quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quem ganha com um Haiti sem Estado? ONGs, empresas e potências ocupam espaço deixado pela soberania destruída

No Haiti, há um fio vermelho — de sangue, fogo e dignidade — que une o machado dos cimarrões em Nossa América ao anti-imperialismo do século 21. Este fio nasce na noite de 13 para 14 de agosto de 1791, na clareira de Bois Caïman. Ali, sob a liderança espiritual e política do sacerdote vudu Dutty Boukman e da mambise Cécile Fatiman, centenas de escravizados romperam a cadeia da alienação colonial.

A cerimônia de Bois Caïman não foi um mero rito folclórico, mas um verdadeiro congresso político-militar clandestino: a resposta soberana dos oprimidos ao “benévolo” universalismo da Revolução Francesa.

Uma burguesia ilustrada que proclamava a “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” em Paris, enquanto acumulava o Capital mercantilista com o suor, a tortura e a morte nos campos de cana-de-açúcar e café de Santo Domingo.

Com a genialidade tática de Toussaint Louverture e a inflexível determinação de Jean-Jacques Dessalines, a Revolução Haitiana consagrou, em 1804, o nascimento da primeira República negra e livre do planeta.

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Não foi uma concessão: foi uma vitória conquistada no terreno, derrotando consecutivamente três impérios (espanhol, britânico e francês). Como lembrava Louverture antes de ser deportado, a Árvore da Liberdade cortada no tronco lançaria raízes profundas.

Haiti tornou-se o berço continental dos quilombos e o farol logístico-militar sem o qual a gesta de Simón Bolívar jamais teria visto a luz. Mas o modo de produção capitalista não perdoa quem revela suas raízes racistas e coercitivas. O “pecado original” do Haiti foi ter demonstrado que os escravizados não eram mercadoria, e sim sujeitos históricos de libertação.

<><> A extorsão original e a continuidade do saque europeu

A punição infringida ao Haiti representa o nascimento da moderna dívida odiosa como instrumento de acumulação originária e subordinação sistêmica. Em 1825, sob a ameaça direta dos navios de guerra, a França de Carlos X impôs ao Haiti uma “indenização” de 150 milhões de francos para ressarcir os antigos proprietários de escravos pela perda de sua “propriedade”. Para saldar esta chantagem, a jovem República se viu obrigada a contrair empréstimos usurários com os bancos franceses (a chamada Double Dette — dupla dívida).

Esta sangria financeira, que durou mais de um século, transferiu milhares de milhões de dólares reais das arcas de Porto Príncipe para o patrimônio das oligarquias europeias, decapitando, em sua origem, qualquer possibilidade de infraestrutura pública, soberania alimentar ou desenvolvimento industrial autônomo. A França e as potências da União Europeia nunca pagaram as reparações históricas por este crime financeiro; pelo contrário, transformaram o velho colonialismo aberto em um sofisticado dispositivo neocolonial.

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<><> A espoliação contemporânea e o papel do eixo Paris-Bruxelas-Washington

Hoje a espoliação do Haiti não ocorre somente por meio das tropas de ocupação, mas mediante a simbiose entre o imperialismo estadunidense — articulado via Comando Sul e CORE Group — e a ingerência diplomática e econômica da União Europeia. Com a máscara da “ajuda humanitária” e das missões de segurança de tração externa, esconde-se uma verdadeira economia de rapina que se articula em múltiplos níveis depredadores.

No norte do Haiti concentram-se enormes jazidas virgens de ouro, cobre e bauxita, com um valor estimado em dezenas de milhares de milhões de dólares. Multinacionais canadenses e europeias operam há anos para assegurar concessões extrativas em cumplicidade com os governos títeres locais, garantindo para si o acesso a custos de extração irrisórios e anulando os direitos trabalhistas e a proteção ambiental.

