quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A guerra contra o Irã fracassou em reordenar a Ásia Ocidental

Seis meses depois de Estados Unidos e Israel iniciarem sua guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro, é possível avaliar o conflito não apenas pelos danos provocados ou pelo número de mísseis disparados, mas pela constatação objetiva de que Washington e Tel Aviv não alcançaram seus objetivos estratégicos.

O projeto era muito mais ambicioso do que atingir instalações militares e nucleares iranianas. Pretendiam quebrar a capacidade de dissuasão da República Islâmica, provocar sua desestabilização interna, enfraquecer definitivamente o Eixo da Resistência e abrir caminho para uma nova arquitetura regional sob hegemonia israelense e proteção militar norte-americana.

Nada disso ocorreu como planejado.

O governo iraniano não caiu, o Estado não entrou em colapso e o Irã preservou capacidade suficiente para continuar impondo elevados custos militares, econômicos e estratégicos aos seus adversários.

A guerra que deveria demonstrar a supremacia dos Estados Unidos e Israel transformou-se numa prolongada guerra de desgaste.

E o mais importante nessa equação é que o próprio sistema regional que a guerra pretendia consolidar começou a mostrar suas fragilidades.

Durante décadas, as monarquias do Golfo organizaram parte importante de sua segurança em torno do guarda-chuva militar norte-americano. A guerra demonstrou os limites dessa garantia. Bases, instalações estratégicas, infraestrutura energética e rotas marítimas tornaram-se vulneráveis justamente quando os EUA mobilizaram enorme poder militar para a região.

O Estreito de Ormuz sintetiza essa inversão estratégica. A passagem por onde historicamente transita um quinto do petróleo mundial tornou-se um dos centros da confrontação. Se o objetivo era demonstrar a capacidade dos EUA de controlar militarmente as rotas energéticas da região, o resultado revelou que o Irã possui instrumentos para transformar sua geografia em poder estratégico.

As consequências já ultrapassaram o campo militar. Exportações de petróleo, derivados e gás natural liquefeito foram afetadas. Investimentos em rotas alternativas foram acelerados. O turismo, aviação e atividades industriais sofreram impactos.

Os governos do Golfo são obrigados a gastar bilhões para reduzir sua dependência de Ormuz justamente quando enfrentam maiores pressões sobre defesa, inflação e seus ambiciosos projetos de diversificação econômica.

Isso ajuda a compreender porquê a guerra contra o Irã não pode ser analisada apenas como um confronto bilateral. Ela colocou em questão o modelo de ordem regional construído pelos Estados Unidos durante décadas.

Há também uma transformação interna na doutrina estratégica iraniana.

Como argumentei anteriormente ao definir este período como uma terceira fase da Revolução Islâmica, o Irã parece ter ultrapassado a lógica da chamada “paciência estratégica”.

Dissuasão já não significa simplesmente absorver ataques, evitar uma guerra maior e responder de maneira calculada. Significa também preservar a iniciativa e impor ao adversário custos suficientemente elevados para alterar seus cálculos.

Isso não significa que o Irã tenha abandonado a dimensão regional de sua estratégia. Muito pelo contrário. 

A Palestina continua ocupando posição central, enquanto o Eixo da Resistência atravessa um processo de adaptação às condições criadas pelo confronto direto entre Irã, Estados Unidos e Israel.

É precisamente aqui que aparece outra contradição fundamental da guerra.

Estados Unidos e Israel pretendiam separar o Irã de sua profundidade regional. Entretanto, seis meses de conflito mostraram que a resistência não depende exclusivamente de uma estrutura vertical comandada do Irã.

Líbano, Palestina, Iêmen e outras frentes possuem dinâmicas próprias, ainda que integradas a uma confrontação regional mais ampla.

O memorando firmado em junho tampouco representou uma capitulação iraniana.

Ao contrário, sua própria existência demonstrou que, depois de meses de operações militares, os Estados Unidos teve de negociar com o Estado que pretendia submeter.

As dificuldades posteriores para transformar o entendimento numa solução definitiva, apenas confirmam que nenhuma das questões fundamentais da guerra foi resolvida.

Naturalmente, seria equivocado concluir que o Irã saiu ileso. A República Islâmica sofreu perdas humanas, militares, econômicas e de infraestrutura importantes. Uma guerra de desgaste também impõe enormes sacrifícios à sociedade iraniana.

Mas sobrevivência estratégica importa. E, numa guerra concebida para provocar mudança de regime e redesenhar a correlação de forças da Ásia Ocidental, sobreviver preservando capacidade de dissuasão constitui por si só um resultado político relevante.

Seis meses depois, portanto, a pergunta talvez deva ser invertida.

Não é apenas quanto dano os Estados Unidos e “Israel” conseguiram causar ao Irã, mas quanto a guerra modificou a região em direção oposta àquela imaginada por seus arquitetos.

O Irã permanece de pé. Ormuz tornou-se demonstração concreta dos limites do poder norte-americano. As monarquias do Golfo reconsideram suas vulnerabilidades e parcerias de segurança. O Eixo da Resistência não desapareceu. E a prometida supremacia regional israelense continua distante.

A guerra destinada a produzir uma nova Ásia Ocidental pode estar produzindo outra, mas não aquela que Estados Unidos e Israel planejaram.

Ø  Guerras e persistências históricas no Oriente Médio contemporâneo. Por Juan Magalhães

Em outubro de 1979, poucos meses depois da Revolução Iraniana, um estudo preparado pela Analytical Assessments Corporation sob contrato com o governo dos Estados Unidos procurou reconstruir a crise que destruiu um dos pilares da presença norte-americana no Oriente Médio. O aparato de inteligência dos Estados Unidos foi severamente criticado por não ter antecipado adequadamente os acontecimentos antes mesmo da partida de Mohammad Reza Pahlavi. Contudo, o problema não residia na carência de informações, mas na dificuldade de reconhecer o significado dos acontecimentos à medida que se desenrolavam.  

A cronologia torna o contraste eloquente: em 12 de dezembro de 1978, Jimmy Carter reiterou publicamente apoio e confiança no Xá; em 16 de janeiro de 1979, Pahlavi deixava o país. Quase meio século depois, a questão retorna: Estados Unidos e Israel voltam a conhecer muito sobre as capacidades materiais iranianas e pouco sobre a natureza de seu poder? 

Osvaldo Coggiola restitui à Revolução de 1979 uma historicidade que remonta à questão petrolífera, ao nacionalismo de Mohammad Mossadegh, à intervenção de 1953, à modernização autoritária dos Pahlavi e às contradições sociais que acompanharam a transformação do país. O Estado imperial possuía petróleo, forças armadas poderosas, polícia política (Savak) e proteção de Washington; tamanho aparato coexistia com a erosão da autoridade política. A ruptura de 1979 tampouco eliminou questões persistentes da história iraniana: soberania, autonomia diante das grandes potências e reivindicação de um lugar próprio na ordem regional sobreviveram à monarquia, ainda que profundamente ressignificadas pela República Islâmica. Edward Said permite compreender uma dimensão mais profunda desse paradoxo. O orientalismo articula representação, conhecimento e poder, tornando o Oriente inteligível por categorias constituídas também na experiência histórica daqueles que o observam e dominam. Aplicada ao Irã, a crítica saidiana suscita uma questão perturbadora: até que ponto determinadas concepções de racionalidade, modernidade e força tornaram invisíveis formas de agência que escapavam às categorias pelas quais o poder ocidental reconhecia a si próprio? O problema talvez resida precisamente na distância entre conhecer o Irã como objeto estratégico e reconhecê-lo como sujeito histórico. 

A Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, deveria ter abalado essa gramática. Israel demonstrou extraordinária capacidade de inteligência, infiltração e ataque, alcançando instalações estratégicas e integrantes centrais dos aparatos militar e científico iranianos. A lógica da guerra permanente encontrava, contudo, uma configuração distinta daquela constituída em Gaza. No território palestino, a integração entre vigilância massiva, inteligência artificial e produção acelerada de alvos, por meio de sistemas como Habsora, Lavender e Where’s Daddy?, aprofundou aquilo que denominei algoritmização da morte: a conversão da decisão letal em gestão estatística de populações submetidas a uma colonialidade algorítmica, na qual dados e inferências probabilísticas participam da produção tecnológica de vidas classificadas como elimináveis.  

Contra o Irã, inteligência, tecnologia e poder aéreo encontraram a Guarda Revolucionária, as forças armadas regulares, a capacidade missilística e meios de retaliação. A algoritmização da morte encontrava, assim, uma nova condição política: o sujeito convertido em alvo conservava meios para retaliar. A tecnologia israelense preservou enorme capacidade destrutiva, mas perdeu o privilégio da unilateralidade. Teerã podia devolver a guerra e fazê-la chegar a Tel Aviv, Ben Gurion e Jerusalém. 

A guerra de 2026, tornou essa capacidade materialmente incontornável. A força missilística iraniana atingiu instalações norte-americanas espalhadas pelo Golfo e demonstrou alcance suficiente para transformar bases, radares, hangares, tropas e infraestrutura logística em superfícies de vulnerabilidade. Desde os primeiros dias do conflito, Teerã manteve ataques contra países que abrigam forças dos Estados Unidos; meses depois, mísseis iranianos continuavam sendo empregados contra instalações norte-americanas no Kuwait, Bahrein e Jordânia. Em abril, a própria Força Aérea dos Estados Unidos confirmou que um F-15E fora abatido durante missão de combate sobre território iraniano, com posterior resgate de seus dois tripulantes. A relevância estratégica ultrapassa a contabilidade de perdas. A missilística iraniana demonstrou capacidade de atingir materialmente a infraestrutura sobre a qual repousa a presença militar adversária na região: a geografia construída durante décadas para projetar poder sobre o Irã converteu-se na geografia da vulnerabilidade norte-americana. 

A sobrevivência iraniana possui uma história própria. Desde a guerra Irã-Iraque, a República Islâmica desenvolveu instituições, doutrinas militares e uma cultura política atravessadas pela experiência de enfrentar adversários poderosos. A reflexão de Gopal Balakrishnan sobre a guerra como elemento de coesão nacional oferece uma chave particularmente fecunda quando aplicada à experiência iraniana: a agressão externa pode reorganizar antagonismos internos e produzir solidariedades em torno da defesa da soberania. A guerra concebida para fragilizar o regime pode oferecer também mecanismos para sua reprodução política. A capacidade de sobreviver deixa, assim, de representar mera resistência passiva e transforma-se em componente do próprio poder. 

A profundidade regional construída por Teerã amplia esse poder. Hezbollah, Houthis e organizações armadas iraquianas possuem histórias, interesses e bases sociais próprias, enquanto décadas de relações com a República Islâmica criaram uma arquitetura capaz de deslocar a confrontação para diferentes teatros. O Líbano tornou-se particularmente revelador: quando Israel ampliou seus ataques ao território libanês em abril, Teerã ameaçou retaliar e vinculou a escalada à continuidade das negociações com Washington. A segurança do Hezbollah passou, assim, a integrar o cálculo político de uma confrontação muito mais ampla. A capacidade de barganha iraniana adquire aqui uma dimensão qualitativamente nova: a liberdade de ação israelense passa a encontrar limites produzidos também pela possibilidade de respostas iranianas e pela necessidade norte-americana de administrar uma guerra regional. Hormuz acrescenta uma geografia política a esse dispositivo. Mísseis, alianças e corredores estratégicos convergem numa mesma capacidade: impedir que uma guerra contra o Irã permaneça confinada ao Irã. Mesmo após meses de ataques norte-americanos, Teerã continuava ameaçando passar a uma postura plenamente ofensiva caso as negociações fracassassem e mantendo sua capacidade de atingir bases dos Estados Unidos na região. 

A recorrência histórica torna-se difícil de ignorar. Em 1979, os atributos visíveis do poder esconderam a fragilidade política do Xá. Em 2025, a eficácia da inteligência e da ofensiva israelense alimentou interpretações que confundiam penetração militar com derrota estratégica. Em 2026, a capacidade missilística, a sobrevivência estatal e a profundidade regional iranianas voltaram a desafiar prognósticos construídos predominantemente a partir das capacidades de seus adversários. Os episódios pertencem a conjunturas distintas, mas revelam uma dificuldade persistente de reconhecer formas de poder que escapam aos critérios utilizados para medi-lo. 

A convergência dessas lentes analíticas é reveladora. Se a historicidade da revolução explica a crise do Xá, a relação entre guerra e coesão, aplicada à experiência iraniana, ajuda a compreender a capacidade de sobrevivência da República Islâmica. A crítica ao orientalismo, por sua vez, explicita por que certas formas de poder só adquirem inteligibilidade plena após produzirem seus efeitos. O contraste histórico é eloquente: o Xá parecia sólido e ruiu; a República Islâmica foi descrita como vulnerável e sobreviveu. Enquanto Israel demonstrou capacidade de infiltrar-se no território iraniano, Teerã provou ser capaz de projetar a guerra nos espaços de poder de seus adversários. A algoritmização da morte encontrou no Irã os limites políticos impostos por um sujeito capaz de devolver a violência; a superioridade tecnológica perdeu, assim, o privilégio da unilateralidade. Quase meio século depois do erro de cálculo registrado pela documentação norte-americana de 1979, permanece uma pergunta desconfortável: quantas vezes será preciso subestimar o Irã antes de reconhecer que o problema talvez resida também nas categorias utilizadas para medir seu poder? 

Ø  No contexto das sanções dos EUA, presidente do Irã propõe que a OCX use moedas nacionais

O presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, em meio à pressão econômica dos EUA, propôs aos países da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) para efetuar pagamentos usando moedas nacionais.

O líder americano, Donald Trump, havia anteriormente anunciado uma operação econômica contra o Irã. Ele chamou a operação de "um isolamento de escala sem precedentes" e pediu aos aliados que se juntassem a Washington.

"O Irã propõe três determinadas iniciativas. Em primeiro lugar, trata-se de um aprofundamento da cooperação financeira e bancária que incluiria uma utilização mais ampla das moedas nacionais em transações mútuas entre membros da OCX e fora da organização, a criação de mecanismos conjuntos de pagamentos e financiamento e, em última análise, a criação de um banco da OCX", disse Pezeshkian na cúpula da OCX.

O presidente iraniano também afirmou que tais ações financeiras seriam um passo eficaz para aumentar as oportunidades de cooperação econômica entre os países-membros da OCX e reduziriam a vulnerabilidade das cadeias comerciais à interferência externa, aponta o texto do seu discurso publicado no site.

 

Fonte: Por Sayid Marcos Tenório, para Opera Mundi/Le Monde/Sputnik Brasil

 

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