Um
mergulho nas políticas culturais da China
Como
parte da programação do Ano Cultural Brasil–China 2026, uma delegação de 27
servidores do Ministério da Cultura e do Ministério das Relações Exteriores
participou, entre os dias 11 e 24 de agosto, do Seminário “Inovação Cultural e
Integração da Diversidade Cultural Brasileira no Âmbito da Iniciativa de
Civilização Global”. Entre a capital Pequim e as cidades de Hangzhou e Huzhou,
na província de Zhejiang, no leste da China, foram dias intensos de muito
estudo, aprendizado, compartilhamento de experiências, fortalecimento de laços
e cooperação cultural com a China. Uma imersão em diferentes territórios,
escalas, manifestações e expressões culturais, e diálogos de alto nível com
professores, gestores, pesquisadores e especialistas, que nos permitiram um
contato bastante qualificado com o que a China realiza hoje na área.
O tema
das Políticas Culturais na China ainda é pouco pesquisado e desenvolvido no
Brasil, e a bibliografia disponível em português é pequena e dispersa. Neste
sentido, procuramos apresentar neste texto uma contribuição panorâmica, a
partir de impressões iniciais da viagem e dos conteúdos apresentados no
Seminário, que nos permitem enxergar a centralidade da cultura no processo de
desenvolvimento chinês.
Políticas
culturais, no contexto atual da China, devem ser compreendidas de forma
abrangente, a partir de conceitos-chave como: planejamento estatal, integração
entre cultura e turismo, revitalização rural, regeneração urbana, indústria
cultural, economia da cultura e cooperação internacional.
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AIBO: Uma plataforma de formação e cooperação
A
programação do Seminário foi organizada pela Academy for International Business
Officials (AIBO), instituição vinculada ao Ministério do Comércio da República
Popular da China. Criada em 1980, a Academia realiza desde 1998 programas de
capacitação internacional para autoridades e servidores públicos. Até o final
de 2025, esses programas reuniram mais de 84 mil participantes de 160 países e
organizações internacionais e regionais. Nas duas semanas que estivemos na
China, convivemos com delegações de diversos países, em especial da África,
Ásia e América Latina, que participavam de formações similares nos mais
diferentes temas: saúde, tecnologia e inteligência artificial, comércio
exterior, governança, entre outros temas.
A
escala impressiona, mas o método talvez seja ainda mais significativo. Cada
delegação recebe uma programação adaptada aos seus interesses, combinando
exposições conceituais, observação de experiências e convivência. A formação
funciona, assim, como plataforma de intercâmbio e também como ação de política
externa: apresenta interpretações sobre o desenvolvimento chinês, constrói
relações de confiança e amplia redes de cooperação. Podemos considerar que este
investimento massivo em cooperação internacional é também um elemento de
diplomacia cultural, na medida em que, para além das aulas e conteúdos
formativos, estas iniciativas oferecem a pessoas do mundo inteiro uma
experiência de imersão, convivência e contato direto com a realidade social e
cultural do país.
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Cultura e Projeto Nacional
As
políticas culturais na China integram o arranjo das cinco dimensões do
desenvolvimento — econômica, política, cultural, social e ecológica — e se
relacionam ao horizonte de 2049, centenário da fundação da República Popular da
China. Realizado em outubro de 2022, o XX Congresso Nacional do Partido
Comunista da China conferiu à cultura uma posição central para o
desenvolvimento do país, associando-a diretamente à construção de um Estado
socialista moderno, ao fortalecimento da confiança cultural e ao “rejuvenescimento
da nação chinesa”. No relatório final aprovado, que orienta os cinco anos
seguintes e oferece diretrizes para o horizonte de 2035, a modernização chinesa
é concebida não apenas em termos econômicos e tecnológicos, mas também como um
processo de desenvolvimento A relação entre a tradição cultural milenar chinesa
e o atual projeto de desenvolvimento deve ser compreendida como um processo de
seleção, reinterpretação e atualização política permanente. Depois de momentos
de forte tensão entre revolução e tradição ao longo do século XX, o Presidente
Xi Jinping e a direção atual do Partido Comunista da China atribuem ao
patrimônio histórico, aos valores filosóficos e às expressões culturais
acumuladas em mais de cinco mil anos uma função central na construção da
identidade nacional, na coesão social e na legitimação de um caminho chinês de
modernização. Na perspectiva do Partido, a modernização chinesa necessita de
uma base cultural própria, capaz de evitar tanto a simples reprodução do
passado quanto a assimilação de modelos ocidentais. A cultura milenar passa,
assim, a funcionar simultaneamente como memória civilizacional, recurso para a
inovação, fundamento da confiança cultural e elemento estratégico do projeto de
rejuvenescimento nacional.
As
políticas culturais na China não são, portanto, questões periféricas, acionadas
apenas depois que as prioridades econômicas estão resolvidas. No discurso
oficial do Estado chinês, a cultura ocupa posição central na busca por um
desenvolvimento de “alta qualidade”, da resposta às necessidades da população
por uma vida melhor e da formação de coesão social. O resultado é uma
arquitetura institucional na qual objetivos nacionais são traduzidos em planos
setoriais, políticas provinciais e projetos territoriais.
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Cultura e turismo: integração como método
Em
2018, a China institucionalizou a criação de seu Ministério de Cultura e
Turismo, sob a diretriz de “moldar o turismo por meio da cultura e promover a
cultura por meio do turismo”, orientando uma integração profunda entre os dois
setores. Mais do que uma articulação administrativa, ou subordinação de um
setor ao outro, essa integração revela a centralidade atribuída à cultura como
recurso simultaneamente simbólico, educativo, econômico, territorial e
diplomático, capaz de contribuir para o desenvolvimento de alta qualidade, para
a coesão social, para a revitalização urbana e rural e para a projeção
internacional da China.
Segundo
o professor Zhou Bo, da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, “a
cultura é a alma do turismo, e o turismo é o veículo da cultura”. A cultura
acrescenta profundidade, narrativa e singularidade; o turismo amplia a
circulação, experiência e acesso. A cultura passa, assim, a fornecer conteúdos,
símbolos, narrativas e identidade aos destinos turísticos, enquanto o turismo
se transforma em meio de circulação, valorização econômica e apropriação social
do patrimônio e das expressões culturais. Na prática, essa integração
ultrapassa a criação de atrações para visitantes. Ela envolve patrimônio
material e imaterial, gastronomia, paisagem, comércio, mobilidade, hospedagem,
eventos, produção agrícola e vida cotidiana. O chamado “turismo de abrangência
total” trata uma região inteira como destino, conectando diferentes setores e
escalas de governo.
Outro
aspecto importante é que, a partir de um planejamento estatal centralizado com
execução descentralizada, mas que observa diretrizes nacionais comuns, é
possível implementar soluções em diferentes dimensões e escalas. Uma rede
complexa de atores econômicos e institucionais, envolvendo empresas públicas,
governos locais e provinciais, universidades, institutos de pesquisa e agências
de desenvolvimento, trabalha em sinergia e em distintas modalidades de fomento
a iniciativas culturais e turísticas, com resultados muito diferentes entre si
e igualmente surpreendentes. Apresentamos aqui alguns exemplos, a partir das
visitas técnicas realizadas pela missão brasileira neste intercâmbio:
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798 Art District: memória industrial e reinvenção urbana
Pequim
surpreende pela velocidade e pela escala de suas transformações. No 798 Art
District, essa capacidade de reinvenção ganha forma concreta. O território
abrigava um complexo industrial construído na década de 1950 por técnicos e
arquitetos da antiga Alemanha Oriental e com forte influência do modernismo
industrial associado à escola Bauhaus. Com a desativação de parte das fábricas,
artistas, ateliês e pequenos empreendimentos culturais começaram a ocupar o
espaço no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. O processo, inicialmente
autônomo, foi sendo incorporado às estratégias de desenvolvimento cultural e
transformação urbana de Pequim, especialmente no ciclo de preparação para os
Jogos Olímpicos de 2008. Atualmente, o 798 Art District ocupa aproximadamente
520 mil metros quadrados e reúne mais de 600 instituições e empreendimentos.
