Do
controle da glicose à saúde mental: como a tecnologia mudou o cuidado do
diabetes na América Latina
Durante
muito tempo, falar em tecnologia no diabetes significava, principalmente,
discutir novas formas de medir a glicose ou administrar insulina. Hoje, a
conversa é mais ampla. Além dos resultados glicêmicos, entram nessa conta a
quantidade de decisões exigidas diariamente, o impacto emocional do tratamento,
a qualidade de vida e até o tempo da consulta médica.
Essa
mudança esteve no centro das discussões do Taller de Expertos 2026, realizado
entre os dias 26 e 28 de agosto, em Buenos Aires, na Argentina.
Em sua
12ª edição, o encontro promovido pela MiniMed | Medtronic reuniu cerca de 180
participantes, entre médicos, especialistas e outros profissionais de saúde de
diferentes países da América Latina. Durante três dias, foram discutidos
avanços tecnológicos, novas evidências científicas, resultados clínicos, saúde
mental, carga do tratamento, economia da saúde e acesso.
A
edição também marcou os 25 anos da chegada das tecnologias da MiniMed |
Medtronic para diabetes à América Latina. Nesse período, o tratamento passou
por transformações importantes, com a evolução das bombas de insulina, dos
sensores de glicose e, mais recentemente, dos sistemas capazes de automatizar
parte da administração de insulina.
Ao
olhar para essa trajetória, porém, o encontro também colocou uma questão
importante sobre a mesa: depois de tantos avanços, como fazer os benefícios da
tecnologia chegarem a mais pessoas?
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Diferentes países, desafios que se encontram
O
Taller de Expertos é realizado anualmente em diferentes países da América
Latina e reúne profissionais de saúde para compartilhar experiências e discutir
temas que estão presentes nos principais congressos internacionais, mas sob a
perspectiva das realidades da região.
Segundo
Andrea Daghero, gerente de Treinamento e Educação da MiniMed | Medtronic, esse
é justamente um dos objetivos do encontro.
“A
ideia foi conectar a inovação aos desafios concretos que vemos todos os dias em
nossa região.”
Embora
cada país tenha características próprias, algumas dificuldades se repetem.
“Embora
cada país da América Latina tenha suas particularidades, existem desafios que
são comuns na região, especialmente quando falamos de acesso à tecnologia”,
afirma Daghero.
Entre
os profissionais brasileiros presentes estavam o endocrinopediatra Luiz Eduardo
Calliari, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), e o endocrinologista
Rodrigo Siqueira, além de dezenas de outros médicos do país.
Para
Calliari, uma das características da América Latina é que as diferenças de
acesso não existem apenas entre os países. Elas também podem ser encontradas
dentro de uma mesma população.
“Dentro
dos países nós temos pessoas com tratamentos muito tecnológicos e muito bons e
muitos pacientes com dificuldades de acesso à tecnologia.”
É
justamente por isso que colocar diferentes experiências na mesma discussão pode
ajudar a entender não apenas o que as novas tecnologias conseguem fazer, mas
como elas estão chegando aos pacientes e quais barreiras ainda precisam ser
enfrentadas.
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Tecnologia pode significar menos decisões no dia a dia
A
evolução tecnológica das últimas décadas mudou diferentes etapas do tratamento
do diabetes.
Bombas
de insulina e sensores de glicose passaram a funcionar de maneira cada vez mais
integrada. Nos chamados sistemas de administração automatizada de insulina,
conhecidos pela sigla AID, informações obtidas pelo sensor são utilizadas por
algoritmos para ajustar automaticamente parte da administração de insulina.
Na
prática, algumas tarefas que antes dependiam exclusivamente da pessoa com
diabetes podem passar a ser realizadas ou auxiliadas pelo sistema.
Para
Andrea Daghero, essa simplificação está entre as principais transformações
observadas nos últimos 25 anos.
“Talvez
a maior mudança tenha sido a simplificação: como, hoje, a tecnologia de
administração automatizada de insulina, os sistemas AID, conseguiu assumir
tarefas que antes ficavam nas mãos da pessoa que vive com diabetes,
simplificando o tratamento e aliviando a carga de tomada de decisões.”
Essa
evolução também mudou a discussão sobre quem consegue utilizar tecnologias mais
avançadas.
Segundo
Daghero, a automação vem diminuindo a dependência de algumas habilidades que
tradicionalmente eram exigidas de quem utilizava sistemas mais complexos.
“Já não
se trata de ser um perfeito contador de carboidratos ou um especialista em
diabetes para se beneficiar dessa tecnologia; a automação está conseguindo
‘democratizar’ os resultados em diferentes perfis de pacientes”, afirma.
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“A tecnologia traz humanidade”
Para
Calliari, existe outro aspecto dessa transformação que merece atenção.
Embora
tecnologia e humanização possam parecer conceitos distantes, o
endocrinopediatra defende que a automação pode ajudar justamente a diminuir
parte do peso que o tratamento coloca sobre quem vive com diabetes.
“A
tecnologia traz humanidade e ela traz redução da disparidade.”
O
diabetes exige uma sequência de decisões ao longo do dia. Acompanhar a glicose,
administrar insulina, calcular carboidratos, considerar alimentação e atividade
física e reagir a alterações inesperadas fazem parte dessa rotina.
Quando
parte dessas tarefas pode ser automatizada, o possível impacto não está apenas
nos indicadores glicêmicos.
“Você
faz com que o controle melhore, você faz com que o estresse relacionado ao
diabetes diminua e você faz com que as diferenças diminuam”, afirma Calliari.
A
chamada carga do tratamento foi um dos assuntos discutidos durante o Taller de
Expertos.
Para
Andrea Daghero, avaliar uma tecnologia apenas pelo desempenho do dispositivo
deixa de fora outros aspectos importantes da vida de quem precisa utilizá-la
todos os dias.
“Na
MiniMed, sempre acreditamos que os avanços tecnológicos devem vir acompanhados
de humanidade.”
Segundo
ela, isso significa considerar resultados clínicos e evidências científicas,
mas também acesso, economia da saúde, carga do tratamento e simplificação.
“Porque,
no final, a melhor tecnologia é aquela que a pessoa consegue manter”, afirma.
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Tecnologia também abre espaço para falar de saúde mental
Se
durante décadas grande parte das decisões no diabetes foi orientada
principalmente por números, a quantidade de informações disponíveis hoje também
está mudando a conversa dentro do consultório.
Sistemas
de monitorização permitem observar tendências da glicose, identificar períodos
de glicose baixa ou alta e analisar o comportamento desses valores durante
vários momentos do dia.
Esses
dados podem ajudar o profissional de saúde a identificar padrões e tomar
decisões mais individualizadas sobre o tratamento.
Mas ter
mais informação não significa necessariamente gastar mais tempo olhando para
números.
Quando
os dados estão organizados e determinados padrões podem ser identificados com
mais facilidade, a consulta também pode abrir espaço para questões que não
aparecem em um gráfico: medo de hipoglicemia, sono, dificuldade para seguir o
tratamento, impacto do diabetes na rotina e estresse relacionado à condição.
Por
isso, saúde mental e qualidade de vida também estiveram entre os assuntos
abordados durante o encontro em Buenos Aires.
Essa
discussão acompanha uma mudança na própria forma de avaliar os resultados do
tratamento. Manter a glicose dentro das metas individualizadas continua sendo
fundamental, mas cresce a atenção para a maneira como esses resultados são
alcançados e para o peso que esse cuidado representa na vida cotidiana.
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O custo da tecnologia também entrou na discussão
Se a
tecnologia avançou rapidamente, o custo continua sendo uma das principais
questões quando se discute ampliação do acesso, especialmente nos sistemas
públicos de saúde.
Uma das
apresentações do Taller abordou economia da saúde e custo-efetividade, conceito
utilizado para analisar a relação entre os recursos investidos em determinada
intervenção e os benefícios obtidos.
Calliari
destacou esse debate entre os pontos importantes da programação.
“Normalmente,
o impacto que a gente sente da tecnologia é: a tecnologia é cara.”
Segundo
o endocrinopediatra, durante o encontro foram apresentadas experiências de
países que avaliaram não apenas o investimento inicial, mas também possíveis
impactos sobre complicações relacionadas ao diabetes, internações, qualidade de
vida e utilização dos serviços de saúde.
“Além
de você trazer o benefício individual para a pessoa, você traz um benefício
também para o sistema de saúde”, afirma.
Para
Calliari, é necessário olhar para os efeitos que podem aparecer ao longo dos
anos.
“Você
tem um benefício coletivo com menos gasto, melhor qualidade de vida e menor
custo no longo prazo, porque essa pessoa vai ter menos internações, menos
complicações.”
Resultados
de análises econômicas, porém, precisam ser interpretados dentro do contexto em
que foram produzidos. Custos, perfil dos pacientes, estrutura dos sistemas de
saúde e desfechos considerados podem mudar de um país para outro.
Ainda
assim, a discussão sobre custo-efetividade amplia uma pergunta que normalmente
começa pelo preço da tecnologia: além de saber quanto custa incorporá-la, é
necessário avaliar também os potenciais benefícios clínicos e econômicos que
ela pode produzir ao longo do tempo.
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E onde o Brasil entra nessa discussão?
O
debate realizado em Buenos Aires encontra um desafio conhecido no Brasil: como
ampliar o acesso às tecnologias para diabetes dentro de um sistema público que
atende uma população numerosa e com diferentes necessidades.
Calliari
cita avanços na incorporação de recursos ao Sistema Único de Saúde (SUS),
passando por insulinas e dispositivos de aplicação e, mais recentemente, pelas
discussões e iniciativas envolvendo sensores de glicose.
Para o
médico, ampliar progressivamente o acesso às tecnologias pode produzir efeitos
que ultrapassam os resultados glicêmicos individuais.
“Na
hora que a gente vai aumentando o grau de tecnologia que é acessível para a
população, a gente melhora o controle.”
Segundo
Calliari, melhores resultados podem contribuir para reduzir o risco de
complicações no longo prazo e, consequentemente, seus impactos sobre a vida das
pessoas e sobre o sistema de saúde.
É nesse
ponto que a discussão sobre inovação encontra uma das maiores contradições da
região: tecnologias cada vez mais avançadas convivem com pessoas que ainda
enfrentam dificuldades para acessar diferentes recursos do tratamento.
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Em 25 anos, o objetivo também mudou
A
edição de 2026 abriu espaço ainda para uma retrospectiva dos 25 anos da MiniMed
| Medtronic na América Latina e da evolução das tecnologias para diabetes
durante esse período.
Para
Andrea Daghero, uma das principais transformações não está apenas nos
equipamentos ou nos algoritmos. Está também no que se espera do tratamento.
“Acredito
que uma das maiores mudanças desses 25 anos foi passar de buscar unicamente o
controle glicêmico para buscar também menos carga e mais liberdade para as
pessoas que vivem com diabetes.”
Isso
não significa que o controle da glicose tenha perdido importância. Manter os
níveis glicêmicos dentro das metas estabelecidas individualmente continua sendo
parte fundamental do tratamento e da redução do risco de complicações.
O que
mudou foi a compreensão de que os resultados clínicos precisam caminhar ao lado
de outros aspectos da vida.
Um
tratamento pode produzir bons indicadores, mas também precisa ser possível de
sustentar no cotidiano.
Essa
mudança ajuda a explicar por que temas como saúde mental, simplificação, acesso
e qualidade de vida dividiram espaço com sensores, bombas de insulina,
algoritmos e evidências científicas durante os três dias de programação.
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O que esperar dos próximos anos?
Se
parte do Taller de Expertos 2026 olhou para as transformações das últimas
décadas, outra parte foi dedicada ao que pode mudar nos próximos anos.
A
trajetória da MiniMed | Medtronic ajuda a mostrar essa evolução. Ao longo dos
últimos 25 anos na América Latina, as tecnologias passaram de sistemas de
infusão de insulina para soluções que integram bombas, sensores de glicose e
algoritmos capazes de automatizar parte da administração de insulina.
Um dos
movimentos recentes nessa direção envolve também a colaboração entre diferentes
empresas. Em 2024, Medtronic e Abbott anunciaram uma parceria global para
integrar um sensor de monitorização contínua da glicose baseado na tecnologia
da Abbott aos sistemas de administração automatizada de insulina da Medtronic.
A
parceria é um exemplo de uma tendência mais ampla: diferentes tecnologias
funcionando de forma integrada para diminuir a quantidade de decisões
necessárias ao longo do tratamento.
A
disponibilidade dessas soluções, no entanto, depende de estudos, aprovações
regulatórias e estratégias de lançamento que variam de acordo com cada país.
Por isso, tecnologias anunciadas ou disponíveis em outros mercados não
significam necessariamente disponibilidade imediata no Brasil.
Na
América Latina, portanto, duas discussões caminham juntas: até onde a
tecnologia pode avançar e como fazer com que os benefícios desses avanços
cheguem a mais pessoas.
Para
Calliari, o conjunto de evidências e experiências apresentado aumenta a
perspectiva de que essa discussão também avance no Brasil.
“Chega
um ponto em que a gente começa a ter tanta informação positiva a respeito da
tecnologia que não dá para não ficar animado com a ideia de que isso possa
aumentar no nosso país e atingir muito mais gente do que está atingindo hoje.”
Para
Andrea Daghero, o desafio para os próximos anos passa pela combinação de
diferentes frentes.
“Podemos
construir dias melhores quando trabalhamos juntos, combinando inovação,
evidências clínicas, educação e colaboração.”
Depois
de três dias de discussões em Buenos Aires, o Taller de Expertos 2026 deixou
uma mensagem que vai além da busca por dispositivos mais sofisticados.
Depois
de 25 anos de evolução, o próximo desafio da tecnologia no diabetes na América
Latina passa não apenas por melhorar os números da glicose, mas por simplificar
o tratamento, diminuir sua carga e encontrar caminhos para que esses avanços
possam chegar a mais pessoas.
Fonte:
Um Diabético

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