A
política externa nos planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro
As
pesquisas eleitorais têm apresentado Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)
como os principais candidatos à Presidência da República. Em seus planos de
governo, especificamente sobre a política externa, os dois candidatos
reservaram espaço para falar sobre o tema. Lula sistematizou suas propostas no
capítulo “Defender a soberania nacional e o protagonismo internacional do
Brasil”, mas ao longo de todo o documento é possível identificar o diálogo
entre a política externa e os demais temas.
Já
Flávio Bolsonaro centralizou sua visão nos tópicos “Soberania com
profissionalismo, não com ideologia” e “Brasil no mundo” dentro do capítulo
“Brasil que cresce”, pontualmente em outros capítulos temas de política externa
aparecem. Para uma visão geral, apresentamos abaixo uma síntese das discussões
mais centrais de forma comparada.
<><>
Linhas centrais da política externa
No
plano de governo do candidato Lula, a atual conjuntura internacional é
apresentada com duas características centrais: a ordem mundial predatória e os
ataques ao multilateralismo. Características que, de fato, são observáveis no
ambiente internacional nos últimos anos, reforçadas, por exemplo, pela Guerra
na Ucrânia, pela escalada da violência contra a Palestina, pela investida
trumpista contra as instituições internacionais etc. A partir dessa
intepretação, o plano de governo alterna entre as iniciativas conduzidas nos
últimos quatro anos e o que será feito em um próximo governo.
Dois
pontos são importantes. Primeiro, parte-se da defesa que a soberania brasileira
é peça fundamental nessa conjuntura. O plano considera que a autonomia de
decisão do país está sob ameaça e que será necessário “garantir que as decisões
sobre o nosso futuro sejam tomadas pelo povo brasileiro”.
Esse
entendimento é marcado não apenas no tema do tarifaço, quando o governo lançou
o Plano Brasil Soberano junto ao BNDES em resposta à instabilidade causada pelo
governo de Donald Trump, mas, de forma muito mais ampla, o candidato entende
que a defesa da soberania nacional deve perpassar diversas dimensões:
“democrática, institucional, defesa nacional, geopolítica, científica,
tecnológica, digital, energética, mineral, ambiental, cultural, econômica,
financeira, trabalho decente, alimentar, educação e saúde”. O plano adensa cada
uma dessa dimensões, não de forma sistemática dentro do capítulo sobre política
externa, mas de forma transversal ao longo do documento.
Segundo
ponto, o programa de governo coloca o protagonismo brasileiro como elemento
importante de uma política externa que quer enfrentar os desafios da atual
conjuntura internacional. Citando a COP 30, a 17ª Cúpula dos BRICS, a 19ª
Cúpula de Chefes de Estado do G20, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza,
a abertura comercial e os acordos do Mercosul com a União Europeia, EFTA e
Singapura, Lula sublinha que o protagonismo é característica necessária para a
defesa do multilateralismo, para o fortalecimento da posição brasileira no
mundo e para a defesa da soberania.
De
forma oposta, o plano de governo de Flávio Bolsonaro não faz nenhuma análise da
conjuntura internacional, seja no tópico específico sobre política externa,
seja nos demais tópicos do documento. Contudo, a soberania aparece também como
elemento central na forma como a inserção internacional brasileira está sendo
proposta pelo candidato.
O plano
de governo apresenta que soberania é a “capacidade de uma nação governar a si
própria, fazer suas leis e cuidar do seu território” e, a partir dessa
definição, analisa que há duas contradições do governo Lula em utilizar o termo
soberania em sua política externa: (i) advogar pela soberania, mas não cuidar
da segurança pública e, (ii) apropriar-se da soberania no discurso, mas
alinhar-se idelogicamente com “lideranças terroristas”.
Flávio
Bolsonaro busca estabelecer uma relação direta entre defesa da soberania
nacional e políticas públicas de segurança pública. Aparentemente, se não há
segurança pública interna, não é possível haver defesa da soberania diante de
outros Estados. O candidato faz o mesmo no capítulo “Brasil sem medo”, quando
reduz propostas de segurança pública a frases de efeito.
