quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Brasil que vai às urnas já mudou

O país que irá às urnas nos próximos meses não é o mesmo das eleições anteriores. O calor extremo afeta a saúde, o trabalho e a produtividade. Secas pressionam cidades, lavouras e sistemas de energia. Chuvas intensas, enchentes e incêndios tornam-se cada vez mais frequentes e custosos. Em grande parte do território nacional, os impactos da mudança do clima já fazem parte da realidade cotidiana.

Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, segundo dados divulgados pelo SEEG/Observatório do Clima com base no Climate Watch. O dado revela um duplo desafio: lidar com os impactos que já atingem a população e acelerar a transição para um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir emissões e enfrentar um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.

Durante muito tempo, as mudanças do clima foram tratadas como uma ameaça distante. Essa distância desapareceu. O clima passou a influenciar diretamente a forma como produzimos alimentos, planejamos cidades, organizamos sistemas de saúde, garantimos segurança hídrica e estruturamos a economia.

O clima deixou de ser uma variável externa ao desenvolvimento. Hoje, ajuda a determinar seus limites e possibilidades.

<><> A nova infraestrutura do desenvolvimento

Adaptar o país significa reduzir riscos, proteger vidas e criar condições para que cidades, serviços públicos e atividades produtivas continuem funcionando em um cenário de temperaturas mais elevadas e eventos extremos mais frequentes. Significa preparar hospitais para ondas de calor, fortalecer sistemas de alerta e defesa civil, proteger encostas, rodovias e zonas costeiras, garantir segurança hídrica e construir uma agricultura mais resiliente.

Mas a infraestrutura da adaptação não será feita apenas de concreto, aço e tecnologia. Ela dependerá também da proteção dos sistemas naturais que sustentam a economia e a qualidade de vida da população.

Rios, nascentes, aquíferos, manguezais, áreas úmidas e bacias hidrográficas garantem água para cidades, agricultura e energia. Da mesma forma, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa não são apenas patrimônios naturais. São sistemas vivos que regulam chuvas, protegem solos, armazenam carbono e ajudam a sustentar a produção de alimentos, a geração de energia e o desenvolvimento econômico. Fragilizá-los significa aumentar a vulnerabilidade do país justamente quando mais precisamos de resiliência.

<><> Há caminhos para seguir adiante

O Brasil já começou a construir respostas para esse desafio. O Plano Clima 2024-2035 reúne mais de 800 ações voltadas à adaptação e à redução dos riscos climáticos em áreas como saúde, recursos hídricos, cidades, energia, agricultura, gestão de riscos, povos indígenas e comunidades tradicionais. O plano reflete uma mudança importante: adaptar o país deixou de ser uma tarefa setorial e passou a ser uma estratégia nacional. Também reconhece que povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais não apenas enfrentam os impactos da mudança do clima, mas acumulam conhecimentos valiosos para um planejamento mais conectado aos ritmos, limites e respostas que a própria natureza oferece.

Entre as oportunidades mais imediatas estão soluções capazes de combinar benefícios ambientais, econômicos e sociais. É o caso da gestão de resíduos. Lixões e aterros inadequados contaminam solos e águas e emitem metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes da atualidade. Encerrar lixões, ampliar a coleta seletiva, investir em compostagem e aproveitar o biogás para produzir biometano reduz emissões, gera energia e movimenta economias locais. Algumas cidades brasileiras já demonstram que proteção ambiental, inovação e desenvolvimento podem caminhar juntos.

<><> A pergunta que esta eleição precisa responder

É justamente por isso que o período eleitoral merece atenção especial.

A partir de agora ouviremos propostas para saúde, educação, emprego, habitação, infraestrutura, agricultura, energia e desenvolvimento regional. A questão é simples: elas fazem sentido diante do Brasil que temos pela frente?

Uma política habitacional considera o aumento das temperaturas e os riscos de enchentes? Uma política agrícola protege a água e o solo? Um programa de saúde prepara a rede pública para eventos climáticos mais frequentes? Um projeto de infraestrutura incorpora os riscos das próximas décadas? Há compromisso com a proteção dos ecossistemas que sustentam a economia, a segurança hídrica e a qualidade de vida da população?