Museus, galerias, teatros, salas de concerto, livrarias, centros de design,
tecnologia e artes visuais convivem com restaurantes, lojas e estruturas fabris
preservadas. A memória industrial não foi apagada: tornou-se parte da
identidade do lugar e da experiência oferecida ao público. E o 798 Art District
se tornou um dos principais destinos turísticos e culturais do país.
A
valorização econômica e a expansão comercial e turística evidenciaram também as
contradições deste processo. A chegada de grandes empresas e instituições
culturais nacionais e internacionais ativou o conhecido mecanismo da
especulação imobiliária e começou a deslocar os agentes que iniciaram a
transformação: artistas, criadores e pequenos empreendedores culturais. Uma
tensão que ocorre em diferentes cidades do mundo. Foi necessário então estudar
a replicabilidade do modelo do Distrito 798 em outros territórios, e aí surge
outra experiência exitosa: Langyuan Station.
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Langyuan Station: patrimônio como ativo econômico e cultural
Se o
798 nasceu de uma ocupação artística posteriormente incorporada ao planejamento
urbano, o Langyuan Station permite observar um modelo mais diretamente induzido
pelo poder público. Iniciado em 2019, o projeto foi implantado em uma antiga
área de armazéns da Beijing Textile, conjunto que preserva mais de 30 galpões
das décadas de 1970 e 1980, além de 2,23 quilômetros de ferrovia industrial, em
uma área de aproximadamente 135 mil metros quadrados. O modelo de financiamento
desse processo revela uma forma diferente e inovadora de indução econômica
estatal: o investidor inicial foi o Shouchuang Group, cujo nome oficial é
Beijing Capital Group Co., conglomerado estatal pertencente ao governo
municipal de Pequim. Para o desenvolvimento desta iniciativa, foi criada uma
outra empresa, a Beijing Shouchuang Langyuan Cultural Development Co.,
especializada na transformação e gestão de antigos espaços industriais, que
centrou a sua atuação no território em três dimensões: recuperação
arquitetônica, instalação de empresas culturais e produção contínua de
conteúdos e experiências — exposições, livrarias, teatros, festivais, mercados
criativos, gastronomia e eventos de moda.
Segundo
o Beijing News, esta empresa operadora investiu inicialmente 70 milhões de
yuans na reforma de imóveis alugados, utilizando esse capital como prova de
conceito. Em seguida, o parque atraiu cerca de 1,3 bilhão de yuans de capital
social. A curadoria dos ocupantes também fez parte da estratégia: pequenos
espaços, somando menos de 2 mil metros quadrados, foram oferecidos por três
anos sem aluguel a designers selecionados. A lógica pode ser resumida como:
investimento estatal inicial, produção de identidade cultural do território,
redução do risco e atração posterior de empresas e recursos privados. A
intervenção não buscou restaurar os edifícios como peças congeladas no tempo.
Preservou-se a casca industrial — tijolos, volumetria, trilhos e configuração
geral — enquanto novas estruturas e funções foram inseridas no interior. Uma
lógica que busca combinar preservação do patrimônio com infraestruturas
contemporâneas. A fórmula incentivada na ocupação dos imóveis é “loja na
frente, fábrica atrás”, pela qual empresas de produção e serviços abrem parte
de seus espaços ao público e participam da vida urbana do parque. Langyuan
ajuda a compreender a política chinesa de reforma urbana e como a cultura pode
ser parte deste processo, assim como ilustra uma característica importante do
modelo chinês: o Estado não atua apenas por meio de ministérios, secretarias ou
subsídios, mas também através de empresas estatais capazes de investir,
administrar imóveis, atrair operadores privados e articular objetivos
culturais, urbanísticos e econômicos.
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A China em pequena escala: cultura e turismo
Quando
pensamos na China, geralmente pensamos em grande escala: cerca de 1,4 bilhão de
habitantes, dimensões continentais, megacidades e cifras bilionárias. Mas
existe também uma China em pequena escala. É a China das vilas e aldeias onde
culturas comunitárias se articulam à natureza, à produção agrícola e aos modos
de vida. Os pequenos territórios são parte importante da estratégia nacional do
“turismo de abrangência total”.
