Como
é o projeto de trabalho flexível apoiado por Flávio Bolsonaro que vai na
contramão da PEC do fim da 6x1
Bandeira
eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a proposta de emenda
constitucional (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 deve ser votada no
Senado nesta semana, após ter recebido o aval dos deputados em maio.
A PEC
voltou a andar após o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, se reconciliar com
Lula na semana passada, em meio a cálculos eleitorais envolvendo também seu
plano de se reeleger no comando da Casa em fevereiro de 2027 com apoio do PT.
Parte
da oposição critica a proposta, mas parece não ter força para barrar uma agenda
com forte apelo popular, cinco semanas antes das eleições que vão renovar 54
das 81 cadeiras do Senado.
O
senador Flávio Bolsonaro (PL) — o candidato mais competitivo contra Lula,
segundo as pesquisas eleitorais — evitou responder, no domingo (29/8), se
votará a favor ou contra o fim da escala 6x1, caso de fato a proposta vá à
votação.
Questionado
sobre o tema em entrevista à TV Record, optou por defender a PEC alternativa
que apresentou em maio com o coordenador de sua campanha, o senador Rogério
Marinho (PL-RN), e outros senadores de oposição.
A
proposta cria um novo modelo em que o empregado recebe por horas trabalhadas e
funcionaria simultaneamente ao regime tradicional de CLT — empresas e
trabalhadores poderiam optar entre os dois.
Segundo
esses parlamentares, que chamam a proposta de PEC da Liberdade, a ideia é
aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho e dar aos trabalhadores a
possibilidade de escolher se querem trabalhar mais ou menos tempo, de acordo
com suas necessidades.
O texto
prevê que acordos individuais vão prevalecer sobre acordos coletivos de
trabalho. Já a remuneração e benefícios como 13º salário, férias e
licença-maternidade seriam calculados de forma proporcional às horas
trabalhadas.
"Eu
defendo a liberdade do trabalhador. O trabalhador vai trabalhar quantas horas
ele quiser. Ele vai ter a flexibilidade, a liberdade de decidir e vai ser
remunerado pela quantidade de horas que ele quer trabalhar", afirmou
Flávio Bolsonaro, ao programa Domingo Espetacular, da Record.
Já a
coordenadora do plano econômico da campanha do Flávio, Daniella Marques,
critica abertamente a PEC do fim da escala 6x1.
"É
um debate populista e inócuo na realidade atual das famílias brasileiras",
disse em 21 de agosto, ao participar do 25° Fórum Empresarial Lide.
"É
uma ficção dizer que está se concedendo alguma coisa enquanto quem produz não
vai ter condição e vai ter um custo enorme em relação a isso", continuou,
sobre os possíveis impactos da mudança nos custos das empresas.
A PEC
da oposição não acaba com a escala 6x1, nem prevê a redução do limite de
jornada de 44 horas semanais para 40 horas, sem redução salarial — mudanças
aprovadas pela Câmara.
Mas
críticos chamam a proposta de PEC da Escravidão, dizem que ela possibilita uma
escala 7x0, sem folga semanal, e afirmam que acordos individuais favorecem os
patrões.
"A
empresa passa a ter incentivo para contornar a negociação sindical e buscar,
trabalhador por trabalhador, condições menos protetivas. O resultado tende a
ser fragmentação da categoria, perda de força coletiva e rebaixamento do
patamar de direitos", disse à BBC News Brasil, em junho, o advogado
Antonio Megale, sócio do escritório LBS, que atende a Central Única dos
Trabalhadores (CUT).
"Portanto,
a crítica não é à vontade individual do trabalhador. A crítica é à 'ficção' de
que essa vontade é livre quando exercida sob dependência econômica,
subordinação jurídica e risco de desemprego", acrescentou.
De
acordo com a Agência Senado, Marinho indicou não haver limite de horas na sua
proposta de regime flexível.
