quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Brasil precisa voltar a planejar seu desenvolvimento

Os números reunidos por Ricardo Bergamini, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram uma realidade do Brasil que não aparece quando se comemora simplesmente a queda da taxa de desemprego.

Segundo os dados apresentados para o trimestre encerrado em julho de 2026, o Brasil tinha 175,5 milhões de pessoas em idade de trabalhar. Desse total, nada menos que 66,4 milhões estavam fora da força de trabalho.

A força de trabalho era constituída por 109,2 milhões de pessoas. Destas, 5,8 milhões estavam desocupadas e 38,8 milhões trabalhavam na informalidade. Restariam, portanto, 64,6 milhões de trabalhadores formais. É uma fotografia impressionante da fragilidade estrutural do mercado de trabalho brasileiro.

Há ainda o dado do Imposto de Renda. A Receita Federal registrava quase 47 milhões de declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) 2026 entregues até 26 de agosto. É preciso esclarecer que não se pode comparar diretamente esse número com o contingente de trabalhadores formais: são estatísticas diferentes, referentes inclusive a períodos distintos, e declarar Imposto de Renda não significa necessariamente possuir emprego formal.

Feita essa ressalva, o quadro geral permanece inquietante. Temos dezenas de milhões de pessoas fora da força de trabalho e quase 39 milhões de trabalhadores na informalidade. Uma parcela gigantesca da população brasileira permanece, portanto, afastada de relações de trabalho capazes de proporcionar estabilidade, direitos e renda suficiente para uma vida digna.

Ricardo Bergamini resume a situação numa frase deliberadamente provocadora: “O Brasil é um acampamento de refugiados.” Não se trata, evidentemente, de refugiados no sentido jurídico da palavra. A metáfora chama a atenção para uma população enorme vivendo à margem ou nas franjas da economia organizada, sobrevivendo como pode, fazendo bicos, trabalhando informalmente ou simplesmente sem conseguir entrar no processo produtivo.

Essa situação não surgiu por acaso. É consequência de décadas de abandono de um projeto nacional de desenvolvimento. O Brasil deixou de tratar a industrialização como prioridade, reduziu a capacidade de planejamento do Estado e submeteu progressivamente sua política econômica à lógica do capital financeiro.

O dinheiro que deveria financiar fábricas, infraestrutura, ciência, tecnologia e geração de empregos produtivos é drenado pelo custo financeiro da dívida e por juros elevados. A economia gira em torno da remuneração do dinheiro, enquanto a produção fica em segundo plano. O resultado aparece justamente nesses números: informalidade, precarização e milhões de brasileiros sem participação efetiva numa economia moderna.

É preciso inverter essa lógica. Livrar-se da ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro.

O Brasil necessita recuperar a capacidade de planejar sua economia e seu desenvolvimento. Não se trata de eliminar a iniciativa privada nem de estatizar toda a atividade econômica.

Trata-se de devolver ao Estado a responsabilidade de estabelecer prioridades, orientar o crédito, coordenar investimentos e conduzir uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

Isso significa também recuperar, nas condições do século 21, o trabalhismo de Getúlio Vargas. Foi com essa concepção que o Brasil começou a deixar para trás sua condição de país essencialmente agrário e construiu as bases de uma economia industrial.

O Estado assumiu responsabilidades, criou empresas estratégicas, promoveu infraestrutura e estabeleceu direitos trabalhistas que incorporaram milhões de brasileiros à cidadania.

Hoje precisamos de uma nova industrialização, adequada ao nosso tempo. Uma industrialização apoiada em ciência, tecnologia e inovação, capaz de desenvolver cadeias produtivas nacionais e reduzir a dependência externa.

E precisamos de um gigantesco programa de infraestrutura: ferrovias, energia, portos, saneamento, habitação, transporte público, telecomunicações e integração territorial.

Investimento dessa magnitude não significa simplesmente gastar dinheiro. Significa criar capacidade produtiva. Cada ferrovia construída, cada indústria instalada, cada obra de saneamento, cada investimento energético movimenta cadeias inteiras de fornecedores, gera empregos, amplia a arrecadação e aumenta a produtividade da economia.

O Brasil não pode se contentar em administrar a pobreza, a informalidade e o subemprego enquanto comemora décimos de queda na taxa de desemprego. Um país com nossos recursos naturais, nossa população, nosso território e nossa capacidade científica pode aspirar a muito mais.

Os números do mercado de trabalho estão nos dizendo que precisamos mudar de rumo. O Brasil necessita novamente de um projeto nacional de desenvolvimento, com planejamento econômico, industrialização e investimentos maciços em infraestrutura.

É preciso recolocar a produção acima da especulação, o trabalho acima da renda financeira e o desenvolvimento acima do fiscalismo. Recuperar o que havia de essencial no trabalhismo brasileiro não significa voltar ao passado. Significa recuperar uma ideia de futuro: um Estado capaz de planejar, uma economia capaz de produzir e uma nação capaz de oferecer trabalho digno a seu povo.

