quarta-feira, 2 de setembro de 2026

As eleições argentinas, as decisivas na América Latina

A América Latina apresenta hoje dois dos três governos mais importantes no continente, os do Brasil e do México, com governos sólidos, com boas perspectivas de continuidade e aliados entre si não apenas politicamente, mas com projetos energéticos comuns.

O terceiro, o de Javier Milei, na Argentina, aparece, ao contrário, como o exemplo mais evidente do modelo neoliberal do Estado mínimo. A ponto de Milei ter chegado a declarar que, entre o Estado e a máfia, prefere a máfia, revelando toda a sua posição radicalmente oposta à dos outros dois países.

Os resultados econômicos e sociais desses governos revelam a efetividade dos dois primeiros e o fracasso do último. De tal maneira que o apoio que o governo de Milei tem, na metade do seu mandato, está na casa dos 30%, com rejeição da grande maioria dos argentinos.

De tal forma que a eleição presidencial de outubro de 2027 aparece como a mais importante na América Latina. As diferenças internas ao peronismo são sempre o fator incerto, por divisões internas, mesmo se agora esses conflitos são menores. Por um lado, está o setor ligado a Cristina Kirchner, em prisão domiciliar e impedida de participação política. De outro, está Axel Kicillof, governador reeleito da província de Buenos Aires, que aparece como o favorito para triunfar nas eleições de outubro de 2027.

Caso se confirme essa possibilidade, a América Latina poderia retomar a aliança dos seus três países mais importantes, com posições antineoliberais e de fortalecimento do Estado e da democracia, reatualizando seu peso no mundo, como epicentro dessas lutas. Ao mesmo tempo, consolidaria a projeção dos seus principais dirigentes políticos como os mais importantes em escala mundial.

O continente, depois de ter sido a principal vítima das políticas neoliberais na última década do século passado, reagiu e se tornou a única região do mundo com governos antineoliberais. Dessa forma, Lula, Néstor e Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Morales, López Obrador e Claudia Sheinbaum, Tabaré Vázquez, Pepe Mujica e Yamandú Orsi, Manuel Zelaya e Iris Xiomara Castro Sarmiento, Hugo Chávez se projetaram como os principais líderes políticos mundiais no século XXI.

E fez da América Latina o continente mais importante, ao mesmo tempo que fez com que os Estados Unidos passassem a viver seu período de maior isolamento no continente.

¨      Rejeição a Milei aumenta  a cada dia na Argentina e população pede economia voltada ao consumo

A rejeição ao presidente Javier Milei cresce na Argentina, enquanto parte significativa do eleitorado passou a defender uma política econômica que priorize o consumo. Pesquisa da consultoria Equipo Mide, divulgada pela teleSUR com base em informações do portal argentino El Destape, mostra que 58% dos entrevistados desaprovam o desempenho do governo e que 55% consideram o país mergulhado em uma crise profunda.

O levantamento, publicado no domingo (30), indica que o desgaste atinge inclusive a base eleitoral que levou Milei ao poder em 2023. Entre os eleitores que votaram no presidente no primeiro turno daquela eleição, 29% agora avaliam negativamente sua administração. O resultado revela fissuras no apoio ao governo e amplia a pressão por mudanças na condução econômica.

<><> Maioria vê país no caminho errado

A percepção predominante entre os argentinos é de que o país segue na direção errada. Essa avaliação alcança 33% dos eleitores de Milei em 2023, mas sobe para 97% entre os que apoiaram o candidato oposicionista Sergio Massa.

A rejeição é particularmente elevada na Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA), onde 72% dos entrevistados consideram equivocado o rumo adotado pelo governo. Na província de Buenos Aires, o índice chega a 71%.

As regiões de Cuyo e Central apresentam os melhores resultados relativos para a administração, com 47% e 46%, respectivamente, afirmando que o país está no caminho certo. Ainda assim, nenhum dos dois locais registra maioria favorável à trajetória econômica do governo.

A avaliação negativa também atravessa diferentes grupos sociais. Entre os argentinos de baixa renda, 69% dizem que o país segue na direção errada. Na classe alta, o percentual é de 66%, enquanto na classe média chega a 54%.