Se o século XX exigiu a construção da infraestrutura do desenvolvimento, o século XXI exigirá a construção da infraestrutura da adaptação.

Por isso, vale observar quem compreendeu a dimensão dessa tarefa. Quem pretende proteger nossas águas, preparar nossas cidades, fortalecer a produção de alimentos, reduzir riscos climáticos e garantir os direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujos territórios desempenham papel decisivo para a conservação da biodiversidade, a estabilidade climática e a segurança hídrica do Brasil.

O desafio desta eleição não é apenas escolher quem governará os próximos anos. É escolher quem está preparado para governar um país que já enfrenta uma nova realidade climática.

Ignorar essa transformação não fará com que ela desapareça. Apenas tornará seus custos maiores, suas desigualdades mais profundas e seus impactos mais difíceis de enfrentar.

O Brasil que vai às urnas já mudou.

A questão agora é se mudaremos junto com ele.

As escolhas feitas nos próximos anos definirão nossa capacidade de proteger vidas, garantir segurança hídrica, fortalecer a produção de alimentos e reduzir riscos crescentes.

O clima já mudou. Resta saber se nossas escolhas estarão à altura dessa nova realidade.

¨      Velha e nova linguagem da política nas eleições. Por Fran de Oliveira Alavina

Uma questão candente, particularmente à esquerda, que, durante as eleições, ganha ainda maior centralidade, é o uso das redes sociais e do aparato tecnológico digital na política, ou seja, o espaço e a instrumentalização da internet. Mais ultimamente, com o avanço da Inteligência artificial, esta instrumentalização tende a se tornar corriqueira. É o caso, por exemplo, dos vídeos feitos pela inteligência artificial, por parte de Donald Trump, com revide do Irã, como armas de guerra. Também o julgamento no STF sobre o uso das deepfakes.

No nosso caso brasileiro, ainda há o chavão de que as esquerdas precisam se apropriar das “armas digitais” como tecnologia política imediata e eficaz para fazer frente aos avanços do reacionarismo contemporâneo. A noção de que a direita sabe manejar com destreza os meios digitais e de que a esquerda é semianalfabeta neles é bem expressiva, especialmente quando vemos um movimento de esquerda insistir na panfletagem enquanto um direitista que usa sua conta no Instagram, ou no X, antigo Twitter, escrevendo com as tintas invisíveis dos algoritmos, parece ter mais poder que o diálogo franco e direto de panfletos em mãos.

Se é verdade que um estrondoso sucesso nas bolhas das redes não é certeza plena de vitória eleitoral, não é menos verdade que o uso das redes não se trata apenas de um meio secundário, ou mesmo instrumental. As redes fagocitam cada vez mais aquilo que entediamos por opinião pública, formada no bojo das democracias liberais, e um de seus sustentáculos.

É sintomático que o modelo das democracias liberais esteja em crise no momento que os jornais impressos desaparecem e os meios de comunicação da era analógica claudicam. Parece, contudo, que ainda não temos todos os elementos para afirmar que o que denominamos por muito tempo como opinião pública acabou, ou se temos um novo tipo de elemento.

Recordemos de dois anos atrás, quando, nas eleições municipais, tivemos um exemplo do confronto entre a linguagem analógica na política e a linguagem digital. A cadeirada do apresentador de TV Datena em Pablo Marçal foi como o estrebuchar de uma linguagem que, respirando ofegante, dá claros sinais de seu esgotamento. Talvez, por isso, aquele tenha sido um dos acontecimentos mais expressivos do último pleito eleitoral.

Com a chegada das eleições presidenciais, as tradicionais linguagens da política – tanto a clássica, presente no interior do pensamento político antigo, quanto a da filosofia política moderna, que alcançou os meios analógicos – se encontram com a nova. Não apenas se encontram, mas enfrentam. Por se tratar de diferentes linguagens políticas, são também três modos distintos de concepção do político e da ação política.

