O
método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores
O ano
letivo de 2024 seguia seu curso normal quando Jadir Anchieta, professor de
História, começou a ouvir comentários de estudantes que diziam ter saudades de
Jair Bolsonaro. Era uma aula sobre o período entreguerras, ministrada a uma
turma do 9º ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual São Tarcísio, no
município catarinense de São Bonifácio. O professor havia acabado de entrar na
sala quando um grupo de alunos passou a fazer provocações sobre temas
políticos. Foram poucos minutos, mas, para Jadir, a cena durou uma eternidade.
A dinâmica parecia ensaiada. Cerca de quatro alunos o bombardearam com
perguntas e cobraram um posicionamento sobre o tema. Ele sabia que aquele
comportamento fugia ao perfil da turma e a direção da escola precisou mediar o
conflito. O que o professor de História não sabia, contudo, era que a cena
havia sido gravada pelos estudantes.
Em
diferentes regiões do Brasil, o roteiro percorrido por Jadir Anchieta tem se
repetido. Há um padrão em curso, segundo Rodrigo Timm, advogado do Observatório
Nacional da Violência Contra Educadores (Onve). Primeiro, estabelece-se um
clima de desconfiança em torno do ambiente escolar e de seus profissionais. Em
seguida, os alunos são incentivados, muitas vezes pelos próprios pais, a gravar
os professores em vídeo ou em áudio. Essas gravações são, então, retiradas de
seu contexto original e repassadas a parlamentares da extrema-direita. O
material ganha espaço nas redes e se transforma em um ativo político.
Um
levantamento da Agência Pública identificou, desde as últimas eleições gerais,
em 2022, até 2025, ao menos 18 parlamentares, a maioria do Partido Liberal
(PL), que fizeram ataques a professores. Entre eles estão nomes como Júlia
Zanatta (PL-SC), Jessé Lopes (PL-SC), Alex Brasil (PL-SC), Ana Campagnolo
(PL-SC), Alan Lopes (PL-RJ) e Fernando Cordeiro (PL-SC), todos em busca de uma
vaga nas eleições de outubro.
A
estratégia de atacar professores é, ainda, uma maneira de ascender
politicamente: é o caso do vereador Fernando Cordeiro (PL) de Chapecó, no oeste
catarinense, que quase triplicou a votação no município após liderar ataques
contra uma docente e agora se prepara para disputar o cargo de deputado federal
por Santa Catarina. Cordeiro recebe apoio da deputada estadual Ana Campagnolo
(PL-SC), que, em seu mandato, ficou conhecida por denunciar “professores
doutrinadores”, ganhando projeção política após processar sua orientadora de
mestrado.
A
gravação da aula de Jadir, por exemplo, foi parar nos perfis da deputada
federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina. O professor e a direção da
escola foram surpreendidos pela exposição nas redes sociais. Dias depois, em
uma nova publicação, Zanatta comemorou as providências imediatas tomadas pelo
governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, também do PL. Tratava-se da
abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), instaurado para
apurar a conduta de Jadir por agir “de forma inadequada no exercício de suas
funções”. A postagem que expôs o professor de História alcançou mais de 30 mil
curtidas e foi compartilhada por outros nomes da extrema direita, como o
vereador Fernando Cordeiro, do PL de Chapecó.
A
repercussão do caso escalou até a Câmara dos Deputados, em Brasília. O deputado
federal Gustavo Gayer, do PL de Goiás, apresentou uma moção de repúdio contra
Jadir na Comissão de Educação, então presidida por Nikolas Ferreira, do PL de
Minas Gerais, mas a proposta foi rejeitada por 20 votos a 13. Durante a sessão,
outros parlamentares denunciaram a instrumentalização do episódio. O deputado
Tarcísio Motta, (PSOL-RJ), afirmou que o caso era mais uma manifestação de uma
parcela da extrema-direita, em busca de ganhos eleitorais por meio da
perseguição a profissionais da educação.
Apesar
da moção de repúdio ter sido barrada no Congresso Nacional, as consequências
estaduais seguiram seu curso. Em decorrência do PAD aberto pela Secretaria de
Educação de Santa Catarina, Jadir foi afastado de suas funções em março de
2024. O afastamento foi prorrogado duas vezes até que, em agosto do mesmo ano,
ele foi demitido. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) anulou o PAD
apenas em maio de 2025 e determinou a readmissão do professor. Na decisão, o
desembargador responsável argumentou que a “sala de aula não é um campo de
polícia ideológica” e que o docente não pode estar “submetido a censores
discentes, tampouco à disposição de visões idiossincráticas de bedéis
mascarados como pais”.
