O
Brasil precisa voltar a planejar seu desenvolvimento
Os
números reunidos por Ricardo Bergamini, com base na
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram uma realidade
do Brasil que não aparece quando se comemora simplesmente a queda da taxa de
desemprego.
Segundo
os dados apresentados para o trimestre encerrado em julho de 2026, o Brasil
tinha 175,5 milhões de pessoas em idade de trabalhar. Desse total, nada menos
que 66,4 milhões estavam fora da força de trabalho.
A força
de trabalho era constituída por 109,2 milhões de pessoas. Destas, 5,8 milhões
estavam desocupadas e 38,8 milhões trabalhavam na informalidade. Restariam,
portanto, 64,6 milhões de trabalhadores formais. É uma fotografia
impressionante da fragilidade estrutural do mercado de trabalho brasileiro.
Há
ainda o dado do Imposto de Renda. A Receita Federal registrava quase 47 milhões
de declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) 2026 entregues até
26 de agosto. É preciso esclarecer que não se pode comparar diretamente esse
número com o contingente de trabalhadores formais: são estatísticas diferentes,
referentes inclusive a períodos distintos, e declarar Imposto de Renda não
significa necessariamente possuir emprego formal.
Feita
essa ressalva, o quadro geral permanece inquietante. Temos dezenas de milhões
de pessoas fora da força de trabalho e quase 39 milhões de trabalhadores na
informalidade. Uma parcela gigantesca da população brasileira permanece,
portanto, afastada de relações de trabalho capazes de proporcionar
estabilidade, direitos e renda suficiente para uma vida digna.
Ricardo
Bergamini resume a situação numa frase deliberadamente provocadora: “O
Brasil é um acampamento de refugiados.” Não se trata, evidentemente, de
refugiados no sentido jurídico da palavra. A metáfora chama a atenção para uma
população enorme vivendo à margem ou nas franjas da economia organizada,
sobrevivendo como pode, fazendo bicos, trabalhando informalmente ou
simplesmente sem conseguir entrar no processo produtivo.
Essa
situação não surgiu por acaso. É consequência de décadas de abandono de um
projeto nacional de desenvolvimento. O Brasil deixou de tratar a
industrialização como prioridade, reduziu a capacidade de planejamento do
Estado e submeteu progressivamente sua política econômica à lógica do capital
financeiro.
O
dinheiro que deveria financiar fábricas, infraestrutura, ciência, tecnologia e
geração de empregos produtivos é drenado pelo custo financeiro da dívida e por
juros elevados. A economia gira em torno da remuneração do dinheiro, enquanto a
produção fica em segundo plano. O resultado aparece justamente nesses números:
informalidade, precarização e milhões de brasileiros sem participação efetiva
numa economia moderna.
É
preciso inverter essa lógica. Livrar-se da ditadura do pensamento único imposta
pelo capital financeiro.
O
Brasil necessita recuperar a capacidade de planejar sua economia e seu
desenvolvimento. Não se trata de eliminar a iniciativa privada nem de estatizar
toda a atividade econômica.
Trata-se
de devolver ao Estado a responsabilidade de estabelecer prioridades, orientar o
crédito, coordenar investimentos e conduzir uma estratégia de desenvolvimento
de longo prazo.
Isso
significa também recuperar, nas condições do século 21, o trabalhismo de
Getúlio Vargas. Foi com essa concepção que o Brasil começou a deixar para trás
sua condição de país essencialmente agrário e construiu as bases de uma
economia industrial.
O
Estado assumiu responsabilidades, criou empresas estratégicas, promoveu
infraestrutura e estabeleceu direitos trabalhistas que incorporaram milhões de
brasileiros à cidadania.
Hoje
precisamos de uma nova industrialização, adequada ao nosso tempo. Uma
industrialização apoiada em ciência, tecnologia e inovação, capaz de
desenvolver cadeias produtivas nacionais e reduzir a dependência externa.
E
precisamos de um gigantesco programa de infraestrutura: ferrovias, energia,
portos, saneamento, habitação, transporte público, telecomunicações e
integração territorial.