<><> Desaprovação ao governo supera aprovação

A pesquisa da Equipo Mide mostra que 43% classificam o governo Milei como “muito ruim” e outros 15% como “ruim”. No sentido oposto, 14% consideram a gestão “muito boa” e 24% a definem como “boa”.

Os índices mais elevados de avaliação “muito ruim” aparecem novamente em Buenos Aires. Na capital, 55% dos entrevistados adotam essa classificação, enquanto na província o percentual é de 53%.

O Nordeste argentino é a principal área de sustentação do governo. Somadas as avaliações “muito boas” e “boas”, a região registra 52% de aprovação, o melhor desempenho entre os territórios pesquisados.

<><> Crise econômica é percebida até entre apoiadores

Para 55% dos argentinos, a situação do país corresponde a uma crise profunda. A percepção é mais intensa na Cidade de Buenos Aires, com 66%, e na província, com 62%. Entre os entrevistados de alta renda, o índice alcança 63%; entre os de baixa renda, fica em 56%.

Mesmo no eleitorado de Milei, a deterioração é reconhecida. Cerca de 26% daqueles que votaram no presidente admitem que a Argentina enfrenta uma crise econômica grave.

Questionados sobre a capacidade do governo de enfrentar os problemas nacionais, 58% afirmaram que Milei não sabe como resolvê-los. Outros 29% disseram que o presidente conhece as soluções, mas precisa de mais tempo para aplicá-las. Já 13% avaliam que ele sabe o que fazer, porém é impedido pelo chamado establishment.

<><> Eleitores defendem estímulo ao consumo em 2027

A preferência por uma mudança de orientação econômica aparece com clareza nas projeções para as eleições de 2027. Segundo a pesquisa, 59% dos argentinos gostariam de eleger um candidato que incentivasse o consumo, enquanto 30% optariam por manter o atual programa econômico de Milei.

A demanda por uma política voltada ao consumo também alcança o campo libertário. Entre os eleitores que apoiaram Milei em 2023, 33% afirmam que escolheriam um candidato comprometido com o estímulo à atividade econômica, em vez de respaldar a continuidade do programa atual.

Os números sugerem que o governo enfrenta não apenas uma queda geral de popularidade, mas também uma mudança nas prioridades de seu próprio eleitorado. A promessa de estabilização macroeconômica perde força diante da percepção de crise, endividamento e dificuldades para sustentar o consumo das famílias.

A pesquisa ocorre em um momento de crescente descontentamento social e de enfraquecimento da confiança na capacidade do governo de oferecer respostas concretas. Com a rejeição ampliada territorialmente e entre diferentes classes sociais, a economia deve permanecer no centro da disputa política argentina até 2027.

<><> Milei enfrenta rejeição superior a 70% em Buenos Aires e crescimento inclusive entre seus eleitores

Uma pesquisa realizada pela consultora Equipo Mide, publicada neste domingo (30/08), mostra que o governo de Javier Milei acumula uma rejeição de mais de 70% em Buenos Aires, principal centro urbano da Argentina.

Apesar de o índice a nível nacional ser menos alarmante que em medições anteriores, esse novo estudo mostrou dados preocupantes na capital do país, a Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA), onde a rejeição ao governo de extrema direita alcançou os 72%.

Logo atrás fica a Província de Buenos Aires, que representa a região periférica da capital e possui uma quantidade maior de eleitores – é o principal colégio eleitoral do país. Nessa província, a rejeição a Milei é de 71%.

A nível nacional, Milei tem uma desaprovação de 58%, dos quais 43% classificam seu governo como “muito ruim” e 15% como apenas “ruim”.

Por outro lado, os que apoiam o governo são 38%. Entre eles, 14% o definem como “muito bom” e 24% como apenas “bom”.

Outras pesquisas, realizadas entre abril e agosto deste ano, já mostraram cenários piores para Milei, com índices de rejeição a nível nacional superando a marca de 60%.