Já a
questão da aliança com o terrorismo é apresentada como a característica da
política externa de Lula, exemplificada pela relação com Maduro, atracação de
navios iranianos no Brasil e presença de Geraldo Alckmin na posse do presidente
do Irã em 2024 e sintetizada como “muito alinhamento ideológico, nenhum retorno
para o Brasil”.
A
partir dessa leitura, o programa de governo apresenta o principal atributo que
o candidato propõe à sua política externa: o profissionalismo. Nas suas
palavras, “uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não
pela ideologia”. Aqui não há nada de novo, apenas o discurso tradicional
bolsonarista de “profissionalizar” as políticas públicas a partir de quadros
técnicos e “desideologizar” a política externa.
Contudo,
no capítulo “Brasil sem Medo”, o documento adota e defende como proposta de
governo a classificação das organizações criminosas PCC e CV como “organizações
narcoterroristas”, nomenclatura esta advinda da determinação do Departamento de
Estado dos Estados Unidos anunciada após à visita do próprio candidato à Casa
Branca e, portanto, alinhada ideologicamente aos interesses estadunidenses em
categorizar grupos criminosos da América Latina como terroristas.
<><>
Inserção internacional do Brasil
Lula
propõe em seu plano de governo uma série de temas a partir dos quais o Brasil
pode liderar e/ou contribuir nos debates internacionais.
No tema
dos Direitos Humanos, Lula reafirma sua responsabilidade com os compromissos
internacionais assumidos pelo Brasil e compromete-se a evitar retrocessos.
Assume assegurar a implementação plena da Política Nacional de Migrações,
Refúgio e Apatridia (PNMRA) e da Aliança Global contra a Fome a Pobreza, bem
como acelerar o cumprimento global dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS).
Em
matéria de cultura, a promoção internacional do Brasil no exterior aparece como
ponto a ser fortalecido tanto pelo apoio à internacionalização da produção
cultural brasileira por meio da diplomacia cultural, quanto pelo estímulo à
colaboração entre fazedores de cultura e o setor de turismo, com vistas a
“promover novos roteiros turísticos baseados em temas como gastronomia, arte,
cultura e ecoturismo”.
Na
pauta ambiental, o enfrentamento da emergência climática foi elencado como
prioridade, inclusive com o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF),
mecanismo global de financiamento proposto pelo Brasil na COP30, assim como o
compromisso na articulação entre instrumentos nacionais e internacionais para
construção do “mapa do caminho para eliminação global do desmatamento” e o
fortalecimento da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) para
bioeconomia regional. Além disso, o plano de governo registra que o Brasil
continuará a construir com outros Estados caminhos para a soberania e segurança
energéticas por um caminho distante dos combustíveis fósseis.
O
candidato também propõe que a inserção internacional do Brasil deve perpassar o
debate sobre soberania digital. A proposta versa sobre a atuação brasileira em
áreas estratégicas como inteligência artificial, transformação digital,
biotecnologia, fármacos e transição energética e, para tanto, o plano de
governo aponta para a criação de um ecossistema nacional de tecnologia digital
com datacenters, serviços de nuvem e inteligência artificial
desenvolvidos por empresas nacionais para alçar o país a posições de liderança
nas discussões sobre tecnologia.
Para a
participação brasileira no comércio internacional, Lula defende que a política
comercial deve estar associada às políticas industriais, tecnológica e de
inovação. Para o candidato, a estratégia é a adição de valor à pauta
exportadora com diminuição relativa da primarização das relações comerciais.
Para tanto, o Estado permanecerá com papel central na indução do aumento da
produtividade e adensamento produtivo através do aprimoramento e fortalecimento
da neoindustrialização via NIB (Nova Indústria Brasileira).
O
objetivo é “reduzir pressões inflacionárias e melhorar a inserção externa do
Brasil por meio da diversificação de mercados”. A política de minerais críticos
e terras raras é um exemplo, que também aparece no documento, a partir da qual
será possível o beneficiamento e a agregação de valor para inserção
internacional mais estratégica nas cadeias globais.
Em
termos de relações multilaterais, parte-se do apontamento feito na análise de
conjuntura de que há um ataque ao multilateralismo. O programa de governo de
Lula entende que é preciso fortalecer os espaços de cooperação multilateral
tanto para viabilizar o protagonismo e a defesa da soberania brasileira, quanto
para equilibrar a ordem internacional predatória.
