quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Escândalo das mensagens entre Vorcaro e Moraes dá gás às candidaturas de direita ao Senado

As revelações sobre as trocas de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), devem consolidar um ambiente de pessimismo que pode influenciar as eleições marcadas para outubro.

Essa é análise de Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, especializada em análise de risco político e geopolítico.

Com esse pessimismo prevalecendo, a tentativa do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, de se beneficiar de uma pauta positiva no Congresso pode ser anulada.

"Quando você é o governante, quer um ambiente em que possa vender o seu peixe, mostrar os programas. Quando um escândalo como esse domina as manchetes, reforça ambiente de pessimismo, da visão do eleitor de que país não está na direção correta", avalia Garman.

O governo tem a expectativa de que o Congresso, em regime de esforço concentrado antes das eleições, vote — e aprove — propostas se grande apelo popular, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6x1 e redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas.

Em agosto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), destravou o andamento da proposta que havia sido aprovada pela Câmara em maio, para seguir à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ser votada nesta semana.

Outra pauta de interesse do governo é a PEC que reorganiza o sistema de segurança pública no país e também foi liberada por Alcolumbre para prosseguir no Senado. Os andamentos ocorreram após uma reaproximação de Lula com o senador.

"Era uma semana que o governo queria alardear votações importantes no Senado e tudo agora está sendo dominado pelo escândalo", diz Garman.

Segundo o analista, a frustração dentro do governo pode ser ainda maior porque, diante da revelação das mensagens entre Moraes e Vorcaro, ficou ofuscada a reportagem da revista Piauí que chegou às bancas na terça (1º/09) e afirma que os repasses do banqueiro para o filme Dark Horse foram ainda maiores do que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) havia admitido.

Mas, apesar de um cenário que pode ser ruim ao governo, Garman avalia que o escândalo não deve ter força para mudar o quadro eleitoral.

"Não é uma denúncia contra Lula. Então, não dá para colocar um peso exagerado nesse escândalo. Sem falar que Flávio Bolsonaro também tem interações com Vorcaro."

"Mas não descarto que Lula pode ser prejudicado e a margem [entre Lula e Flávio] se estreitar. Só que não é isso que vai mudar o jogo. Segue sendo uma eleição muito imprevisível", diz o diretor da Eurasia.

A avaliação da consultoria de risco político é de que Lula segue com um ligeiro favoritismo, baseado nos dois modelos em que a empresa se baseia.

Um deles avalia histórico de eleições no mundo todo nos últimos 40 anos para fazer uma avaliação entre a aprovação do presidente a 6 meses da eleição e a possibilidade de ser reeleito. Com 45% de aprovação (caso de Lula, segundo as pesquisas), o incumbente ganha em 78% das vezes.

Mas o segundo modelo joga contra o presidente ao identificar as principais preocupações do eleitor e avalia a credibilidade do candidato para resolver os problemas.

De acordo com Garman, os dois temas são segurança pública e corrupção, áreas em que Lula não "tem credibilidade" perante a opinião pública.

<><> Um senado à direita

Apesar de o efeito na corrida presidencial não ser tão decisivo, Garman avalia que, para a eleição do Senado, a revelação de que Moraes mantinha uma relação próxima a Vorcaro pode beneficiar a direita.

O Senado é a Casa responsável por processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. São os senadores que podem abrir um processo de impeachment de ministro e, ao final, decidir pela perda do cargo.

A oposição tem colocado o impeachment de Moraes entre suas principais pautas no Senado. Já existem vários pedidos nesse sentido — e novos foram feitos nesta terça-feira por políticos de direita. A reivindicação, aliás, tem sido colocada na plataforma de vários candidatos para eleições de outubro.

Para Garman, o novo escândalo pode reforçar sentimento anti-STF na eleição legislativa.

"Ele pode dar mais gás para candidaturas à direita, e o perfil do Senado se tornar mais anti-Supremo", diz.

Outro que pode ter algum retorno positivo diante do escândalo é Augusto Cury (Avante), candidato à Presidência que tem demonstrado crescimento nas últimas pesquisas e aparece em terceiro no agregador de pesquisas da BBC News Brasil.

"Num mar de lama para todo mundo, um candidato alternativo pode ser beneficiado", avalia.

Segundo Garman, o desafio de Cury é se tornar um nome conhecido.

Nas previsões da Eurasia, a probabilidade de um candidato que não seja Flávio Bolsonaro ir ao segundo turno com Lula é de 30%.

•        O que é o rastro digital que levou a PF ao ministro Alexandre de Moraes

A divulgação, na terça-feira (1º/9), de conversas por mensagens entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e um número associado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), trouxe à tona uma dúvida anterior ao conteúdo dos diálogos: como a Polícia Federal identificou o destinatário das mensagens do banqueiro?

Os diálogos foram extraídos do celular de Vorcaro e mostram interações com um contato salvo por ele como "Alexandre de Moraes BRASÍLIA".

O material recuperado pela PF só mostra, no entanto, as mensagens enviadas por ele, mas não as que teriam sido enviadas pelo outro lado.

