Candidata
a deputada estadual assinou licenças ambientais de doadores de sua campanha no
MT
TODO o
dinheiro declarado até 30 de agosto pela campanha de Sheila Klener, servidora
da Sema (Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Mato Grosso) e candidata a
deputada estadual pelo PSDB nestas eleições, veio de dois doadores ligados a
empreendimentos minerários cujas licenças ambientais são assinadas por ela
própria.
Até a
referida data, Sheila informou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) uma
arrecadação de R$ 130 mil. O valor é dividido entre os R$ 100 mil repassados
pelo empresário Valdinei Mauro de Souza, conhecido como Nei Garimpeiro, e os R$
30 mil doados pelo geólogo Wagner Lopes Gheler.
Nei
Garimpeiro já foi autuado cinco vezes pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por diferentes infrações
ambientais. Já Gheler preside a Nossacoop, cooperativa de mineração alvo de
sete autos de infração e sete embargos (áreas interditadas por irregularidades
ambientais) no Pará.
Geóloga
de formação e servidora da Sema desde 2006, Sheila Klener fez carreira na
Coordenadoria de Mineração da pasta, área responsável pelo licenciamento
ambiental de empreendimentos desse setor no estado.
Em 19
de março deste ano, ela assinou no mesmo dia uma licença para Nei Garimpeiro
extrair minerais metálicos em Poconé e outra para a Nossacoop explorar metais
preciosos em Peixoto de Azevedo. Os dois documentos têm numeração sequencial. A
licença de Nei Garimpeiro recebeu o registro 337556/2026. Já a da Nossacoop,
337557/2026.
A
licença para Nei Garimpeiro não foi a primeira assinada por Sheila. Desde julho
de 2023, a reportagem localizou ao menos três outros documentos em favor do
empresário com a firma da servidora e candidata a deputada estadual.
O
primeiro saiu três meses depois de o Ibama lavrar contra ele um auto de
infração no valor de R$ 620,5 mil, por irregularidades no uso e armazenamento
de mercúrio — metal comumente usado na extração de ouro em garimpos. É o auto
de maior valor entre os cinco autos localizados pela reportagem. Somados, eles
totalizam R$ 1,066 milhão, em valores originais.
Para
entrar em operação, um garimpo precisa, além de autorização da ANM (Agência
Nacional de Mineração), do governo federal, de aprovação do licenciamento
ambiental. Em Mato Grosso, essa etapa cabe à Sema e passa pela área em que
Sheila Klener fez carreira.
Respondendo
por escrito a perguntas enviadas pela Repórter Brasil, Sheila Klener afirmou
que sua participação no licenciamento ambiental dos empreendimentos ocorreu no
“exercício regular das atribuições do cargo”. Segundo a nota, os pareceres
técnicos são elaborados por analistas ambientais e cabe à coordenação assinar
os documentos decorrentes desse fluxo.
“Sou
servidora pública há aproximadamente 20 anos, com atuação na área de mineração
e licenciamento ambiental, razão pela qual conheço institucionalmente diversos
profissionais, empresários, cooperativas e representantes do setor mineral de
Mato Grosso, entre eles o Sr. Valdinei Mauro de Souza”, diz a nota.
No caso
de Wagner Lopes Gheler, afirmou conhecê-lo “desde a época da graduação em
Geologia, há mais de 30 anos”.
“Não
houve, em qualquer dos casos, relação que alterasse ou interferisse no
exercício das minhas atribuições funcionais”, continua o posicionamento.
Em nota
enviado à reportagem, Gheler disse conhecer Sheila desde 1993, dos tempos de
faculdade. “Minha doação foi feita à candidata Sheila Klener em razão de sua
atuação e conhecimento do setor mineral e ambiental”, diz o texto.
“Também
atuo como empresário do setor de mineração há várias décadas. Por essa razão
agora, e em outros momentos da história, possuo direitos minerários e licenças
ambientais”, continua.
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Nei Garimpeiro já havia doado R$ 100 mil à campanha de Sheila Klener em 2022
Não é a
primeira vez que Nei Garimpeiro faz uma doação eleitoral para Sheila Klener.
Em
2022, na primeira tentativa da servidora de se eleger deputada estadual, ele
repassou R$ 100 mil, 24% dos R$ 415,5 mil líquidos arrecadados. O montante
superou os R$ 80 mil enviados pelo diretório estadual do PSDB e os R$ 40 mil
repassados pela direção nacional.