Nesse
sentido, Lula entende que será preciso uma atuação mais independente, ativa e
comprometida com a América do Sul e aponta que consolidará o Mercosul como
principal plataforma de integração na região e a Amazônia será o eixo
estratégico de integração regional. Sobre os demais parceiros, o candidato
afirma que haverá aprofundamento das relações com a África, a Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa (CPLP), a União Africana, a ASEAN (Associação de
Nações do Sudeste Asiático), a Ásia, o Oriente Médio e a Europa.
O
programa ainda afirma que o fortalecimento das instituições internacionais será
pauta da diplomacia brasileira e cita OMC (Organização Mundial do Comércio),
FMI (Fundo Monetário Internacional), CAF (Corporação Andina de Fomento), NDB
(Novo Banco de Desenvolvimento) e BRICS como instituições da arquitetura
financeira internacional que deverão ser democratizadas e fortalecidas. Um
ponto importante é que ficou de fora do texto a posição do candidato diante do
principal dilema das relações internacionais: a crescente rivalidade entre
China e EUA.
Em seu
programa de governo, Flávio Bolsonaro também navega em alguns temas
importantes, porém deixa de lado outros.
Direitos
humanos é um dos assuntos que não aparece em página alguma do programa, assim
como os ODS e o combate à fome e à pobreza. Este último é citado – não em
formato de proposta – duas vezes no tópico “Da proteção à autonomia” quando
candidato diz que o governo de seu pai reduziu a extrema pobreza durante a
pandemia por meio do Auxílio Emergencial e quando fala sobre benefícios sociais
e sintetiza: “nosso foco é superação da armadilha da pobreza, não a sua
administração”.
O tema
do turismo, diferente do programa de governo de Lula, não está associado à
difusão da cultura brasileira. Flávio Bolsonaro vincula o turismo às obras de
infraestrutura e à segurança pública. Para o candidato, o Brasil possui vocação
natural para o turismo que somente será alcançada quando a infraestrutura de
portos, aeroportos, rodovias e ferrovias for implementada, assim como quando as
propostas do “Brasil sem medo” forem colocadas em prática.
Na
pauta ambiental, Flávio Bolsonaro propõe posicionar o Brasil como “fornecedor
global de ativos ambientais” e ampliar a cooperação com países vizinhos contra
crimes ambientais na Amazônia. Além disso, propõe a revisão dos papeis do
Ibama, Funai e ICMBio e defende que projetos financiados por ONGs
internacionais podem ameaçar o interesse nacional. O texto ainda pontua que o
meio ambiente será visto como um ativo estratégico, não como um obstáculo ao
desenvolvimento, e o produtor, que cumpre a legislação, será reconhecido como
parceiro na conservação.
Ainda
sobre a questão ambiental, Flávio Bolsonaro afirma que o Brasil tem vantagens
competitivas em matéria de energia limpa. Entretanto, não propõe que o país
assuma o próprio protagonismo para a transição energética. O documento pontua
que o Brasil estará na posição de “destino mundial de investimento” e não
aponta um papel central do Estado como investidor em tecnologia para a
transição.
Na
mesma linha, a pauta dos minerais críticos e terras raras é trazida. Parte-se
da mesma premissa que Lula, o Brasil tem condições de agregar valor a esses
recursos antes de exportá-los. Contudo, a proposta de como fazer isso é
diferente. Para Flávio Bolsonaro, o Estado atuará como “regulador” e não como
“empresário”, ou seja, o capital para viabilizar uma política nacional de
minerais críticos será estrangeiro, assim como a tecnologia para tal
processamento, e ao Estado caberá atividades de regulação, licenciamento,
atração de capitais, incentivos de mercado e governança.
Em
oposição, como citado nos parágrafos acima, Lula propõe uma política soberana
nacional sobre esses recursos com capital próprio e desenvolvimento tecnológico
induzido pelo Estado brasileiro.
A
inserção internacional apresentada no programa de governo de Flávio Bolsonaro
está ancorada em uma integração às cadeias globais que tem como prioridades “a
agroindústria avançada, os minerais críticos, a saúde e a economia digital”.
Quando versa sobre o setor produtivo, o programa associa a abertura comercial
como potencialmente favorável ao aumento da produtividade e inovação.