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Processos contra educadores aumentam nas eleições
No
levantamento da Pública, também foram analisadas as características de 596 PADs
abertos pela Secretaria de Educação de Santa Catarina e publicados no Diário
Oficial entre janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2024. Os dados mostram que,
em ambos os anos eleitorais, a abertura de processos contra educadores como
Jadir foi maior. Fernando Penna, coordenador do Onve, observa que, em períodos
de disputas políticas, o número de processos contra educadores aumenta, o que
evidencia que as escolas se consolidaram como espaços de embate ideológico.
A
análise dos PADs também identificou indícios de punições desproporcionais,
espetacularização dos casos e prolongamento indevido dos trâmites. Cerca de um
terço dos processos analisados pela reportagem no período foi arquivado, seja
pela inocência do servidor, seja pela inexistência do fato. Para Penna, o
índice revela que muitos PADs são abertos sem materialidade, desprovidos de
testemunhos efetivos ou de evidências de infração. São instaurados de forma
vazia, com o propósito de intimidar.
Para
Jadir, o arquivamento do processo não apaga os impactos da exposição. O
professor conta que ficou profundamente abalado pela violência sofrida.
Precisou deixar São Bonifácio, foi alvo de ameaças e viu milhares de pessoas o
xingarem na internet. Eram desconhecidos, e ele não sabia se representavam um
perigo real. Quase dois anos após a abertura do PAD, Jadir avalia que a ação
orquestrada serviu para “faturar cliques e votos”.
A
situação de Jadir, contudo, não se encerrou com a decisão judicial. Em julho de
2025, mesmo sob a vigência da Lei Federal nº 15.100/2025, que proíbe o uso de
celulares em sala de aula, o professor teve, mais uma vez, a aula gravada por
alunos. O áudio foi, novamente, divulgado nas redes sociais. Entre os
comentários, o deputado estadual Sargento Lima, do PL, que já havia discursado
contra “professores doutrinadores” na Assembleia Legislativa de Santa Catarina,
afirmou que o episódio provava a importância da instalação de câmeras nas salas
de aula.
Lima já
havia se envolvido em outro episódio, em fevereiro de 2023, relacionado à
orientadora educacional Juliana Andozio, que foi vítima de uma sindicância
acusatória, suspensa e afastada, após permitir que uma aluna trans usasse o
banheiro feminino da escola. De acordo com a educadora, seis famílias queriam
saber “qual banheiro a aluna trans usava” e “queriam proibir as discussões
sobre gênero, orientação sexual, diversidade, questões da mulher, da democracia
e do grêmio estudantil na escola”.
Juliana
sofreu ataques após as “denúncias” feitas pelo vereador Bericó (PL) nas redes
sociais. Seu carro foi alvo de ovos, pedras e limões. “Jogavam coisas na
escola, jogaram fogos de artifício em mim, jogaram lixo na minha casa. Eu tive
que ir morar três meses na casa da minha mãe porque passavam motoqueiros na
frente da minha casa me xingando de coisas horrorosas”, desabafa.
O caso
chegou à tribuna da Alesc quando o deputado Sargento Lima (PL) ameaçou a
educadora. “Fosse minha neta, uma das minhas enteadas, meu filho, uma dessa, um
suplente estaria assumindo a minha vaga aqui porque eu estaria na cadeia.
Simplesmente isso”, disse o parlamentar na sessão de 15 de março de 2023. O
processo que acusava Juliana de “doutrinação político/partidária” foi anulado
em janeiro de 2024.
O
relatório “Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil”,
publicado em 2025 pelo Onve, aponta que a violência contra professores começou
a se intensificar a partir de 2010. Os picos ocorreram em 2016, 2018 e 2022,
anos marcados pelo impeachment de Dilma Rousseff e por duas eleições
presidenciais. A pesquisa, que ouviu mais de três mil educadores nas cinco
regiões do país, indica que o Sul concentra o maior número de casos, seguido
pelo Sudeste. Fernando Penna observa que o dado não surpreende, uma vez que
Santa Catarina, estado com maior presença de políticos de extrema-direita, foi
um dos que registraram o maior número de respondentes.
