“Augusto
Cury é uma nulidade, mas é extremamente perigoso”, diz Marcos Coimbra
A
súbita arrancada eleitoral do escritor e médico psiquiatra Augusto Cury
(Avante), que saltou de patamares residuais para a faixa dos dois dígitos nas
pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, acendeu o sinal
de alerta no debate político nacional. Em análise contundente na TV 247, o
sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, fez um
diagnóstico severo sobre o fenômeno: tratou a pré-candidatura como um produto
de puro impulsionamento algorítmico, sem lastro social ou densidade
programática, classificando-a como um “monstrengo” eleitoral perigoso para as
instituições democráticas brasileiras.
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Para
Coimbra, a transformação repentina de notoriedade em intenção de voto não
expressa vitalidade política, mas sim um processo acelerado de deseducação do
eleitorado e captura do debate público por estratégias de marketing digital
desprovidas de substância.
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O perigo da “nulidade” impulsionada
Durante
o programa, Coimbra enfatizou que o crescimento relâmpago de Cury nas sondagens
expõe uma fragilidade estrutural na cultura política contemporânea, em que o
volume de recursos em anúncios pagos sobrepuja a trajetória e os compromissos
públicos.
“Esse
crescimento espetacular é prova da ausência de conteúdo. Quem cresce de um dia
para o outro dez pontos é porque não tinha nenhuma razão para crescer. Aparece
um sujeito, gasta uma fortuna impulsionando milhões de repetições nas redes e,
de repente, vira candidato de dez milhões de eleitores que ontem sequer sabiam
o que ele pensa para o país”, pontuou Coimbra.
O
sociólogo advertiu que a notoriedade obtida no mercado editorial e nas redes
sociais é qualitativamente distinta do preparo necessário para governar uma das
maiores economias do planeta:
“O
Brasil é a oitava ou nona maior economia do mundo. Você vai pegar um completo
ignorante em matérias administrativas e políticas, com zero experiência na
formação de governos, na relação com o Congresso e na diplomacia internacional?
Você pega um cara que é absolutamente nulo em todas essas dimensões e diz que
ele deve presidir a República? É uma nulidade, mas extremamente perigosa porque
dribla as instituições, as regras do jogo e a cultura política.”
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Frases de autoajuda e o mito da Terceira Via
Ao
dissecar a retórica da candidatura, Coimbra destacou a superficialidade das
formulações apresentadas, que tentam substituir propostas econômicas, sociais e
geopolíticas por chavões genéricos sobre bem-estar emocional e frases de
efeito.
Segundo
o diretor do Vox Populi, o avanço momentâneo de figuras com esse perfil é
alimentado pela insistência de parcelas da classe média e de setores do
establishment em buscar uma “terceira via” artificial, cujo motor exclusivo é o
antipetismo e a recusa do bolsonarismo, sem qualquer projeto alternativo
consistente.
“Essa
conversa de ‘terceira via’ há anos significa apenas: ‘Não quero a reeleição do
Lula e acho o bolsonarismo uma barbaridade’. Mas não há conteúdo real por trás
disso. A última eleição em que o Brasil teve alternativas genuínas e densas
fora da polarização principal foi em 2014, quando o debate reuniu figuras como
Dilma Rousseff, Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva — lideranças com
trajetória partidária e projeto.”
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Risco de desidratação e o alerta institucional
Coimbra
concluiu sua análise lembrando que candidaturas forjadas exclusivamente na
dinâmica das redes sociais tendem a ser voláteis. Sem inserção orgânica na
sociedade civil, partidos estruturados ou capilaridade política, a
probabilidade de desidratação ao longo da campanha oficial é elevada:
“Quem
sobe do nada tem uma chance enorme de cair do nada, porque simplesmente não tem
estofo, não tem estrutura e não tem densidade política. Se cessar o bombardeio
publicitário, a tendência é o desaparecimento. Mas a simples existência e
viabilidade transitória desses experimentos megalomaníacos mostra o quanto o
sistema precisa de vigilância para não entregar o destino do país a aventuras
vazias.”
Para
acompanhar a íntegra da análise de Marcos Coimbra sobre o cenário eleitoral e o
impacto da candidatura Augusto Cury, assista ao corte no canal do 247: Marcos
Coimbra explica a candidatura Augusto Cury.
O vídeo
traz a explicação completa do sociólogo Marcos Coimbra sobre as pesquisas
eleitorais e os riscos do fenômeno das candidaturas digitais para o processo
político brasileiro.
• Pulo de Cury acentua relevância da busca
pelo voto de centro. Po Marco Damiani
O
espanto coletivo diante do crescimento nas pesquisas do candidato Augusto Cury
indica que muita gente não estava levando a sério a relevância do voto do
eleitor indeciso, ou indiferente à disputa até aqui, na definição da sucessão
presidencial. O pulo de 2% para 11% das intenções apuradas pela pesquisa
BTG/Nexus, acompanhado da perda de pontos tanto do presidente Lula como do
candidato Flávio Bolsonaro, mostra que Cury está conseguindo, fora do olhar dos
observadores da eleição, navegar entre os polos da esquerda e da direita para
crescer e aparecer. Quanto mais afastarem para os seus respectivos cantos, mais
Lula e Bolsonaro abrem espaço ao centro para Cury avançar.