Em nota
enviada à reportagem, Nei Garimpeiro afirma conhecer Sheila há alguns anos e
manter com ela uma “relação de natureza institucional”.
O texto
informa que as doações foram “espontâneas, feitas dentro da lei e sem
condicionamento ou expectativa de contrapartida”. Ainda de acordo com o
posicionamento, os processos de licenciamento de seus empreendimentos são
conduzidos por profissionais responsáveis de suas empresas. Leia a íntegra da
resposta.
Já
Sheila Klener afirma que as contribuições para sua campanha foram feitas por
livre manifestação dos doadores e declaradas à Justiça Eleitoral. A nota da
candidata diz que o simples fato de um doador atuar na mineração ou ter um
empreendimento submetido à Sema não caracterizaria impedimento ou conflito de
interesses. Também sustenta que a assinatura das licenças é uma atribuição de
quem ocupa a Coordenadoria de Mineração, e não uma atribuição pessoal da
servidora.
Na
eleição passada, Sheila recebeu 4.345 votos e terminou a disputa como a quarta
suplente da Federação PSDB-Cidadania. Não se elegeu, mas tomou posse
temporariamente em 9 de agosto de 2023 no lugar de Carlos Avallone (PSDB),
licenciado do mandato. Em 20 de agosto de 2025, voltou à Assembleia, novamente
na vaga de Avallone.
A
candidata disputa agora a eleição no mesmo campo político que governa Mato
Grosso. A Federação PSDB Cidadania integra a coligação do governador Otaviano
Pivetta (Republicanos), que assumiu o cargo após a renúncia de Mauro Mendes
(União), que abriu mão do cargo para se candidatar ao Senado
Nei
Garimpeiro também foi sócio de Mauro Mendes em negócios de mineração de ouro.
Registros societários ligam os dois à Maney Participações e à Mineração Casa de
Pedra. O empresário comanda ainda o Fomentas — o grupo empresarial afirma ter
em Poconé quatro plantas capazes de processar 12 mil toneladas de minério por
dia e 15 mil hectares de direitos minerários.
Em suas
passagens pelo Legislativo estadual, Sheila Klener também prestou homenagens
aos dois doadores Em setembro de 2023,
ela incluiu o nome de Wagner Lopes Gheler entre cerca de cem personalidades de
Mato Grosso contempladas por moções de aplausos.
Dois
anos depois, durante a segunda passagem pela Casa, ela foi autora de uma
resolução que concedeu a Nei Garimpeiro a Comenda Dante de Oliveira. Segundo as
regras da própria Assembleia, a honraria é destinada a pessoas de destaque na
defesa da democracia e da cidadania.
Na nota
enviada à Repórter Brasil, Nei Garimpeiro afirma que “uma homenagem dessa
natureza decorre de iniciativa de quem a concede, não sendo algo que se
solicite ou se negocie”.
A
comenda, segundo ele, reconheceu sua trajetória profissional de mais de três
décadas. “Tampouco existe relação entre a homenagem, as doações eleitorais
realizadas e os processos de licenciamento ambiental dos meus empreendimentos.”
Sheila
Klener, por sua vez, sustenta que as homenagens foram formalmente justificadas
e seguiram os trâmites da Assembleia. Segundo ela, as indicações reconheceram
profissionais ligados ao setor mineral, área à qual sua própria trajetória
profissional está vinculada, e outros nomes do setor também foram homenageados.
Terminada
a passagem pela Assembleia, Sheila retornou à Sema. Em março deste ano, os
próprios documentos das licenças a identificam novamente como coordenadora de
Mineração da pasta.
Em
entrevista ao podcast Garimpo Sustentável, de abril de 2024, Sheila contou ter
ingressado na secretaria em maio de 2006. Diante das opções de trabalhar com
recursos hídricos, biodiversidade ou mineração, escolheu a última. “Eu fiquei
lá e tô lá até hoje”, afirmou.
Em
setembro de 2021, a servidora foi a Brasília representar a Sema numa audiência
da Câmara sobre mineração de ouro e uso de mercúrio. Disse trabalhar havia 15
anos no licenciamento do setor. “Eu conheço muito bem os dois lados: o lado do
órgão ambiental e o lado do empreendedor”, afirmou.
