quinta-feira, 3 de setembro de 2026

China defende soberania cubana e dos países da América Latina diante das pressões de Washington

A Embaixada da China em Cuba fez uma forte defesa da soberania na ilha e dos países da América Latina frente às pressões dos Estados Unidos contra as relações comerciais entre Pequim as nações da região.

Em comunicado, divulgado nesta quarta-feira (02/09), a representação diplomática chinesa acusou políticos dos Estados Unidos de tratarem a América Latina como seu “quintal” e de retomarem princípios da Doutrina Monroe para tentar impedir a cooperação de Pequim com países da região.

“Recentemente, alguns políticos norte-americanos fizeram declarações exagerando ostensivamente as ameaças geopolíticas, aplicando manobras ideológicas e atacando sem fundamento a ajuda e a cooperação legítimas entre China e Cuba”, afirmou a chancelaria chinesa, representada na Ilha pelo embaixador Hua Xin.

Segundo Pequim, essas posições estão impregnadas da “obsoleta ‘Doutrina Monroe’” e de “preconceitos ideológicos da Guerra Fria”. A representação chinesa acusou esses políticos de ainda se apegarem ao que chamou de “velho sonho colonial” de que “a América pertence aos americanos”.

<><> ‘Oposição resoluta’

Para Pequim, essa concepção leva os Estados Unidos a considerarem o Hemisfério Ocidental como sua “propriedade privada e quintal”, sobre o qual poderiam exercer controle de acordo com seus interesses.

“A comunidade internacional sabe julgar o que é certo e o que é errado”, afirmou a representação diplomática, acrescentando que aquilo que deveria ser eliminado é “o hegemonismo e a política de poder, os bloqueios, as sanções e a política das canhoneiras” de Washington.

Segundo Pequim, “o direito dos países latino-americanos de escolher livremente seus próprios parceiros não deve sofrer interferência”. O governo chinês disse que continuará “apoiando firmemente a região na defesa de sua soberania nacional, de sua segurança e de seus interesses de desenvolvimento” e que “se oporá resolutamente à ingerência externa nos assuntos internos dos países da região”.

<><> Republicano pede expulsão da China

A embaixada não identificou nominalmente os políticos norte-americanos aos quais dirigiu as críticas. Dois dias antes, porém, o deputado republicano Carlos A. Giménez, da Flórida, havia defendido publicamente que a China fosse expulsa do Hemisfério Ocidental.

“A China comunista não tem lugar no Hemisfério Ocidental e deve ser expulsa”, escreveu Giménez no X na segunda-feira (31/08). O parlamentar também acusou Pequim de tentar “minar” os Estados Unidos em seu próprio hemisfério ao proporcionar uma “tábua de salvação” ao governo cubano.

Giménez, nascido em Cuba e representante do 28º distrito da Flórida, integra o Comitê Especial da Câmara dos Representantes sobre a China. Sua publicação compartilha a um artigo do analista Gordon G. Chang, publicado em 26 de agosto no jornal norte-americano The Hill, sob o título “Don’t Let China Rescue Cuba” (“Não deixe a China salvar Cuba”).

No artigo, Chang acusa Pequim de espionar Washington a partir do território cubano e pede ao governo Trump que tome providências contra a presença chinesa na ilha. Ele sugere que vôos saídos de ou para Cuba sejam restringidos. Também propõe o impedimento da entrada de painéis solares chineses no país, em meio ao bloqueio energético norte-americano.

O governo cubano nega reiteradamente a existência de bases militares ou de instalações de espionagem chinesas em seu território.

¨      Brasil terá que equilibrar autonomia e relações com EUA e China, dizem especialistas

Especialistas ouvidos pelo Mundioka afirmam que próximo governo do presidente eleito do Brasil terá que se contentar com uma América do Sul mais alinhada com os Estados Unidos, equilibrar relações com Washington e Pequim e, ao mesmo tempo, utilizar suas reservas naturais para seu desenvolvimento sem comprometer a autonomia do país.

Apesar da disputa eleitoral no Brasil continua incerta, é possível especular e buscar entender como um próximo governo brasileiro atuará em meio as últimas notícias na América Latina. O fenômeno da "Onda Azul" já dá a cara que o chefe do Executivo terá que dialogar com muitos governos de direita e conservadores, como na Argentina de Javier Milei, no Chile de Antônio Kast ou na Colômbia de Abelardo de la Espriella.

Em particular, o tema de terras raras e minerais críticos e a disputa por reservas pelo cenário geopolítico também colocam o Brasil no interesse de outros países, sobretudo, entre China e Estados Unidos. No Mundioka, podcast da Spuntik Brasil, especialistas debatem o que um futuro governo do Brasil terá que lidar após 2026.