O
candidato do Avante também cresceu 6 pontos no levantamento Atlas/Intel,
deixando para trás de uma vez só, na parte divertida desse movimento, Ronaldo
Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O despertar da candidatura do psiquiatra e
escritor de livros de auto-ajuda se deu no debate entre presidenciáveis na rede
Bandeirantes, em 22 de agosto. Após o encontro, ele obteve uma alta de quase
20% em seguidores no Instagram, subindo de 8,3 milhões para 9,9 milhões.
A
estrutura utilizada por Cury nas redes sociais desperta suspeitas que, até o
momento, parecem não preocupar o TSE. Há rumores sobre importação de robôs
(bots) de impulsionamento, contratação de influenciadores e manipulação de
métricas a favor da candidatura. A contratação de perfis falsos ou o uso de
redes de automação para impulsionar candidatos é vedado pela legislação
eleitoral brasileira. Trata-se de abuso de poder econômico e uso indevido dos
meios de comunicação social.
No
discurso, Cury vende conceitos vagos de gestão do estresse social,
administração pública com empatia e busca por convergências. O suficiente para
assumir o papel de candidato de centro, alheio aos radicalismos. Ele tem
crescido com maior intensidade entre os jovens, eleitores com ensino superior e
famílias de classe média urbana. Nesses segmentos, o apelo de uma liderança
focada na “inteligência emocional” contra o desgaste dos discursos ideológicos
tradicionais.
Mesmo
os que reconhecem em Cury mais um embuste da direita precisam refletir sobre a
importância do espaço que ele está conseguindo ocupar. Os votos alheios à
polarização também devem ser disputados pelo candidato à reeleição. Para tanto,
a campanha precisa ser menos petista e mais governista, isto é, mostrar muito
mais as realizações do governo do que as cores e as bandeiras do partido.
Os
correligionários do presidente Lula são uma base garantida de votos, mas a
vitória está em conquistar aqueles que orbitam além desse círculo. Mostrar
organizadamente as realizações do governo Lula será bem mais útil, do ponto de
vista eleitoral, do que embrenhar-se em disputas ideológicas neste momento. O
fenômeno Cury está mostrando que o eleitor de centro está carente por um
discurso mais de paz do que de guerra.
• O fascismo terapêutico de Augusto Cury.
Por Ricardo Nêggo Tom
Há algo
de profundamente brasileiro na ideia de transformar um escritor de livros de
autoajuda em candidato à Presidência da República. Afinal, se o país já está
acostumado a acreditar em promessa de político, por que não acreditar também em
promessa de coach? Augusto Cury entra na corrida presidencial vendendo aquilo
que sabe vender melhor: sonhos. E, aparentemente, quanto mais sobe nas
pesquisas, mais o mercado eleitoral demonstra que o brasileiro está disposto a
comprar esperança no varejo, mesmo quando a embalagem não informa exatamente o
que vem dentro.
O
fenômeno merece ser observado com atenção. Não porque um escritor não possa ser
presidente. Pode. Nem porque alguém que trabalhou com comportamento humano não
tenha condições de discutir os problemas do país. Tem. A questão é outra: o que
exatamente Augusto Cury está oferecendo ao eleitor além da velha promessa de
que tudo pode melhorar se cada indivíduo mudar a própria mentalidade? Porque
uma coisa é escrever para alguém que está enfrentando uma crise pessoal. Outra,
completamente diferente, é administrar uma crise econômica, combater a
desigualdade, formular política industrial, enfrentar o crime organizado,
negociar no Congresso, conduzir relações internacionais e decidir onde o Estado
deve colocar bilhões de reais.
Não
existe capítulo de O Vendedor de Sonhos que resolva isso. E talvez seja
justamente aí que esteja a força eleitoral de Cury. Em um país cansado da
política, o candidato que parece não ser político pode ganhar uma vantagem
extraordinária. Ele chega sem o desgaste tradicional, sem o currículo
parlamentar para ser cobrado e, principalmente, sem precisar explicar muito
sobre aquilo que pretende fazer. A propósito, o currículo profissional de Cury
vem gerando algumas polêmicas devido a imprecisões sobre os seus títulos
acadêmicos. Mas basta falar sobre mudança, que a mágica acontece. Mudança é uma
palavra maravilhosa. Cabe qualquer coisa dentro dela. Até mesmo um caminhão
cheio de drones prontos para salvar mulheres do feminicídio e de
influenciadores digitais prontos para serem Embaixadores do Brasil no exterior.
Os
eleitores podem colocar nela a esperança de um país mais justo, com menos
impostos, com mais segurança, por exemplo. E o candidato pode deixar todos
satisfeitos sem necessariamente ter explicado como pretende entregar nada
disso. É a política transformada em sessão de terapia coletiva. Essa é a
mudança que Augusto Cury propõe. Ele diz coisas do tipo: “Você pode mudar o
Brasil.”, “Você precisa acreditar.”, “Não deixe que os seus medos impeçam seus
sonhos.” E pronto. Temos um programa de governo. Com participação popular. Para
mais informações, consulte o próximo livro do autor que oferece autoajuda, mas
que só ele se dá bem com ela.