Huzhou
é uma cidade de porte médio para os padrões chineses, com cerca de 3,5 milhões
de habitantes, em uma área administrativa que reúne distritos urbanos,
condados, vilas e territórios rurais. Parte significativa de sua população vive
fora dos centros urbanos, portanto os vetores de desenvolvimento que orientam o
planejamento estatal para esses territórios incluem uma combinação entre
atividades industriais, economia rural, patrimônio cultural e políticas de
sustentabilidade cultural e ambiental. A Vila Lu — ou Lucun —, em Huzhou, é um
território de 1,8 mil habitantes reconhecido como “Cidade Mundial do Turismo
Rural” e que abriga a sede permanente da Conferência Mundial de Turismo Rural.
A cultura da seda, os vestígios arqueológicos, a paisagem das águas e a memória
da aldeia formam a base de atividades de hospedagem, formação, criação cultural
e intercâmbio internacional.
Já na
antiga vila de Nanxun, a preservação do patrimônio convive com atividades
culturais, comerciais e turísticas. Encravado em um distrito urbano, o sítio
histórico abriga rios, canais, pontes de pedra e uma arquitetura característica
das antigas cidades mercantis, com intensa circulação cultural e turística —
note-se que estamos falando de turismo interno, de outras regiões e províncias
da China, pois praticamente não vimos turistas ocidentais por ali. Nanxun
possui relação direta com o Grande Canal da China, sítio serial reconhecido
como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2014.
Na Vila
da Cultura do Chá de Meijiawu, no distrito de Xihu, em Hangzhou, a produção
agrícola impulsiona o turismo e novas cadeias econômicas. O cultivo, os saberes
associados ao chá, a gastronomia, a paisagem e a hospitalidade são apresentados
como dimensões complementares de uma mesma experiência. Nesta vila, pudemos
entrar em contato com o dia a dia de habitantes de uma cidade do interior da
China: em meio a uma tarde quente de verão, com as portas das casas abertas,
foi possível entrar, experimentar um chá, e comprá-lo diretamente das mãos dos
pequenos produtores locais. Esses casos mostram que a integração entre cultura
e turismo não é formulada apenas em termos mercadológicos. Ela considera a
permanência das populações no campo, a geração de trabalho e renda, a proteção
do patrimônio, as vocações econômicas locais e a sustentabilidade ambiental.
Isso não elimina conflitos ou assimetrias, mas amplia o campo das políticas
culturais: o território é a unidade que integra a intervenção de um amplo
conjunto de políticas públicas associadas ao desenvolvimento cultural.
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Entre cooperação e soft power
Na
Iniciativa de Civilização Global, proposta pela China em 2023, a cultura ocupa
simultaneamente o lugar de fundamento das trajetórias nacionais de
desenvolvimento e de instrumento para a construção de novas formas de
relacionamento internacional. Sua formulação oficial organiza-se em torno de
quatro princípios: respeito à diversidade das civilizações; reconhecimento de
valores comuns à humanidade; articulação entre herança cultural e inovação; e
fortalecimento dos intercâmbios culturais e das relações entre os povos. Nessa
perspectiva, a Iniciativa de Civilização Global confere à cultura uma função
geopolítica: exposições, seminários, cooperação acadêmica, turismo, tradução de
obras, preservação do patrimônio e programas de formação tornam-se meios de
aproximação diplomática, produção de consensos e projeção internacional da
China.
No
vocabulário ocidental, iniciativas desse tipo são denominadas soft power: a
capacidade de produzir influência por meio de valores, narrativas, relações e
atração, e não apenas por instrumentos econômicos ou militares. A categoria
ajuda a entender, mas não explica tudo o que está em jogo na Iniciativa de
Civilização Global.
A China
compartilha experiências de desenvolvimento e, ao fazê-lo, oferece uma
interpretação sobre sua própria trajetória, seus valores e seu lugar no mundo.
