Como
impeachment de Dilma abriu era de ascensão do Congresso
Há uma
década, o impeachment de Dilma Rousseff sacramentou uma virada no jogo de poder
político brasileiro: a gradual transferência de poder do Executivo para o
Legislativo. Os efeitos desse novo arranjo são sentidos até hoje e determinarão
a forma de governar do próximo presidente eleito.
Em 31
de agosto de 2016, o Senado confirmou o afastamento da ex-presidente, nove
meses depois de o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, fazer raro uso de
sua prerrogativa de abrir procedimento contra a petista, a primeira vez que a
gaveta do impeachment era aberta desde o processo contra Fernando Collor, em
1992.
Ao
destravá-la, Cunha abriu um ponto de inflexão em meio a uma crise mais ampla,
que acabou por consolidar o avanço parlamentar sobre a agenda do governo,
culminando em uma autonomia inédita hoje usufruída por deputados e senadores.
A
demonstração de força do presidente da Câmara sobre o chefe do Executivo se
somou à obrigação do pagamento de emendas parlamentares, que gradualmente
ampliou seu escopo e assumiu diferentes moldes na última década. Hoje, um
quinto do orçamento discricionário da União é decidido de forma impositiva pelo
Legislativo, o equivalente a R$ 37,8 bilhões. Resultado: o parlamentar depende
menos do governo, e até de seu partido, para garantir a execução dos recursos
que destinou às suas bases.
Na
Câmara, a derrocada do poder de barganha presidencial pode ser medida em
números, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentando a menor adesão
governamental nas votações em plenário desde a crise que derrubou Dilma. O
petista também vê uma escalada recorde de derrubadas de seus vetos
presidenciais e uma taxa tímida de transformação de seus projetos em norma. O
veto histórico à indicação do ex-advogado-geral da União Jorge Messias ao
Supremo Tribunal Federal marcou esse novo cenário.
A
reportagem analisou votações nominais do plenário da Câmara entre 2003 e julho
de 2026, em que a liderança do governo orientou voto, sobre projetos de lei,
leis complementares, PECs e MPs, a partir dos Dados Abertos da Câmara e do
Senado. As métricas de fidelidade consideram apenas votações com ao menos 10%
de divergência, ou seja, não unânimes.
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A crise que remodelou a relação entre Executivo e Congresso
Em
2016, o afastamento de Dilma ocorreu em meio a um chacoalhão institucional que
atravessava Planalto e Congresso. Em 2013, manifestações de rua pressionaram a
primeira gestão da petista, que até então mantinha margem de negociação entre
os partidos da coalizão.
Em
2015, a Emenda Constitucional 86 instituiu a execução obrigatória das emendas
individuais, consolidando o chamado orçamento impositivo e reduzindo a
possibilidade de controlar a liberação desses recursos. No âmbito eleitoral,
foi instituído o fim do financiamento empresarial de campanha e se criou o
fundo eleitoral. Em 2017, já no governo de Michel Temer, a reforma eleitoral
acabou com as coligações e criou a cláusula de desempenho, pressionando
partidos menores.
"Entre
2015 e 2017, a sensação que eu tenho cada vez mais é que a gente viveu no
Brasil uma conjuntura crítica", diz Graziella Testa, cientista política da
Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Existe um equilíbrio em que está
todo mundo seguindo a mesma trajetória institucional. De repente, tem uma
mudança brusca e, depois dela, todo mundo passa a seguir a trajetória nova. E
não dá para pensar 2022 sem 2016"
Tal
trajetória se vale dos arranjos possíveis no "presidencialismo de
coalizão". O termo foi cunhado em 1988 pelo cientista político Sérgio
Abranches para descrever o modelo que embasa o poder brasileiro desde a
redemocratização: o presidente concentra as decisões executivas, o Congresso
legisla, e tirar a agenda do papel depende de uma coalizão majoritária
costurada entre partidos.
As
primeiras gestões de Lula e a primeira de Dilma foram felizes nesse cenário:
mais da metade das votações terminava em consenso quase unânime e cerca de oito
em cada dez propostas do Executivo viravam norma. O índice de governismo, ou
seja, o percentual de adesão da Câmara aos projetos em que o governo orientava
uma posição, ficava na casa dos 70%. Na prática, a coalizão funcionava, e os
deputados seguiam a orientação partidária e governista.
O
contraste vem com Dilma 2, quando a crise ruiu sua frágil aliança. O consenso
ocorria em apenas 27% das pautas, e a presidente vivia a menor adesão à sua
agenda na série analisada. O baixo índice é agora repetido por Lula
O
cenário exacerbou o poder do presidente da Câmara de decidir pelo afastamento
presidencial, levando a posteriores apelos, no Senado, por uma revisão da lei
de modo a reequilibrar o poder. Na direção oposta, na Câmara, o então
presidente da Casa, Arthur Lira, abriu uma discussão sobre o
semipresidencialismo, que institucionalizaria o poder que sua função ganhou com
o tempo. Nenhuma das duas prosperou.
