistador cresceu tanto, que Portugal passa por um
processo de "recolonização".
"Super
normal que mercados na Guiana Brasileira aceite receber com os métodos de
pagamentos brasileiros, não?", escreve um. "Reparação histórica"
e "Quando vcs trouxeram espelhos, álcool e miçangas em 1500, pra usar no
BR como dinheiro, tava bom né. N adianta reclamar", dizem outros.
Os
comentários fazem referência a memes que circulam nas redes sociais e que dão
tom cômico à rixa entre brasileiros e portugueses, atrelada principalmente ao
período da colonização.
Os
memes que apelidam Portugal de "Guiana Brasileira" — e outros nomes
criativos como "Pernambuco em pé" e "Faixa de Gajos", para
insinuar que o país lusitano é uma nova extensão do Brasil — começaram a
circular nas redes sociais nas últimas semanas após o time de futebol feminino
do Barcelona utilizar uma expressão típica do Brasil em uma postagem sobre a
contratação de uma jogadora portuguesa.
Usuários
lusitanos — mais uma vez — reclamaram do "brasileirismo" e acusaram o
time de falta de empenho ao utilizarem frases que não fazem parte do cotidiano
de Portugal. E a reclamação logo chegou até os brasileiros, que resolveram
tomar a piada para si.
E
apesar de muitos verem as postagens com humor, alguns portugueses se sentiram
provocados e ofendidos.
O
movimento nas redes sociais, assim como o episódio envolvendo a adoção do Pix
pelo supermercado em Braga, são sintomas de uma realidade percebida com cada
vez mais nitidez por imigrantes em Portugal — mas também rejeitada por alguns
portugueses —, que é a influência das expressões culturais brasileiras.
"Há
uma comunidade crescente de brasileiros em Portugal e uma população tão grande
faz-se notar, ainda mais porque a cultura brasileira não é propriamente
silenciosa, mas sim exuberante", avalia Pedro Góis, professor da
Universidade de Coimbra.
Ao
todo, mais de 510 mil brasileiros vivem em Portugal atualmente, segundo o
Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Segundo
o especialista em sociologia etnicidade e da identidade ouvido pela BBC News
Brasil, a onda migratória atual, diferentemente dos fluxos anteriores, engloba
migrantes de todas as classes sociais da sociedade brasileira — tornando sua
influência maior e mais perceptível.
"Abriram-se
muitos negócios brasileiros e há maior contágio da cultura brasileira por meio
da música, da dança e da própria língua que chega com muita força através das
redes sociais."
·
'Brasileiro' e Carnaval nas ruas
A rede
de supermercados Continente confirmou à BBC News Brasil que está oferecendo aos
seus clientes a possibilidade de utilizarem o Pix para pagar suas compras como
parte de um projeto-piloto em 6 lojas na região de Braga.
A
cidade no extremo norte de Portugal, aliás, é descrita por muitos como um
reduto de imigrantes brasileiros no país.
A
concentração é tamanha — são cerca de 15 mil imigrantes brasileiros, ou 8% da
população local — que a cidade já é apelidada de Braguil (Braga + Brasil) e
seus moradores sul-americanos de bragaleiros.
Segundo
a rede Continente, o objetivo ao disponibilizar o Pix em suas lojas é
"melhorar a experiência de compra" de todos os seus clientes.
Para
atrair a comunidade brasileira, outros comércios no país também tem adotado o
sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil, como a loja de
departamento El Corte Inglés, a rede de eletroeletrônicos Worten e
estabelecimentos menores.
Para
além disso, são inúmeras as lojas e supermercados que passaram a vender
produtos importados diretamente do outro lado do Atlântico — de alimentos
típicos a produtos de beleza. Isso sem contar os muitos restaurantes dedicados
à culinária brasileira, alguns até comandados por chefs portugueses.
"Não
preciso procurar muito para encontrar um pastel ou uma coxinha quando tenho
vontade", diz Matheus Morais da Silva, de 30 anos. Natural de Mogi das
Cruzes, São Paulo, ele mora há pouco mais de 2 anos em Águeda, um município de
14 mil habitantes nos arredores de Aveiro.
E ainda
que a população brasileira na pequena cidade seja restrita quando comparada às
de outras regiões, Silva diz ouvir o 'brasileiro' todos os dias na
fábrica onde trabalha.
