Caiado
quer levar ao Brasil o modelo em segurança de Goiás, o estado que mais refina
cocaína no país
“Um
paciente foi atropelado por um ônibus. Quais são os pontos que você vai
priorizar? Poxa, cara, eu nem examinei o doente. Calma”. Foi essa a resposta de
Ronaldo Caiado quando César Tralli e Renata Vasconcellos, na sabatina do Jornal
Nacional desta terça-feira, pediram detalhes sobre o que faria na Previdência.
Foi
também a estratégia que ele repetiu ao longo de toda a entrevista: reclamou dos
jornalistas dizendo que “não estamos aqui em uma mesa examinadora”,
interrompeu, fugiu das perguntas objetivas e delegou os detalhes a “melhores
cabeças do Brasil” que ainda não nomeou.
A
ironia é que o candidato do PSD à Presidência da República se apresenta há
meses como alguém que já examinou o doente e traz o remédio pronto. O nome do
remédio é Goiás.
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E Goiás
é o estado que mais concentra laboratórios de cocaína no Brasil. São 81
estruturas identificadas entre janeiro de 2019 e julho de 2025, mais do que o
dobro do segundo colocado, o Amazonas, com 39.
O dado
é do relatório Floresta em Pó, publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Fogo
Cruzado em parceria com outras organizações. O estudo mapeou 550 laboratórios
no país e mostra uma virada: o Brasil deixou de ser apenas rota de passagem da
cocaína para se tornar um dos principais lugares onde a droga é refinada,
movimentando cerca de US$ 6 bilhões por ano.
Goiás
está no centro dessa nova geografia. O estado concentra 44 laboratórios de alta
capacidade produtiva e integra a chamada Rota Caipira, sob domínio do PCC, que
controla as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.
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‘Modelo que deu certo’
Nada
disso apareceu na sabatina. Nada disso aparece nas convenções em que Caiado
repete que “Goiás é o modelo que deu certo”, que “Goiás, hoje, é o estado que
tem a maior segurança pública do Brasil” e que “bandido não se cria em Goiás”.
O plano
de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, ratifica a mesma
narrativa em linguagem institucional: “a experiência de Goiás mostra que esse
cenário pode ser modificado”. O que a experiência de Goiás mostra, se
examinarmos o doente, quer dizer, os dados, é outra coisa.
Um
estado que ocupa esse lugar na cadeia internacional do tráfico não é modelo de
segurança pública. É um hub logístico do narcotráfico.
E
ninguém está fazendo a pergunta que ele
deveria responder: se sua gestão foi tão
bem-sucedida contra o crime organizado, por que Goiás lidera o refino de
cocaína no país durante exatamente os seis anos em que ele governou?
O plano
de governo, tanto quanto a entrevista de terça, não oferece resposta. Oferece
um catálogo de propostas que repete o repertório de sempre, que vai de redução
da maioridade penal a uso das Forças Armadas contra facções.
Ele
fala sobre enquadrar grupos armados como terroristas, incluindo milícias, mas
não resolveu a famosa “confraria da
morte”, conjunto de policiais de Anápolis que assassinou um desafeto do
governador e outras sete pessoas como queima de arquivo. A milícia se
enquadraria na tal proposta?
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Hub goiano do refino
Dentre
as propostas no plano do candidato, nenhuma toca no elo que sustenta o hub
goiano do refino: a arquitetura financeira que lava o dinheiro da cocaína, as
rotas rodoviárias que atravessam o estado sem fiscalização efetiva, a
infraestrutura rural que abriga os laboratórios.
Segurança
pública contra o crime organizado se faz com inteligência financeira, controle
integrado de fronteiras, cooperação internacional efetiva, desarticulação
patrimonial das lideranças e políticas de redução de danos que retirem o
mercado consumidor das mãos das facções. Nada disso está no centro da proposta
de Caiado.
O
centro da proposta é uma lei de terrorismo doméstico com regime prisional
próprio para facções, enquanto o mesmo candidato promete anistia “ampla, geral
e irrestrita” aos condenados pelo 8 de Janeiro. Rigor máximo para uns crimes,
perdão total para outros. Que combate ao crime é esse?
Quando
questionado, Caiado responde que não examinou o doente. Quando não é
questionado, apresenta o remédio. E o remédio é o estado que virou plataforma
de exportação de cocaína durante os seis anos em que ele foi médico
responsável.
Esse é
o exemplo que Caiado quer levar ao Brasil.
Fonte:
Por Cecília Olliveira, em The Intercept

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