"A
primeira coalizão não bem-sucedida é justamente no Dilma 2. Se a gente
recuperar até a véspera do impeachment, ela está tentando recompor a coalizão,
mudando gente no ministério", avalia Andrea Marcondes de Freitas,
cientista política da Unicamp e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião
Pública (Cesop). "Depois de uma crise tão prolongada, os atores perdem a
informação de como era a relação no período anterior e têm que se
reacomodar".
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A fragmentação da governabilidade
Após
Dilma, Temer encontra mais vazão para suas pautas no Congresso, uma vez que
assume o governo como um representante natural dos próprios parlamentares.
"Ele é eleito como deputado e governa como se fosse o líder do
Congresso", diz Testa. Mesmo impopular, aprovou o teto de gastos e a
reforma trabalhista, com o maior índice de governismo da série. Depois dele,
Jair Bolsonaro abre mão de formar uma coalizão imediata e vê seus índices de
governismo na Câmara despencarem, concordam os especialistas, posteriormente
entregando maior poder a deputados de centro.
"O
governo Bolsonaro, na primeira metade, explicitamente tenta não formar uma
coalizão. Ele até traz para dentro pessoas de outros partidos, mas não como
representantes das legendas, e sim como escolha pessoal do presidente",
lembra Freitas. Nesse período, a fatia dos projetos do Executivo transformados
em lei caiu ao piso da série.
O mesmo
ocorre com Lula. Enquanto seus primeiros mandatos acumulavam imensa adesão do
Congresso às suas pautas, o cenário enfrentado pelo petista hoje é outro. Mesmo
diante da tentativa de montar uma coalizão, agregando partidos à direita na
Esplanada e distribuindo cargos políticos, a relação não se traduz em apoio
parlamentar.
"Você
tinha gente representando os partidos dentro dos ministérios, mas ao mesmo
tempo não devolvendo em votos no plenário. E isso foi a gestão o tempo inteiro.
O governo usou muito pouco a estratégia de punir efetivamente quem não
entregava", avalia Freitas.
Para o
cientista político da Fundação Getulio Vargas (FGV), Cláudio Couto, isso faz
com que o governo precise negociar no varejo. "Antes você sempre montava a
coalizão e garantia a governabilidade sem grandes problemas, o grosso da agenda
era tocado sem maiores dificuldades", argumenta. "Nesse outro
contexto você tem o que eu tenho chamado de política de redução de danos. Você
monta a coalizão muito mais para pelo menos não ter esses partidos inteiros na
oposição, e aí tenta resolver o resto na negociação caso a caso", diz.
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Emendas esvaziam instrumento de barganha do Planalto
Segundo
Couto, o mecanismo que explica materialmente a menor eficácia do
presidencialismo de coalizão é orçamentário. As emendas parlamentares, a fatia
do orçamento que cada deputado e senador destina às suas bases, tornaram-se
progressivamente obrigatórias desde Dilma.
"Presidencialismo
de coalizão não morre, mas a gente pode dizer que talvez tenha sido mutilado.
E, mutilado, ele opera com menos eficácia. Por quê? Porque ele perdeu aquele
instrumento muito grande que tinha, que era o controle dos recursos e a sua liberação
dentro de uma estratégia de disciplinamento da base. Está vivo, mas não é o
mesmo", diz o cientista político da FGV, Cláudio Couto.
A
primeira onda veio em 2015, mas com a impositividade relativa das emendas
individuais. "Os parlamentares pedem 100 bilhões e o presidente é obrigado
a executar 40 bilhões. Entre as emendas solicitadas, ele ainda pode escolher.
Isso ainda entra como moeda de barganha do Executivo", explica Testa, da
UFPR.
A
segunda onda acontece em 2019, quando a Emenda Constitucional 100 tornou
obrigatória também a execução das emendas de bancada. No mesmo ano, a Emenda
Constitucional 105 criou as chamadas "emendas Pix", que permitem
transferências especiais de recursos diretamente para estados e municípios. Em
2022, foi a vez da Emenda Constitucional 126 elevar para 2% da receita corrente
líquida o limite para as emendas parlamentares individuais.
A
importância da impositividade está em mudar a relação de troca entre governo e
parlamentar. Antes, a execução de uma emenda dependia em maior medida da
decisão do Executivo de liberar o recurso. Com a execução obrigatória,
ressalvados impedimentos legais, o parlamentar passa a ter maior garantia de
que a verba que indicou será executada.
Neste
período também vieram à tona as emendas de relator, apelidadas pela imprensa de
Orçamento Secreto, um mecanismo pelo qual o relator-geral do Orçamento
distribuía verbas sem identificação clara de quem solicitou os recursos e dos
destinatários finais, concentrando enorme poder de barganha nas mãos da cúpula
da Câmara. O Supremo Tribunal Federal declarou o esquema inconstitucional em
2022.
