quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BRICS seguirá estratégico para o Brasil, mas pode mudar de perfil, afirmam especialistas

Especialistas ouvidos pelo Mundioka argumentam que dificilmente um próximo governo do Brasil fará com que o país deixe o grupo em razão das relações comerciais com grandes economias, mas alertam que um candidato conservador pode reduzir seu peso geopolítico e priorizar relações comerciais.

As eleições no Brasil em 2026 podem definir muita coisa para o futuro do país, sobretudo na conjuntura internacional. O BRICS, por exemplo, será impactado na escolha do novo chefe do Executivo brasileiro. Caso Lula continue, quais os novos pontos a serem buscados pelo país? Se tivéssemos um novo presidente, este manteria o Brasil no bloco ou se afastaria de seus membros?

No caso de um candidato conservador vencer as eleições, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, será que manteria acordos bilaterais com China e Índia ou se alinharia automaticamente aos caprichos de Washington?

Para Fernando Goulart, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense (UFF), o próximo presidente, independentemente de quem seja, terá que ser mais pragmático do que ideológico, já que deve encontrar um cenário em que o peso econômico dos países do BRICS dificulta qualquer mudança radical de orientação, mesmo que haja uma guinada política em Brasília.

Para Goulart, o pragmatismo das relações comerciais tende a se sobrepor às preferências ideológicas do governo de turno. "Eu acho que o pragmatismo do nosso empresariado vai impulsionar, seja ele qual for o próximo presidente da República, a continuar essa relação com a Ásia, que é o futuro da economia no século XXI", afirma.

"A economia hoje, que nos últimos 400 anos foi eminentemente da riqueza ali na bacia do Oceano Atlântico, migrou para a bacia do Oceano Pacífico e está cada vez mais indo para a Ásia."

Para Goulart, o Brasil não precisaria escolher entre BRICS, Europa e Estados Unidos, mas poderá ser pressionado a estabelecer prioridades diante das mudanças no comércio internacional. A Europa continua sendo um parceiro relevante, enquanto o protecionismo norte-americano pode reduzir o espaço para uma aproximação comercial mais profunda com Washington. "O Brasil nunca se afastou da Europa", afirma Goulart, lembrando que a União Europeia respondeu por 18% das importações brasileiras e 14% das exportações em 2025.

A diferença, porém, aparece quando os números do BRICS são considerados em conjunto. De acordo com o pesquisador, os países do bloco já respondem por 37% das exportações brasileiras e 35% das importações, proporção superior à registrada nas relações comerciais com Estados Unidos e União Europeia. Assim, a tendência é de expansão desse fluxo, especialmente com países asiáticos como Índia e Indonésia e, eventualmente, com os países do golfo Pérsico.

Nesse contexto, uma hipotética vitória da direita brasileira não significaria necessariamente um afastamento do BRICS, mas poderia alterar a forma como o Brasil atua dentro do grupo. O desafio do próximo presidente, nesse caso, seria conciliar a busca por maior proximidade com Estados Unidos e Europa com uma relação econômica cada vez mais estratégica com a Ásia.

Para Goulart, essa realidade torna pouco provável uma ruptura brusca com os países do bloco. Mais do que decidir entre Washington e Pequim, o próximo governo deverá administrar uma política externa de múltiplos vetores, preservando mercados e acordos que já possuem peso significativo para a economia brasileira.

Em outras palavras, o BRICS já se tornou fundamental para a estratégia comercial e diplomática do Brasil, independentemente da orientação ideológica do próximo governo. O pesquisador ressalta que embora o BRICS seja estratégico, a concentração das relações comerciais brasileiras em poucos parceiros não é necessariamente positiva. Para ele, o desafio está justamente em aproveitar o crescimento das relações com outros países do bloco e do Sul Global sem substituir uma dependência por outra.

"Isso não é bom, porque a gente não pode colocar todos os ovos numa mesma cesta", afirma Goulart. Nesse sentido, uma das prioridades do próximo governo poderia ser diversificar as relações dentro do próprio BRICS, ampliando os fluxos comerciais com Índia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Na sua avaliação, esses mercados apresentam maior potencial de crescimento do que uma eventual ampliação das relações comerciais com os Estados Unidos.

