quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Na Venezuela, a última chance do dólar?

Em 3 de janeiro, os EUA invadiram militarmente a Venezuela e sequestraram seu presidente, Nicolas Maduro. Este ato bárbaro de violação do direito internacional foi complementado, na última sexta-feira (26/8), pelo anúncio de um acordo de rapina. O presidente Donald Trump afirmou que Washington controlará a maior parte da riqueza petrolífera da Venezuela, constituída pelas reservas da Bacia do Orinoco e do Lago Maracaibo. Ao seu estilo, afirmou tratar-se do “maior acordo petroleiro da história”. Suas palavras foram confirmadas pela presidente do país sulamericano, a dócil Delcy Rodriguez, que expressou “a mais profunda gratidão” ao ocupante da Casa Branca.  O acordo ainda não foi firmado, mas o que veio a público é de natureza claramente colonial. A exploração do petróleo das duas regiões será feita por uma entidade com dois controladores. O Departamento de Estado dos EUA terá 55% das ações. As demais serão entregues a uma empresa privada com nome inglês (Nabep, North American Blue Energy Partners) e sede no paraíso fiscal de Barbados. Os dois sócios poderão contratar terceiras companhias para realizar os trabalhos de exploração e extração. O governo norte-americano garantirá os investimentos. O acordo terá duração extensíssima: 50 anos, prorrogáveis por mais 50. À Venezuela, que não terá autonomia alguma sobre o processo, caberão, segundo Delcy Rodriguez, 29% dos recursos arrecadados com a venda.

Os EUA precisam desesperadamente sequestrar petróleo alheio, diz ele, para tentar manter a hegemonia internacional do dólar – fonte importante de sua riqueza. Esta dominância consolidou-se, em grande medida, a partir dos acordos feitos nos anos 1970. Washington aceitou a alta expressiva dos preços do petróleo, alcançada pela OPEP. Em contrapartida, assegurou que as vendas internacionais do combustível seriam sempre feitas em dólares, o que dava sustentação internacional permanente a sua moeda. Estes acordos, prossegue Hudson, sofreram forte erosão nos últimos anos. Ao tentarem estabelecer a força do dólar como arma de guerra – impondo sanções ao Irã e congelando depósitos de centenas de bilhões de dólares de Moscou e Teerã – Washingon levou estes países a buscarem alternativas. A China, por exemplo, passou a comprar petróleo iraniano e a pagar em yuanes. Como o poder e prestígio político e a força econômica dos EUA já são decadentes há décadas, este enfraquecimento da moeda do país poderia acelerar de forma imprevisível o movimento. A captura do petróleo venezuelano é uma das tentativas de conter este processo, aponta o economista. Ele esbarrou, porém, na resistência do Irã. O ataque a Caracas foi seguido pela guerra dos EUA e Israel contra o país. Em determinado momento, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, chegou a “anunciar” um futuro arranjo com o petróleo iraniano semelhante ao imposto agora a Caracas. Os planos foram frustrados pela surpreendente capacidade demonstrada por Teerã, até o momento, de conter o agressor e impor-lhe uma derrota humilhante e possivelmente catastrófica.

As autoridades americanas são notavelmente francas ao descrever sua estratégia para manter o poder imperial dos EUA. “O domínio do dólar é essencial”, afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em uma entrevista na televisão em 24 de junho de 2026. O motivo pelo qual os Estados Unidos impuseram sanções comerciais e financeiras à Venezuela, explicou ele, foi porque o país estava “vendendo petróleo com desconto para a China e não recebendo dólares”. Um país que não precificava o petróleo em dólares e não investia os lucros em contas em dólares representava uma ameaça à capacidade dos EUA de manter o papel central do dólar no sistema financeiro mundial, a principal fonte da riqueza americana. As guerras dos EUA contra a Venezuela, a Rússia e o Irã visam forçá-los a precificar suas exportações de petróleo em dólares e, igualmente importante, investir os lucros nos mercados financeiros dos EUA ou usá-los para comprar produtos americanos. Desde a invasão e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos EUA em 3 de janeiro, Bessent destacou: “A nova Venezuela está faturando em dólares, que estão retornando ao sistema do dólar. … E agora, o dólar será a peça central de seu comércio.”

Uma reportagem do Financial Times calculou que, com base em padrões históricos de preços, o valor do petróleo que a Venezuela “exportou desde janeiro… ultrapassa US$ 13 bilhões”, mas o site do governo venezuelano “para rastrear a receita das vendas de petróleo administradas pelos EUA… registra apenas uma entrada – uma transferência de US$ 300 milhões em março”. Isso representa apenas 2,5% das exportações venezuelanas retidas pelos ocupantes norte-americanos desde a mudança de regime. Os termos impostos à Venezuela servem de modelo para os planos dos EUA em relação ao Irã, anunciou Bessant em sua entrevista. “Estamos vendo nas negociações com o Irã que os iranianos emitirão faturas em dólares.” Uma semana antes, em 17 de junho, o presidente Trump havia assinado um Memorando de Entendimento com o Irã, prometendo que os Estados Unidos começariam a devolver parte dos mais de US$ 100 bilhões em economias que os Estados Unidos e seus aliados haviam confiscado. (Um pagamento de US$ 12 bilhões foi amplamente citado.) Mas, valendo-se da tática de “isca e troca” dos EUA, Bessant explicou que qualquer devolução de fundos estaria sujeita à supervisão dos EUA.  Bessant chegou a prever que “quando o conflito Rússia-Ucrânia terminar, a Rússia desejará retornar ao sistema do dólar”, apesar de ter sofrido o confisco, pela União Europeia, de US$ 300 bilhões em depósitos no sistema de compensação do Eurobanco. Os fatores decisivos seriam o poderio militar e as sanções comerciais dos EUA, forçando o Irã e a Rússia a capitular a termos de rendição semelhantes aos da Venezuela.

A Venezuela não teve escolha. Foi invadida e seu presidente foi preso em confinamento solitário nos Estados Unidos. Sua produção de petróleo foi confiscada e suas receitas, apreendidas. Uma ficha informativa do Departamento de Energia dos EUA detalhou os planos americanos para gastar os tributos que podem ser extraídos da Venezuela, presumivelmente um modelo que se espera impor ao Irã e à Rússia.

<><> Guerra para derrotar o Irã e confiscar suas receitas petrolíferas

Consolidar o controle sobre os países da OPEP e integrá-los à sua própria economia é um objetivo antigo dos EUA. Quando a guerra de 1973 entre Egito e Israel levou a Arábia Saudita e outros países da OPEP a impor um embargo de petróleo contra os Estados Unidos e outros apoiadores de Israel, o presidente Richard Nixon “considerou seriamente o uso da força militar para tomar campos de petróleo no Oriente Médio durante o embargo de petróleo árabe… caso as tensões entre Israel e seus vizinhos árabes continuassem a aumentar após a guerra do Oriente Médio de outubro de 1973 ou o embargo de petróleo não diminuísse”.  Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram uma segunda onda de ataques que se transformou em uma campanha de 40 dias, cujo primeiro objetivo era forçar uma mudança de regime no Irã. Ataques aéreos israelenses assassinaram o Líder Supremo Ali Khamenei e outros altos funcionários iranianos. Um ataque repetido dos EUA matou 120 crianças e outros 36 civis na escola de Minab, e o bombardeio do ginásio esportivo de Lamerd, no sul do Irã, matou membros de um time feminino de vôlei.

O Irã devastou então bases militares americanas em toda a região e atacou Haifa e outros locais israelenses. Instalações de produção de petróleo, refinarias, depósitos de combustível, portos e investimentos privados americanos foram atingidos, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, que foram os principais apoiadores dos ataques americanos. Em 1º de março, o Irã bombardeou os centros de dados em nuvem da Amazon Web Services no Bahrein e em Abu Dhabi (o maior emirado dos Emirados Árabes Unidos), e um centro da Oracle em Dubai. Em 2 de março e novamente em 18 e 19 de março, destruiu as instalações de produção de GNL do Catar, que representavam um terço do comércio mundial de hélio. A situação se agravou ainda mais em 27 de março, quando o Irã lançou mísseis e drones contra Israel e também atingiu a grande Base Aérea Príncipe Sultan, dos EUA, na Arábia Saudita, ferindo pelo menos 17 militares americanos. Os militares dos EUA e de Israel bombardearam diversos alvos no Irã, com foco em suas instalações nucleares. Isso levou o Irã a anunciar, em 31 de março, que iria “atacar empresas americanas, incluindo Microsoft, Google, Apple, Meta, Oracle, Intel, HP, IBM, Cisco, Dell, Palantir e Nvidia”. E quando a Guerra do Petróleo se intensificou, o Irã destruiu os data centers restantes da Amazon no Bahrein, em 21 e 24 de julho. As retaliações quase diárias do Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz paralisaram as exportações de petróleo da região, ameaçando criar uma crise mundial ao interromper cerca de 20% do comércio global de petróleo.

Em maio, a Arábia Saudita suspendeu por cinco dias a autorização militar dos EUA para operar a partir da Base Aérea Príncipe Sultan, impediu o voo de todos os 43 aviões de guerra americanos ali estacionados e fechou o espaço aéreo nacional saudita à Operação Projeto Liberdade poucas horas depois de o presidente Trump anunciar a operação nas redes sociais em 3 de maio de 2026. (…) O ataque iraniano de 27 de março à Base Aérea Príncipe Sultan demonstrou que sediar operações de combate americanas transformava o território saudita em um alvo, cujas defesas americanas eram ineficazes contra os mísseis iranianos. A guerra chegou ao auge em 11 de junho. O Irã retaliou contra os ataques aéreos dos EUA e o bloqueio às suas exportações de petróleo, reforçando o fechamento do Estreito de Ormuz e lançando ataques com drones contra o Bahrein e outros emirados do Golfo, para demonstrar que, ao contrário da promessa dos EUA de que suas bases militares protegeriam os países árabes anfitriões de ataques, essas bases os haviam transformado em alvos. Os Emirados Árabes Unidos, que adotaram a posição anti-Irã mais ferrenha e atrelaram sua economia mais estreitamente à dos EUA, sofreram os maiores danos. Um corte no fornecimento de petróleo ao Irã poderia ser compensado por alguns meses com a liberação de petróleo da Reserva Nacional de Petróleo, mas se o comércio com o Golfo Pérsico não fosse retomado em breve, haveria uma crise de abastecimento. Apesar de os Estados Unidos serem um exportador líquido de petróleo, precisam importar quantidades substanciais de petróleo bruto do exterior, especialmente o petróleo pesado ou “ácido” (com teor de enxofre entre 0,5% e 2%), obtido principalmente da Arábia Saudita. Os campos de petróleo americanos produzem principalmente petróleo “doce” com baixo teor de enxofre, mas as refinarias americanas necessitam desse petróleo estrangeiro mais pesado para produzir diesel para caminhões e navios, e querosene para aeronaves. Companhias aéreas do mundo todo estavam reduzindo seus voos e aumentando os preços das passagens para refletir o aumento dos custos de combustível. E o transporte rodoviário doméstico, que depende de diesel, corria o risco de ser interrompido, causando paralisações na produção e interrupções no trabalho.

O plano de Trump era que os militares dos EUA derrotassem o Irã e forçassem a reabertura do Estreito em troca da promessa das monarquias árabes de investir ou gastar centenas de bilhões de dólares de suas receitas de exportação nos Estados Unidos. Suas manobras de negociação confirmaram que ele nunca teve a intenção de permitir que o Irã implementasse procedimentos para administrar o comércio através do Estreito de Ormuz que serviriam de base para o Irã cobrar pedágios ou quaisquer outras taxas que Trump almejava – e que ele nunca teve a intenção de ajudar a negociar com os países árabes da OPEP a devolução dos US$ 100 bilhões em economias iranianas que haviam sido confiscadas.  O sonho de Trump era repetir no Irã a vitória que alegava ter alcançado na Venezuela. Ele instalaria um regime fantoche que pagaria aos Estados Unidos uma compensação pelos custos de seu armamento militar e esforços relacionados ao ataque americano. O Irã concluiu que o memorando de entendimento não passava de uma farsa, permitindo que Trump ganhasse tempo para reorganizar seus planos militares e fortalecer suas alianças com os governantes sunitas. Em 19 de julho, o país suspendeu formalmente o memorando de entendimento em decorrência das violações de seus termos pelos Estados Unidos.

<><> Na Guerra do Petróleo, questão de vida ou morte para os Estados Unidos e o Irã.

A Guerra do Petróleo de Trump é tão crucial para a hegemonia dos EUA quanto para a sobrevivência do Irã diante das ameaças de Trump de destruí-lo e impor um regime fantoche nos moldes do que ele alega ter alcançado em sua vitória sobre a Venezuela. Para os Estados Unidos, a Guerra do Petróleo contra o Irã – e contra a Rússia e a Venezuela – não foi uma guerra de escolha. Foi uma manobra desesperada para manter seu monopólio mundial do petróleo como um ponto de estrangulamento, na esperança de que isso lhe permitisse permanecer uma economia rentista global, obtendo do exterior a riqueza que não produz mais internamente. Para atingir esse objetivo, os Estados Unidos tratam os países como inimigos se estes reivindicarem sua soberania e se recusarem a aderir às suas sanções contra países cujas políticas conflitem com a hegemonia americana, a instrumentalização do comércio mundial de petróleo e a dolarização de suas relações monetárias. A soberania de outros países é vista como uma ameaça à própria segurança econômica nacional dos Estados Unidos, à sua riqueza alavancada em ações e títulos e ao tributo financeiro que lhes permite impor poder militar e político coercitivo. As ações agressivas dos EUA contra a Rússia, a China e o Irã por reivindicarem sua soberania uniram esses países e aceleraram seus esforços conjuntos para criar uma base alternativa para suas relações comerciais e monetárias. Esses esforços estão catalisando uma ruptura global que vem se formando há muito tempo, mas que somente agora atingiu a massa crítica necessária para que os países conquistem a independência do controle dos EUA.

A proteção econômica que a China, a Rússia e o Irã oferecem ao resto do mundo baseia-se em um sistema de pagamentos alternativo para evitar a dependência do dólar americano, que se tornou um gargalo, representando um risco de confisco de ativos, como o que a Rússia e o Irã sofreram. Os sistemas monetários e de poupança internacionais necessitam de uma filosofia financeira e operacional diferente daquela dos programas de austeridade do FMI e das políticas de privatização do Banco Mundial, criadas pela diplomacia estadunidense em 1945 sob seu próprio controle e a serviço de seu poder dominante como credor e exportador na época. O potencial para a criação de uma Nova Ordem Econômica Internacional (para usar a expressão popular na década de 1970), com seu apelo por um corpo multipolar de leis e organizações internacionais não sujeitas ao veto, obstrução e controle dos EUA, é o que torna a atual Guerra do Petróleo dos EUA contra o Irã, a Rússia e a Venezuela de alcance civilizacional. A criação de um sistema alternativo que permita ganhos mútuos nas relações comerciais e financeiras, substituindo o atual sistema tributário extrativista dos EUA, onde só um ganha e o outro perde, representaria um desafio existencial à prosperidade americana. É por isso que a diplomacia dos EUA luta contra qualquer sistema alternativo desse tipo e por que, para o resto do mundo, a política imposta pelos EUA à Venezuela no início de 2026 ameaça ser imposta ao Irã, à Rússia e a outros países, caso não se unam para defender o princípio da soberania econômica nacional e organizem medidas de proteção política e militar para impedir a instrumentalização das relações internacionais pelos EUA.

O mundo já enfrenta a mais profunda depressão desde a década de 1930, como resultado da Guerra do Petróleo americana, que interrompeu o comércio global de petróleo, fertilizantes e produtos relacionados. Esse dano colateral é o preço a ser pago por não se ter agido antes contra o regime de sanções comerciais e financeiras patrocinadas pelos EUA, cujo objetivo é prejudicar os países que não aderem às suas relações exteriores cada vez mais predatórias. As atuais regras internacionais e a administração global foram sequestradas pela intromissão estreita e nacionalista dos Estados Unidos e pela violação da soberania de outras nações. Visto que não existem mecanismos internacionais com poder para impor reparações aos Estados Unidos e seus aliados, a imposição de tarifas sobre o comércio de petróleo no Golfo Pérsico é a única maneira previsível de o Irã recuperar os danos – não diretamente dos Estados Unidos ou de seus aliados agressores, mas dos consumidores mundiais de petróleo.

Um dos grandes desafios é criar um poder de fiscalização contra aqueles que violam as normas da ONU. Somente tais meios de fiscalização podem garantir a verdadeira soberania nacional e regras para o livre comércio e investimento internacionais. A proteção da soberania nacional foi considerada um princípio orientador da civilização e do direito internacional desde a Paz de Vestfália de 1648 até a Carta das Nações Unidas. Esse princípio está sendo bloqueado pela insistência dos Estados Unidos em agir como “a nação excepcional”, não vinculada às normas do direito internacional. Sua exigência de poder de veto e suas manobras burocráticas secretas em qualquer organização internacional da qual participe têm impedido o funcionamento eficaz das Nações Unidas e de outras instituições globais. Uma reestruturação sistêmica dessas instituições, incluindo uma Corte Internacional de Justiça reconstituída, é, portanto, necessária para pôr fim à submissão ao que se tornou uma ameaça aos princípios da civilização. Os principais requisitos de uma ordem internacional reformada incluiriam regras para proteger o comércio marítimo das tentativas dos EUA de criar gargalos, e regras intergovernamentais para alcançar o que Keynes buscava assegurar em suas propostas de 1944 como alternativa ao FMI, apoiado pelos planejadores estadunidenses. O que se faz necessário são regras e mecanismos para evitar a dependência da dívida e o empobrecimento por meio da imposição de privatizações e austeridade monetária antigovernamentais e antissindicais, como as atualmente impostas pelo FMI e pela política externa estadunidense correlata. O estágio inicial de tais mecanismos, sem dúvida, se baseará em uma combinação de swaps de ouro e moeda estrangeira, com um novo tipo de banco internacional criando seu próprio balanço eletrônico de créditos e obrigações entre países credores e devedores.

 

Fonte: Por Michael Hudson | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

 

 

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