Investimento
dessa magnitude não significa simplesmente gastar dinheiro. Significa criar
capacidade produtiva. Cada ferrovia construída, cada indústria instalada, cada
obra de saneamento, cada investimento energético movimenta cadeias inteiras de
fornecedores, gera empregos, amplia a arrecadação e aumenta a produtividade da
economia.
O
Brasil não pode se contentar em administrar a pobreza, a informalidade e o
subemprego enquanto comemora décimos de queda na taxa de desemprego. Um país
com nossos recursos naturais, nossa população, nosso território e nossa
capacidade científica pode aspirar a muito mais.
Os
números do mercado de trabalho estão nos dizendo que precisamos mudar de
rumo. O Brasil necessita novamente de um projeto nacional de
desenvolvimento, com planejamento econômico, industrialização e investimentos
maciços em infraestrutura.
É
preciso recolocar a produção acima da especulação, o trabalho acima da renda
financeira e o desenvolvimento acima do fiscalismo. Recuperar o que havia de
essencial no trabalhismo brasileiro não significa voltar ao passado. Significa
recuperar uma ideia de futuro: um Estado capaz de planejar, uma economia
capaz de produzir e uma nação capaz de oferecer trabalho digno a seu povo.
¨
Planejamento indicativo versus neoliberalismo. Por
Fernando Nogueira da Costa
De
acordo com os pesquisadores do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia, a
relação entre financeirização, desindustrialização e globalização se manifesta
de forma integrada a partir de dois eixos centrais: um macroeconômico
(políticas cambiais e fluxos globais de capital) e outro corporativo/produtivo
(estratégias das corporações transnacionais e controle de ativos intangíveis).
Essa
articulação se desenrola por meio dos seguintes canais, explicados no documento
apresentado para o seminário mensal entre os professores e os alunos da
pós-graduação do Instituto de Economia da Unicamp.
O
primeiro é o elo macroeconômico entre a abertura financeira e a perda de
autonomia de políticas econômicas. A partir dos anos 1980 e de forma mais
acentuada nos anos 1990, a globalização produtiva e financeira impulsionou uma
forte abertura comercial e financeira internacional.
A
abertura financeira, sob a globalização dos fluxos de capital, limitou de
maneira profunda a capacidade dos países em desenvolvimento de utilizar
políticas monetárias e cambiais favoráveis ao investimento produtivo e
inovativo. Perdura a restrição de políticas domésticas pelo imperativo
midiático de exclusividade em ajuste fiscal.
A
inserção nessa dinâmica globalizada expõe economias como a brasileira a (i)
taxas de juros reais elevadas, (ii) limitações fiscais e (iii) volatilidade
cambial recorrente. Eleva muito o custo de capital para a inviabilização de
alavancagem financeira e o risco de investimentos industriais de longo prazo.
A
contumaz “denúncia novo-desenvolvimentista” diz respeito à doença holandesa
provocar a desindustrialização. Em períodos de boom de commodities,
a globalização dos fluxos comerciais e financeiros gera episódios recorrentes
de valorização cambial prolongada, o que penaliza a competitividade da
indústria manufatureira local, eleva o coeficiente de produtos importados e
acelera a perda de elos produtivos domésticos.
O
segundo canal é o elo corporativo. Diz respeito às estratégias de mínimo
compromisso de capital e cadeias globais de valor.
A
globalização permitiu a fragmentação e a dispersão geográfica da produção por
meio das Cadeias Globais de Valor (CGVs). No entanto, a lógica organizadora e
coordenadora dessas cadeias é ditada pelo aprofundamento da financeirização das
grandes corporações líderes.
A
financeirização contemporânea das grandes empresas globais deslocou o foco dos
ativos físicos para a acumulação e o controle de ativos intangíveis (como
marcas, patentes, dados, algoritmos e propriedade intelectual). Os royalties e
a publicidade permitem a elevação dos dividendos e atraem os acionistas em
bolsas de valores internacionais.