"O viés de comércio com a Índia, com a Indonésia, com o Irã e com outros países que hoje fazem parte, com os Emirados Árabes Unidos, a própria Arábia Saudita, tende a crescer, crescer muito mais do que ele tem hoje."

A avaliação também coloca em perspectiva uma eventual tentativa de um governo de direita de priorizar a aproximação com Washington. A própria política comercial norte-americana pode limitar esse movimento, diante da perspectiva de manutenção do protecionismo e de novas tarifas sobre produtos brasileiros.

"É um futuro muito mais palpável do que a gente estreitar relações com os Estados Unidos, que já disseram e verbalizaram que vão aumentar tarifas, vão aumentar o seu protecionismo."

Dessa forma, o BRICS não apenas se apresenta como uma escolha política, mas como uma realidade econômica da qual o Brasil dificilmente poderia se afastar sem custos significativos.

Para Bruno de Conti, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor adjunto do think tank Transforma, o futuro do BRICS como instrumento da política externa brasileira dependerá, sim, da orientação ideológica do próximo presidente.

Embora uma eventual saída do bloco seja improvável, um governo de direita poderia reduzir o protagonismo político do Brasil e tratar o grupo principalmente como uma plataforma de interesses econômicos, mas não de integração e apoio à agenda do Sul Global. "Depende da orientação ideológica do presidente. Isso ficou muito claro nos anos recentes", afirma Conti.

De Conti cita como exemplo a postura do presidente argentino Javier Milei, que rejeitou a entrada da Argentina no grupo, e diferencia a atuação do governo de Jair Bolsonaro daquela adotada pelas administrações de Lula e Dilma Rousseff. Como lembra, Bolsonaro não deixou o BRICS porque uma ruptura seria prejudicial ao país, mas adotou uma postura menos voltada à transformação da ordem econômica internacional.

No caso de uma eventual reeleição de Lula, a tendência, na avaliação do pesquisador, seria de continuidade da atuação atual, com o Brasil mantendo uma posição ativa nas discussões do bloco e defendendo propostas relacionadas à reordenação da economia global. Já um eventual governo de direita poderia preservar a participação brasileira, mas esvaziar sua dimensão geopolítica.

"Não acredito que nenhum deles sairia do grupo, mas teriam uma atitude distinta, olhando para o grupo mais como uma plataforma para interesses econômicos, para eventual aprofundamento de relações econômicas, mas sem o intuito de se contrapor aos Estados Unidos, de se contrapor ao dólar como moeda global."

Apesar das diferenças ideológicas, porém, o próprio peso econômico da China pode funcionar como um freio para mudanças mais profundas na política externa. Candidatos como Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro têm setores do agronegócio em suas bases políticas, justamente um segmento altamente dependente do mercado chinês.

"Por mais que possa usar de uma retórica como o Jair Bolsonaro usou de criticar a China, vai ter que manter relações pragmáticas com a China."

Com isso, uma eventual deterioração das relações com Pequim poderia atingir diretamente setores importantes da economia brasileira, sobretudo o agronegócio. Uma retaliação chinesa, nesse cenário, teria potencial para provocar uma crise em segmentos relevantes da produção e das exportações brasileiras.

Mesmo que um eventual governo de oposição tenha uma postura mais próxima dos Estados Unidos e menos alinhada às propostas políticas do BRICS, a dependência comercial em relação à China imporia limites concretos a uma mudança radical de orientação. A diferença estaria menos na permanência do Brasil no bloco e mais na forma como o país utilizaria sua participação: como instrumento de transformação da ordem global ou, de maneira mais pragmática, como mecanismo para ampliar relações econômicas.

Ø  Emirados Árabes destacam BRICS como plataforma para cooperação ambiental com a Rússia

A entrada dos Emirados Árabes Unidos no BRICS ampliou as possibilidades de cooperação do país com a Rússia em áreas como mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e preservação ambiental, afirmou o vice-embaixador do país na Rússia, Ahmed Al-Ketbi.