¨      Planejamento indicativo versus neoliberalismo. Por Fernando Nogueira da Costa

De acordo com os pesquisadores do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia, a relação entre financeirização, desindustrialização e globalização se manifesta de forma integrada a partir de dois eixos centrais: um macroeconômico (políticas cambiais e fluxos globais de capital) e outro corporativo/produtivo (estratégias das corporações transnacionais e controle de ativos intangíveis).

Essa articulação se desenrola por meio dos seguintes canais, explicados no documento apresentado para o seminário mensal entre os professores e os alunos da pós-graduação do Instituto de Economia da Unicamp.

O primeiro é o elo macroeconômico entre a abertura financeira e a perda de autonomia de políticas econômicas. A partir dos anos 1980 e de forma mais acentuada nos anos 1990, a globalização produtiva e financeira impulsionou uma forte abertura comercial e financeira internacional.

A abertura financeira, sob a globalização dos fluxos de capital, limitou de maneira profunda a capacidade dos países em desenvolvimento de utilizar políticas monetárias e cambiais favoráveis ao investimento produtivo e inovativo. Perdura a restrição de políticas domésticas pelo imperativo midiático de exclusividade em ajuste fiscal.

A inserção nessa dinâmica globalizada expõe economias como a brasileira a (i) taxas de juros reais elevadas, (ii) limitações fiscais e (iii) volatilidade cambial recorrente. Eleva muito o custo de capital para a inviabilização de alavancagem financeira e o risco de investimentos industriais de longo prazo.

A contumaz “denúncia novo-desenvolvimentista” diz respeito à doença holandesa provocar a desindustrialização. Em períodos de boom de commodities, a globalização dos fluxos comerciais e financeiros gera episódios recorrentes de valorização cambial prolongada, o que penaliza a competitividade da indústria manufatureira local, eleva o coeficiente de produtos importados e acelera a perda de elos produtivos domésticos.

O segundo canal é o elo corporativo. Diz respeito às estratégias de mínimo compromisso de capital e cadeias globais de valor.

A globalização permitiu a fragmentação e a dispersão geográfica da produção por meio das Cadeias Globais de Valor (CGVs). No entanto, a lógica organizadora e coordenadora dessas cadeias é ditada pelo aprofundamento da financeirização das grandes corporações líderes.

 A financeirização contemporânea das grandes empresas globais deslocou o foco dos ativos físicos para a acumulação e o controle de ativos intangíveis (como marcas, patentes, dados, algoritmos e propriedade intelectual). Os royalties e a publicidade permitem a elevação dos dividendos e atraem os acionistas em bolsas de valores internacionais.

Para garantir a máxima valorização patrimonial no mercado acionário e flexibilidade frente às oscilações econômicas, as multinacionais adotam formas de organização internacional em busca da captura máxima de valor com o mínimo comprometimento de recursos e imobilização de capital produtivo. Isso significa elas terceirizarem as etapas físicas da manufatura (de menor valor agregado e maior risco de imobilização de capital), para países em desenvolvimento, e reterem o controle do conhecimento de fronteira.

Esse processo consolida regimes de “monopólio intelectual”, nos quais empresas líderes (como as Big Techs) capturam e transformam em “ativos proprietários” o conhecimento coproduzido globalmente.

Para países retardatários ou em desenvolvimento, a confluência entre a globalização financeira e a financeirização corporativa cria uma turbulência de dupla face alimentadora da desindustrialização. No nível macroeconômico, gera enorme instabilidade cambial, volatilidade nos fluxos de capitais e nas condições de financiamento. No nível produtivo e tecnológico, cria o risco iminente de esses países participarem da economia globalizada apenas na condição de meros compradores e usuários passivos de soluções concebidas no exterior e de exportadores de recursos naturais brutos.

Sem políticas industriais e tecnológicas ativas capazes de criarem capacitações domésticas para absorver e desenvolver tecnologias proprietárias, o avanço da globalização e da financeirização empobrece o tecido industrial local. Converte as vantagens naturais em novas modalidades de inserção externa subordinada.

A Nova Indústria Brasil (NIB) e o Plano de Transformação Ecológica (PTE), elaborados pelo atual governo brasileiro, articulam uma resposta conjunta para reverter a especialização regressiva. Refere-se ao encolhimento da participação da Indústria Geral no PIB de 26,7% em 2000 e 23,4% em 2025. Em paralelo, houve o recuo das manufaturas na pauta exportadora de 74,4% em 1990 para 49,4% em 2023.

Essas políticas atuam por meio de mecanismos específicos. A primeira é a abordagem orientada por missões. A Nova Indústria Brasil rompe com políticas liberais genéricas de “ambiente de negócios” e se organiza em torno de seis missões prioritárias de desenvolvimento.

Direcionam os esforços de reindustrialização brasileira até 2033, abrangendo áreas como agroindústria sustentável em transição ecológica, saúde com segurança alimentar, infraestrutura, transformação digital, bioeconomia e defesa da soberania nacional. Buscam guiar o esforço produtivo para demandas sociais concretas.

A política usa o poder de compra estatal como mercado-âncora (como o SUS para o Complexo Industrial da Saúde) e estabelece requisitos de conteúdo local e investimentos obrigatórios em P&D (como o programa Mover no setor automotivo). Força o enraizamento de componentes e elos produtivos no país.