Ø  Argentina: Mercado Crédito lucra com urgência de mulheres pobres e multiplica dívidas com juros e multas leoninos. Por Marciel Amiel

Na Argentina, assim como Javier Milei, o sistema financeiro montado pelo empresário Marcos Galperín, titular de Mercado Livre, Mercado Pago e Mercado Crédito, é cruel especialmente com as mulheres.

No marco de uma manifestação nos escritórios do gigante no Parque Saavedra com os tambores batendo e os cantos “olé, olé, olá, Mercado Livre, a vergonha nacional” como tela de fundo, Buenos Aires/12 conversou com algumas vítimas da usura.

Ainda que o catálogo seja heterogêneo, a maioria das que pegaram estes créditos leoninos com essa casa de credito são mulheres que trabalham na informalidade, limpando casas ou na venda ambulante, em muitos casos único sustento da família.

É o caso de Noelia, que vive na periferia, trabalha como empregada doméstica, paga aluguel e é mãe solteira de cinco filhos. Um deles tem uma deficiência, o que a obriga a ir periodicamente ao Hospital Garrahan para receber tratamento.

No ano passado, em determinado momento viu-se sem dinheiro para pôr gasolina – o carro ocupa uma porcentagem importante de seu orçamento. Então aceitou um empréstimo de quarenta mil pesos que lhe oferecia o Mercado Crédito. Foi o começo de um autêntico pesadelo.

“No princípio eu podia pagar, mas com cada atraso as multas iam me afundando mais e mais. Em determinado momento, como não tinha forma de pagar, desinstalei o aplicativo”, conta. Trata-se de uma reação habitual dos devedores, um mecanismo fruto do desespero.

Uns meses depois de solicitado o empréstimo, e apesar dos sucessivos pagamentos, Noelia devia três vezes o capital inicial. Começaram a chamá-la, de maneira cada vez mais insistente, de números privados, em diferentes horários.

Depois fizeram o mesmo com seus contatos mais próximos. O temor de Noelia é que telefonem para alguma das casas que a empregam por hora. Sua angústia se evidencia no tom de sua voz e na expressão de seu rosto. Agora também ameaçam judicializar a reclamação: se não consegue pagar que pelo menos alguém pague por ela.

Bibi é de Jujuy e ganha a vida vendendo empanadas nas imediações das estações de trem da linha Roca. Há cerca de um ano, foi visitar seus pais em sua província natal.

“Achei-os com a geladeira quebrada e sem dinheiro para comprar outra ou para consertar esta. De modo que peguei um empréstimo com o aplicativo”, lembra. Por um capital de 200 mil pesos, pediam seis cotas de 80 mil. Aceitou porque não via outra solução para o problema de seus pais.

“Uma vez atrasei só um dia e a cota subiu 10 mil pesos, de 80 mil para 90 mil. Além do mais, cada vez se vende menos porque as pessoas não têm dinheiro. Até uns dois meses atrás, meus filhos me ajudavam, mas agora eles também estão sem trabalho”, diz.

“Devem estar fazendo um negócio fabuloso”, reflete, em relação às empresas. “E conheço mulheres que estão passando muito pior do que eu”, conclui.

Continua após o anúncio

Carmen é a primeira de sua família, de origem boliviana, nascida na Argentina. Tem um lugar na feira de Villa Celina e sua experiência é similar às anteriores.

“Fiz uma compra de tecidos pelo telefone e peguei o empréstimo sem querer. Eu tinha dinheiro naquele momento, mas aparecia como primeira opção e apertei. E não há botão de arrependimento. Agora trabalho para essa gente”, lamenta-se.

Carmen se filiou recentemente ao Sindicato de Feirantes, que lhe dá assistência legal e desenvolveu sua própria carteira, para evitar que os sindicalizados caiam nesta armadilha.

Durante anos, Ayelén fez todos os cursos de cabelereira, depilação e estética que pôde, no tempo que lhe deixavam livre seu trabalho de caixa de supermercado e seus três filhos.

Quando o local de Lanús onde trabalhava fechou e ficou na rua, decidiu que era o momento de arriscar. “Peguei um empréstimo para equipar-me e começar a trabalhar em domicílio, para ver se mais adiante podia ter meu local”, lembra, triste.

