quarta-feira, 2 de setembro de 2026

“Augusto Cury é uma nulidade, mas é extremamente perigoso”, diz Marcos Coimbra

A súbita arrancada eleitoral do escritor e médico psiquiatra Augusto Cury (Avante), que saltou de patamares residuais para a faixa dos dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, acendeu o sinal de alerta no debate político nacional. Em análise contundente na TV 247, o sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, fez um diagnóstico severo sobre o fenômeno: tratou a pré-candidatura como um produto de puro impulsionamento algorítmico, sem lastro social ou densidade programática, classificando-a como um “monstrengo” eleitoral perigoso para as instituições democráticas brasileiras.

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Para Coimbra, a transformação repentina de notoriedade em intenção de voto não expressa vitalidade política, mas sim um processo acelerado de deseducação do eleitorado e captura do debate público por estratégias de marketing digital desprovidas de substância.

<><> O perigo da “nulidade” impulsionada

Durante o programa, Coimbra enfatizou que o crescimento relâmpago de Cury nas sondagens expõe uma fragilidade estrutural na cultura política contemporânea, em que o volume de recursos em anúncios pagos sobrepuja a trajetória e os compromissos públicos.

“Esse crescimento espetacular é prova da ausência de conteúdo. Quem cresce de um dia para o outro dez pontos é porque não tinha nenhuma razão para crescer. Aparece um sujeito, gasta uma fortuna impulsionando milhões de repetições nas redes e, de repente, vira candidato de dez milhões de eleitores que ontem sequer sabiam o que ele pensa para o país”, pontuou Coimbra.

O sociólogo advertiu que a notoriedade obtida no mercado editorial e nas redes sociais é qualitativamente distinta do preparo necessário para governar uma das maiores economias do planeta:

“O Brasil é a oitava ou nona maior economia do mundo. Você vai pegar um completo ignorante em matérias administrativas e políticas, com zero experiência na formação de governos, na relação com o Congresso e na diplomacia internacional? Você pega um cara que é absolutamente nulo em todas essas dimensões e diz que ele deve presidir a República? É uma nulidade, mas extremamente perigosa porque dribla as instituições, as regras do jogo e a cultura política.”

<><> Frases de autoajuda e o mito da Terceira Via

Ao dissecar a retórica da candidatura, Coimbra destacou a superficialidade das formulações apresentadas, que tentam substituir propostas econômicas, sociais e geopolíticas por chavões genéricos sobre bem-estar emocional e frases de efeito.

Segundo o diretor do Vox Populi, o avanço momentâneo de figuras com esse perfil é alimentado pela insistência de parcelas da classe média e de setores do establishment em buscar uma “terceira via” artificial, cujo motor exclusivo é o antipetismo e a recusa do bolsonarismo, sem qualquer projeto alternativo consistente.

“Essa conversa de ‘terceira via’ há anos significa apenas: ‘Não quero a reeleição do Lula e acho o bolsonarismo uma barbaridade’. Mas não há conteúdo real por trás disso. A última eleição em que o Brasil teve alternativas genuínas e densas fora da polarização principal foi em 2014, quando o debate reuniu figuras como Dilma Rousseff, Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva — lideranças com trajetória partidária e projeto.”

<><> Risco de desidratação e o alerta institucional

Coimbra concluiu sua análise lembrando que candidaturas forjadas exclusivamente na dinâmica das redes sociais tendem a ser voláteis. Sem inserção orgânica na sociedade civil, partidos estruturados ou capilaridade política, a probabilidade de desidratação ao longo da campanha oficial é elevada:

“Quem sobe do nada tem uma chance enorme de cair do nada, porque simplesmente não tem estofo, não tem estrutura e não tem densidade política. Se cessar o bombardeio publicitário, a tendência é o desaparecimento. Mas a simples existência e viabilidade transitória desses experimentos megalomaníacos mostra o quanto o sistema precisa de vigilância para não entregar o destino do país a aventuras vazias.”

Para acompanhar a íntegra da análise de Marcos Coimbra sobre o cenário eleitoral e o impacto da candidatura Augusto Cury, assista ao corte no canal do 247: Marcos Coimbra explica a candidatura Augusto Cury.

O vídeo traz a explicação completa do sociólogo Marcos Coimbra sobre as pesquisas eleitorais e os riscos do fenômeno das candidaturas digitais para o processo político brasileiro.

•        Pulo de Cury acentua relevância da busca pelo voto de centro. Po Marco Damiani

O espanto coletivo diante do crescimento nas pesquisas do candidato Augusto Cury indica que muita gente não estava levando a sério a relevância do voto do eleitor indeciso, ou indiferente à disputa até aqui, na definição da sucessão presidencial. O pulo de 2% para 11% das intenções apuradas pela pesquisa BTG/Nexus, acompanhado da perda de pontos tanto do presidente Lula como do candidato Flávio Bolsonaro, mostra que Cury está conseguindo, fora do olhar dos observadores da eleição, navegar entre os polos da esquerda e da direita para crescer e aparecer. Quanto mais afastarem para os seus respectivos cantos, mais Lula e Bolsonaro abrem espaço ao centro para Cury avançar.