Para
garantir a máxima valorização patrimonial no mercado acionário e flexibilidade
frente às oscilações econômicas, as multinacionais adotam formas de organização
internacional em busca da captura máxima de valor com o mínimo comprometimento
de recursos e imobilização de capital produtivo. Isso significa elas
terceirizarem as etapas físicas da manufatura (de menor valor agregado e maior
risco de imobilização de capital), para países em desenvolvimento, e reterem o
controle do conhecimento de fronteira.
Esse
processo consolida regimes de “monopólio intelectual”, nos quais empresas
líderes (como as Big Techs) capturam e transformam em “ativos
proprietários” o conhecimento coproduzido globalmente.
Para
países retardatários ou em desenvolvimento, a confluência entre a globalização
financeira e a financeirização corporativa cria uma turbulência de dupla face
alimentadora da desindustrialização. No nível macroeconômico, gera enorme
instabilidade cambial, volatilidade nos fluxos de capitais e nas condições de
financiamento. No nível produtivo e tecnológico, cria o risco iminente de esses
países participarem da economia globalizada apenas na condição de meros
compradores e usuários passivos de soluções concebidas no exterior e de
exportadores de recursos naturais brutos.
Sem
políticas industriais e tecnológicas ativas capazes de criarem capacitações
domésticas para absorver e desenvolver tecnologias proprietárias, o avanço da
globalização e da financeirização empobrece o tecido industrial local. Converte
as vantagens naturais em novas modalidades de inserção externa subordinada.
A Nova
Indústria Brasil (NIB) e o Plano de Transformação Ecológica (PTE), elaborados
pelo atual governo brasileiro, articulam uma resposta conjunta para reverter a
especialização regressiva. Refere-se ao encolhimento da participação da
Indústria Geral no PIB de 26,7% em 2000 e 23,4% em 2025. Em paralelo, houve o
recuo das manufaturas na pauta exportadora de 74,4% em 1990 para 49,4% em 2023.
Essas
políticas atuam por meio de mecanismos específicos. A primeira é a abordagem
orientada por missões. A Nova Indústria Brasil rompe com políticas liberais
genéricas de “ambiente de negócios” e se organiza em torno de seis missões
prioritárias de desenvolvimento.
Direcionam
os esforços de reindustrialização brasileira até 2033, abrangendo áreas como
agroindústria sustentável em transição ecológica, saúde com segurança
alimentar, infraestrutura, transformação digital, bioeconomia e defesa da
soberania nacional. Buscam guiar o esforço produtivo para demandas sociais
concretas.
A
política usa o poder de compra estatal como mercado-âncora (como o SUS para o
Complexo Industrial da Saúde) e estabelece requisitos de conteúdo local e
investimentos obrigatórios em P&D (como o programa Mover no setor
automotivo). Força o enraizamento de componentes e elos produtivos no país.
O Plano
de Transformação Ecológica foca no uso da matriz de energia limpa e da
biodiversidade nacional para realizar a transição verde de forma articulada com
a reindustrialização. O objetivo é atrair investimentos de maior valor agregado
(como química renovável e refino de minerais críticos) para evitar a
“reprimarização verde” – cenário no qual o país exportaria minério bruto e
importaria todo o núcleo tecnológico final.
O
documento indica a reindustrialização não se apoiar em um Estado atuante
diretamente na produção (como na criação de empresas estatais no século XX),
nem se entregar passivamente às decisões de mercado das corporações
transnacionais. O verdadeiro protagonista é um Estado indutor e coordenador
estratégico. Deve atuar em articulação estreita com o setor privado.
De um
lado, as empresas transnacionais (como as chinesas em veículos elétricos e
infraestrutura) trazem o capital e as tecnologias indisponíveis localmente. De
outro, o Estado atua de forma assertiva impondo condicionalidades tecnológicas.
Sem
exigências estatais de transferência de tecnologia e de conteúdo local, a
atuação das transnacionais corre o risco de consolidar apenas atividades de
montagem de baixo valor agregado e de baixo enraizamento doméstico.
