quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Do controle da glicose à saúde mental: como a tecnologia mudou o cuidado do diabetes na América Latina

Durante muito tempo, falar em tecnologia no diabetes significava, principalmente, discutir novas formas de medir a glicose ou administrar insulina. Hoje, a conversa é mais ampla. Além dos resultados glicêmicos, entram nessa conta a quantidade de decisões exigidas diariamente, o impacto emocional do tratamento, a qualidade de vida e até o tempo da consulta médica.

Essa mudança esteve no centro das discussões do Taller de Expertos 2026, realizado entre os dias 26 e 28 de agosto, em Buenos Aires, na Argentina.

Em sua 12ª edição, o encontro promovido pela MiniMed | Medtronic reuniu cerca de 180 participantes, entre médicos, especialistas e outros profissionais de saúde de diferentes países da América Latina. Durante três dias, foram discutidos avanços tecnológicos, novas evidências científicas, resultados clínicos, saúde mental, carga do tratamento, economia da saúde e acesso.

A edição também marcou os 25 anos da chegada das tecnologias da MiniMed | Medtronic para diabetes à América Latina. Nesse período, o tratamento passou por transformações importantes, com a evolução das bombas de insulina, dos sensores de glicose e, mais recentemente, dos sistemas capazes de automatizar parte da administração de insulina.

Ao olhar para essa trajetória, porém, o encontro também colocou uma questão importante sobre a mesa: depois de tantos avanços, como fazer os benefícios da tecnologia chegarem a mais pessoas?

<><> Diferentes países, desafios que se encontram

O Taller de Expertos é realizado anualmente em diferentes países da América Latina e reúne profissionais de saúde para compartilhar experiências e discutir temas que estão presentes nos principais congressos internacionais, mas sob a perspectiva das realidades da região.

Segundo Andrea Daghero, gerente de Treinamento e Educação da MiniMed | Medtronic, esse é justamente um dos objetivos do encontro.

“A ideia foi conectar a inovação aos desafios concretos que vemos todos os dias em nossa região.”

Embora cada país tenha características próprias, algumas dificuldades se repetem.

“Embora cada país da América Latina tenha suas particularidades, existem desafios que são comuns na região, especialmente quando falamos de acesso à tecnologia”, afirma Daghero.

Entre os profissionais brasileiros presentes estavam o endocrinopediatra Luiz Eduardo Calliari, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), e o endocrinologista Rodrigo Siqueira, além de dezenas de outros médicos do país.

Para Calliari, uma das características da América Latina é que as diferenças de acesso não existem apenas entre os países. Elas também podem ser encontradas dentro de uma mesma população.

“Dentro dos países nós temos pessoas com tratamentos muito tecnológicos e muito bons e muitos pacientes com dificuldades de acesso à tecnologia.”

É justamente por isso que colocar diferentes experiências na mesma discussão pode ajudar a entender não apenas o que as novas tecnologias conseguem fazer, mas como elas estão chegando aos pacientes e quais barreiras ainda precisam ser enfrentadas.

<><> Tecnologia pode significar menos decisões no dia a dia

A evolução tecnológica das últimas décadas mudou diferentes etapas do tratamento do diabetes.

Bombas de insulina e sensores de glicose passaram a funcionar de maneira cada vez mais integrada. Nos chamados sistemas de administração automatizada de insulina, conhecidos pela sigla AID, informações obtidas pelo sensor são utilizadas por algoritmos para ajustar automaticamente parte da administração de insulina.

Na prática, algumas tarefas que antes dependiam exclusivamente da pessoa com diabetes podem passar a ser realizadas ou auxiliadas pelo sistema.

Para Andrea Daghero, essa simplificação está entre as principais transformações observadas nos últimos 25 anos.

“Talvez a maior mudança tenha sido a simplificação: como, hoje, a tecnologia de administração automatizada de insulina, os sistemas AID, conseguiu assumir tarefas que antes ficavam nas mãos da pessoa que vive com diabetes, simplificando o tratamento e aliviando a carga de tomada de decisões.”

Essa evolução também mudou a discussão sobre quem consegue utilizar tecnologias mais avançadas.

Segundo Daghero, a automação vem diminuindo a dependência de algumas habilidades que tradicionalmente eram exigidas de quem utilizava sistemas mais complexos.

“Já não se trata de ser um perfeito contador de carboidratos ou um especialista em diabetes para se beneficiar dessa tecnologia; a automação está conseguindo ‘democratizar’ os resultados em diferentes perfis de pacientes”, afirma.

<><> “A tecnologia traz humanidade”

Para Calliari, existe outro aspecto dessa transformação que merece atenção.

Embora tecnologia e humanização possam parecer conceitos distantes, o endocrinopediatra defende que a automação pode ajudar justamente a diminuir parte do peso que o tratamento coloca sobre quem vive com diabetes.

“A tecnologia traz humanidade e ela traz redução da disparidade.”

O diabetes exige uma sequência de decisões ao longo do dia. Acompanhar a glicose, administrar insulina, calcular carboidratos, considerar alimentação e atividade física e reagir a alterações inesperadas fazem parte dessa rotina.

Quando parte dessas tarefas pode ser automatizada, o possível impacto não está apenas nos indicadores glicêmicos.

“Você faz com que o controle melhore, você faz com que o estresse relacionado ao diabetes diminua e você faz com que as diferenças diminuam”, afirma Calliari.

A chamada carga do tratamento foi um dos assuntos discutidos durante o Taller de Expertos.

Para Andrea Daghero, avaliar uma tecnologia apenas pelo desempenho do dispositivo deixa de fora outros aspectos importantes da vida de quem precisa utilizá-la todos os dias.

“Na MiniMed, sempre acreditamos que os avanços tecnológicos devem vir acompanhados de humanidade.”

Segundo ela, isso significa considerar resultados clínicos e evidências científicas, mas também acesso, economia da saúde, carga do tratamento e simplificação.

“Porque, no final, a melhor tecnologia é aquela que a pessoa consegue manter”, afirma.

<><> Tecnologia também abre espaço para falar de saúde mental

Se durante décadas grande parte das decisões no diabetes foi orientada principalmente por números, a quantidade de informações disponíveis hoje também está mudando a conversa dentro do consultório.

Sistemas de monitorização permitem observar tendências da glicose, identificar períodos de glicose baixa ou alta e analisar o comportamento desses valores durante vários momentos do dia.

Esses dados podem ajudar o profissional de saúde a identificar padrões e tomar decisões mais individualizadas sobre o tratamento.

Mas ter mais informação não significa necessariamente gastar mais tempo olhando para números.

Quando os dados estão organizados e determinados padrões podem ser identificados com mais facilidade, a consulta também pode abrir espaço para questões que não aparecem em um gráfico: medo de hipoglicemia, sono, dificuldade para seguir o tratamento, impacto do diabetes na rotina e estresse relacionado à condição.

Por isso, saúde mental e qualidade de vida também estiveram entre os assuntos abordados durante o encontro em Buenos Aires.

Essa discussão acompanha uma mudança na própria forma de avaliar os resultados do tratamento. Manter a glicose dentro das metas individualizadas continua sendo fundamental, mas cresce a atenção para a maneira como esses resultados são alcançados e para o peso que esse cuidado representa na vida cotidiana.

<><> O custo da tecnologia também entrou na discussão

Se a tecnologia avançou rapidamente, o custo continua sendo uma das principais questões quando se discute ampliação do acesso, especialmente nos sistemas públicos de saúde.

Uma das apresentações do Taller abordou economia da saúde e custo-efetividade, conceito utilizado para analisar a relação entre os recursos investidos em determinada intervenção e os benefícios obtidos.

Calliari destacou esse debate entre os pontos importantes da programação.

“Normalmente, o impacto que a gente sente da tecnologia é: a tecnologia é cara.”

Segundo o endocrinopediatra, durante o encontro foram apresentadas experiências de países que avaliaram não apenas o investimento inicial, mas também possíveis impactos sobre complicações relacionadas ao diabetes, internações, qualidade de vida e utilização dos serviços de saúde.

“Além de você trazer o benefício individual para a pessoa, você traz um benefício também para o sistema de saúde”, afirma.

Para Calliari, é necessário olhar para os efeitos que podem aparecer ao longo dos anos.

“Você tem um benefício coletivo com menos gasto, melhor qualidade de vida e menor custo no longo prazo, porque essa pessoa vai ter menos internações, menos complicações.”

Resultados de análises econômicas, porém, precisam ser interpretados dentro do contexto em que foram produzidos. Custos, perfil dos pacientes, estrutura dos sistemas de saúde e desfechos considerados podem mudar de um país para outro.

Ainda assim, a discussão sobre custo-efetividade amplia uma pergunta que normalmente começa pelo preço da tecnologia: além de saber quanto custa incorporá-la, é necessário avaliar também os potenciais benefícios clínicos e econômicos que ela pode produzir ao longo do tempo.

<><> E onde o Brasil entra nessa discussão?

O debate realizado em Buenos Aires encontra um desafio conhecido no Brasil: como ampliar o acesso às tecnologias para diabetes dentro de um sistema público que atende uma população numerosa e com diferentes necessidades.

Calliari cita avanços na incorporação de recursos ao Sistema Único de Saúde (SUS), passando por insulinas e dispositivos de aplicação e, mais recentemente, pelas discussões e iniciativas envolvendo sensores de glicose.

Para o médico, ampliar progressivamente o acesso às tecnologias pode produzir efeitos que ultrapassam os resultados glicêmicos individuais.

“Na hora que a gente vai aumentando o grau de tecnologia que é acessível para a população, a gente melhora o controle.”

Segundo Calliari, melhores resultados podem contribuir para reduzir o risco de complicações no longo prazo e, consequentemente, seus impactos sobre a vida das pessoas e sobre o sistema de saúde.

É nesse ponto que a discussão sobre inovação encontra uma das maiores contradições da região: tecnologias cada vez mais avançadas convivem com pessoas que ainda enfrentam dificuldades para acessar diferentes recursos do tratamento.

<><> Em 25 anos, o objetivo também mudou

A edição de 2026 abriu espaço ainda para uma retrospectiva dos 25 anos da MiniMed | Medtronic na América Latina e da evolução das tecnologias para diabetes durante esse período.

Para Andrea Daghero, uma das principais transformações não está apenas nos equipamentos ou nos algoritmos. Está também no que se espera do tratamento.

“Acredito que uma das maiores mudanças desses 25 anos foi passar de buscar unicamente o controle glicêmico para buscar também menos carga e mais liberdade para as pessoas que vivem com diabetes.”

Isso não significa que o controle da glicose tenha perdido importância. Manter os níveis glicêmicos dentro das metas estabelecidas individualmente continua sendo parte fundamental do tratamento e da redução do risco de complicações.

O que mudou foi a compreensão de que os resultados clínicos precisam caminhar ao lado de outros aspectos da vida.

Um tratamento pode produzir bons indicadores, mas também precisa ser possível de sustentar no cotidiano.

Essa mudança ajuda a explicar por que temas como saúde mental, simplificação, acesso e qualidade de vida dividiram espaço com sensores, bombas de insulina, algoritmos e evidências científicas durante os três dias de programação.

<><> O que esperar dos próximos anos?

Se parte do Taller de Expertos 2026 olhou para as transformações das últimas décadas, outra parte foi dedicada ao que pode mudar nos próximos anos.

A trajetória da MiniMed | Medtronic ajuda a mostrar essa evolução. Ao longo dos últimos 25 anos na América Latina, as tecnologias passaram de sistemas de infusão de insulina para soluções que integram bombas, sensores de glicose e algoritmos capazes de automatizar parte da administração de insulina.

Um dos movimentos recentes nessa direção envolve também a colaboração entre diferentes empresas. Em 2024, Medtronic e Abbott anunciaram uma parceria global para integrar um sensor de monitorização contínua da glicose baseado na tecnologia da Abbott aos sistemas de administração automatizada de insulina da Medtronic.

A parceria é um exemplo de uma tendência mais ampla: diferentes tecnologias funcionando de forma integrada para diminuir a quantidade de decisões necessárias ao longo do tratamento.

A disponibilidade dessas soluções, no entanto, depende de estudos, aprovações regulatórias e estratégias de lançamento que variam de acordo com cada país. Por isso, tecnologias anunciadas ou disponíveis em outros mercados não significam necessariamente disponibilidade imediata no Brasil.

Na América Latina, portanto, duas discussões caminham juntas: até onde a tecnologia pode avançar e como fazer com que os benefícios desses avanços cheguem a mais pessoas.

Para Calliari, o conjunto de evidências e experiências apresentado aumenta a perspectiva de que essa discussão também avance no Brasil.

“Chega um ponto em que a gente começa a ter tanta informação positiva a respeito da tecnologia que não dá para não ficar animado com a ideia de que isso possa aumentar no nosso país e atingir muito mais gente do que está atingindo hoje.”

Para Andrea Daghero, o desafio para os próximos anos passa pela combinação de diferentes frentes.

“Podemos construir dias melhores quando trabalhamos juntos, combinando inovação, evidências clínicas, educação e colaboração.”

Depois de três dias de discussões em Buenos Aires, o Taller de Expertos 2026 deixou uma mensagem que vai além da busca por dispositivos mais sofisticados.

Depois de 25 anos de evolução, o próximo desafio da tecnologia no diabetes na América Latina passa não apenas por melhorar os números da glicose, mas por simplificar o tratamento, diminuir sua carga e encontrar caminhos para que esses avanços possam chegar a mais pessoas.

 

Fonte: Um Diabético

 

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