"Fazer parte do BRICS oferece aos Emirados Árabes Unidos uma plataforma adicional para cooperar com países como a Rússia em questões relacionadas ao clima, ao desenvolvimento sustentável e à proteção da natureza", disse o diplomata durante o fórum internacional Dia do Falcão, realizado em Vladivostok.

Segundo Al-Ketbi, os Emirados Árabes já participaram de discussões do BRICS sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável realizadas na Rússia.

O diplomata afirmou que a participação do país nos debates ambientais do grupo é especialmente relevante porque a abordagem do país combina três elementos: ambição ambiental, experiência prática e capacidade de transformar iniciativas em parcerias viáveis.

O fórum Dia do Falcão ocorre no primeiro dia do 11º Fórum Econômico do Oriente realizado em Vladivostok entre 1º e 4 de setembro.

Mais cedo, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que a iniciativa é importante para traçar diretrizes estratégicas para o desenvolvimento nacional — e, especificamente, para a região do Extremo Oriente. O líder russo também expressou confiança de que o diálogo levará a iniciativas capazes de abrir novas perspectivas de negócios.

"Nos últimos anos, o fórum [...] tornou-se uma plataforma única para discutir diretrizes estratégicas para o desenvolvimento do Extremo Oriente e de toda a Rússia."

Putin também ressaltou que o Fórum Econômico do Oriente consolidou-se como um espaço para um diálogo aberto e construtivo entre representantes do setor empresarial, autoridades governamentais e a comunidade de especialistas.

Ø  Como a Rússia e o BRICS cooperam e são importantes para a África Austral?

A África Austral, também chamada de África Meridional, construiu relações históricas com a Rússia, que ainda participa das dinâmicas na região, principalmente através da figura da África do Sul, parceira de Moscou no BRICS.

Além da África do Sul, compõem a região Angola, Botsuana, Lesoto, Madagascar, Malaui, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Essuatini, Zâmbia e Zimbábue.

As relações com a Rússia atravessam diferentes momentos da história dos países. A União Soviética, por exemplo, apoiou o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em 1975 na independência do país africano de Portugal.

Nesse aspecto, Igor Borges Cunha, analista internacional pela Universidade de Brasília, pesquisador do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), ressalta que a memória das lutas de libertação ajudam a compreender determinadas afinidades políticas com a União Soviética no passado.

Moçambique foi outro país da região destacado pelos analistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, com ligações durante o processo de independência. Segundo Carlos Mamboza, professor moçambicano e doutorando do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maputo, após emancipar-se de Portugal, assumiu-se como um país de orientação marxista-leninista, com muita proximidade à União Soviética.

Já no contexto atual, segundo o pesquisador da UFF, o principal eixo relacional de Moscou na África Austral é representado na figura de Pretória. A Rússia, por exemplo, utiliza a tecnologia nuclear como instrumento de cooperação econômica e de projeção estratégica. Conforme lembra o pesquisador, os dois parceiros do BRICS, inclusive, têm acordos de cooperação na área energética assinados.

"O governo de Pretória procura manter uma política externa de autonomia estratégica e mantém relações simultâneas entre Rússia, China, Estados Unidos e outros atores", destaca.

Cunha avalia que as nações africanas adotam uma ideia de multialinhamento, "que é diferente do multilateralismo", explica. Trata-se, portanto, de acordo com o especialista, em interesses não inteiramente baseados em discutir e fortalecer as regras globais, mas "garantir que ele [o país] pode ser parceiro comercial da China, parceiro militar dos Estados Unidos e parceiro energético da Rússia, ao mesmo tempo, sem que nenhum deles exija exclusividade", completa.

Mas em relação à África Austral de modo geral, o analista aponta que o papel da Rússia pode ser destacado em termos de "diplomacia, segurança, energia, tecnologia, defesa e influência política na região".

