O
burguês, a elite, o intelectual (e Lula)
Originalmente
por “burguês” se entende o habitante do burgo, o sítio fortificado do medievo.
Em nota à edição inglesa do Manifesto do partido comunista, de Karl
Marx e Friedrich Engels, posteriormente, o conceito ganha contorno científico
para representar “a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios
da produção social e empregadores do trabalho assalariado”. Não obstante, na
linguagem coloquial, incorpora a conotação jocosa e corrosiva da aristocracia –
“rico metido à besta”.
Refere-se
aos esnobes que mensuram o bom gosto pelo preço das mercadorias,
restaurante gourmet, clube de golfe, lancha importada e viagens
internacionais. O GPS identifica o perímetro e a posição na hierarquia da
sociedade. Indiretamente o status quo sinaliza o topo da
pirâmide social, dividida em partes: “alta, média e baixa”. Troca as diferenças
de natureza estrutural pelos degraus na escada vertical do sucesso. Cai no
esquecimento o conflito entre a burguesia e o proletariado.
As
classes dirigentes suprem uma “revolução dos gerentes”; os responsáveis pela
estratégia e os rumos das corporações. A formação de sociedades anônimas, com
os acionistas em assentos na mesa de direção de holdings, celebra o
CEO (Chief Executive Officer / Diretor Executivo); contudo,
refratário ao crachá de burguês.
O
exportador rural de commodities, idem, rejeita o figurino do
personagem urbano que se estende do fabricante até a distribuição dos produtos
no varejo. Já o emoji do comerciante, que se jacta de
atacadões espalhados por cidades, aumenta o preconceito de quem vive só de
renda (rentista) contra o alpinismo da burguesia.
(Lula
investido na função de sindicalista manifesta respeito pelos proprietários das
empresas, no ABC paulista. Negocia e recua, levanta as reivindicações e daí
avança pari passu com os peões. Garante os direitos nas
refregas dos dissídios e dignidade àqueles que dependem, exclusivamente, do
trabalho. Não despreza adversários.)
“Elite”,
na acepção de grupo especial, é um derivativo de “eleito” cujo significado
teológico vem a ser “escolhido por Deus”. O significado político aponta para
uma escolha do “melhor”. Em ambas as hipóteses, expõe a discriminação dos
não-escolhidos e as injustiças nascidas das desigualdades sociais, escancarando
as chagas de um progresso restrito aos pequenos e seletos núcleos de
privilegiados.
Os
vocábulos elitismo e elitista têm viés na soberba. A sugestão alternativa para
amenizar o cacoete antidemocrático dos membros da elite é “liderança”. Mas não
apaga o essencial, isto é, o fato de existir uma forte linha de separação entre
os governantes e os governados. A marca subsiste por detrás da palavra de
veludo, o que é inconveniente para o sistema pelo descrédito à ideia de
mobilidade social.
Estudado
por Robert Michels, na obra Sociologia dos partidos políticos (1915),
o divórcio entre os líderes de uma comunidade política e suas bases obedece a
uma “lei férrea da oligarquia”. Ao se debruçar sobre a estruturação interna da
social-democracia alemã, o autor percebe a constituição do destacamento de
notáveis e suas supostas luzes para compensar uma atávica “incompetência das
massas”.
Se
pesquisasse os ciclos de sovietes na Rússia em conjunturas revolucionárias
(1905, 1917); ou o Orçamento Participativo de Porto Alegre no período
não-revolucionário de fins do século XX, em um contexto de conquistas na
América Latina, o sociólogo germânico nuançaria a tese peremptória. Condições
políticas, econômicas e técnicas influem na formatação do Zeitgeist /
espírito do tempo.
(Lula
forma-se no bojo de mobilizações dos trabalhadores. John D. French, em Lula
e a política da astúcia, vincula organicamente a biografia do metalúrgico
lutador às transformações sociais e políticas ocorridas em São Paulo. É o que,
além da dona Lindu, traça o caminho de sua improvável e vitoriosa ascensão.)
O
“intelectual” integra um segmento particular de “trabalhadores não manuais” (cadres /
quadros), os quais se distinguem pela educação livresca para aplicar na análise
dos fenômenos históricos seus conhecimentos e valores. Abrange artistas e
autodidatas com inserção na cultura e no debate público. Têm independência e
ética ao questionar a precarização do labor, o neocolonialismo, as finanças, as
inovações tecnológicas, a escala 6 por 1. Não suportam a hipocrisia dos
patrões.
A intelligentsia é
uma força auxiliar das classes oprimidas e exploradas. “Não há prática
revolucionária sem teoria revolucionária”, diz um famoso bolchevique. A
intelecto-militância progressista incide na práxis contra a ascensão da extrema
direita no mundo e o genocídio israelense na Faixa de Gaza; em paralelo,
defende a democracia representativa / participativa e um enfrentamento à crise
climática.
Os
intelectuais de vanguarda desfraldam as “visões de mundo” modernas, com as
bandeiras da liberdade, da igualdade e da fraternidade – pessoal e
institucional. Compartilham o desejo de emancipação para romper os grilhões que
acorrentam a humanidade, no capitalismo neoliberal. Assim, constrói-se a
ideologia socialista para recuperar a chama épica da cruzada dos escravizados
com Spartacus para derrotar o Império Romano. A memória do acontecimento nutre
a utopia hoje, a exemplo das ruínas de etnias originárias sobreviventes do
“processo civilizatório”.
Modernamente
o problema se agrava com o monopólio da mídia corporativa, a anfitriã dos
regimes de exceção. As entrevistas de presidenciáveis na Rede Globo dão
provas. Na TV aberta fala grosso sobre ilações com um fiador da democracia, mas
esbarra no estadista. Com o golpista fala manso, receptiva às vis mentiras.
Na GloboNews critica seus atores pela má performance como se
não atuassem, sempre, com um papel no teatro. “Me engana que eu gosto”,
sussurra o ditado.
(Luiz
Inácio Lula da Silva é um dos libertadores, em nosso tempo: fundador do Partido
dos Trabalhadores / PT, da Central Única dos Trabalhadores / CUT e atual
presidente do Brasil. Luta pela soberania nacional e o empoderamento do povo.
Trata-se de uma voz que ressoa na defrontação ao imperialismo estadunidense.)
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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