O candidato do Avante também cresceu 6 pontos no levantamento Atlas/Intel, deixando para trás de uma vez só, na parte divertida desse movimento, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O despertar da candidatura do psiquiatra e escritor de livros de auto-ajuda se deu no debate entre presidenciáveis na rede Bandeirantes, em 22 de agosto. Após o encontro, ele obteve uma alta de quase 20% em seguidores no Instagram, subindo de 8,3 milhões para 9,9 milhões.

A estrutura utilizada por Cury nas redes sociais desperta suspeitas que, até o momento, parecem não preocupar o TSE. Há rumores sobre importação de robôs (bots) de impulsionamento, contratação de influenciadores e manipulação de métricas a favor da candidatura. A contratação de perfis falsos ou o uso de redes de automação para impulsionar candidatos é vedado pela legislação eleitoral brasileira. Trata-se de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.

No discurso, Cury vende conceitos vagos de gestão do estresse social, administração pública com empatia e busca por convergências. O suficiente para assumir o papel de candidato de centro, alheio aos radicalismos. Ele tem crescido com maior intensidade entre os jovens, eleitores com ensino superior e famílias de classe média urbana. Nesses segmentos, o apelo de uma liderança focada na “inteligência emocional” contra o desgaste dos discursos ideológicos tradicionais.

Mesmo os que reconhecem em Cury mais um embuste da direita precisam refletir sobre a importância do espaço que ele está conseguindo ocupar. Os votos alheios à polarização também devem ser disputados pelo candidato à reeleição. Para tanto, a campanha precisa ser menos petista e mais governista, isto é, mostrar muito mais as realizações do governo do que as cores e as bandeiras do partido.

Os correligionários do presidente Lula são uma base garantida de votos, mas a vitória está em conquistar aqueles que orbitam além desse círculo. Mostrar organizadamente as realizações do governo Lula será bem mais útil, do ponto de vista eleitoral, do que embrenhar-se em disputas ideológicas neste momento. O fenômeno Cury está mostrando que o eleitor de centro está carente por um discurso mais de paz do que de guerra.

•        O fascismo terapêutico de Augusto Cury. Por Ricardo Nêggo Tom

Há algo de profundamente brasileiro na ideia de transformar um escritor de livros de autoajuda em candidato à Presidência da República. Afinal, se o país já está acostumado a acreditar em promessa de político, por que não acreditar também em promessa de coach? Augusto Cury entra na corrida presidencial vendendo aquilo que sabe vender melhor: sonhos. E, aparentemente, quanto mais sobe nas pesquisas, mais o mercado eleitoral demonstra que o brasileiro está disposto a comprar esperança no varejo, mesmo quando a embalagem não informa exatamente o que vem dentro.

O fenômeno merece ser observado com atenção. Não porque um escritor não possa ser presidente. Pode. Nem porque alguém que trabalhou com comportamento humano não tenha condições de discutir os problemas do país. Tem. A questão é outra: o que exatamente Augusto Cury está oferecendo ao eleitor além da velha promessa de que tudo pode melhorar se cada indivíduo mudar a própria mentalidade? Porque uma coisa é escrever para alguém que está enfrentando uma crise pessoal. Outra, completamente diferente, é administrar uma crise econômica, combater a desigualdade, formular política industrial, enfrentar o crime organizado, negociar no Congresso, conduzir relações internacionais e decidir onde o Estado deve colocar bilhões de reais.

Não existe capítulo de O Vendedor de Sonhos que resolva isso. E talvez seja justamente aí que esteja a força eleitoral de Cury. Em um país cansado da política, o candidato que parece não ser político pode ganhar uma vantagem extraordinária. Ele chega sem o desgaste tradicional, sem o currículo parlamentar para ser cobrado e, principalmente, sem precisar explicar muito sobre aquilo que pretende fazer. A propósito, o currículo profissional de Cury vem gerando algumas polêmicas devido a imprecisões sobre os seus títulos acadêmicos. Mas basta falar sobre mudança, que a mágica acontece. Mudança é uma palavra maravilhosa. Cabe qualquer coisa dentro dela. Até mesmo um caminhão cheio de drones prontos para salvar mulheres do feminicídio e de influenciadores digitais prontos para serem Embaixadores do Brasil no exterior.

Os eleitores podem colocar nela a esperança de um país mais justo, com menos impostos, com mais segurança, por exemplo. E o candidato pode deixar todos satisfeitos sem necessariamente ter explicado como pretende entregar nada disso. É a política transformada em sessão de terapia coletiva. Essa é a mudança que Augusto Cury propõe. Ele diz coisas do tipo: “Você pode mudar o Brasil.”, “Você precisa acreditar.”, “Não deixe que os seus medos impeçam seus sonhos.” E pronto. Temos um programa de governo. Com participação popular. Para mais informações, consulte o próximo livro do autor que oferece autoajuda, mas que só ele se dá bem com ela.