<><> Uma América Latina mais heterogênea

Além da orientação ideológica do próximo governo, Lier Pires, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense destaca que Brasília terá pela frente um cenário regional mais fragmentado do que em períodos anteriores. Em um cenário de maioridade de governos conservadores, isso tem criado obstáculos adicionais para a atuação brasileira, sobretudo durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

"O que nós conhecemos como 'Onda Azul' vem fazendo com que este Brasil, principalmente o Brasil de Lula, encontre diferenças e dificuldades maiores do que no passado", explica. "A fragmentação política do continente com esse avanço de governos mais alinhados com os Estados Unidos [...] reduziu o espaço de articulação que o Brasil tinha ou teve em momentos pretéritos".

Esse cenário pode ganhar ainda mais importância diante das discussões sobre segurança pública e combate ao crime organizado. Pires ressalta que as diferenças políticas entre os governos podem dificultar a construção de iniciativas conjuntas, além da presença crescente dos EUA na região. A Venezuela, sobretudo, aparece como um dos principais exemplos dos limites enfrentados atualmente pela diplomacia brasileira.

Durante o governo Lula, Brasília apostou no diálogo e na mediação para tentar reduzir as tensões envolvendo o governo de Nicolás Maduro e evitar uma escalada que pudesse levar a uma intervenção militar dos Estados Unidos. Porém, a estratégia não alcançou os resultados esperados.

"Aquela aposta no diálogo [...] visando a impedir uma intervenção militar norte-americana, não se materializou."

Na avaliação dele, o episódio expõe "a perda de capacidade de influência real, objetiva, concreta do Brasil no contexto hemisférico", especialmente depois da volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.

Apesar das dificuldades, o Brasil ainda possui condições de exercer uma posição de liderança regional. O problema está na capacidade de transformar essa liderança potencial em influência efetiva. O resultado das eleições, portanto, poderá determinar não apenas a orientação ideológica da política externa brasileira, mas também a estratégia utilizada por Brasília para recuperar espaço em uma região mais dividida.

<><> Posição brasileira dentro da disputa EUA x China

Segundo Robson Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NEL) da Universidade de Brasília (UnB), um possível governo brasileiro mais alinhado aos Estados Unidos afetaria relações já consolidadas. Em destaque, México e China não seriam deixadas de lado, mas tampouco o Brasil teria a vontade de ampliar acordos com esses países.

Em relação a China, em especial, há ainda a disputa por terras raras entre Washington e Pequim. O Brasil possui grandes reservas de terras raras e minerais críticos – cerca de 23% das reservas globais – e que Brasília tenta utilizar esse potencial para atrair investimentos sem abrir mão do processamento e da tecnologia no país. "O governo Lula entende que não só os Estados Unidos, mas o Ocidente, vem tentando diminuir a sua dependência em relação à China no que diz respeito à obtenção desses minerais".

"O governo tem deixado isso claro, que está disposto a trabalhar com qualquer país que aceite essas condições que o Brasil vem tentando colocar nesses planos."

Essa disputa internacional, na visão de Valdez, cria uma oportunidade para o Brasil, que acaba sobressaindo-se como um "grande vencedor colateral dessa disputa, porque Brasil e Estados Unidos disputam vários segmentos do mercado chinês".

Nesse contexto, o principal desafio do presidente eleito será buscar o desenvolvimento do Brasil preservando a autonomia de decisão do governo brasileiro, mantendo relações com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, preservando espaço para negociar com a China e outros parceiros.

Além disso, Valdez também projeta mudanças na agenda do Mercosul. Em caso de continuidade do governo Lula, ele prevê a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, a ampliação da parceria com Cingapura e o avanço das negociações com Canadá, Japão e Vietnã. "A ampliação do alcance do acordo comercial do Mercosul com outros parceiros, eu acho que é um caminho sem volta", afirma.

A diversificação comercial, segundo ele, ganha importância diante de um cenário internacional mais protecionista, vendo que a pressão exercida pelo governo Trump acabou acelerando a aproximação entre Mercosul e União Europeia. "O acordo Mercosul e União Europeia [...] acaba sendo uma forma de manter canais para diversificar parceiros diante de um governo norte-americano cada vez mais coercitivo e atuando cada vez mais de uma forma unilateral".

"Manter um distanciamento sem quebrar os canais de diálogo com os Estados Unidos, evitando a pressão e preservando a autonomia genuína do governo brasileiro, acho que vai ser um dos maiores desafios para o próximo presidente."

¨      ‘Triunfo está nas salas de aula’: Cuba inicia ano letivo enfrentando asfixia energética

“Iniciar este ano letivo é uma resposta à barbárie colonizadora que tentam nos impor. É a vontade de um povo, de uma Revolução”, afirmou o presidente cubano Miguel Díaz-Canel durante o ato nacional pelo começo das aulas do ciclo 2026-2027, realizado nesta terça-feira (01/09) no Paseo del Prado, em Havana.