Não é completamente ocasional que, antes das mídias digitais, a mentira na política fosse encarada quase como algo natural desta seara. É próprio do político convencer sobre suas promessas, ainda que não as cumpra. No entanto, o que ocorre é que uma fake news não é simplesmente a afirmação de uma mentira durante um discurso, ou uma promessa de campanha anunciada em um debate televisivo. Lembremos que, quando se espalhou a absurda fake news da mamadeira de piroc@, o candidato beneficiado nunca se referiu a ela publicamente, nem acusou diretamente seu adversário político.

É próprio de uma fake news que ela tenha sua origem ocultada e que, justamente por isso, se alastre rapidamente, pois deixa de ter um teor de notícia, ou promessa política para se infiltrar como realidade naturalizada. Ela está além do convencimento clássico ou liberal exigido pelos regimes democráticos. Talvez sua melhor definição seja a de “falsidade naturalizada”, e não simplesmente de mentira política estúpida, repetida em escala industrial. Desse modo, sob a égide de uma falsidade naturalizada se estrutura boa parte da nova linguagem da política.

As eleições de 2026, em que a disputa principal se orienta entre Lula e Flávio Bolsonaro, assim, dão azo aos embates entre um modo tradicional da linguagem política, ancorado na história e na realidade mediada pela biografia de um dos sujeitos, e um outro tipo, que se escora não na realidade de sua própria história, visto que ela não existe ou é falseada, e sim na herança da figura política paterna e em uma imagem construída a partir da linguagem das redes digitais.

Uma prova desta distinção pode ser facilmente encontrada nas diferenças de duração entre os discursos dos dois principais candidatos. Não é apenas uma questão de desenvoltura pessoal, mas uma manifestação de formas distintas da linguagem política. A mediação de Flávio Bolsonaro está mais presente nas redes e na herança política do pai, não naquilo que a própria seara política lhe pode oferecer.

Ademais, ele e seu pai são construtores da negação democrática e, assim, a negação da linguagem típica das democracias liberais lhes serve como ótima ferramenta. Em outros termos, a linguagem ensejada pelas determinações das redes nos parece não apenas diferente, mas corrosiva das linguagens políticas anteriores.

Se é coerente que cada regime político tem sua linguagem política própria (um conjunto de modos dizer seja por palavras, por imagens ou atitudes feitas para gerarem adesão) estamos no meio de uma colisão entre antigas e nova.

À medida que a campanha avançar, como o filho não herdou o carisma conservador do pai, provavelmente veremos Flávio Bolsonaro, cada vez mais, tentar aproximar seu discurso político daquele de um coach, mas como ele não advém deste mundo, não saberá se expressar de fato como um.

A erosão das antigas formas e a ascensão de novas linguagens políticas também explicam, em parte, o surgimento de figuras como Pablo Marçal. Foi-se o tempo em que a figura dos políticos empresários e apresentadores de TV traziam para a política uma linguagem que lhe era estranha: a do mundo coorporativo dos negócios e a do entretenimento analógico.

Agora, a mudança é muito mais disruptiva, pois a linguagem das redes é a linguagem cotidiana, sempre mais naturalizada.  No intercâmbio entre as redes e a política não será de se estranhar: em vez dos discursos, as lives, em vez de comícios, a viralização com os reels do Instagram.

É preciso, dessa maneira, sair da posição reativa na qual se aponta uma apropriação do espaço e da linguagem digital; é preciso investigar como se articulam a destruição dos liames políticos pelos reacionarismos contemporâneos e a concepção digital do mundo. Isto é, não pensar a internet somente como um meio, também como um fim.

Por isso, o leitor mais empedernido, que considera esse tema secundário, ao menos esteja ciente de que ele é decisivo não só nas urnas, mas na compreensão dessa densa atualidade. Resta uma questão, que fica em aberto: que categorias e conceitos podemos utilizar ou devemos criar para pensar a partir desse momento no qual o último líder político advindo das formas clássicas da linguagem política se opõe eleitoralmente à sua nova forma?

 

Fonte: Uma Gota no Oceano/A Terra é Redonda

 

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