quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Relatório do Coaf desmente Flávio Bolsonaro e mostra repasse de R$ 65 milhões de Vorcaro para Dark Horse

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, mentiu ao afirmar em entrevista à GloboNews que o banqueiro Daniel Vorcaro havia interrompido os repasses financeiros para o filme Dark Horse — cinebiografia sobre seu pai, Jair Bolsonaro (PL) — em maio de 2025, informa reportagem da revista piauí. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revela que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro enviou mais uma parcela no valor exato de US$ 1.666.667 para o Havengate Development Fund, fundo norte-americano responsável por administrar os recursos da produção.

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O repasse financeiro ocorreu exatamente oito dias após Flávio Bolsonaro enviar uma mensagem de texto ao banqueiro cobrando o pagamento das parcelas que estavam atrasadas. Com esta nova transferência, que permaneceu desconhecida do público até o momento, o montante total enviado por Vorcaro para a cinebiografia subiu de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — o que, considerando a cotação da época, equivalia a mais de R$ 65 milhões.

Registros de diálogos inéditos, travados via aplicativo de mensagens WhatsApp entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda — profissional responsável por auxiliar na captação de recursos para o longa-metragem —, apontam evidências de que houve ainda um oitavo pagamento. Em mensagem datada de 22 de outubro de 2025, Miranda questionou o banqueiro: “Consegue liberar as parcelas do filme?”, completando em seguida: “Se não vai parar tudo por lá  ”. Vorcaro respondeu confirmando a operação: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda retrucou informando que avisaria a equipe e que Flávio Bolsonaro também faria uma ligação para ele. O banqueiro solicitou então que o publicitário apresentasse suas desculpas ao senador pelos atrasos. Caso esta transferência adicional de US$ 1,6 milhão tenha sido efetivada, o total desembolsado pelo dono do Banco Master para a produção alcança US$ 14 milhões, o equivalente a cerca de R$ 72 milhões. O acordo firmado entre as partes previa um montante global de US$ 24 milhões, totalizando sete parcelas reconhecidamente pagas até setembro e uma possível oitava parcela em outubro.

A apuração detalha um histórico de declarações contraditórias prestadas pelo parlamentar ao longo do caso. Em março de 2025, após ter seu número de telefone identificado na agenda de Vorcaro, o senador declarou à colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, que jamais mantivera qualquer tipo de contato com o dono do Banco Master. Posteriormente, ao ser questionado pelo repórter Thalys Alcântara, do Intercept Brasil, sobre os motivos de Dark Horse ter sido financiado por Vorcaro, o parlamentar reagiu negando a informação e classificando-a como mentira. Na sequência, durante a entrevista concedida à GloboNews, sustentou que o Havengate Development Fund era fiscalizado pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) e que a estrutura havia sido encerrada assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. No entanto, o fundo não possui registro na SEC e permanece registrado como ativo nos dados fazendários do estado do Texas.

Procurada pela piauí para esclarecer os motivos de ter ocultado a manutenção da relação financeira com o banqueiro durante quase todo o ano de 2025, a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro esquivou-se de prestar esclarecimentos, afirmando que os questionamentos sobre pagamentos deveriam ser direcionados à produtora do filme. Mesmo confrontada com o fato de que a descoberta da nova parcela comprovava uma inveracidade dita publicamente pelo pré-candidato, a equipe do parlamentar manteve a posição de que ele não tinha explicações a dar.