O
coordenador do Onve projeta que, em 2026, a direita mobilizará todas as
estratégias políticas que já deram retorno eleitoral para voltar ao poder. A
perseguição a educadores e a incitação do pânico moral em torno da ideologia de
gênero devem estar no centro dessa mobilização. A hipótese de Penna é que 2026
será um ano particularmente difícil para os profissionais da educação.
Todos
os parlamentares citados foram procurados pela reportagem, mas não houve
retorno até a publicação. Já a Secretaria de Educação de Santa Catarina afirmou
“seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção da comunidade
escolar”.
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Quando a perseguição é transformada em voto
A
partir de uma denúncia feita pelo vereador Fernando Cordeiro, de Chapecó, a
professora de Língua Portuguesa Ibriela Sevilla foi alvo de um PAD por
trabalhar, em sala de aula, o livro Não Alimente a Escritora, da autora
catarinense Telma Scherer. A atividade ocorreu em uma turma do primeiro ano do
Ensino Médio da Escola Estadual Professora Angela Lourdes Lago. Pais de alunos
acionaram a direção da escola e pediram a demissão da professora, alegando que
o livro continha linguagem inapropriada. A obra, que consiste em um poema de 94
páginas, já havia sido utilizada por Ibriela em 2023, na mesma escola, sem
suscitar qualquer problema.
O PAD
aberto contra Ibriela em 2024 foi arquivado quase um ano depois, quando a
comissão responsável concluiu pela inocência da docente. Durante o trâmite do
processo, a professora foi exposta nas redes sociais e nas câmaras legislativas
municipais e estaduais. Desde o episódio, Ibriela tem acompanhamento
psicológico e psiquiátrico.
O
vereador Fernando Cordeiro, então em pré-campanha para a reeleição, publicou,
em março de 2024, uma crítica à conduta da professora em suas redes sociais.
Três dias depois, o caso chegou à deputada estadual Ana Campagnolo, do PL, que
repercutiu o assunto na tribuna da Assembleia Legislativa.
Para
Fernando Penna, a dinâmica indica uma atuação em rede entre os parlamentares.
“Quando um vereador faz a denúncia e uma deputada estadual a divulga, há uma
articulação clara. A deputada serve como plataforma, enviando a mensagem de que
outros vereadores que fizerem o mesmo também ganharão projeção. Um parlamentar
reforça o outro, construindo, assim, um empreendimento político”, diz.
Em
2020, Fernando Cordeiro foi eleito com 1.422 votos, a 14ª maior votação em
Chapecó. Em 2024, ele quase triplicou seu eleitorado e tornou-se o vereador
mais votado do município. Para o coordenador do Onve, o crescimento expressivo
da votação após a perseguição a uma professora exemplifica como esse tipo de
violência tem sido convertido em capital político.
A
própria deputada Ana Campagnolo, que auxiliou Cordeiro na exposição do caso,
ganhou projeção política após um conflito com sua orientadora de mestrado, a
historiadora Marlene de Fáveri, da Universidade do Estado de Santa Catarina. O
episódio foi exposto publicamente durante a campanha eleitoral de 2018, quando
Campagnolo foi eleita deputada estadual com mais de 34 mil votos. Até então,
ela nunca havia concorrido a cargos políticos e atuava como professora de
História em escolas de Chapecó. Após denunciar “professores doutrinadores” em
seu primeiro mandato, Campagnolo reelegeu-se em 2022 como a deputada mais
votada da história do parlamento catarinense, com 196.571 votos.
Procurado,
Fernando Cordeiro alegou que “o objetivo foi representar os pais e alunos que
me procuraram solicitando ajuda, representando-os nas instâncias legais e
competentes, relatando material apresentado pela referida professora”.
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Um padrão repetido pelo Brasil
Os
casos de Jadir, Ibriela e Marlene não são exceção. O roteiro de perseguição e
violência se repete esporadicamente em outras regiões do país. Em Magé, no Rio
de Janeiro, a professora de Artes Daniela Abreu enfrentou uma situação
semelhante. Ela trabalhava há 17 anos no Colégio Estadual Professor Alfredo
Balthazar da Silveira e nunca tinha registrado problemas com os alunos. A
escola sempre foi reconhecida por sua atuação combativa, com grande adesão do
corpo docente ao sindicato. Em contrapartida, grupos locais pressionavam pela
militarização da instituição.