Isso é uma prova de que a subida de Augusto Cury nas pesquisas diz tanto sobre ele quanto diz sobre o eleitor brasileiro. Uma candidatura que cresce sem necessariamente apresentar uma estrutura política tradicional revela o tamanho do desencanto com os chamados políticos profissionais. E esse desencanto não deveria ser comemorado por ninguém que leve a democracia a sério. Porque quando o cidadão deixa de acreditar na política, ele não necessariamente passa a acreditar mais em soluções. Ele passa a acreditar em qualquer coisa que pareça diferente. É assim que o vendedor de sonhos encontra seu público. Não é preciso entregar o sonho. É suficiente saber descrevê-lo e moldar a subjetividade do ouvinte a ele.

O problema é que a Presidência da República não é um consultório psiquiátrico. O déficit público não se cura com pensamento positivo. A fome não desaparece quando alguém aprende a controlar a ansiedade. A desigualdade não é uma questão de autoestima. E uma família que não consegue pagar o aluguel não precisa de uma palestra motivacional sobre resiliência, nem aprender a utilizar a inteligência de Jesus para resolver os seus problemas econômicos. É preciso políticas que gerem renda e emprego. É preciso políticas que melhorem os serviços públicos. O Estado precisa estar funcionando. É aí que o discurso de autoajuda encontra seu limite: ele é excelente para explicar como o indivíduo deve se adaptar ao mundo, mas é péssimo para explicar como o mundo deveria ser transformado para que todos os indivíduos possam viver melhor.

Em seu programa de governo, Cury destaca projetos voltados para educação e saúde emocional para, entre outros objetivos, “combater estresse, ansiedade e bullying”. Além da inclusão obrigatória da matéria de inteligência multifocal e gestão da emoção na educação básica. É preciso saber se Cury pretende combater o bullying nas escolas, por exemplo, ensinando as vítimas a ignorá-lo usando a força da mente. Se a intenção for essa, não me assustaria se ele criasse um projeto de combate ao racismo trabalhando a inteligência emocional das vítimas para suportar o crime cometido contra elas. Neste caso, de vendedor de sonhos, ele passaria a vendedor de alucinações. Mas em um país onde já se invocou o auxílio de extraterrestres para dar um golpe de Estado, um “Ministério das Alucinações” não seria tão anormal para alguns.

Talvez, por isso, a candidatura de Cury seja tão curiosa. Ela surge num momento em que uma parcela do eleitorado parece desejar um presidente que não pareça presidente. Alguém que fale como terapeuta, coach ou picareta. Que escreva como escritor motivacional e apareça nas pesquisas como se tivesse descoberto uma fórmula secreta para vencer a política sem precisar fazer política. É quase uma versão eleitoral da frase “saia da sua zona de conforto”. Só que a maioria do eleitorado brasileiro não vive numa zona de conforto da qual precise sair. É o candidato em questão que a habita e que deveria sair dela para entender que a responsabilidade social de governar um país não pode ser transferida para a população em frases de autoajuda que sugiram vitória pelos próprios méritos ou com o poder da mente. Isso é fascismo terapêutico. Uma expressão que ganhou destaque com o livro acadêmico Therapeutic Fascism: Experiencing the Violence of the Nazi New Order (2017), da historiadora Ana Antić.

No livro, a historiadora fala sobre o uso da psicanálise e da psiquiatria por regimes autoritários, com o objetivo de doutrinar mentalmente a população, sobretudo os mais jovens, sob a égide da higiene mental e da educação socioemocional. A introdução de teorias psicanalíticas e psiquiátricas como parte do projeto oficial de um governo pode, inclusive, servir para a “libertação” de mentes “corrompidas” por ideologias políticas adversárias. Pode ainda servir para atribuir aos indivíduos a culpa por crises econômicas mal geridas pelo governo, que seriam tratadas como desequilíbrios psicológicos individuais, nos quais o cidadão é o único culpado pelo seu desemprego, pelo baixo salário que recebe, por seu insucesso profissional e financeiro, por não possuir resiliência mental suficiente para reverter a situação.

Armadilhas de um fascismo que possui várias faces. Como escreveu o psicanalista Wilhelm Reich no livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, no qual suas teses explicam que o fascismo não se sustenta apenas pelo uso da força militar, mas também pela colonização das mentes e dos afetos. Isso deveria nos alertar a entender que não se julga um livro pela capa, nem ler uma frase bonita na contracapa e imaginar que a vida vai mudar. É preciso perguntar o que existe entre a capa e a última página. “O Brasil dos nossos sonhos” pode ser um grande pesadelo para a maioria da população. E haja livro de autoajuda para nos reerguer depois.

 

Fonte: Brasil 247

 

 

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