Inspiração
para candidatos da direita, modelo Bukele de segurança é defendido na Fiesp
O
Congresso sobre segurança pública realizado pela Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (Fiesp) nesta segunda-feira, 31 de agosto, em sua sede, foi
marcado pela uníssona defesa de uma figura política: o presidente de El
Salvador, Nayib Bukele. O seu modelo de encarceramento em massa, inspiração
para diversos políticos brasileiros, já colocou quase 2% da população do país
atrás das grades, muitas vezes, sem o devido processo legal.
A
palestra do ministro da Justiça e Segurança Pública salvadorenho, Gustavo
Villatoro, foi o ponto alto do encontro, quando os presentes puderam ouvir suas
críticas aos defensores de direitos humanos. Segundo Villatoro, órgãos
internacionais de direitos humanos fazem “manipulação” quando falam sobre as
violações no país. “E todos esses pseudo defensores de direitos humanos, eles
são tão hipócritas”.
O que
parecia ser um evento técnico sobre o tema acabou se tornando uma propaganda de
um modelo de segurança pública que conta com o apoio de pelo menos quatro
presidenciáveis, que citam políticas semelhantes em seus planos de governo:
Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos
(Missão).
O
presidente de El Salvador é hoje um dos símbolos internacionais da direita
punitivista, tendo sido elogiado, inclusive, pelo presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump. Durante sua apresentação, o ministro do país declarou,
inclusive, que as organizações internacionais de direitos humanos estariam em
“um complô” contra as políticas de segurança e contra o governo Bukele.
Entre
as ações mais criticadas do atual governo salvadorenho, estão os decretos de
estado de exceção em cadeia, prisões em massa e a suspensão de garantias
processuais. Elementos que foram ignorados ao longo do evento. A política de
Bukele foi descrita, pelo contrário, como inspiração para políticos,
pesquisadores e empresários do ramo da indústria presentes.
O
senador da República, candidato a governador do estado do Paraná pelo Partido
Liberal (PL) de Flávio Bolsonaro, além de presidente do Conselho de Segurança
da Fiesp, Sergio Moro, foi uma das vozes que defenderam a política de Bukele.
Ele declarou, após a apresentação de Villatoro, que, se eleito, fundará um
presídio de segurança máxima estadual e o nome será “El Salvador”, em homenagem
à sua inspiração nas políticas de segurança do presidente do país da América
Central.
Outro
candidato a ministrar palestra no evento, o deputado federal Guilherme Derrite,
que disputa uma vaga ao Senado Federal por São Paulo, pelo Progressistas,
também aproveitou a oportunidade para declarar seu apoio ao modelo. Ao lado de
Derrite, Moro declarou que a experiência de El Salvador foi vitoriosa “graças
às políticas ali levantadas”, descritas por Villatoro, “que conseguiram
transformar o país no mais seguro da América Latina”.
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Por que isso importa?
• A Fiesp é a maior entidade de classe da
indústria brasileira e representa cerca de 130 mil indústrias de São Paulo;
• A entidade participou do processo de
impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Na época, Paulo Skaf era o
presidente da Fiesp, cargo que também ocupa neste momento.
Quem
igualmente demonstrou sua simpatia pela política de Bukele, em entrevista
coletiva, foi o próprio presidente da Fiesp, Paulo Scaff. Perguntado sobre o
convite, não hesitou em se descrever como “entusiasta do combate ao crime
organizado” e de “exemplos do mundo”, como o salvadorenho, ponderando, em
seguida, que é preciso avaliar “vantagens e desvantagens” do modelo.
O
Congresso Fiesp de Segurança Pública convidou autoridades, especialistas e
lideranças empresariais para debater políticas para conter o avanço do crime
organizado, na sede da instituição na Avenida Paulista, em São Paulo. Foram
seis painéis com temas que discutiam desde o papel do governo no combate às
organizações criminosas, até tecnologias que podem auxiliar nos conflitos.
A voz
dissonante sobre o modelo de segurança pública durante o Congresso foi a do
promotor de justiça Lincoln Gakyia, do Ministério Público do Estado de São
Paulo (MPSP), que investiga o Primeiro Comando da Capital, o PCC, há 30 anos.
Ele
lembrou os altos valores gastos com presos no Brasil e o formato com que as
prisões ocorreram em El Salvador: parte delas sem mandados judiciais. Para
Gakyia, o cenário brasileiro necessitaria de uma mudança constitucional. “Não
há soluções fáceis para problemas complexos”, avaliou.