Na
mesma audiência, avaliou faltar representação política ao setor. “Sem mineração
não existe nada”, declarou. Também argumentou que a condição de garimpeiro não
poderia, por si só, transformar alguém em suspeito de ilegalidade.
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Licenças de Nei Garimpeiro têm assinatura de Sheila Klener
O
primeiro documento em nome de Nei Garimpeiro, localizado pela reportagem com a
assinatura de Sheila Klener, foi emitido em julho de 2023.
Trata-se
de uma licença de instalação para extração de minerais metálicos em Poconé, uma
das principais portas de entrada para o Pantanal mato-grossense. No rodapé, a
servidora assina como coordenadora de Mineração da Sema.
Em
novembro daquele ano, ela assinou, no mesmo processo, uma licença de operação,
que possibilita de fato a atividade do empreendimento.
Já a
terceira foi emitida em 19 de março de 2026. Válida até março de 2029, ela
autoriza a extração de minerais metálicos em Poconé e novamente traz a
assinatura de Klener como coordenadora. A publicação também consta no Diário
Oficial de Mato Grosso.
Antes
mesmo das licenças de 2023, Nei Garimpeiro já acumulava autuações ambientais.
Cinco autos do Ibama lavrados contra ele somam R$ 1,066 milhão em valores
originais. Um auto de infração não equivale, por si só, a uma condenação
administrativa definitiva: o autuado pode apresentar defesa e recorrer.
Questionada
se tinha conhecimento dessas autuações quando assinou as licenças, a nota
emitida pela candidata Sheila Klener não responde diretamente. O texto informa
que os autos são procedimentos do Ibama e que informações sobre seus
fundamentos, tramitação e situação devem ser solicitadas ao órgão federal.
Dois
são de 10 de abril de 2023, apenas três meses antes da primeira licença
assinada por Sheila Klener. O maior, de R$ 620,5 mil, autua Nei Garimpeiro por
comercializar, utilizar e manter mercúrio metálico em depósito em desacordo com
exigências legais. Na mineração de ouro, o mercúrio é usado para formar uma
amálgama com o metal precioso e facilitar sua separação.
O metal
não é produzido no Brasil, e a última importação legal registrada pelo Ibama
foi em março de 2017. O próprio órgão afirmou à Repórter Brasil não existir
hoje no país estoque de origem lícita para uso no garimpo. Para o Ministério
Público Federal, qualquer garimpo que usa mercúrio recorre ao produto
introduzido no país por contrabando.
O
mercúrio é altamente tóxico. Segundo o Ministério da Saúde, o metilmercúrio
pode se acumular em peixes e aumentar a concentração ao longo da cadeia
alimentar, atingindo sobretudo indígenas, populações tradicionais, ribeirinhos,
garimpeiros, gestantes e crianças.
Em
2006, o Ibama autuou Nei Garimpeiro em Poconé em dois casos: um por extração de
ouro sem licença de operação e outro por poluição provocada pelo uso de
mercúrio. Em 2013, ele foi novamente autuado, desta vez em R$ 400 mil, por
destruir 79,27 hectares de floresta amazônica sem autorização em Itaituba, no
Pará.
A Santa
Rita Agropecuária, empresa em que Nei Garimpeiro era sócio-administrador à
época, recebeu do Ibama em 2015 um auto de R$ 325 mil e um embargo na área,
também em Itaituba. Os registros societários mostram a participação dele na
empresa desde 2012. O auto, no entanto, foi lavrado contra a pessoa jurídica, e
não contra a pessoa física de Nei Garimpeiro. Por isso, não está incluído nos
R$ 1,066 milhão citados acima.
Em
manifestação recente para outra investigação da Repórter Brasil sobre os dois
processos de 2023, Nei Garimpeiro afirmou ter apresentado defesa e que ainda
não havia decisão administrativa definitiva.
Segundo
ele, o mercúrio teria sido comprado de fornecedor registrado como regular no
Cadastro Técnico Federal e suas operações já não estariam mais utilizando o
metal.
Na
resposta enviada à reportagem, Nei Garimpeiro acrescenta que apresentou defesa
também nas demais autuações mencionadas e que, até o momento, não há decisão
definitiva nos processos que seguem em tramitação no Ibama.