O Plano de Transformação Ecológica foca no uso da matriz de energia limpa e da biodiversidade nacional para realizar a transição verde de forma articulada com a reindustrialização. O objetivo é atrair investimentos de maior valor agregado (como química renovável e refino de minerais críticos) para evitar a “reprimarização verde” – cenário no qual o país exportaria minério bruto e importaria todo o núcleo tecnológico final.

O documento indica a reindustrialização não se apoiar em um Estado atuante diretamente na produção (como na criação de empresas estatais no século XX), nem se entregar passivamente às decisões de mercado das corporações transnacionais. O verdadeiro protagonista é um Estado indutor e coordenador estratégico. Deve atuar em articulação estreita com o setor privado.

De um lado, as empresas transnacionais (como as chinesas em veículos elétricos e infraestrutura) trazem o capital e as tecnologias indisponíveis localmente. De outro, o Estado atua de forma assertiva impondo condicionalidades tecnológicas.

Sem exigências estatais de transferência de tecnologia e de conteúdo local, a atuação das transnacionais corre o risco de consolidar apenas atividades de montagem de baixo valor agregado e de baixo enraizamento doméstico.

O impeditivo da antiga estratégia nacional-desenvolvimentista é os industriais brasileiros restaram sem ter capital suficiente nem tecnologia disponível. Os pesquisadores do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia demonstram esse esvaziamento decorrer de limitações macroeconômicas históricas e de barreiras impostas pela nova dinâmica global.

Quanto à escassez e ao custo de capital doméstico, o ambiente macroeconômico nacional é marcado por taxas de juros reais elevadas, instabilidade cambial e restrições fiscais. Elevam drasticamente o custo do capital e inviabilizam investimentos industriais privados de maturação lenta.

Embora o BNDES e a Finep sejam vitais, as restrições fiscais acumuladas nos anos de governos neoliberais encolheram a capacidade de desembolso dessas instituições se comparada a períodos de maior dinamismo industrial. Além disso, o mercado de capitais doméstico é pouco desenvolvido para projetos de longo prazo, deixando as empresas nacionais sem alternativas financeiras viáveis.

 Há baixo investimento privado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). É a ausência histórica, na maior parte dos setores industriais brasileiros, de uma cultura corporativa de investimento sistemático em Pesquisa e Desenvolvimento.

Das duas mil maiores empresas investidoras em Pesquisa e Desenvolvimento no mundo, apenas quatro são brasileiras, respondendo por míseros 0,13% do dispêndio tecnológico global. Essa presença residual global perpetua o hiato de produtividade entre as empresas nacionais e as líderes globais.

É extremamente difícil romper com os monopólios intelectuais globais, devido à concentração tecnológica. O desenvolvimento das tecnologias de fronteira (como Inteligência artificial, semicondutores e baterias) é dominado por um pequeno grupo de nações e grandes corporações globais (Big Techs), amparadas por fortes regras de propriedade intelectual, patentes e marcas.

Para um industrial brasileiro retardatário, o custo de aprendizado, a integração de sistemas e o acesso à infraestrutura avançada (como poder computacional em grande escala) criam barreiras financeiras e técnicas. Essas barreiras de entrada quase intransponíveis impossibilitam a competição sem uma coordenação do Estado e acordos estruturados de transferência de conhecimento.

No entanto, um economista neoliberal aponta um paradoxo no modelo brasileiro atual. O Brasil atrai grandes volumes de Investimento Direto Estrangeiro (IED) por possuir uma conta de capital amplamente aberta ao exterior. Ao mesmo tempo, mantém uma das economias mais fechadas do mundo ao comércio de bens e insumos, devido à baixa razão de importações em relação ao PIB.

Para essa visão, permitir a livre circulação de capital financeiro e investimentos estrangeiros sem uma abertura comercial recíproca faz com as empresas globais entrarem no Brasil apenas para explorar o mercado interno protegido e rentável, sem integrar o país às cadeias globais de valor. Esse descompasso gera ineficiência, isola a indústria nacional da concorrência e da fronteira tecnológica internacional e resulta em baixa produtividade de longo prazo.

Daí nasce a proposta neoliberal de a solução ser “integrar para crescer”. Qualquer movimentação internacional de capitais deve ser acompanhada obrigatoriamente por uma abertura comercial plena.

Para essa crença, o foco da política econômica deve ser a redução de barreiras tarifárias. A mágica seria reduzir os impostos de importação, para bens de capital e insumos intermediários, de modo as empresas no Brasil se modernizarem.

Daí o país avançaria com tratados de livre comércio, como o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, para forçar o ganho de produtividade. O neoliberal, de maneira a conservar o seu enriquecimento financeiro, defende também manter o eterno tripé macroeconômico (responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação), herança de seus colegas do governo FHC. Não diz como evitar a atraente entrada de capital, para carry-trade, geradora de sobrevalorização cambial e destruidora da competitividade da indústria local.

Acredita piamente em o “liberou geral” não provocar déficit comercial. Podes crer…

 

Fonte:  Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global/A Terra é Redonda

 

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