Especialistas
e órgãos de controle têm apontado que o aumento do volume e a forma como os
recursos são distribuídos produzem problemas de transparência e
rastreabilidade, pulverizando o orçamento em troca de bônus político. O próprio
STF apontou falhas de rastreabilidade na execução das emendas: segundo a Corte,
entre 2019 e 2024, R$ 186,3 bilhões foram pagos sem clareza suficiente sobre a
origem e o destino dos recursos.
"Se
o governo é obrigado a pagar, ele perde o instrumento que tinha de disciplinar
e coordenar sua base. [...] Se consolida um governo muito fraco, que não tem
condição de tocar a agenda legislativa e deixa isso nas mãos do
Congresso", resume Couto.
Testa
acrescenta uma camada geracional: com renovação de 45% a 55% da Câmara a cada
eleição, há hoje "duas gerações de parlamentares que não entendem o que é
ter uma relação com o Executivo mediada pelo partido". "Existe uma
tentativa de Lula resgatar o 'fazer coalizão' como no Lula 1 e no Lula 2, só
que precisa de dois para dançar."
<><> Centrão se consolida como
fiel da balança
Nesse
processo, é o Centrão que se consolida como principal polo de poder. A ascensão
de Arthur Lira (PP-AL) à presidência da Câmara durante o governo Bolsonaro
cristalizou a figura informal do chefe da Casa capaz de pautar, travar ou
destravar a agenda nacional. Com ele, o bloco se firmou como fiador, e
cobrador, de qualquer governo. A ameaça do impeachment voltou a aparecer e o
poder que tinha sobre as emendas de relator ampliou a musculatura do Congresso.
Análise
da DW mostra que, entre os deputados que atuaram nas duas últimas gestões, mais
de um terço foi fiel tanto a Bolsonaro quanto a Lula, votando com os dois
governos em mais de 70% das votações contestadas. São 114 parlamentares, e
quase todos vêm do mesmo bloco: PP, PSD, Republicanos, MDB, União. No nível das
legendas, sete partidos mantiveram adesão alta aos dois presidentes.
A
votação com quem ganha explica o fisiologismo, mas não impede que o grupo seja
também ideológico, diz Andreia Freitas. Trata-se de um grupo pouco homogêneo,
mas cada vez mais ideológico e que também vota de acordo com seus interesses.
"Dentro
desse grupo tem evangélicos, tem a bancada da bala, tem o agro. Para as coisas
que interessam ideologicamente a eles, vão agir de um jeito; para as outras, de
forma mais pragmática. E como se vota muita coisa, dá para fazer as duas o
tempo inteiro", argumenta Freitas.
Por um
lado, limita os extremos, por outro, vira o fiel da balança. Há adesão de parte
dos deputados, mas as derrotas do governo também aumentaram: de 4 votações
perdidas sob Temer para 105 com Bolsonaro e 195 com Lula 3.
Os
vetos presidenciais também mostram essa nova relação. É prerrogativa do
presidente rejeitar projetos ou trechos de leis vindas do Congresso.
Os
parlamentares podem decidir revisar esses vetos, ou simplesmente acatar a
palavra presidencial. Nos governos Lula 1, Lula 2 e Dilma 1, por exemplo, o
Congresso derrubava 1% ou 2% dos vetos presidenciais que votava, e a maioria
nem chegava ao plenário.
Com
Bolsonaro, as análises de vetos se tornaram rotina, e o resultado foi um
recorde: 114 derrubados, mais que o triplo de todos os governos de 2003 a 2018
somados.
Já o
terceiro governo Lula teve mais da metade de seus vetos derrubados pelos
parlamentares, proporção maior que qualquer outro presidente desde a
redemocratização. Na prática, a palavra final aos poucos se transfere para o
Congresso.
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Desafios para o próximo presidente
Há
ainda fatores que não aparecem no orçamento, como as regras internas herdadas
da pandemia da covid-19, que nunca foram revogadas. "Durante a pandemia se
criou o plenário à distância e, terminada a pandemia, a gente não retirou essas
regras do jogo. Ainda se pode fazer deliberação à distância, e o presidente da
Câmara pode retirar matérias das comissões e levá-las direto ao plenário por
decisão própria. Antes, isso exigia maioria", aponta Freitas. "O
resultado é uma centralização de poder muito grande nesse personagem."
O
Executivo, porém, segue com um balcão próprio: bancos públicos, fundos,
estatais, a burocracia dos ministérios e as indicações estratégicas, argumenta
Couto. "Não é o salário do ministro do Supremo que está em jogo, é o poder
dele. Isso vale para presidente da Petrobras, da Caixa", diz Couto. É
nesse balcão, menor, mais caro e disputado, que o próximo presidente deverá
barganhar sua agenda.
"Esse
centro está um pouco à direita, então provavelmente é mais difícil para um
partido à esquerda do que para um partido à direita formar coalizão",
conclui Freitas.
Fonte:
Por Gustavo Queiroz, em DW Brasil

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