“A
gente tem que entender qual o modelo de justiça e de segurança pública que nós
queremos para o país. Transformar modelos, com todo respeito, copiados ou
adaptados de outro país, vai haver necessidade de que a gente supere algumas
dificuldades, inclusive do ponto de vista constitucional e legal”, declarou.
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Urna como pano de fundo
Em meio
à defesa das políticas de Bukele, o dia também foi reservado para demonstrar
apoio às campanhas de políticos convidados. Durante a sua fala de abertura do
congresso, Sergio Moro chamou o deputado Guilherme Derrite de “futuro senador
da República”, cargo ao qual o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo
no governo de Tarcísio de Freitas ainda é candidato.
Contudo,
um detalhe foi deixado de lado: na pesquisa Quaest de agosto de 2026, Derrite
aparece empatado com as ex-ministras do governo Lula, Marina Silva (Psol-Rede)
e Simone Tebet (PSB). O ex-secretário tem a mesma porcentagem de Silva, com 12%
das intenções de votos, seguido por Tebet com 11%.
Tarcísio
de Freitas (Republicanos) também foi lembrado por Moro em sua fala de abertura.
O governador de São Paulo foi representado no congresso pelo seu atual
secretário de Segurança Pública, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, que assumiu
a pasta em dezembro de 2025, após a saída de Derrite.
“Quero
aqui pedir, secretário, que transmita os nossos agradecimentos ao governador
Tarcísio de Freitas por ter disponibilizado prontamente esse aparato de
segurança. Não vou falar que ele é o futuro governador de São Paulo, porque ele
já é, mas nós sabemos que ele vai continuar no cargo por mais quatro anos e São
Paulo ganha muito com a reeleição do governador”, declarou Moro.
O
senador e ex-juiz não foi o único a dar títulos antecipados aos presentes. O
papel também coube a Pery Shikida, professor da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná (Unioeste), que, durante a apresentação de um estudo sobre a
população carcerária brasileira, chamou o senador de “futuro governador do
Paraná”.
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Ministro salvadorenho encontrou com Flávio Bolsonaro
Flávio
Bolsonaro não esteve presente ao congresso realizado pela Fiesp, mas enviou seu
vice, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), que participou da abertura do
encontro. A visita de Gustavo Villatoro ao Brasil também não passou em branco
para o candidato do PL, que se encontrou com o ministro salvadorenho no último
domingo, 30 de agosto, em um hotel de São Paulo.
Na
ocasião, Flávio disse que no Brasil tem “pouco preso” e classificou a
legislação brasileira como “frouxa”. Até dezembro de 2025, os presídios
brasileiros tinham 954 mil pessoas presas, sendo a terceira maior população
carcerária do planeta, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
As
políticas de encarceramento em massa em El Salvador levaram mais de 100 mil
pessoas à prisão, o equivalente a mais de 1% de toda a população do país, em
eventos marcados por violações de direitos humanos e amplamente denunciados por
organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional.
“É uma
experiência que obviamente é possível aqui no Brasil”, disse Flávio Bolsonaro
na oportunidade à imprensa. Em seu programa de governo, o filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro tem, entre os projetos na área de segurança
pública, a criação de mais 500 mil vagas em cinco presídios nacionais de
segurança máxima, que seriam chamados de “Treva”.
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Nenhum representante do governo Lula
Em meio
à exaltação das políticas de segurança pública de El Salvador, uma ausência
chamou atenção de quem participava do evento: ministros, secretários e
autoridades do governo Lula para falar sobre os programas federais de
enfrentamento ao crime organizado.
A
Agência Pública questionou Sergio Moro sobre a ausência de representantes do
governo federal. A resposta do senador foi de que o evento foi apartidário e
que “houve, sim, convite ao Ministério de Justiça e Segurança Pública do
governo Lula para participar, inclusive, da abertura e para fazer exposição,
mas não que o convite não foi aceito”.
Questionado,
o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) confirmou o recebimento do
convite ao chefe da pasta Wellington César Lima e Silva. “O Ministro recebeu e
agradeceu o convite. Contudo, em razão de compromissos previamente assumidos em
agenda, não foi possível sua participação”, diz a íntegra da nota.
Fonte:
Por Rafael Custódio, em Agência Pública

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