Lutas
pelo direito à saúde salvam democracias?
A
terça-feira (1º) incendiou o país com os arroubos do ministro do STF André
Mendonça em favor da campanha de Flavio Bolsonaro à presidência da República.
Sua ação contra Alexandre de Moraes desviou o foco da revelação da
revista Piauí sobre a entrega de mais R$ 8 milhões de reais
por Daniel Vorcaro, banqueiro preso por usar fundos públicos para operações
financeiras fraudulentas, ao filho de Jair Bolsonaro. O valor se soma aos R$ 61
milhões já revelados anteriormente pela investigação da Polícia Federal.
Para os
diversos ativismos sociais e populares que formam a base de apoio de Lula, o
recado está claro: o jogo será pesado e a falta de entusiasmo e mesmo adesão
social a Flavio Bolsonaro será compensada por ações discricionárias de seus
aliados. Nesse sentido, experiências de organização coletiva, inclusive em
defesa da saúde, podem oferecer pistas para alcançar eleitores ainda indecisos.
“Em
2022, fizemos atos espalhados pela cidade, sempre com símbolos do SUS, o que
era ótimo para conversar. Conseguimos nos conectar com estudantes e
trabalhadores, parte deles afastada de campanhas políticas. Fomos a lugares
estratégicos, como entradas de emergência de hospitais, feiras, parques.
Pudemos ver como fazia diferença um grupo político alinhado à ideia de
equidade, apoio à ciência, direito à saúde, de forma articulada aos
profissionais de saúde”, contou Denis Saffer, membro do Movimento
Saúde dos Povos (MSP).
Sua
fala ocorreu em evento online promovido pelo MSP em parceria com Outra
Saúde, com ativistas de saúde do Brasil, Colômbia e México, países que
vivem experiências inéditas de mobilizações de massa em torno da saúde. Mediada
por Jéssica Torres, a reunião usou as eleições como
referência de momentos decisivos para a construção das democracias na
América Latina.
Por sua
vez, México e Colômbia viveram recentemente processos de renovação das lutas
sociais que alcançaram vitórias eleitorais — embora o país sul-americano tenha
vivido uma derrota recente para a ultradireita. Na saúde, ambos miraram no SUS
como ponto de partida para a elaboração de sistemas de saúde universais,
projeto que apenas começa a sair do plano teórico nos dois países.
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A experiência colombiana
No
entanto, como explicou Jennifer Cardona Malaver, da seção colombiana do
MSP, os embates políticos não foram fáceis. Há todo um muro de poder
oligárquico no Estado a colocar barreiras na construção de uma política pública
transformadora.
“Era um
governo de disputa e parte do movimento social tratou o fato de eleger Gustavo
Petro como suficiente. Depois, fomos arrastados a dinâmicas que impediram
produzir transformações maiores. No começo, quase toda a energia foi canalizada
para sustentar a gestão Petro, o que era correto, mas houve erros
estratégicos”, explicou.
Em sua
visão, apenas na reta final do mandato uma nova estratégia foi traçada, com
retomada do foco no ativismo alheio à máquina de governo. No entanto, não foi
suficiente para se evitar a vitória de mais um outsider de
ultradireita. Empresário radicado em Miami, com cidadania dos EUA, Abelardo de
la Espriella explodiu na reta final da eleição e se elegeu, sob inúmeras
acusações de abuso de poder e favorecimento das mídias, tanto velhas como
novas.
“Deixar
críticas de lado como tática de evitar munição para a oposição nos fez perder a
direção do processo. Deixamos de exercer controle sobre nosso movimento ao
confundir lealdade política com silêncio. E no meio disso perdemos autonomia
crítica e organizativa. Isso nos deixou dependentes da agenda do governo”,
admitiu Jennifer.
Dessa
forma, a construção de um sistema público de saúde num país cujo modelo remete
ao Brasil pré-SUS parece ter sido adiada.
“A reforma do sistema de saúde acabou sendo
vítima disso. Não houve um processo amplo e democrático de construção da
reforma, que ficou restrita aos espaços institucionais, com pouca participação
e consequentemente pouca pressão das ruas para a aprovação”, complementou.
O
futuro é incerto. Como todo recém-eleito, De la Espriella busca ações que gerem
aprovação social. E a saúde deverá ser alvo de suas primeiras iniciativas.
Porém, sob as antigas fórmulas privatistas.
“O novo
presidente pretender fortalecer os modelos das empresas prestadoras de saúde.
Ele tem plano de choque de 10 bilhões de pesos para destravar cirurgias e
solucionar a crise de remédios, que eles mesmos geraram nas eleições”, disse,
em alusão a um desabastecimento forçado às vésperas do pleito.