"São
tantos funcionários brasileiros que até os chefes, portugueses, estão se
adaptando e usando expressões e gírias brasileiras para se integrar mais com a
gente", diz. "Nos cumprimentam com 'Beleza, cara' ou perguntam se
ouvimos a última música da Anitta."
'Grama', 'geladeira', 'dica' e muitas
outras palavras e expressões 'brasileiras' também têm se tornado
cada vez mais comuns no vocabulário dos portugueses, segundo linguistas e
estudiosos do tema.
Elas
são usadas principalmente por crianças e adolescentes, que seguem com
assiduidade influencers e youtubers do Brasil nas redes sociais. Mas mesmo a
população mais velha também tem aderido aos brasileirismos.
Em
Lisboa, que abriga a maior comunidade brasileira na Europa, segundo o
Itamaraty, o 'brasileiro' está por toda parte.
A
capital portuguesa também recebe todos os anos um dos maiores carnavais fora do
Brasil. Em 2025, a Câmara Municipal formalizou a incorporação do Carnaval
Brasileiro de Rua no calendário da cidade.
"O
Carnaval Brasileiro de Rua já faz parte da nossa identidade", disse o
presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, ao assinar o protocolo
de cooperação com a Embaixada do Brasil em Portugal que formalizou a data.
·
Feijoada na universidade
Entre
os brasileiros no país, 19 mil estão matriculados em instituições de Ensino
Superior portuguesas, segundo o Ministério da Educação. A exportação de
estudantes é facilitada pelo reconhecimento da nota do Enem (Exame Nacional do
Ensino Médio) por 26 universidades de Portugal para o processo de ingresso.
"Eu
não tenho nenhuma turma onde não há estudantes brasileiros", diz Pedro
Góis.
E
segundo o sociólogo, todo esse intercâmbio traz muitos benefícios para
Portugal. "As universidades usam o mercado brasileiro para exportar seu
serviço sem sair de Portugal. E é uma estratégia vantajosa, porque o país
recebe a mensalidade e os gastos desses estudantes com moradia, alimentação
etc", diz.
Além
disso, afirma, a presença dos imigrantes brasileiros obriga as instituições a
rever seus métodos de ensino e sua exigência em torno das normas ortográficas
do português europeu.
"Nos
obrigou a perceber que a variante da língua que falamos em Portugal é apenas
isso, uma variante da língua portuguesa, e que todas as variantes devem ser
aceitas."
E após
o término dos estudos, muitos ex-alunos brasileiros continuam vivendo em terras
lusitanas após conquistar o diploma, integrando a força de trabalho local.
É o
caso de Lara Goulart, 21 anos, que após se formar na Universidade do Algarve
trabalha como gerente de mídia social em Faro.
Em seus
três anos em Portugal, a paranaense natural de Curitiba diz ter notado um
crescimento ininterrupto da influência brasileira no país, especialmente entre
os mais jovens.
"Meus
amigos e colegas de faculdade portugueses sabem mais sobre as celebridades
brasileiras do que eu. Estão sempre por dentro do que acontece entre os
influenciadores brasileiros e conhecem todas as músicas famosas", relata.
"Nas
festas que vou em Faro só toca funk", diz ainda.
A
curitibana também repara que, cada vez mais, os portugueses com quem convive
fazem comentários sobre a situação política do Brasil.
"Eu
sei que o meme da 'Guiana brasileiro' é só uma brincadeira, mas às vezes
realmente parece que Portugal se tornou uma colônia do Brasil, porque eles
sabem muito mais sobre a gente do que sabemos sobre eles", afirma.
Em seus
anos como estudante de Ciências da Comunicação, Goulart fez parte da associação
de estudantes brasileiros da sua universidade. Uma das ações da organização foi
instaurar um cardápio típico brasileiro ao menos uma vez por mês no restaurante
da instituição. "Até hoje, eles servem feijoada, moqueca, estrogonofe e
outros pratos no dia a dia", conta.
·
Até nos tribunais
O
intercâmbio na área da educação pode crescer ainda mais. O Parlamento português
debateu no final de 2024 a possibilidade de integrar professores formados no
Brasil ao sistema de ensino local, como uma solução para a crescente falta de
docentes em disciplinas específicas.
A
proposta dividiu opiniões, com os representantes do partido de direita radical
Chega se posicionando contra o projeto. Mas em fevereiro deste ano, o
primeiro-ministro Luís Montenegro, do Partido Social Democrata (PSD), disse que
há interesse em recrutar docentes brasileiros e acelerar os processos de
reconhecimento de diploma dos professores estrangeiros no país.
A
validação dos títulos profissionais obtidos no Brasil, aliás, é uma
reivindicação de muitos imigrantes que vivem hoje em Portugal.
Duas
comunidades que foram bem sucedidas em ter sua demanda acolhida e hoje
conquistaram seu lugar no mercado de trabalho lusitano são dentistas e
advogados brasileiros.
O fluxo
migratório de dentistas aconteceu principalmente na década de 1990. Mas são os
advogados que têm provocado uma mudança mais significativa na cultura local,
diz Pedro Góis, da Universidade de Coimbra.
Quase
10% dos membros votantes da Ordem dos Advogados Portugueses são brasileiros.
Muitos deles conseguiram atuar em terras lusitanas graças a um convênio
estabelecido entre a organização e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que
permitia que profissionais inscritos em uma das entidades pudessem aderir à
outra sem precisar realizar estágio ou provas.
O
acordo foi revogado em 2023, mas os advogados já inscritos ou que já tinham
dado entrada em seu processo não foram afetados pela decisão.
"Estes
advogados trouxeram para Portugal uma cultura muito judicialista do Brasil, que
agora começa a aparecer aqui", diz o sociólogo português Pedro Góis, em
referência à prática que leva questões de cunho político ou de responsabilidade
de instituições públicas aos órgãos do Poder Judiciário.
Segundo
o especialista, isso tem acontecido especialmente em processos envolvendo a
AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo).
"Quando
os prazos para análise de casos de imigrantes que querem se regularizar não são
cumpridos, muitos advogados entram com um processo para obrigar o
cumprimento", relata Góis.
E
apesar da judicialização ser criticada em muitas esferas do Direito, o
sociólogo vê um lado positivo na prática importada do Brasil. "Isso obriga
ao Estado a melhorar e a ser mais ágil na resposta", opina.
·
'Ameaça nacional'
Mas nem
todos em Portugal veem a influência da cultura, costumes e da variante
linguística brasileiras como positivas.
Apesar
das brincadeiras sobre o tema nas redes sociais terem provocado reações
divertidas de muitos portugueses, outros se mostraram ofendidos.
"O
meme Guiana Brasileira é um grande desrespeito ao povo português, aos seus 900
anos de história e àquilo que Portugal significa para o mundo. É uma verdadeira
ameaça nacional e tem que ser mesmo encarada como uma ameaça nacional e a nossa
existência e autonomia", disse o influenciador Lucas Claro em um vídeo
postado em sua página no TikTok.
Em
entrevista à BBC News Brasil, o português de 24 anos, natural da Margem Sul do
Tejo, em Lisboa, disse entender que as postagens sobre "recolonização de
Portugal" são uma forma do povo brasileiro se afirmar perante outros
povos, mas reafirmou sua opinião de que se trata de uma "falta de
respeito".
"E
não condiz com a realidade", diz ele. "A influência brasileira aqui
em Portugal é limitada e muitos portugueses nem conhecem a cultura. Eu, por
acaso, gosto do açaí, gosto do funk, mas há muitos portugueses que não
gostam."
Sobre a
influência da variante brasileira da língua portuguesa, Claro afirma também não
perceber uma influência tão grande.
O
influenciador nota ainda que, com o crescimento da direita radical em Portugal
e no mundo, memes como esse podem contribuir para a hostilidade contra os
imigrantes no país. "Há portugueses que são fanáticos e eu acho que estes
memes ativam uma discriminação que é má para os brasileiros que estão
aqui", diz.
Outros
vídeos publicados nas redes sociais por portugueses também demostram que nem
todos veem os memes como apenas piadas.
"Cada
um tem as suas culturas. Vocês fiquem com o Brasil de um lado do Atlântico que
nós ficamos com Portugal do outro lado. Não se tentem convencer que um dia
Portugal será brasileiro", disse Bruno, outro usuário, no TikTok.
Páginas
como a Resistência Lusitana, que criticam a "brasileirização de
Portugal", também não são incomuns.
Geralmente,
esses mesmos perfis também compartilham vídeos e textos em apoio a políticas
anti-imigração e, por vezes, conteúdos xenofóbicos.
O
perfil Identidade e Futuro, que tem cerca de 8 mil seguidores no Facebook, faz
postagens em defesa da "reimigração", como os grupos de direita
radical chamam a expulsão ou o retorno forçado de imigrantes aos seus países de
origem.
A
página listou em um post recente as "consequências de se estar a
transformar Portugal num novo Brasil". Segundo os autores, a influência
brasileira tem produzido aumento da criminalidade, perda de postos de trabalho
pelos portugueses, foco do Estado nos imigrantes e uso incorreto da língua
portuguesa.
O
discurso anti-imigração no país também impulsiona os casos de agressão. Entre
2017 e 2021, as denúncias de xenofobia contra brasileiros em Portugal cresceram
505%, segundo balanço da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação
Racial do país.
O
paulista Matheus da Silva diz ser alvo frequente de comentários preconceituosos
feitos por portugueses em suas redes sociais. Recentemente, também foi vítima
de um ataque verbal nas ruas de sua cidade.
"Volta
para a sua terra, aqui não é o seu lugar", relatou ter ouvido de um homem
português durante um breve desentendimento no trânsito.
A BBC
News Brasil procurou as páginas Resistência Lusitana e Identidade e Futuro,
para entrevista, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
·
Ressentimento x dificuldade de confrontar o passado
Para a
historiadora e professora da Universidade de Oklahoma Patricia Martins, há
entre a sociedade portuguesa uma visão idealizada do imperialismo português,
além da ausência de uma revisão crítica sobre o período colonial, especialmente
no ensino básico.
Isso,
diz a portuguesa especialista em história colonial e raça, pode ajudar a
explicar a forma como alguns portugueses reagiram aos memes nas redes sociais.
"Portugal
ainda carrega muitas feridas abertas difíceis de confrontar do Império, ao
mesmo tempo em que há uma necessidade entre os portugueses de silenciar ou de
não querer olhar para o colonialismo", afirma.
Para a
pesquisadora, já há no Brasil uma discussão avançada sobre o passado como
colônia e o racismo fruto dessa exploração e da escravidão, enquanto em
Portugal esse debate ainda é muito incipiente.
Ainda
segundo Martins, o movimento de resistência à imigração e à presença brasileira
em Portugal acompanha o fenômeno do avanço da direita radical na Europa e no
mundo.
"A
extrema-direita tem muita capacidade de cooptar as redes sociais e, com o seu
crescimento, há também o crescimento de uma certa ansiedade nacionalista e
pânico moral", diz a portuguesa.
"E
em Portugal essa ansiedade passa pela comunidade brasileira, mas também — e às
vezes até mais — por outras comunidades imigrantes que estão a crescer."
Adriana
Capuano, socióloga e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), também
vê uma conexão entre os fenômenos. Segundo a pesquisadora da migração
internacional, é comum que grandes ondas migratórias criem tensão entre
culturas.
E as
piadas e memes criados por brasileiros nas redes sociais podem acirrar ainda
mais as questões mal resolvidas, diz Capuano.
"Os
memes ferem não somente a ideia de nação portuguesa, mas toca sobretudo na
melancolia ou ressentimento que parece haver em Portugal em relação ao passado
do país como potência mundial", opina.
Ainda
segundo a socióloga, pode haver uma dificuldade, especialmente entre os
portugueses mais velhos, de compreender a "jocosidade" das redes
sociais.
Por
outro lado, diz a estudiosa brasileira, o comportamentos dos usuários
brasileiros parece ter como plano de fundo um ressentimento em relação ao
passado e à colonização por Portugal — e também aos casos de xenofobia vividos
pelos imigrantes.
"Além
do ressentimento pela colonização, há um sentimento de revanche muito
contemporâneo de quem está vivendo em Portugal e se vê no dia a dia subjugado a
algumas situações desconfortáveis", diz Adriana Capuano.
"A
brincadeira é uma forma de escape", resume.
Já o
professor Pedro Góis, da Universidade de Coimbra, afirma que apesar da
crescente influência em diversos setores da sociedade lusitana, a ideia de uma
"brasileirização de Portugal" é um exagero.
"É
uma mistura natural que está a acontecer. Não é uma invasão", diz. "E
está longe de ser uma colonização, é mais uma partilha."
O
sociólogo também minimiza os efeitos das piadas na internet. "Os memes
fazem parte desse processo de contato entre as duas culturas e não vejo como
algo de todo negativo ou que possa colocar em risco as relações
luso-brasileiras."
Fonte: BBC
News Brasil

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