O
impeditivo da antiga estratégia nacional-desenvolvimentista é os industriais
brasileiros restaram sem ter capital suficiente nem tecnologia disponível. Os
pesquisadores do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia demonstram esse
esvaziamento decorrer de limitações macroeconômicas históricas e de barreiras
impostas pela nova dinâmica global.
Quanto
à escassez e ao custo de capital doméstico, o ambiente macroeconômico nacional
é marcado por taxas de juros reais elevadas, instabilidade cambial e restrições
fiscais. Elevam drasticamente o custo do capital e inviabilizam investimentos
industriais privados de maturação lenta.
Embora
o BNDES e a Finep sejam vitais, as restrições fiscais acumuladas nos anos de
governos neoliberais encolheram a capacidade de desembolso dessas instituições
se comparada a períodos de maior dinamismo industrial. Além disso, o mercado de
capitais doméstico é pouco desenvolvido para projetos de longo prazo, deixando
as empresas nacionais sem alternativas financeiras viáveis.
Há
baixo investimento privado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). É a
ausência histórica, na maior parte dos setores industriais brasileiros, de uma
cultura corporativa de investimento sistemático em Pesquisa e Desenvolvimento.
Das
duas mil maiores empresas investidoras em Pesquisa e Desenvolvimento no mundo,
apenas quatro são brasileiras, respondendo por míseros 0,13% do dispêndio
tecnológico global. Essa presença residual global perpetua o hiato de
produtividade entre as empresas nacionais e as líderes globais.
É
extremamente difícil romper com os monopólios intelectuais globais, devido à
concentração tecnológica. O desenvolvimento das tecnologias de fronteira (como
Inteligência artificial, semicondutores e baterias) é dominado por um pequeno
grupo de nações e grandes corporações globais (Big Techs), amparadas por
fortes regras de propriedade intelectual, patentes e marcas.
Para um
industrial brasileiro retardatário, o custo de aprendizado, a integração de
sistemas e o acesso à infraestrutura avançada (como poder computacional em
grande escala) criam barreiras financeiras e técnicas. Essas barreiras de
entrada quase intransponíveis impossibilitam a competição sem uma coordenação
do Estado e acordos estruturados de transferência de conhecimento.
No
entanto, um economista neoliberal aponta um paradoxo no modelo brasileiro
atual. O Brasil atrai grandes volumes de Investimento Direto Estrangeiro (IED)
por possuir uma conta de capital amplamente aberta ao exterior. Ao mesmo tempo,
mantém uma das economias mais fechadas do mundo ao comércio de bens e insumos,
devido à baixa razão de importações em relação ao PIB.
Para
essa visão, permitir a livre circulação de capital financeiro e investimentos
estrangeiros sem uma abertura comercial recíproca faz com as empresas globais
entrarem no Brasil apenas para explorar o mercado interno protegido e rentável,
sem integrar o país às cadeias globais de valor. Esse descompasso gera
ineficiência, isola a indústria nacional da concorrência e da fronteira
tecnológica internacional e resulta em baixa produtividade de longo prazo.
Daí
nasce a proposta neoliberal de a solução ser “integrar para crescer”. Qualquer
movimentação internacional de capitais deve ser acompanhada obrigatoriamente
por uma abertura comercial plena.
Para
essa crença, o foco da política econômica deve ser a redução de barreiras
tarifárias. A mágica seria reduzir os impostos de importação, para bens de
capital e insumos intermediários, de modo as empresas no Brasil se
modernizarem.
Daí o
país avançaria com tratados de livre comércio, como o acordo entre o Mercosul e
a União Europeia, para forçar o ganho de produtividade. O neoliberal, de
maneira a conservar o seu enriquecimento financeiro, defende também manter o
eterno tripé macroeconômico (responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas
de inflação), herança de seus colegas do governo FHC. Não diz como evitar a
atraente entrada de capital, para carry-trade, geradora de
sobrevalorização cambial e destruidora da competitividade da indústria local.
Acredita
piamente em o “liberou geral” não provocar déficit comercial. Podes crer…
Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do
Sul Global/A Terra é Redonda

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