Nesse
contexto de tensão, em 2022, Daniela passou a ter conflitos com estudantes que
faziam declarações racistas em sala de aula. No início do ano, um aluno a
agrediu verbalmente e a ameaçou fisicamente. O estopim da violência, no
entanto, ocorreu em setembro daquele ano, quando um casal de alunos abordou a
professora na sala dos docentes e pediu materiais da campanha do então
candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Daniela recusou o pedido, mas, diante da
insistência dos estudantes, cedeu um adesivo e pediu que o aluno o guardasse.
Ela não sabia que a interação estava sendo filmada.
Quinze
minutos depois, policiais militares e fiscais do Tribunal Regional Eleitoral
(TRE) entraram na escola. Segundo relatos de funcionários, a abordagem ocorreu
sem mandado. Vídeos da entrada dos policiais e da entrega do adesivo eleitoral
circularam nas redes sociais. Daniela foi acusada de ser doutrinadora, e as
imagens simulavam uma prisão que, de fato, nunca ocorreu.
A
professora relata que passou por instantes de terror e se sentiu minúscula em
meio à barbárie. Ao longo de 2022, ela havia sido gravada em outras aulas sem o
seu conhecimento. Mais tarde, compreendeu a intencionalidade daquelas
filmagens, que foram utilizadas na sindicância instaurada contra ela.
A
perseguição ganhou contornos institucionais em 2023, quando o deputado estadual
Alan Lopes, do PL, passou a atacar publicamente a professora. Eleito presidente
da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em abril de
2023, o parlamentar foi ao colégio de Daniela para gravar um vídeo intitulado
“Desmascaramos a ‘professora’ militante esquerdista”. Lopes reuniu filmagens
clandestinas feitas nas aulas de Daniela e declarou que o período de denúncias
engavetadas por doutrinação em sala de aula havia acabado no Rio.
Um
levantamento publicado pelo Onve em 2024 revela que, em quatro anos, a
Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro abriu 1.320 sindicâncias
contra professores. O número representa a média de uma sindicância por dia
entre 2020 e 2024. O estudo aponta que agentes públicos têm manipulado o
instrumento da sindicância para criminalizar, isolar e silenciar educadores. O
pico de aberturas de sindicâncias ocorreu em 2022, ano eleitoral, com quase 500
procedimentos instaurados.
Após a
publicação do vídeo pelo deputado Alan Lopes, Daniela foi alvo de uma
sindicância e, quatro meses depois, de um PAD. Ela foi acusada de realizar
campanha eleitoral na escola, fazer apologia às drogas e enaltecer a vereadora
Marielle Franco, assassinada. Segundo o processo, a professora teria
descumprido os deveres previstos no Estatuto dos Funcionários Públicos e os
preceitos éticos do Código de Ética Profissional do Servidor.
Nesse
período, Daniela ficou extremamente fragilizada. Ela conta que grupos
organizavam reuniões e a chamavam de “Marielle de Magé”, não como um elogio,
mas como um alvo. Diziam que não precisavam mais matá-la, pois já haviam
conseguido quebrá-la por dentro.
Em
setembro de 2025, o PAD foi arquivado. Assim como no caso de Jadir Anchieta, o
arquivamento não apagou as violências sofridas. Daniela foi alvo de ameaças e
precisou deixar a cidade para evitar uma tragédia. Desenvolveu crises de
ansiedade, falta de ar e depressão. Pensou em abandonar a sala de aula e teve
medo de morrer. Foi, segundo ela, o momento mais difícil de sua vida.
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Os resultados dessa violência
Quase
dois anos após a gravação que resultou na abertura de seu Processo
Administrativo Disciplinar, Jadir Anchieta continua a ministrar aulas de
História. Diante de novas turmas, ele continua abordando temas como o
nazifascismo, as crises democráticas e os conflitos políticos do século 20. A
diferença, agora, é que a sensação de estar sendo gravado nunca o abandona.
Hoje, ele pensa duas ou três vezes antes de falar, o que torna a rotina
exaustiva.
Para os
pesquisadores do Onve, o método de alguns políticos da extrema-direita produz
um efeito que vai além dos episódios individuais: cria um ambiente de
insegurança e medo, levando os educadores à autocensura.
Em um
contexto de polarização política e com a aproximação de novas eleições,
especialistas alertam que o uso de estratégias de perseguição contra educadores
tende a se intensificar. As explicações sobre crises democráticas, questões de
gênero ou temáticas religiosas continuam no quadro negro. Mas agora, entre os
cadernos e os livros, paira sempre a possibilidade de um celular gravando em
silêncio.
Fonte:
Por Camila Borges – Agência Pública

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