Em meio à asfixia energética enfrentada por Cuba, mais de 1,4 milhão de estudantes voltaram às escolas, contrapondo-se a um contexto de dificuldades crescentes, que já haviam obrigado a antecipar o encerramento do ano letivo anterior.

Díaz-Canel afirmou que o movimento expressa uma vontade política, pedagógica e de nação. “Que o conhecimento e a paixão por aprender estejam acima de qualquer adversidade. E acredito que, quando isso é alcançado, quando se conquista essa vitória nas salas de aula, nas condições em que isso foi feito, demonstra-se a grandeza de um povo e de uma nação.”

A abertura do novo período escolar foi apresentada pelas autoridades como um desafio que deverá ser “sustentado dia após dia”. A ministra da Educação, Nayma Ariatne Trujillo Barreto, afirmou que o principal desafio será garantir a sustentabilidade do ano letivo e que o sistema educacional buscará assegurar “o máximo possível de atividades presenciais”, embora cada instituição organize o processo de acordo com suas próprias condições.

O início das aulas ocorre após semanas de trabalho para preparar as escolas e criar as condições necessárias. Em declarações à imprensa, Díaz-Canel destacou a participação das estruturas de direção da Educação, dos órgãos responsáveis pela formação, das famílias, das comunidades e de diferentes instituições estatais nesse processo.

Ele também afirmou que, há meses, os responsáveis pela Educação, pelo Ensino Superior e por outros órgãos de formação vêm trabalhando na elaboração de alternativas para enfrentar o novo ano letivo em meio ao bloqueio energético.

“O triunfo está nas salas de aula” é a palavra de ordem com a qual as autoridades cubanas sintetizam o desafio de manter a educação nessas condições.

Entre as dificuldades e o compromisso de não deixar ninguém sem aulas

No Paseo del Prado, entre as pessoas que chegam para deixar as crianças, vestidas com seus tradicionais uniformes escolares, um jovem chama a atenção. Ele chega em uma velha bicicleta, sem pintura, com uma menina abraçada às suas costas.

“Pela manhã, de bicicleta, deixo minha irmã na escola e, alguns dias por semana, vou dar aulas em uma escola de ensino médio que fica a alguns quilômetros daqui”, conta Rubén Mendieva, estudante de Física, ao Brasil de Fato.

Diante da falta de professores, Mendieva, assim como outros estudantes universitários, começou a dar aulas como voluntário em escolas de ensino médio, em disciplinas relacionadas à sua área de formação. “Sinto que essa é a forma que tenho de colaborar nesta situação tão difícil. Ninguém deve ficar sem a possibilidade de estudar”, afirma.

Enquanto tenta, junto com seus amigos e amigas, conciliar as atividades de voluntariado com o dia a dia das próprias aulas na universidade, ele também enfrenta dificuldades para estudar. “Não temos conexão com a internet nem energia elétrica, e assim fica muito complicado manter contato com os professores e conseguir estudar a bibliografia das disciplinas.”

A asfixia energética enfrentada por Cuba atravessa todos os âmbitos da vida cotidiana e afeta diretamente o funcionamento do sistema educacional. A falta de combustível praticamente paralisou o transporte público e mantém o transporte escolar fora de operação, dificultando o deslocamento de professores e estudantes até os centros educacionais.

A essa situação soma-se a instabilidade no fornecimento de eletricidade. Os cortes de energia não apenas deixam as escolas sem iluminação, mas também afetam serviços básicos, como o bombeamento de água. Em meio ao calor do Caribe, as interrupções no fornecimento de energia também dificultam a refrigeração dos alimentos destinados aos estudantes.

As dificuldades decorrentes da crise energética afetaram o desenvolvimento do ano letivo anterior, que precisou ser encerrado antecipadamente, em junho. Em algumas instituições de ensino, foram adotados modelos semipresenciais para manter as atividades docentes. Além disso, durante esse período, as universidades ficaram impossibilitadas de manter as aulas presenciais devido às dificuldades para manter em funcionamento as bolsas estudantis.

“Todos os dias são uma batalha”, afirma Irene de León, professora do ensino fundamental. “Conseguir chegar à escola e fazer com que as crianças também consigam chegar. Imaginem: muitas vezes sem ter conseguido dormir bem, por causa do calor durante a noite ou das tremendas dificuldades que existem nas casas. E o mesmo acontece com a gente, como professores. É muito difícil e muito injusto o que estão fazendo com nossas crianças”, lamenta, com a voz trêmula e à beira do choro.

Mas, apesar das dificuldades, ela garante que os professores estão decididos a continuar. “Temos que seguir em frente, fazendo a Revolução, educando como sempre fizemos. Esta Revolução educou este país e não vamos deixar que nos tirem o que temos de mais sagrado, que é a educação de nossas crianças”, afirma.

 

Fonte: Opera Mundi/Sputnik Brasil

 

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