"Se
você quiser trabalhar 20 horas, 30 horas, 40 horas, 50 horas, é possível. E que
você seja remunerado pela sua atividade e pela sua disponibilidade em relação
ao seu empregador", disse o senador ao apresentar a PEC.
O
senador, porém, depois negou que a proposta permita a jornada 7x0 e disse que o
limite de 44 horas semanais estará mantido.
"Basicamente,
o que nós propomos é que haja liberdade. Ou seja, jornada flexível,
estabelecido teto de 44 horas: para baixo, ok, não para cima", afirmou, em
vídeo divulgado em suas redes sociais em junho.
Após
Alcolumbre destravar o andamento do fim da escala 6x1, o relator da proposta,
senador Omar Aziz (PSD-AM), apresentou na quinta-feira (27/8) um parecer
favorável à aprovação da PEC com texto idêntico ao da Câmara dos Deputados.
Ele
rejeitou propostas de emendas que tentavam alterar o texto, na tentativa de que
a PEC não retorne para nova apreciação na Câmara — uma proposta de emenda
constitucional só entra em vigor após ser aprovada com redação idêntica nas
duas casas legislativas.
Segundo
Aziz, a intenção é ler o relatório na quarta-feira (2/9) na CCJ e aprová-lo na
comissão no mesmo dia. No entanto, a votação poderá ser adiada caso algum
parlamentar apresente pedido de vista (mais tempo para analisar o relatório).
Para o
relator, porém, o forte apelo popular do fim da escala 6x1 deve garantir uma
tramitação rápida.
"Quem
pedir vista vai ficar muito mal com a população. Não sei se vai ter alguém com
coragem de pedir vista", disse à BBC News Brasil.
Outros
senadores ainda podem tentar alterar o texto do relator, durante a votação da
proposta. Caso a PEC seja aprovada na CCJ, seguirá para análise no plenário do
Senado. Há expectativa de que isso ocorra também nesta semana, mas ainda não há
data prevista.
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Especialistas apontam vantagens e riscos nas duas PECs
Especialistas
em mercado de trabalho ouvidos pela BBC News Brasil em junho se dividiram sobre
as duas propostas.
Para o
economista-chefe da Genial Investimentos, José Marcio Camargo, o fim da escala
6x1 terá efeitos negativos ao ampliar os custos das empresas, gerando inflação
e mais informalidade. Já a maior flexibilidade do regime proposto pela oposição
atenderia trabalhadores que não querem trabalhar 8 horas por dia, acredita.
"Por
exemplo, mulheres que têm filho: fica muito mais fácil conseguir emprego que
não seja 8 horas por dia. Ou pessoas que estão idosas e não querem trabalho em
tempo integral. Isso torna o mercado de trabalho muito mais flexível. Eu acho
que essa é a grande vantagem dessa proposta", disse à reportagem.
Já o
sociólogo Zhuofei Lu, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra,
considera positiva a redução da jornada e o fim da escala 6x1 no Brasil e vê
riscos na PEC que cria o regime por horas.
Pesquisador
de regimes de trabalhos flexíveis, ele disse à BBC News Brasil que modelos
menos rígidos não necessariamente beneficiam os trabalhadores.
"A
flexibilidade, por si só, não garante o bem-estar dos trabalhadores. O fator
decisivo é quem controla essa flexibilidade. Quando ela serve principalmente
para ampliar o poder dos empregadores sobre a definição dos horários, em vez de
conceder autonomia real aos trabalhadores, pode aumentar a imprevisibilidade e
a insegurança", ressaltou.
"O
Brasil deve buscar uma flexibilidade centrada no trabalhador, acompanhada de
proteções robustas — e não utilizar a 'flexibilidade' como substituto de uma
redução real da jornada de trabalho", disse ainda.
Segundo
ele, seus estudos e de outros autores, como a pesquisadora Heejung Chung,
autora do livro The Flexibility Paradox ("O paradoxo da
flexibilidade", em tradução livre), demonstram que "o trabalho
flexível frequentemente produz autoexploração em vez de alívio".
Os
efeitos, continua, costumam ser diferentes em mulheres e homens: no caso delas,
o tempo restante da jornada reduzida no emprego formal costuma ser ocupado com
mais horas de trabalhos domésticos.
"A
autoexploração sob regimes flexíveis também afeta os homens, mas de uma forma
diferente: em vez de absorver mais responsabilidades de cuidado, eles tendem a
converter a flexibilidade em jornadas mais longas para demonstrar
comprometimento com o ideal do 'trabalhador exemplar'", destacou.
"Isso
pode gerar uma espiral de excesso de trabalho que se retroalimenta, na qual os
empregados competem para parecer cada vez mais disponíveis", continua.
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Com fim da 6x1, Brasil 'está caminhando para um modelo que não existe em nenhum
lugar do mundo'
Para
Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getulio Vargas (FGV Ibre), nenhuma das duas propostas em debate no Senado
representa a melhor mudança para o regime de trabalho brasileiro.
Segundo
ele, uma legislação que prioriza o acordo individual é problemática porque
"há sem dúvida uma disparidade de forças entre empregadores e
trabalhadores".
Por
outro lado, Duque considera que tornar obrigatório ao menos dois dias de folga
deixaria as regras trabalhistas muito rígidas. Estudioso do mercado de
trabalho, ele diz que essa garantia não existe em outros países.
"Eu
acho que os políticos poderiam observar a experiência internacional e ver que
[o país] está caminhando para um modelo que não existe em nenhum lugar do
mundo", afirma.
"Eu,
pelo menos, não encontrei nenhum lugar que, nas horas regulares, obrigasse dois
dias de descanso", continuou.
Para o
pesquisador do FGV Ibre, o ideal seria um modelo flexível, que permitisse
jornadas menores e mantivesse o limite de 44 horas semanais, mas desse
incentivos para contratos de 40 horas.
Por
exemplo, diz, poderia haver diferentes alíquotas de contribuição patronal para
o INSS a depender da jornada de trabalho. A alíquota base valeria para o regime
de 40 horas semanais, uma alíquota um pouco maior poderia ser aplicada para
jornadas menores, e uma alíquota ainda mais alta para jornadas acima de 40
horas.
"A
Europa, nos últimos 30, 40 anos, passou por várias reformas de flexibilização
do mercado de trabalho, como na Espanha e na Alemanha, com a possibilidade de
algo caminhando no sentido de mais horas ou menos horas, de forma mais
flexível, mas com incentivos para manter um padrão".
Zhuofei
Lu, da Universidade de Oxford, também afirma que a jornada 5x2 tem sido
alcançada em alguns países sem a obrigatoriedade de dois dias de folga.
"Muitos
países regulam o descanso semanal por meio de outros mecanismos, como períodos
mínimos de descanso contínuo, limites para a jornada diária ou semanal, regras
de descanso aos domingos e negociação coletiva".
"A
Alemanha é um exemplo útil. O país não garante legalmente dois dias de folga
por semana para todos os trabalhadores, mas a semana de trabalho de cinco dias
tornou-se um padrão consolidado de organização do trabalho em muitos setores,
sustentado por regulamentações da jornada, acordos coletivos e normas do
ambiente de trabalho".
Apesar
disso, ele não vê problema no Brasil inovar e tornar a escala 5x2 uma
obrigação.
"O
fato de dois dias de descanso semanais não constituírem o mínimo legal
predominante não significa que tal proposta seja irracional. Sob uma
perspectiva sociológica, a organização do tempo de trabalho nunca é natural nem
fixa", afirma.