No âmbito do BRICS, Mamboza avalia que o posicionamento da África do Sul no grupo é importante para que alavanque os países da África Austral, uma vez que Pretória é um ator importante na região — apesar de confusões recentes por xenofobia em relação a imigrantes, destacado pelos entrevistados como um problema que pode comprometer a liderança regional.

Entretanto, relações com países como a China são importantes para atrair investimentos para a região, em uma dinâmica diferente da que tinham com países ocidentais na época da colonização. Agora, trata-se de uma lógica de ganha-ganha, diz o pesquisador da UFF.

"Apesar de existir uma interdependência assimétrica, onde as partes, apesar de terem ganhos assimétricos, eles têm algum ganho, isso já é uma mudança de paradigma em relação ao modelo de cooperação tradicional, no caso, o Ocidente".

Neste caso, ele ressalta que a China deixa claro seus interesses e visa o financiamento de infraestruturas que beneficiem o comércio e a logística na região, deixando de lado interferências políticas, como historicamente aconteceu com os países africanos nas relações com o Ocidente.

Embora seja colocado que nesta relação de ganho mútuo a China tenha mais vantagens, Mamboza defende que os estados africanos criem mecanismos internos para capitalizar essa cooperação e, assim, equilibrar as vantagens e impulsionar seus próprios ganhos.

¨      Yuan não deve ser o 'bode expiatório' para a baixa competitividade do Ocidente, diz mídia

De acordo com um editorial da mídia asiática, rotular a moeda chinesa como "subvalorizada" e culpá-la pelos déficits comerciais de outras nações ignora os verdadeiros problemas estruturais enfrentados por essas economias.

O Global Times argumenta, em seu mais recente editorial, que a proposta apresentada por analistas e governos ocidentais para promover um novo "Acordo Plaza" — semelhante ao pacto de 1985 entre os EUA e vários países do G7 para desvalorizar o dólar — é um diagnóstico falho que superestima a eficácia da manipulação cambial.

Segundo a publicação, o déficit comercial dos países tidos como desenvolvidos não se deve às políticas monetárias de Pequim, mas sim a décadas de desindustrialização interna, um setor financeiro excessivamente grande, infraestrutura obsoleta e uma significativa defasagem em inovação.

O jornal também argumenta que é contraditório os Estados Unidos e seus aliados reclamarem do desequilíbrio comercial enquanto mantêm rígidas restrições às exportações chinesas em setores-chave como semicondutores, componentes aeroespaciais e máquinas de alta tecnologia.

Nesse sentido, a mídia enfatiza que Pequim tem uma enorme demanda por bens de alta tecnologia, portanto, o bloqueio ocidental de seus produtos mais competitivos suprime artificialmente suas vendas e aumenta injustificadamente seus desequilíbrios comerciais.

Além disso, a publicação destaca que a taxa de câmbio do yuan é determinada pelas forças de mercado e pelos fundamentos econômicos da China, ressaltando sua recente valorização gradual.

A publicação observa ainda que o Banco Popular da China permanece comprometido com uma taxa de câmbio flexível que reflita o valor real de sua economia, negando categoricamente que seu governo tenha qualquer necessidade ou intenção de recorrer à depreciação artificial para obter vantagens comerciais.

Além disso, o jornal afirma que o superávit comercial da China é resultado direto de décadas de investimento em pesquisa, desenvolvimento e modernização industrial, o que possibilitou a transição de exportações intensivas em mão de obra para produtos de alto valor agregado, como veículos de novas energias e semicondutores. Portanto, rotular um superávit gerado pela exportação de bens de alto valor como "injusto" demonstra uma profunda incompreensão da dinâmica do comércio global moderno.

O editorial conclui que recorrer a lógicas hegemônicas do passado para fazer com que outras economias paguem pelas falhas de governança interna do Ocidente é "obsoleto e contraproducente".

Como o contexto econômico global atual difere radicalmente do de quatro décadas atrás, o jornal destaca que a trajetória do yuan continuará a responder de forma soberana aos pontos fortes da economia chinesa, independentemente da pressão externa.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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