A Polícia Federal investiga a engenharia financeira utilizada no trânsito dos recursos. As investigações apuraram que os valores não saíam diretamente das empresas de Vorcaro e tampouco eram depositados na conta da produtora Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos, o que representaria o fluxo convencional. As remessas eram efetuadas por meio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido pelo apelido de “Mineiro” e proprietário da empresa Entre Investimentos e Participações, profissional que já se declarou publicamente especialista em operações de câmbio de saída. O destinatário final das transferências era o fundo Havengate, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração sem histórico de atuação no setor cinematográfico e ligado ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Como cabe ao fundo Havengate o repasse das verbas para a produtora Go Up, os investigadores buscam identificar se a totalidade do dinheiro foi efetivamente empregada na produção do longa-metragem ou se parcela dos recursos permaneceu retida no fundo ou foi destinada ao custeio da permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado passou a residir no país em fevereiro de 2025, mesmo mês em que Vorcaro realizou a primeira transferência de 2 milhões de dólares para o Havengate. Em declarações anteriores prestadas à rádio CBN, Eduardo Bolsonaro minimizou sua participação na produção, afirmando ter investido apenas 50 mil dólares de recursos próprios para garantir a contratação do diretor, valor que posteriormente lhe teria sido restituído. Contudo, em documentos oficiais da produção nos Estados Unidos, o deputado é qualificado alternadamente como “produtor executivo” e “financiador”. Questionada sobre a extensão do controle de Eduardo Bolsonaro sobre a conta do fundo, a produtora Go Up não forneceu respostas objetivas. Até o momento, as apurações policiais não encontraram provas materiais de que os valores tenham sido desviados para despesas pessoais do deputado.

•        Mario Frias busca ‘juiz amigo’: defesa pede que caso Dark Horse saia das mãos de Dino e vá para Mendonça

O deputado federal Mario Frias (PL-SP), produtor-executivo da cinebiografia de Jair Bolsonaro, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF). na última sexta-feira (28) para pedir a redistribuição do inquérito que investiga o suposto uso irregular de emendas parlamentares no financiamento do filme Dark Horse. A defesa quer retirar o caso da relatoria do ministro Flávio Dino e entregá-lo ao ministro André Mendonça, indicado ao STF pelo próprio Bolsonaro, sob o argumento de que ele já conduz sete dos oito procedimentos sobre o mesmo tema na Corte.

<><> O pedido de Mario Frias no STF

A defesa de Frias, representada pelo advogado Luccas Macedo, protocolou uma questão de ordem endereçada ao presidente do STF, Edson Fachin, solicitando formalmente a redistribuição da apuração. O objetivo é retirar o caso da relatoria do ministro Flávio Dino, responsável pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854, e transferi-lo ao ministro André Mendonça.

O argumento central da defesa é o de que a condução do caso por Dino resulta de uma “manipulação” das regras de distribuição processual. Segundo Macedo, o pedido de investigação apresentado pelos deputados Tabata Amaral (PSB-SP) e Henrique Vieira (PSOL-RJ) deveria ter sido protocolado de forma avulsa, e não encaixado dentro da ADPF 854. “Tratou-se de verdadeira manipulação das regras de competência, a fim de criar uma prevenção artificial e inexistente para os fatos, um verdadeiro fórum shopping“, afirmou o advogado na petição. A defesa foi além e classificou a ADPF 854 como um “balcão de delegacia”, onde qualquer pessoa poderia registrar uma investigação e tê-la conduzida pelo mesmo gabinete, sem sorteio e sem conexão com o objeto original da ação.

Caso Fachin não acolha o pedido de forma monocrática, a defesa requer, subsidiariamente, que a questão de ordem seja submetida ao plenário da Corte.

<><> O contexto da investigação Dark Horse

Dark Horse é uma cinebiografia autorizada de Jair Bolsonaro, com Mario Frias na função de produtor-executivo. A investigação no STF apura a suspeita de que Frias teria destinado R$ 2 milhões em duas emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização controlada pela sócia da produtora responsável pelo filme. Em maio, Frias chamou as acusações de “falsa narrativa” e pediu o arquivamento da representação, alegando que os repasses financiaram projetos de inclusão digital, letramento e esportes para jovens em situação de vulnerabilidade.

A investigação foi solicitada pelos deputados Tabata Amaral e Henrique Vieira dentro da ADPF 854, que apura irregularidades na execução de emendas parlamentares e tem Flávio Dino como relator. O caso se conecta à Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master e seu fundador, Daniel Vorcaro. Em maio de 2026, reportagens divulgaram conversas extraídas de celulares de Vorcaro, apreendidos na operação, com referências ao financiamento do filme. Numa delas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece em áudio pedindo dinheiro a Vorcaro para bancar a produção.