"A
jornada de oito horas, a semana de cinco dias e a semana de seis dias são todas
construções históricas, moldadas pela industrialização, pelas lutas
trabalhistas, pela regulação estatal e pelo poder dos empregadores. Elas não
devem ser tratadas como regras imutáveis. Se as sociedades criaram essas normas
temporais, também podem revisá-las quando elas deixarem de atender à saúde dos
trabalhadores, à vida familiar e ao bem-estar social", argumentou.
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Para professor, flexibilizar jornada não resolve problema principal: altos
encargos sobre trabalho
O
professor do Insper Naércio Menezes considera positiva a redução da jornada
semanal de 44 horas para 40 horas prevista na PEC aprovada na Câmara e diz que
o aumento de custo para as empresas tende a ser compensado por ganhos de
produtividade de trabalhadores mais descansados.
No
entanto, avalia como "excessiva" a obrigação de dois dias de folga.
Na sua visão, a distribuição das horas deve ser decidida entre trabalhador e
empregado, mas em negociação mediada através das convenções coletivas dos
sindicatos.
Já a
PEC proposta pela oposição é bastante negativa, na visão do professor, e
deixaria o trabalhador em situação mais instável e imprevisível.
"O
empregador pode falar que num determinado mês só vai precisar do trabalhador 20
horas em uma semana, e na outra semana 40, e na outra semana 30. Fica muito
imprevisível, com o salário flutuando. Então, o trabalhador não vai ter
condições de se programar, de assumir despesas parceladas, porque ele não tem
segurança de quanto ele vai ganhar", exemplifica.
"É
a precarização completa e iria contra tudo o que foi construído desde a
Constituição de 88, que é você ter uma jornada máxima, ter convenções coletivas
com cláusulas negociadas entre sindicatos", critica.
Para
Menezes, a rigidez do mercado de trabalho brasileiro não está no regime de
trabalho, mas nos altos encargos que incidem sobre as contratações.
Na sua
visão, uma medida positiva seria acabar com o Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS), recurso pago pelo empregador ao trabalhador, mas que fica
retido e só pode ser usado dentro de algumas condições.
"Eu
acho que isso poderia mudar, porque, para o trabalhador, é melhor ter esse
dinheiro na mão e aplicar como quiser do que ser uma contribuição
obrigatória".
"O
problema é que fica muito mais caro contratar um trabalhador com todas essas
contribuições. Então, você pega um trabalhador que ganha um salário mínimo e,
às vezes, custa o dobro para a empresa", disse ainda, ressaltando que a
contribuição para o INSS teria que continuar para garantir as aposentadorias.
O
impacto da PEC da oposição para o regime previdenciário é outra preocupação dos
críticos da proposta, nota o advogado Antonio Megale, que atende a CUT.
"Se
a remuneração mensal do trabalhador diminui, também tende a diminuir a base de
contribuição previdenciária. Isso afeta tanto a arrecadação do sistema quanto a
proteção individual do segurado", ressalta.
"Benefícios
como aposentadoria, auxílio por incapacidade, salário-maternidade e pensão
dependem, em diferentes medidas, da regularidade contributiva e dos salários de
contribuição", continua.
Além
disso, afirma, se o trabalhador passar a receber valores mensais muito baixos,
pode haver dificuldade para atingir parâmetros contributivos mínimos exigidos
pela legislação previdenciária.
"Na
prática, isso pode obrigar o próprio trabalhador a complementar a contribuição
para preservar determinados efeitos previdenciários, transferindo a ele mais um
custo da flexibilização".
Para
José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, isso não é necessariamente
verdade e é preciso fazer estudos para analisar o impacto da mudança sobre o
INSS. Na sua visão, o aumento de pessoas trabalhando no mercado formal pode
ampliar a quantidade de contribuintes para o regime previdenciário.
"A
minha intuição é que, com esse novo tipo de contrato, você vai ter mais
trabalhadores trabalhando, porque você vai ter mais flexibilidade. Isso
significa o seguinte: você vai ter mais ocupação", argumenta.
Fonte:
BBC News Brasil

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