De toda
forma, a militante da saúde e do Pacto Histórico (bloco partidário que elegeu
Gustavo Petro, mas não fez seu sucessor), enxerga aspectos positivos na
experiência política. “Nosso movimento se conectou com outras lutas sociais,
como ambientais, femininos, religiosos, esportivos, enfim, o tema saiu do
movimento específico e outras formas de ativismo se conectaram. Também
passou-se a ver saúde por uma lógica menos assistencialista e
hospitalocêntrica, e passou a se entender como uma determinação social”,
analisou.
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A experiência mexicana
Se de
um lado o momento latino-americano é de baixa, em razão de uma derrota
eleitoral inesperada, no México a conjuntura talvez seja a mais favorável a
projetos políticos progressistas no continente. Claudia Sheinbaum, primeira
presidente mulher deste país, que tomou posse no final de 2024 e goza de alta
aprovação. Seu antecessor, Antonio Manuel Lopez Obrador (AMLO), liderou um
processo de construção do Movimento de Renovação Nacional (Morena), um
autodenominado partido-movimento, e terminou seu mandato com forte apoio
popular. Seu governo representou a reversão de “30 anos de neoliberalismo que
destruíram o tecido social”.
A
afirmação é de Luz del Carmen García Martinez, do Movimento Saúde dos
Povos no país. Sua participação no diálogo apresenta uma rica experiência
política, que tenta avançar na administração do Estado sem perder a vitalidade
nos territórios onde se organiza o Morena.
A
caminhada foi longa. Como conta Luz del Carmen, o país viveu quase um século de
governos influenciados pela Revolução de 1910, que afirmaram a democracia
política do país, mas se degeneraram no tempo através de burocratização e
corrupção. No meio disso, um neoliberalismo que deixou a sociedade à mercê da
pobreza e do avanço dos grandes cartéis do narcotráfico.
Tal
dinâmica fazia das eleições quase um sinônimo de fraude. Para mudar a situação,
AMLO liderou um processo “que visitou cada povoado e foi falando com as pessoas
interessadas quase de porta em porta”, rememora a ativista mexicana.
“Passamos
um ano filiando pessoas, para formalizar um pouco a organização. Fizemos
assembleias para nomear dirigentes para cada seção eleitoral – presidente(a) e
secretário(a), sempre um homem e uma mulher. A organização é territorial, ainda
que existam grupos de whatsapp para trocar informações entre os filiados”,
explicou.
Seu
governo se afirmou por meio de corte de gastos com a burocracia estatal
privilegiada, investimentos em educação e uma política de segurança que
conseguiu reduzir a violência brutal dos grupos criminosos.
Agora,
sua sucessora tenta avançar na experiência do partido-movimento e a saúde
apareceu como bandeira de peso: um “SUS mexicano”, ainda que com diferenças importantes do
sistema brasileiro, começa a tomar forma e tem início previsto para 2027.
“Atualmente,
o governo tenta conduzir uma estratégia para envolver o povo em processos de
decisão. Temos programas significativos de educação, o Escuela Nuestra, para o qual o governo transfere recursos e
os coloca na mão das comunidades. Nomeia-se um comitê, com secretários,
tesoureira, professores, pais e mães. Com assembleias, decide-se o que fazer
para melhorar as escolas. O mesmo programa se transportou para a saúde”,
explicou.
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De volta ao Brasil
A saúde
e o SUS parecem manter o potencial de ativo eleitoral demonstrado em 2022. E se
o sistema de saúde ampliou sua aceitação na opinião pública é porque houve um
esforço consciente neste sentido, como relembrou Denis Saffer.
“Não
tínhamos um movimento social aliado aos próprios profissionais de saúde que se
mobilizasse publicamente. Isso foi organizado mais claramente após o primeiro
turno de 2022. Organizamos grupos, em especial em locais de trabalho. E aí
entrou em cena o conhecimento territorial dos profissionais de saúde de cada
lugar, que conseguiam se organizar pra fazer campanha fora dos horários de
trabalho”, destacou.
Alvo da
sanha de uma direita violenta e autoritária, local e estrangeira, o Brasil é a
bola da vez. O resultado eleitoral de outubro define de forma inequívoca se
haverá espaço para avanços democratizantes, inclusive no SUS, ou se o país será
trancado no porão neoliberal, sob controle de políticos da estirpe do
neofascista e, por ora, presidiário Jair Bolsonaro. Olhar as experiências de
luta social que marcam o continente pode ser uma boa terapia.
Fonte:
Por Gabriel Brito em Outra Saúde

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