É nesse pano de fundo que a defesa de Frias sustenta o pedido de redistribuição: das oito autuações existentes no STF sobre o financiamento de Dark Horse, sete já tramitam sob a relatoria de André Mendonça, que é o relator de todos os casos ligados à Operação Compliance Zero e ao Banco Master.

<><> Implicações e próximos passos

A definição do relator não é detalhe burocrático. A defesa de Frias e a produtora do filme buscam explicitamente ser investigadas sob a supervisão de André Mendonça, ministro que foi indicado ao STF pelo próprio Bolsonaro e que exerceu os cargos de ministro da Justiça e da Advocacia-Geral da União no governo do ex-presidente. A escolha do relator determina o ritmo, o escopo e o encaminhamento de uma investigação, e a concentração de sete apurações correlatas em um único gabinete é o argumento jurídico que a defesa usa para justificar o que, na prática, representa uma tentativa de direcionar o caso para um ministro específico.

Para reforçar o pedido, a defesa cita que a própria Procuradoria-Geral da República, a Polícia Federal e a Secretaria Judiciária do STF já reconheceram a conexão probatória entre o financiamento do filme e o contexto investigativo do Banco Master, o que, segundo Macedo, reforçaria a prevenção de Mendonça. A petição argumenta ainda que a coexistência de investigações paralelas sob relatores distintos, sobre os mesmos fatos e com os mesmos investigados, fere o princípio constitucional do juiz natural e cria risco de decisões contraditórias e duplicidade de diligências.

A bola agora está com Edson Fachin. Se o presidente do STF rejeitar o pedido monocraticamente ou não se manifestar no prazo esperado pela defesa, o caso vai ao plenário da Corte, ampliando o alcance político de uma disputa que já envolve investigações sobre emendas parlamentares, um banco em colapso e a cinebiografia do principal candidato da direita à Presidência.

•        Ancine diz à PF que Dark Horse precisa cumprir etapas para ser lançado no Brasil

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou à Polícia Federal que o filme Dark Horse, longa-metragem sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL), ainda precisa cumprir etapas burocráticas antes de ser lançado comercialmente no Brasil. A produção, que tem provocado crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda não recebeu o aval necessário para exploração comercial no país. As informações foram reveladas pela coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo.

A Ancine respondeu à PF no último sábado (29) que o registro de obra estrangeira do filme foi aceito, mas que a distribuidora Europa Filmes ainda não solicitou o Certificado de Registro de Título (CRT), documento exigido para a comercialização de obras audiovisuais no Brasil.

A agência também afirmou aos investigadores que Dark Horse não recebeu recursos públicos federais nem incentivos fiscais geridos pela Ancine, como os previstos na Lei do Audiovisual. Na prática, isso significa que a produção não precisa prestar contas ao órgão sobre seus gastos.

Apesar disso, a Ancine comunicou à PF que a produtora Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, é alvo de um processo administrativo para apurar possíveis irregularidades nas filmagens realizadas no Brasil sem conhecimento prévio da agência. A análise deve ser concluída até o fim de setembro, quando será definido o valor de uma eventual multa, que pode chegar a R$ 100 mil.

O registro de obra estrangeira de Dark Horse foi aceito pela Ancine no dia 7 de agosto. Essa etapa funciona como uma espécie de cadastro da obra no banco de dados da agência, mas não autoriza, por si só, a exibição do filme nos cinemas.

Para chegar às salas, a produção ainda precisa obter o CRT, emitido pela própria Ancine, e a classificação indicativa do Ministério da Justiça. Na etapa do certificado, a distribuidora deve apresentar contrato de distribuição, plano de lançamento e exploração da obra, além de informações sobre divisão de receita e lucro no território brasileiro.