Mesmo
quando cita a internacionalização das multinacionais brasileiras, o candidato
defende um processo de abertura comercial com plena adesão à OCDE (Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) como catalisador da participação
brasileira no comércio internacional.
As
estratégias de relacionamento multilateral estão basicamente resumidas na
adesão à OCDE. Para Bolsonaro, esse passo é prioridade e o primeiro requisito
para “preparar para uma abertura comercial que dê ao setor produtivo acesso a
bens de capital, tecnologia e insumos importados”. Além disso, com a adesão
será possível o fim do IOF sobre o câmbio, o fortalecimento da presença
internacional das empresas brasileiras, a atração de investimentos, a
viabilidade da política de minerais críticos etc.
A
diversificação de parceiros comerciais também é citada como uma proposta da
política externa de Flávio Bolsonaro. O plano frisa que haverá negociações com
todos os países que “interessam ao Brasil” e que “não trataremos como
adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais” e cita
Argentina, EUA e Israel. Ainda sobre o relacionamento com os demais atores
internacionais não há no documento qualquer menção ao Mercosul, BRICS, NDB,
FMI, África, Ásia, ASEAN ou União Africana, tampouco cita-se a rivalidade China
X EUA.
<><>
Considerações finais
É
notório que a política externa está cada vez mais presente no debate público
brasileiro. Os planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro mostram a
importância do tema ao dedicar algum espaço para suas propostas.
O plano
de governo de Lula apresenta maior robustez e complexidade. Primeiro, o
documento reserva um capítulo completo e ainda associa as demais propostas a
ações de política externa, como no caso dos temas ambientais, minerais raros,
transição energética, migrações, cultura etc. Isso mostra aos eleitores a
centralidade da política externa e sua conexão com as demais políticas
(econômica, industrial, ambiental, cultural, social…).
Segundo,
ao concatenar a política externa com os demais capítulos, ela não é colocada
apenas como um apêndice do programa de governo, mas como uma frente de atuação
estratégica para influenciar e ser influenciada pelas demais políticas.
O plano
de governo de Flávio Bolsonaro é mais simples em matéria de política externa.
Primeiro, o documento reserva apenas dois tópicos dentro de um capítulo para o
tema e nos demais capítulos faz poucas associações. Segundo, para identificar
as conexões, é o leitor quem precisa fazê-las, o que distancia o público geral
da compreensão sobre o impacto da política externa na dinâmica interna.
Acerca
das propostas em si, o plano de governo de Lula apresenta uma continuidade da
sua política externa atual. Primero, é universalista. Há a intenção de avançar
na cooperação com diversos Estados e agências internacionais, na diversificação
de parceiros, em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados.
Segundo, defende o multilateralismo. Entende que os espaços de cooperação
coletivos devem ser preservados e fortalecidos, tanto para o protagonismo
brasileiro, quanto para equilibrar as disputas internacionais.
Por
outro lado, a proposta de Flávio Bolsonaro é condizente com a política externa
de seu pai. Primeiro, é contraditória em si mesma. Defende que o Brasil deve
fugir da dependência, mas, em temas centrais e estratégicos, busca associação
com o capital estrangeiro. Segundo, defende “desideologização”, mas traz claras
escolhas feitas por alinhamentos ideológicos. Terceiro, é panfletária. É cheia
de jargões, que ressoam na base de eleitores, mas não aterrissa bem na
realidade concreta – o mesmo pode ser observado no capítulo sobre segurança
pública.
Em
resumo, o plano de governo de Lula apresenta uma política externa que almeja
alavancar a posição internacional do Brasil. Suas propostas buscam alçar o país
a um determinado lugar de destaque, com protagonismo nas instituições
internacionais e fortalecimento desses espaços como contrapeso às oscilações da
política internacional.
Já o
plano de governo de Flávio Bolsonaro apresenta uma política externa de
aceitação da posição internacional do Brasil. Suas propostas buscam deixar o
país em um local de pouco destaque, subordinado a regras internacionais que não
favorecem seu desenvolvimento autônomo, posicionado a ser um mero comerciante
de produtos primários e atuando como coadjuvante na cena internacional.
Fonte:
Por Kayque Ferraz Costa, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário