Um
terço dos deputados reeleitos apoiou Lula e Bolsonaro
Apesar
de representarem agendas políticas muito distintas, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) e seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contaram com o
apoio de um mesmo grupo de parlamentares para aprovar propostas do governo no
Congresso. Levantamento da DW mostra que mais de um terço dos deputados que
atuaram nos dois mandatos presidenciais acompanhou a orientação do Executivo em
ao menos 70% das votações.
Ao
todo, 114 parlamentares seguiram a orientação do Planalto nos dois períodos, de
um universo de 312 que participaram de votações em ambos os governos, incluindo
suplentes. Os votos pró-Lula foram calculados do início de sua terceira gestão
até julho de 2026.
A
fidelidade desse grupo supera com folga a média da Câmara. Eles acompanharam
Bolsonaro em 89% das votações disputadas e Lula em 80%. Entre os demais
parlamentares, os índices foram de 66% e 61%, respectivamente.
A
adesão se concentrou nas pautas econômicas e de governabilidade e diminuiu em
temas ligados a costumes, meio ambiente, defesa e questão fundiária.
O apoio
foi decisivo para aprovar pautas centrais de cada gestão. Na reforma da
Previdência, uma das principais vitórias do governo Bolsonaro, o grupo votou
com o Executivo em 92% das ocasiões. No arcabouço fiscal, peça-chave da
política econômica de Lula, a adesão chegou a 95%. Na reforma tributária, ficou
em 92%. Nos três casos, os demais deputados registraram índices entre 66% e
70%.
A DW
analisou 2.021 votações nominais realizadas nas duas gestões, envolvendo
projetos de lei, leis complementares, PECs e medidas provisórias, em que houve
ao menos 10% de divergência entre os votos, excluindo, portanto, deliberações
praticamente consensuais.
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Partidos sustentaram os dois governos
Consideradas
as bancadas, sete partidos votaram com os dois presidentes em mais de 65% das
votações disputadas. Lideram a lista Solidariedade (83% com Bolsonaro e 81% com
Lula), Republicanos (92% e 71%), PSD (87% e 73%), Podemos (84% e 73%), PP (93%
e 65%), Avante (74% e 80%) e MDB (84% e 69%). O União Brasil teve adesão menor
a Lula, de 57%.
O
cálculo reúne os votos dos deputados de cada partido em cada governo,
considerando a legenda à qual pertenciam no momento da votação. Nos casos de
fusões ou mudanças de nome, os votos foram atribuídos à sigla atual.
Juntas,
essas legendas controlam cerca de 200 das 513 cadeiras da Câmara, mais do que
PT e PL somados. Nenhuma lançou um candidato competitivo à Presidência da
República nas eleições mais recentes. No Legislativo, porém, elas concentraram
todos os presidentes da Câmara e do Senado desde 2019: Rodrigo Maia (DEM, atual
União Brasil), Arthur Lira (PP), Hugo Motta (Republicanos), Davi Alcolumbre
(DEM/União Brasil) e Rodrigo Pacheco (PSD).
O grupo
também se destaca pela capacidade de reter seus quadros. Dos 114 deputados
identificados no levantamento, 33 trocaram de partido entre o governo Bolsonaro
e a legislatura atual. Em pelo menos 85% dos casos, as mudanças ocorreram
dentro do mesmo bloco político. Houve migrações, por exemplo, do PP para o
União Brasil, do Republicanos para o PSD e do PSC para o MDB. Apenas três
parlamentares saíram efetivamente desse grupo, todos em direção à base
governista de Lula, filiando-se ao PSB ou ao PDT.
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A evolução do Centrão
A
consolidação de um grupo de centro no Legislativo brasileiro remonta à
Assembleia Constituinte de 1987. Organizado para frear propostas da Comissão de
Sistematização, o bloco se apresentou como "centro democrático" e
passou a compor a base de sustentação do governo José Sarney (1985-1990),
explica o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
"Naquela
época pegava mal falar que era de direita por conta da associação da direita
com a ditadura militar. Quem era de direita se dizia de centro. Isso produziu
um padrão que depois se perpetuou", afirma.
Presente
nas negociações entre Executivo e Legislativo desde então, o grupo que hoje
recebe o rótulo de Centrão ganhou novas características ao longo das décadas e
passou a ocupar posição central num Congresso cada vez mais fortalecido.
Para a
cientista política Graziella Testa, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o
bloco ressurgiu com uma nova roupagem em 2015, durante a presidência de Eduardo
Cunha na Câmara e o processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. A
partir daí, o Congresso ampliou seu poder sobre o Executivo, tanto pela
capacidade demonstrada de afastar um presidente eleito quanto pelo controle
crescente sobre a alocação de recursos orçamentários.
Como a
DW mostrou, as mudanças nas emendas parlamentares ao longo da última década
transferiram para a cúpula do Congresso protagonismo nas negociações com o
Planalto. No governo Michel Temer(MDB), avalia Testa, a convergência entre
Executivo e Legislativo foi mais natural, já que o presidente governava com
apoio de
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Emendas de relator ampliam poder do Centrão
A
autonomia do Centrão ganhou novo impulso a partir de 2019. No governo
Bolsonaro, a execução obrigatória das emendas de bancada se somou à expansão
das emendas de relator, mecanismo que ficou conhecido como Orçamento Secreto.
Nos
primeiros anos de mandato, Bolsonaro optou por não formar uma coalizão
tradicional. "Embora ele tenha trazido para dentro do governo pessoas de
outros partidos, elas não estavam ali como representantes dessas legendas, mas
como escolhas pessoais do presidente. Ele abdicava de coordenar o processo
legislativo", avalia a cientista política Andrea Marcondes de Freitas, da
Unicamp e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop).
Para
governar, Bolsonaro passou a depender da influência do então presidente da
Câmara, Arthur Lira, que acumulou um nível de poder inédito no cargo. Em 2022,
Lira chegou a patrocinar um grupo de trabalho para discutir a adoção do
semipresidencialismo, ampliando o poder do Congresso, mas a proposta não
avançou.
Lula
enfrenta um cenário distinto. Embora tenha incorporado partidos de centro e de
direita ao governo, isso não se traduziu automaticamente em apoio no Congresso,
o que resultou em sucessivas crises de governabilidade.
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Ideologia e fisiologia
Para
Couto, o fortalecimento do poder do Centrão sobre o orçamento produziu um
efeito paradoxal. "Como ele tem mais poder orçamentário, não depende tanto
de fazer concessões substantivas ao Executivo para obter sustentação. Esse
Congresso ultrafisiológico pode ser também mais ideológico porque não precisa
fazer concessões. Então o cenário para um presidente desalinhado [ao Centrão]
se torna ainda mais complicado."
Os
especialistas concordam que, apesar do rótulo, o Centrão não atua como um bloco
único. "A palavra Centrão dá uma ideia de coesão, mas esse centro não é
nada coeso", afirma Freitas. "Isso permite que alguns desses partidos
estejam com um governo, outros com o outro, sem que o conjunto completo esteja
integralmente em qualquer um dos lados."
Na
prática, diz ela, trata-se de um grupo de siglas dispostas a negociar
independentemente com quem ocupa a Presidência da República. "Dentro desse
grupo há evangélicos, representantes da bancada da bala e do agronegócio. Como
o Congresso vota temas muito variados, existe a possibilidade de apoiar
governos diferentes em pautas diferentes."
O
levantamento da DW ilustra esse comportamento. Quando as votações são separadas
por tema, a fidelidade dos 114 parlamentares aos dois governos permanece
praticamente igual em algumas áreas e cai drasticamente em outras.
O grupo
apoia as duas gestões em projetos ligados à indústria, comércio e serviços (95%
com Bolsonaro e 94% com Lula), transportes (91% e 89%), finanças públicas e
orçamento (90% e 89%) e trabalho (90% e 85%).
Em
outras áreas, porém, o comportamento muda. Os índices de apoio a Bolsonaro
superam 85% em temas como defesa, agricultura, meio ambiente e estrutura
fundiária. Já no governo Lula, a adesão cai para 69% em meio ambiente, 50% em
defesa, 36% em agricultura e apenas 16% em estrutura fundiária, categoria que
inclui a demarcação de terras indígenas.
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Do lado do vencedor
Para
Testa, os números levantados pela DW mostram a capacidade do grupo de apoiar
governos de diferentes orientações.
"Em
alguns casos, pode render muitos votos apoiar Bolsonaro, ser extremamente
conservador ou até reacionário na pauta de costumes, desde que isso implique
ser eleito e levar recursos para sua base. Essa turma que era superfiel ao
Bolsonaro pode vir a ser superfiel ao Lula."
Mas o
cenário é assimétrico, diz Freitas. "Nenhum dos dois lados tem maioria no
Legislativo, o que torna possível construir uma base com esse centro. Mas é
importante lembrar que esse centro está um pouco mais à direita. Por isso, essa
construção tende a ser mais difícil para um partido de esquerda do que para um
partido de direita."
Às
vésperas da disputa presidencial de 2026, nem Lula nem Flávio Bolsonaro
conseguiram obter declarações explícitas de apoio desses partidos, que
preferiram manter margem de manobra. "Republicanos e PP estavam com Jair
Bolsonaro. Nesta eleição, não estão com Flávio Bolsonaro. É mais um sinal de
para onde eles podem caminhar no próximo período", completa Couto.
Fonte:
Por Gustavo Queiroz, em DW Brasil

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