Segundo O Globo, essa documentação poderia ajudar a esclarecer se o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria direito a alguma participação na arrecadação do filme nas bilheterias nacionais. Vorcaro entrou no centro do caso após virem à tona mensagens em que Flávio Bolsonaro cobrava dinheiro do banqueiro, supostamente para financiar a produção.

A decisão da Europa Filmes de solicitar o registro inicial, mas não avançar imediatamente para o pedido do CRT, causou estranhamento no mercado audiovisual. “Não é normal pedir um registro e não solicitar imediatamente o CRT, porque a dinâmica é pedir junto para viabilizar logo a estreia do filme. Não teria por que separar uma coisa da outra”, afirmou à coluna uma fonte que acompanha o caso.

A mesma fonte avaliou que a postura da distribuidora pode indicar uma tentativa de ganhar tempo durante o período eleitoral. “Isso passa a impressão de que eles querem dizer que a obra existe, mas postergar a entrega de documentos sobre o filme em plena campanha eleitoral”, disse.

A PF quer identificar as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao projeto, incluindo produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes. De acordo com a Ancine, os representantes legais do filme no Brasil são a Europa Filmes e a Go Up Entertainment, presidida pela jornalista Karina Gama e por Michael Brian Davis.

O filme também entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) e agravou a situação política de Flávio Bolsonaro. Depois de prometer apresentar uma prestação de contas sobre os gastos da produção, o senador passou a dizer que o tema é “página virada” e tentou transferir o foco para o presidente Lula.

“Quem tem que prestar contas não sou eu, é o Lula que tem que prestar contas. Ele que tem que prestar contas porque está fazendo uma reunião escondidinha com Augusto Lima e Vorcaro, prometendo que ia facilitar a vida dele e do Banco Master”, afirmou Flávio no dia 24, durante evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Uma das linhas de investigação da PF é apurar se recursos repassados por Vorcaro teriam sido usados para custear despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante seu autoexílio nos Estados Unidos.

A perícia privada contratada pela Go Up Entertainment apontou que 72% dos gastos do filme ocorreram nos Estados Unidos. O relatório também indicou despesas consideradas muito acima do padrão em etapas iniciais da produção, segundo produtores ouvidos por O Globo.

De acordo com a perícia, a chamada “soft produção”, fase embrionária de definição de conceitos do filme, consumiu US$ 2,68 milhões, o equivalente a 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões. O valor total do projeto foi estimado em R$ 75,18 milhões pelo cálculo da própria perícia.

No mercado audiovisual, essa etapa costuma representar entre 3% e 5% do orçamento de um filme. A “soft produção” inclui reuniões iniciais do núcleo principal da equipe para definição de diretrizes criativas e técnicas, como escolha de atores, locações, fotografia e conceitos de figurino.

A pré-produção de Dark Horse, etapa posterior e mais ampla, custou US$ 2,66 milhões, valor ligeiramente inferior ao da fase anterior. Essa diferença também chamou a atenção, já que a pré-produção envolve mobilização de equipes, ensaios, viagens técnicas, preparação de figurinos e organização das locações.

Segundo a coluna, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para Dark Horse, com exibição em pelo menos 650 salas e cópias dubladas em todo o país. A estreia está prevista para depois das eleições, a partir de novembro.

O diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, trabalha com três cenários de bilheteria. No pessimista, o filme atrairia 800 mil espectadores, desempenho semelhante ao de Lula, o Filho do Brasil, lançado em 2010. No cenário considerado realista, a projeção é de 1,5 milhão a 2 milhões de espectadores. No otimista, Dark Horse superaria a marca de 2 milhões de ingressos vendidos.

O longa terá Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro e deve abordar o atentado a faca sofrido pelo ex-presidente durante a campanha eleitoral de 2018. Antes de chegar aos cinemas, porém, a produção ainda depende do cumprimento das exigências regulatórias apontadas pela Ancine à Polícia Federal.

 

Fonte: Brasil 247

 

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