“Mas em meu bairro ninguém tem um peso para gastar com essas coisas. Agora tenho as máquinas quase sem uso e uma dívida que está se tornando uma bola de neve. Trabalharia em qualquer coisa para resolver, mas não consigo nada. E esta gente me enlouquece. Já nem durmo por culpa deles.”

Ø  Colômbia: oposição denuncia plano de judicialização contra Petro e dirigentes do Pacto Histórico. Por Por Jairo Gómez

A oposição de esquerda na Colômbia denunciou no dia 26 de agosto um plano de judicialização de seus dirigentes, ex-funcionários, incluindo o ex-presidente Gustavo Petro, a partir da nova estratégia de segurança do governo do ultradireitista Abelardo de la Espriella, que também busca criminalizar os protestos sociais e políticos no país.

A denúncia ocorre no contexto da visita programada do chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, Francis Donovan, justamente no dia em que o presidente, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, presidiu a mudança do alto comando militar na Colômbia.

“A Colômbia, mais recente integrante da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), é uma parceira no combate ao narcotráfico e uma líder vital na segurança da região”, informou o Comando Sul ao justificar a visita do general à Colômbia.

Analistas afirmaram que, sem dúvida, a visita não foi uma coincidência, mas foi planejada, pois De la Espriella, na cerimônia, para a qual Donovan foi convidado, apresentou às Forças Públicas sua luta frontal contra o narcotráfico e a eliminação do programa “Paz Total”, da administração de Petro.

“Estamos assistindo a uma perigosa cessão de nossa soberania aos Estados Unidos e a Israel, acompanhada de anúncios e da implementação de operações militares conjuntas que podem levar à intensificação da violência nos territórios rurais e produzir violações massivas dos direitos humanos”, reagiu o senador e ex-candidato do esquerdista Pacto Histórico, Iván Cepeda.

Cepeda, que falou na instalação do “Gabinete pela Vida”, que fará controle político da gestão do governo, denunciou que “o governo de De la Espriella pretende gerar um clima de desorientação na população, de medo e incerteza, por meio de judicializações em massa contra aqueles de nós que somos dirigentes, ex-funcionários ou congressistas do Pacto Histórico e dirigentes, começando pelo próprio ex-presidente Petro”.

Além da promoção do novo alto comando, o governo do ultradireitista anunciou a publicação, nos próximos dias, de uma diretriz presidencial de segurança integral, o cancelamento de qualquer iniciativa de paz e a proposta de criar um estatuto de segurança para definir os grupos ilegais, segundo os critérios do governo, como organizações “narcoterroristas”.

Na Comissão Segunda do Senado, especializada em assuntos militares, o ministro da Defesa, Jorge Mora, justamente no dia da visita do chefe do Comando Sul, disse aos parlamentares que “na diretriz presidencial ficarão claros os alcances, objetivos e estratégias de segurança do governo nacional”.

Embora o conteúdo dessa estratégia de segurança ainda não seja conhecido, nas últimas horas vazou o conteúdo do que será o plano nacional de desenvolvimento “A Pátria Milagre”, no qual, além de falar sobre a redução do Estado e a eliminação do aborto, entre outros temas, são estabelecidas propostas como o porte legal de armas, a eliminação da Jurisdição Especial para a Paz, o fim da Paz Total, um plano de choque de segurança nos primeiros 90 dias, a pulverização de 330 mil hectares de plantações de folha de coca; enfim, um pot-pourri de iniciativas nas quais a questão da segurança é prioritária.

De acordo com o documento divulgado por alguns meios de comunicação, A Pátria Milagre será implementada a partir de várias frentes, definidas da seguinte forma: Milagre pela vida, Milagre do amor, Milagre do saber, Milagre de sonhar, Milagre de pertencer, Milagre de criar e Milagre de servir. George Orwell, em 1984, ficou aquém da realidade, afirmaram analistas.

 

Fonte: Emir Sader, em Brasil 247/Opera Mundi/Página 12 - Tradução: Ana Corbisier, em Diálogos do Sul Gglobal

 

 

Nenhum comentário: