Medo,
ressentimento e esperança nas urnas
Como
compreender a escolha política dos brasileiros? Muitos de nós pensamos que essa
pergunta pode ser respondida com base em uma identidade política mais ou menos
racional, ligada ao que queremos para o futuro do país, aos programas
apresentados pelos candidatos e às propostas para saúde, educação, segurança,
emprego e renda. Como se, diante de uma eleição, cada um de nós colocasse sobre
a mesa diferentes projetos de sociedade, comparasse suas consequências e
escolhesse aquele que melhor corresponde a nossos interesses e valores. Mas
será que é assim que escolhemos? Quantas pessoas leem programas de governo
antes de votar? Quantas conhecem de fato as propostas econômicas, educacionais
ou de segurança do candidato que escolheram? E quanto daquilo que chamamos de
escolha política é atravessado por experiências menos organizadas
racionalmente, por medos, frustrações, desejos, identificações, ressentimentos
e esperanças?
Foi com
base nessas perguntas que começamos a olhar para as entrevistas de uma pesquisa
que realizamos sobre afetos e extrema direita. Conversamos longamente com
pessoas que votaram em Jair Bolsonaro, tentando compreender não apenas suas
opiniões políticas, mas também como elas se relacionavam com suas histórias,
suas experiências cotidianas e aquilo que sentiam. O que encontramos foram
escolhas políticas profundamente misturadas à vida: o medo da violência, a
dificuldade de manter um pequeno negócio, o emprego que não veio, a profissão
que não puderam seguir, a casa comprada depois de muito esforço, os impostos,
os conflitos com os filhos, as mudanças nas relações entre homens e mulheres, a
sensação de não poder mais dizer o que pensam, o receio de perder aquilo que
conquistaram e o desejo de ter uma vida melhor. Em algum momento, essas
experiências encontram discursos políticos capazes de nomeá-las, relacioná-las
e dizer quem seria responsável por aquilo que está sendo vivido. É aí que uma
experiência cotidiana começa também a se tornar uma experiência política.
Talvez
uma das questões mais importantes para compreender a eleição de 2026 seja
perguntar como aquilo que sentimos encontra uma explicação política. O medo da
violência, por exemplo, não pertence à direita ou à esquerda. É uma experiência
concreta e disseminada na sociedade brasileira. Uma pessoa sai de casa com medo
de ser assaltada, guarda o celular ao entrar em determinada rua, preocupa-se
quando o filho demora a voltar, evita certos lugares da cidade. Em nossa
pesquisa, percebemos que a extrema direita conseguiu dar a esse medo uma
explicação bastante simples e reconhecível: existe violência porque há
impunidade; existe impunidade porque as leis são frouxas e a esquerda protege
os criminosos. A frase “bandido vai morrer” ganha força nesse terreno porque
encontra um medo que já existia e oferece para ele uma causa, um responsável e
uma promessa de proteção. A questão não é apenas saber se alguém sente medo,
mas do que tem medo, a quem atribui esse perigo e em quem reconhece a
possibilidade de proteção.
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“A esperança é o Apocalipse”
Gabriel,
um jovem de 25 anos do Rio de Janeiro, fez campanha para Bolsonaro em 2018 e
anulou o voto quatro anos depois, decepcionado com o ex-presidente. Durante
nossa conversa, repetiu algumas vezes uma expressão que nos chamou a atenção:
“A esquerda me dá pavor”. Quando continuamos a escutá-lo, fomos percebendo
quantas coisas cabiam dentro da palavra “esquerda”. Apareciam as discussões
sobre gênero e sexualidade, a religião, a violência, o Anticristo, a Nova Ordem
Mundial, as mudanças que ele percebia ao seu redor e uma sensação mais ampla de
que o mundo conhecido estava se desfazendo. Em determinado momento, ele nos
disse: “Infelizmente, a esperança é o Apocalipse. Esse mundo, eu acredito que
não vai ter mais jeito, não”. Como compreender uma escolha política sem
compreender também essa sensação de que há um mundo ameaçado? Quando alguém
acredita que aquilo que dá sentido à sua vida está desaparecendo, uma promessa
de restaurar a ordem pode ganhar um significado muito maior do que aquilo que
está escrito em um programa de governo.
Os
afetos não ficam guardados dentro dos indivíduos. Eles circulam socialmente e
vão encontrando palavras, imagens, pessoas e grupos aos quais podem ser
associados. Medos que nascem de experiências muito diferentes acabavam reunidos
em palavras como “esquerda”, “comunismo”, “ideologia de gênero”, “bandidos” ou
“sistema”. O medo da violência se aproxima do medo das mudanças familiares, que
se relaciona ao medo da perda de autoridade, da propriedade ou da suposta ideia
de liberdade de expressão. Experiências diferentes fazem parte de uma mesma
maneira de explicar o mundo e aquilo que parece ameaçá-lo.
O medo
também carrega uma expectativa sobre o futuro. Quando temos medo de perder
alguma coisa, desejamos preservá-la; quando sentimos que algo está ameaçado,
procuramos quem possa protegê-lo. Isso aparece de forma muito concreta na
política. Se alguém acredita que sua família está ameaçada por novas
configurações de gênero, pode se aproximar de quem promete protegê-la (“menina
veste rosa e menino veste azul”); se sente que perdeu autoridade diante dos
filhos, pode desejar alguém que fale em restaurar uma ordem (“escolas militares
para recuperar a hierarquia e a autoridade”); se acredita que sua propriedade
corre risco, procura quem garanta que ela será preservada (“a propriedade
privada é sagrada”); se sente que perdeu a possibilidade de falar livremente,
pode reconhecer naquele que promete devolver essa liberdade uma resposta para
sua própria experiência (“não podemos mais falar nada”, “é preciso acabar com a
censura”).
Por
isso, medo e esperança muitas vezes aparecem juntos: um fala daquilo que
podemos perder; o outro, da possibilidade de recuperar, preservar ou alcançar
alguma coisa.
O
ressentimento apareceu em nossas entrevistas de uma maneira um pouco diferente.
Ele começa a ganhar força quando aquilo que não conseguimos alcançar deixa de
ser vivido apenas como uma frustração e passa a ser sentido como alguma coisa
que nos foi tirada. Não consegui a vaga que queria, não pude seguir a profissão
para a qual estudei, trabalhei muito e não prosperei como esperava, minha
opinião já não é recebida da mesma maneira, meus filhos questionam valores que
antes pareciam evidentes. A pergunta “por que eu não consegui?” se transforma
em “quem ficou com aquilo que deveria ser meu?”. Aqui, a frustração encontra um
responsável, e pode surgir o desejo de que aquilo que se sente ter perdido seja
devolvido. É nesse sentido que o ressentimento ganha força política,
principalmente quando alguém aparece dizendo que sabe quem tirou, quem recebeu
injustamente e quem poderá devolver.
Carolina,
comerciante de 37 anos formada em História pela USP, gostaria de ter seguido
carreira na área, mas a precariedade do salário de professor no estado de São
Paulo levou-a ao comércio e a um pequeno delivery. Durante a entrevista,
repetiu algumas vezes que ninguém deveria ganhar absolutamente nada sem
trabalhar ou lutar muito, disse que “as pessoas têm que conquistar as coisas
pelo próprio suor”. Essa ideia de mérito estava profundamente ligada à própria
frustração. Ela estudou, trabalhou, mas abriu mão de projetos e não conseguiu
seguir a profissão que desejava. Sua própria história aparece então
transformada em uma medida para pensar o que seria justo para os outros: se ela
precisou enfrentar dificuldades e renunciar ao que queria, por que outras pessoas
deveriam encontrar caminhos que ela própria não teve?
Aqui
podemos também pensar em uma dimensão de vingança que nos parece importante
para compreender o ressentimento. Se eu sofri para chegar até aqui, o outro
também deve sofrer. Se ninguém me deu, por que alguém deveria receber? Se eu
tive de abrir mão do que desejava, por que o outro deveria encontrar condições
melhores para realizar seus projetos? A vingança aparece justamente nessa
exigência de que o outro também passe pela privação que marcou minha própria
história. Políticas de transferência de renda, cotas e outras formas de ação do
Estado podem então ser percebidas como privilégios porque parecem permitir ao
outro escapar de uma dificuldade que eu mesmo tive de suportar. O ressentimento
deixa de estar apenas naquilo que não consegui e passa a encontrar satisfação
na ideia de que o outro também não tenha, também não receba, também precise
passar pelo que eu passei. É nesse sentido que a própria frustração pode
produzir um desejo de vingança e encontrar, na política, discursos que prometem
realizá-lo.
Marina,
uma jovem psicóloga de classe alta que entrevistamos, nos levou a outra forma
de ressentimento. Ela dizia sentir que havia perdido a liberdade dentro da
universidade: “Eu sinto que não posso falar mais nada na faculdade, que vou ser
olhada e zombada como a branquinha rica”. Sua fala nos interessa porque aquilo
que ela nomeia como perda de liberdade acontece em um espaço que passou por
mudanças importantes nas últimas décadas. Mulheres, negros, indígenas e pessoas
LGBTQIAPN+ conquistaram lugares de reconhecimento, passaram a ocupar mais a
universidade e também a questionar discursos e posições antes pouco
contestados. Marina continua podendo falar, mas agora sua fala encontra outras
vozes, respostas e questionamentos. É essa experiência que ela sente como perda
e que ganha sentido político quando afirma: “Sinto que, se Bolsonaro ganhar,
não existirá mais esta censura toda”. Há nessa frase uma expectativa de
recuperar alguma coisa que ela acredita ter perdido, e é justamente essa
promessa de restituição que ajuda a compreender como o ressentimento pode se
transformar em adesão política.
Há
ainda uma questão fundamental para pensar a disputa atual. A esquerda
brasileira tem uma longa tradição de compreender a política levando em conta as
condições materiais de vida, o emprego, o salário, a saúde, a educação, a
moradia e o acesso a direitos. Em um país atravessado por desigualdades
profundas, essas dimensões são parte central da vida das pessoas. A própria
experiência neoliberal, marcada pela precarização do trabalho, pela insegurança
em relação ao futuro e por redes frágeis de proteção, mostra que a vida
material é também vivida por meio de afetos. Uma pessoa pode melhorar sua renda
e continuar com medo de perder tudo no mês seguinte; pode colocar a filha na
universidade e viver as transformações daquele espaço como ameaça aos valores
familiares; pode utilizar um serviço público e sentir que o Estado reconhece
mais os outros do que a si; pode ter conseguido comprar uma casa e viver
permanentemente com medo de perdê-la.
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O que pode “virar um voto”?
Talvez
não seja suficiente, portanto, perguntar apenas se a vida das pessoas melhorou
ou piorou. Precisamos perguntar como elas estão vivendo aquilo que mudou, o que
esperavam que acontecesse, o que sentem que conquistaram e o que acreditam ter
perdido. A promessa neoliberal de que o esforço individual produz prosperidade
convive com uma sociedade em que as diferenças de classe permanecem enormes e
em que uma doença, o desemprego ou uma dívida podem desorganizar rapidamente
uma família. Quando a vida não muda tanto quanto se esperava, ou quando aquilo
que foi conquistado parece sempre ameaçado, a insegurança encontra explicações
políticas e também responsáveis. É nesse espaço que o medo e o ressentimento
podem alimentar a esperança de que alguém finalmente coloque as coisas no
lugar.
Talvez
esteja aí uma das forças que a extrema direita brasileira demonstrou nos
últimos anos: conseguir relacionar experiências bastante diferentes em uma
narrativa em que aparecem ordem diante da violência, autoridade diante dos
conflitos familiares, mérito diante da insegurança econômica, liberdade diante
da sensação de censura e restituição diante daquilo que alguém sente ter
perdido. Isso nos coloca uma pergunta importante para 2026: que respostas o
campo progressista consegue oferecer para essas mesmas experiências? Não se
trata apenas de apresentar melhores políticas públicas, embora elas sejam
fundamentais, mas de conseguir falar com pessoas que têm medo, que se sentem
desamparadas, que acreditam ter perdido reconhecimento e que não sabem se a
vida dos filhos será melhor que a delas.
Chegamos,
então, à pergunta sobre o que pode “virar um voto”, sobretudo entre aqueles que
ainda estão indecisos. As entrevistas que fizemos nos fazem duvidar de que isso
aconteça, principalmente quando alguém recebe um dado correto ou quando
mostramos que há uma contradição em suas posições. Uma pessoa pode defender o
SUS e votar em um candidato que pretende reduzir o papel do Estado; pode
defender direitos sociais e rejeitar políticas de transferência de renda; pode
ter melhorado economicamente e continuar sentindo que sua vida piorou. Se
olharmos apenas para a coerência racional dessas posições, provavelmente
perderemos uma parte importante do que está acontecendo.
Um voto
talvez possa mudar quando outra forma de compreender a própria experiência
passe a fazer sentido, quando o medo encontre uma resposta que não dependa da
produção de um inimigo, quando a frustração possa ser reconhecida sem precisar
se transformar em desejo de vingança, quando aquilo que uma pessoa considera
injusto possa ser escutado e quando alguma esperança de futuro volte a parecer
possível. Isso exige uma conversa política menos preocupada em mostrar
imediatamente ao outro que ele está errado e mais interessada em compreender de
onde vem aquilo que ele está dizendo. Do que você tem medo? O que sente que
perdeu? O que considera injusto? O que gostaria que fosse diferente em sua
vida? E o que ainda consegue desejar para o futuro?
Quando
os brasileiros chegarem às urnas em 2026, levarão consigo o salário, o emprego,
o preço dos alimentos, a experiência com o SUS, a escola dos filhos e as contas
que precisam pagar. Levarão também conflitos familiares, frustrações
profissionais, lembranças de humilhação, medo da violência, o desejo de comprar
uma casa, as transformações vividas pelos filhos, aquilo que sentem ter perdido
e aquilo que ainda esperam conquistar. A disputa política passa pela maneira
como essas experiências serão compreendidas e pelas histórias que conseguirão
relacioná-las. Talvez um voto possa virar justamente quando uma pessoa encontra
outra forma de compreender aquilo que sente e, com base nela, consegue imaginar
um futuro que também deseje viver.
Fonte:
Por Lia Vainer Schucman e André Luiz Strappazzon, no Le Monde

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