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Doador preside cooperativa também autuada pelo Ibama
Responsável
por R$ 30 mil doados à campanha de Sheila Klener, Wagner Lopes Gheler é geólogo
e preside a Nossacoop desde a criação da entidade, em fevereiro de 2021. A
empresa tem entre suas atividades registradas a extração e o beneficiamento de
metais preciosos.
Em 19
de março, a Sema emitiu a Licença de Operação 337557/2026 para a Nossacoop
extrair metais preciosos em Peixoto de Azevedo. É a licença imediatamente
posterior à emitida no mesmo dia para Nei Garimpeiro.
O
processo da cooperativa havia sido protocolado em 12 de fevereiro. Uma licença
prévia saiu em 5 de março com assinaturas de outros servidores. A licença de
operação de 19 de março, baseada em outro parecer técnico, traz Klener como uma
das autoridades signatárias.
A
Nossacoop também acumula autuações ambientais. Em seis dias de agosto de 2024,
o Ibama lavrou sete autos de infração contra a cooperativa, todos no Pará. Os
valores originais somam R$ 210.780. Há ainda sete termos de embargo associados
à entidade. Os casos foram registrados em Itaituba, Bannach e Novo Progresso,
no Pará.
Na nota
enviada à Repórter Brasil, Gheler afirma que os autos e embargos decorreram de
uma fiscalização remota do Ibama e que os requerimentos minerários em nome da
Nossacoop não comprovam, por si só, que a entidade tenha realizado extração nas
áreas.
O
posicionamento informa ainda que a entidade apresentou defesa e “vem obtendo
resultados favoráveis”. Segundo o texto, áreas embargadas podem ser licenciadas
como condição para o desembargo.
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‘É minha bandeira como servidora pública’
A
defesa do setor mineral não é algo que Klener esconda. Em 2024, depois de sua
primeira passagem pela Assembleia, participou por cerca de duas horas do
podcast Garimpo Sustentável. No fim da conversa, definiu a mineração como uma
bandeira que pretendia continuar levando. “É minha bandeira como servidora
pública, como geóloga principalmente, como deputada também acho que foi”,
afirmou.
No
mesmo programa, Klener defendeu políticas específicas para pequenos
mineradores. Disse ainda que quem extrai minério sem título ou licença deveria
ser chamado de criminoso ou usurpador de bem da União, e não de “garimpeiro
ilegal”, pois, segundo ela, a expressão associaria toda a categoria à
ilegalidade.
A ideia
reapareceu na campanha deste ano. Em julho, Klener afirmou que “o garimpeiro
não é bandido” ao defender a importância econômica da mineração de ouro em Mato
Grosso. A declaração consta de texto publicado pela própria candidatura.
Em 25
de agosto, a candidata fez campanha em Poconé, município onde estão as três
licenças de Nei Garimpeiro assinadas por ela. Em entrevista à Rádio
Transpantaneira defendeu a importância econômica da mineração responsável. Na
mesma agenda, reuniu-se com cooperados da Cooper Poconé para discutir problemas
e perspectivas do setor mineral.
Sua
produção parlamentar não ficou restrita à mineração. Nas duas passagens pela
Assembleia, Sheila Klener apresentou também iniciativas ligadas a mulheres,
saúde, educação e proteção animal.
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O que diz a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Mato Grosso
A
Repórter Brasil perguntou à Sema qual foi exatamente o papel de Sheila Klener
nos processos de licenciamento. “Validação do parecer”, diz a pasta ambiental,
por meio de respostas enviadas pela assessoria de imprensa.
A nota
informa que os pareceres são elaborados por analistas ambientais e o regimento
da secretaria determina que os coordenadores assinem as licenças expedidas por
suas unidades.
A Sema
confirma que Sheila exercia formalmente a Coordenadoria de Mineração nas datas
das licenças citadas pela reportagem.
A pasta
afirma ainda que autos de infração ou embargos não impedem, por si só, a
emissão de uma licença ambiental, desde que sejam cumpridos os requisitos
legais e técnicos, e diz não existir impedimento legal para que a servidora
receba doações de pessoas ligadas a empreendimentos licenciados pela unidade.
A Sema
não respondeu, porém, se as autuações de Nei Garimpeiro e da Nossacoop foram
identificadas ou consideradas nesses processos.
Fonte:
Repórter Brasil

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