Isso é
uma prova de que a subida de Augusto Cury nas pesquisas diz tanto sobre ele
quanto diz sobre o eleitor brasileiro. Uma candidatura que cresce sem
necessariamente apresentar uma estrutura política tradicional revela o tamanho
do desencanto com os chamados políticos profissionais. E esse desencanto não
deveria ser comemorado por ninguém que leve a democracia a sério. Porque quando
o cidadão deixa de acreditar na política, ele não necessariamente passa a
acreditar mais em soluções. Ele passa a acreditar em qualquer coisa que pareça
diferente. É assim que o vendedor de sonhos encontra seu público. Não é preciso
entregar o sonho. É suficiente saber descrevê-lo e moldar a subjetividade do
ouvinte a ele.
O
problema é que a Presidência da República não é um consultório psiquiátrico. O
déficit público não se cura com pensamento positivo. A fome não desaparece
quando alguém aprende a controlar a ansiedade. A desigualdade não é uma questão
de autoestima. E uma família que não consegue pagar o aluguel não precisa de
uma palestra motivacional sobre resiliência, nem aprender a utilizar a
inteligência de Jesus para resolver os seus problemas econômicos. É preciso
políticas que gerem renda e emprego. É preciso políticas que melhorem os
serviços públicos. O Estado precisa estar funcionando. É aí que o discurso de
autoajuda encontra seu limite: ele é excelente para explicar como o indivíduo
deve se adaptar ao mundo, mas é péssimo para explicar como o mundo deveria ser
transformado para que todos os indivíduos possam viver melhor.
Em seu
programa de governo, Cury destaca projetos voltados para educação e saúde
emocional para, entre outros objetivos, “combater estresse, ansiedade e
bullying”. Além da inclusão obrigatória da matéria de inteligência multifocal e
gestão da emoção na educação básica. É preciso saber se Cury pretende combater
o bullying nas escolas, por exemplo, ensinando as vítimas a ignorá-lo usando a
força da mente. Se a intenção for essa, não me assustaria se ele criasse um
projeto de combate ao racismo trabalhando a inteligência emocional das vítimas
para suportar o crime cometido contra elas. Neste caso, de vendedor de sonhos,
ele passaria a vendedor de alucinações. Mas em um país onde já se invocou o
auxílio de extraterrestres para dar um golpe de Estado, um “Ministério das
Alucinações” não seria tão anormal para alguns.
Talvez,
por isso, a candidatura de Cury seja tão curiosa. Ela surge num momento em que
uma parcela do eleitorado parece desejar um presidente que não pareça
presidente. Alguém que fale como terapeuta, coach ou picareta. Que escreva como
escritor motivacional e apareça nas pesquisas como se tivesse descoberto uma
fórmula secreta para vencer a política sem precisar fazer política. É quase uma
versão eleitoral da frase “saia da sua zona de conforto”. Só que a maioria do
eleitorado brasileiro não vive numa zona de conforto da qual precise sair. É o
candidato em questão que a habita e que deveria sair dela para entender que a
responsabilidade social de governar um país não pode ser transferida para a
população em frases de autoajuda que sugiram vitória pelos próprios méritos ou
com o poder da mente. Isso é fascismo terapêutico. Uma expressão que ganhou
destaque com o livro acadêmico Therapeutic Fascism: Experiencing the Violence
of the Nazi New Order (2017), da historiadora Ana Antić.
No
livro, a historiadora fala sobre o uso da psicanálise e da psiquiatria por
regimes autoritários, com o objetivo de doutrinar mentalmente a população,
sobretudo os mais jovens, sob a égide da higiene mental e da educação
socioemocional. A introdução de teorias psicanalíticas e psiquiátricas como
parte do projeto oficial de um governo pode, inclusive, servir para a
“libertação” de mentes “corrompidas” por ideologias políticas adversárias. Pode
ainda servir para atribuir aos indivíduos a culpa por crises econômicas mal
geridas pelo governo, que seriam tratadas como desequilíbrios psicológicos
individuais, nos quais o cidadão é o único culpado pelo seu desemprego, pelo
baixo salário que recebe, por seu insucesso profissional e financeiro, por não
possuir resiliência mental suficiente para reverter a situação.
Armadilhas
de um fascismo que possui várias faces. Como escreveu o psicanalista Wilhelm
Reich no livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, no qual suas teses explicam
que o fascismo não se sustenta apenas pelo uso da força militar, mas também
pela colonização das mentes e dos afetos. Isso deveria nos alertar a entender
que não se julga um livro pela capa, nem ler uma frase bonita na contracapa e
imaginar que a vida vai mudar. É preciso perguntar o que existe entre a capa e
a última página. “O Brasil dos nossos sonhos” pode ser um grande pesadelo para
a maioria da população. E haja livro de autoajuda para nos reerguer depois.
Fonte:
Brasil 247

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