A noção de “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade” organiza
parte dessa narrativa e procura apresentar a cooperação como alternativa a
relações internacionais baseadas exclusivamente na competição. Essa projeção
também se realiza fora dos programas oficiais. Em artigo de opinião publicado
no China Daily em 20 de agosto de 2026, o professor Tseng Taiyuan analisa o
fenômeno chamado “Chinamaxxing”: a incorporação, por jovens ocidentais, de
referências chinesas ligadas ao cotidiano, ao bem-estar, à tecnologia, ao
consumo e à vida urbana. Para o autor, “as percepções públicas globais são moldadas
[…] por experiências humanas compartilhadas e resultados sociais tangíveis”
(tradução nossa). A formulação ajuda a compreender que a influência chinesa no
mundo não circula apenas por discursos ou políticas de Estado, mas por imagens,
práticas, produtos culturais, plataformas digitais e relatos de viagem.
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Questões para o Brasil
Mais do
que modelos prontos para reprodução, a experiência chinesa oferece mecanismos
que merecem ser estudados, conhecidos e avaliados. O primeiro é a capacidade de
planejar em diferentes escalas e horizontes temporais. O segundo é a
articulação entre políticas culturais, turismo, patrimônio, desenvolvimento
urbano e revitalização rural. O terceiro é a ênfase chinesa em considerar a
cultura uma dimensão estratégica das iniciativas de posicionamento do país
diante do mundo.
Para um
observador brasileiro, acostumado à instabilidade política, à descontinuidade
administrativa e à disputa permanente pela legitimidade do investimento
cultural, esse enquadramento produz estranhamento e interesse. A cultura é
mobilizada simultaneamente como direito, recurso simbólico, setor econômico,
componente da identidade nacional e ferramenta de desenvolvimento. O Brasil
parte de outra história, outra organização política e outra concepção de
participação social. Nossa diversidade cultural, nosso federalismo e a presença
ativa da sociedade civil exigem soluções próprias. Ao mesmo tempo, é possível
relacionar a visão estratégica do Estado chinês com o conceito de abrangência
que orienta as políticas culturais no Brasil a partir do início do século XXI.
A abrangência tornou-se, a partir da gestão de Gilberto Gil no MinC (2003-2008),
um princípio estruturante das políticas culturais brasileiras: ampliação do
conceito de cultura, diversificação dos sujeitos reconhecidos pelo Estado,
territorialização do acesso aos recursos públicos e democratização dos
processos de decisão.
O Ano
Cultural Brasil–China 2026, instituído pelos presidentes Luiz Inácio Lula da
Silva e Xi Jinping após as celebrações dos cinquenta anos de relações
diplomáticas em 2024, vem sendo um grande êxito. Segundo dados da Embaixada
brasileira em Pequim, mais de 300 iniciativas e eventos foram ou serão
realizadas como parte desta efeméride entre 2026 e 2027. É preciso aproveitar
este momento como uma janela estratégica para fazer do intercâmbio cultural não
apenas uma sucessão de espetáculos e exposições, mas um campo permanente de
cooperação em políticas públicas. Transformar essa agenda em redes de pesquisa,
programas regulares de formação, traduções, coproduções, residências artísticas
e projetos institucionais duradouros permitirá ampliar o conhecimento recíproco
e construir uma cooperação menos episódica e mais equilibrada. O Ano Cultural
deve ser compreendido, portanto, como ponto de partida para uma política
contínua de intercâmbio cultural entre estes dois países continentais, diversos
e capazes de oferecer caminhos e respostas aos grandes desafios da humanidade
neste turbulento século XXI.
Voltamos
da China com imagens, encontros e memórias, mas também com a percepção de que
as políticas culturais ganham força quando deixam de falar apenas para si
mesmas. Na experiência chinesa, elas dialogam com o território, a economia, a
educação, a tecnologia e a política externa. Talvez esse seja o aprendizado
mais fértil: recolocar a cultura no centro das perguntas sobre desenvolvimento,
democracia, soberania e futuro.
coordenado
entre o progresso material e o avanço cultural e ético da sociedade.
Fonte: Por
Alexandre Santini, em Outras Palavras

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