Vorcaro teria, segundo a investigação, tratado com esse contato de informações relacionadas à Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, e de medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva.

O conteúdo foi publicado primeiro pelo jornal O Estado de S. Paulo. No mesmo dia, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de documentos da investigação e solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República.

Além do conteúdo das mensagens em si, a PF examinou os dados que acompanhavam um arquivo enviado em uma das conversas: a minuta de um contrato do escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro, enviada a Vorcaro.

O documento continha informações registradas pelo software de texto Microsoft Word, que mostrou a autoria do arquivo e as alterações feitas. São os chamados metadados. Em um deles, estava escrito: Ministro Alexandre de Moraes.

<><> O documento com a assinatura de Moraes

Segundo a investigação, em 11 de janeiro de 2024, o contato salvo como "Vivi Moraes", identificado no relatório como Viviane Barci de Moraes, enviou a Vorcaro uma mensagem dizendo: "Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise".

O anexo se chamava "MINUTA DE CONTRATO".

Segundo o relatório, o contato de Viviane foi salvo na agenda de Vorcaro naquele mesmo dia.

O arquivo apresentava como autor "Guilherme Benazzi", administrador do escritório de advocacia. No campo "Última modificação por", porém, aparecia "Ministro Alexandre de Moraes", com alteração feita no mesmo dia, minutos antes do envio da mensagem.

O arquivo era uma minuta de contrato de prestação de serviços jurídicos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes.

O documento previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos — valor bruto de R$ 3.646.529,77 após impostos — e vigência de três anos. A contratação totalizava cerca de R$ 131 milhões.

Dias depois, segundo a investigação, Vorcaro devolve a Viviane o contrato de prestação de serviços com seu escritório de advocacia, com marcas de revisão feitas por um advogado de Vorcaro, Leonardo Palhares.

O contato atribuído à esposa de Moraes retorna então com uma versão final do documento, dois dias após a mensagem.

A última modificação feita pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes" teria sido feita no dia 15 de janeiro, às 23h04.

No dia 23 do mesmo mês, o contrato é assinado por Vorcaro.

<><> O que são metadados?

Metadados são informações associadas a um arquivo, mas que não aparecem necessariamente no conteúdo visível do documento.

Segundo a Microsoft, proprietária do Word, arquivos deste programa podem incluir propriedades como autor, título e assunto, além do nome da pessoa que salvou o documento pela última vez e da data de criação.

A empresa também explica que essas informações podem ser consultadas, alteradas manualmente e removidas.

Por isso, metadados podem ajudar a reconstruir a origem e o histórico de um arquivo, mas não equivalem a uma assinatura digital nem provam, sozinhos, quem efetivamente escreveu o conteúdo.

No caso de um documento do Word, portanto, o campo "autor" indica a informação registrada nas propriedades do arquivo. Esse dado pode refletir o perfil usado no programa, e não necessariamente a identidade física de quem redigiu o texto.

A própria Microsoft alerta que propriedades e informações pessoais podem permanecer armazenadas no documento e recomenda removê-las antes de compartilhar um arquivo.

<><> Por que mensagens atribuídas a Moraes não foram recuperadas?

Investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Vorcaro e reconstruíram parte dos diálogos com base em capturas de tela enviadas pelo WhatsApp.

De acordo com a PF, ele redigia as mensagens em um aplicativo de notas do celular. Depois, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, usando o recurso de visualização única.

Nesse formato, o conteúdo não ficava registrado como uma mensagem de texto convencional e poderia desaparecer depois de visualizado.

A perícia encontrou, no entanto, arquivos no próprio celular correspondentes às capturas de tela.

Segundo o relatório da PF, cada imagem gerava um arquivo temporário em formato PDF, que podia ser checado com outras informações tiradas do celular.

Esses arquivos foram localizados em uma pasta interna do sistema identificada como "tmp", abreviação de temporary, ou temporário. Trata-se de uma área usada pelo iPhone para armazenar arquivos provisórios gerados automaticamente.

Parte dos documentos havia sido apagada poucos minutos depois da criação, mas foi recuperada durante a extração forense.

"Após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, DANIEL VORCARO efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após o screenshot, a remessa de mensagem ao terminal", afirma o relatório da PF.

Mas somente o celular de Vorcaro foi apreendido, não o de seu interlocutor. Por isso, não foi possível recuperar esses mesmos arquivos temporários do outro lado da conversa.

Os investigadores cruzaram os horários de criação e alteração das notas, produção das capturas de tela, geração dos arquivos PDF e envio das imagens pelo WhatsApp. Também verificaram a conversa à qual cada arquivo estava associado.

Em nota divulgada na terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação de serviços pelo Banco Master.

Segundo o escritório de advocacia, a consulta ocorreu porque o ministro é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo seria verificar eventuais restrições, como processos sob relatoria de Moraes no STF ou julgamentos de interesse do banco.

O escritório afirma que não havia previsão de atuação perante o Supremo nem impedimento legal para a contratação. Também diz que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".

"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", afirma a nota.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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