Paralelamente, a União Europeia e os EUA promovem a criação de “zonas francas de exportação” na fronteira com a República Dominicana, como o parque industrial de Caracol. Nestes complexos, a classe trabalhadora haitiana é submetida a salários de pura subsistência e privada de direitos sindicais, com o único fim de abastecer as cadeias de valor do têxtil e da manufatura destinadas aos mercados ocidental e europeu.

A este panorama se soma a armadilha do assistencialismo privatizado, em que centenas de ONGs francesas e europeias administram, de fato, os serviços básicos em vez do Estado haitiano. Esta “indústria da ajuda” drena fundos internacionais que retornam regularmente a seus países de origem na forma de soldos para especialistas estrangeiros, empobrecendo ainda mais o tecido social e privatizando a soberania pública.

<><> A crise política atual entre gangues armadas, imperialismo e resistência popular

A dramática situação política contemporânea é o resultado direto deste projeto de desestabilização permanente. O desmantelamento deliberado do Estado haitiano por parte das oligarquias locais e de seus protetores de ultramar produziu um vazio institucional coberto pela externalização do terror para gangues armadas e grupos criminosos. Longe de ser uma geração espontânea de violência, muitas destas facções paramilitares foram historicamente armadas e empregadas pelas frações da burguesia compradora e setores políticos corruptos para desagregar a organização comunitária, reprimir as manifestações populares e esvaziar os bairros operários, como Cité Soleil.

O fluxo constante de armas de grosso calibre prossegue ininterrupto, enquanto a comunidade internacional sanciona formalmente o país para, depois, propor como única solução o envio de forças policiais estrangeiras. As missões internacionais de ingerência, camufladas de ajuda à segurança, não buscam devolver a palavra ao povo haitiano, e sim congelar a crise para evitar o surgimento de um verdadeiro processo constitucional autônomo e soberano.

O Haiti não é um “país falido”, como rezava a narrativa racista e eurocêntrica do capital transnacional; é um país ocupado e despojado porque nunca lhe perdoaram o exemplo de 1804. A única saída para o povo haitiano reside na reapropriação da soberania política e na articulação de suas próprias forças populares, camponesas e proletárias.

A solidariedade internacionalista na Europa e na América Latina não deve assumir a forma piedosa ou de paternalismo das ONGs, mas a da denúncia militante do saque imperialista. Resgate das reparações históricas, fim da ingerência do CORE Group e autodeterminação dos povos: só assim os ramos da Árvore da Liberdade voltarão a brotar com a força ancestral de Bois Caïman.

¨      Bad Bunny denuncia venda de Porto Rico enquanto ilha enfrenta sede e avanço dos ultrarricos. Por Sandra D. Rodríguez Cotto

É como um fio invisível, mas perverso, que ata Porto Rico. Ele une a falta de água no norte, com uma marcha multitudinária no sul e as luzes em um estádio em San Juan. A semana passada condensou as contradições de uma ilha em fuga: a indignação popular pelo desmantelamento ambiental cruzou-se com o fenômeno global de Bad Bunny cantando pela resistência, tudo sob a sombra de um governo que privatiza a todo vapor e de uma natureza que passa, sem trégua, da seca à ameaça de inundação.

Neste fim de semana, esperava-se que uma tempestade ajudasse um pouco a aliviar a seca que atravessa a ilha e provocou um racionamento para quase metade da população.

Porto Rico viveu na semana passada três países dentro de um só. No norte, milhares de famílias faziam fila junto a caminhões-pipa para encher baldes de água, após até dois meses de racionamento devido à deterioração dos sistemas pluviais, à má gestão governamental e a uma seca prolongada.

Em Cabo Rojo, no sudoeste, mais de 30 mil pessoas marchavam contra o Esencia, o megaprojeto de luxo que o governo apoia para construir uma cidade de ultrarricos — com moradias a partir de 3 milhões de dólares, hotéis e hospitais privados — em um território que o povo defende por sua água, sua costa e sua biodiversidade.

E em San Juan, dois dias antes, Bad Bunny encerrava em um estádio sua histórica turnê “Debí tirar más fotos”: 57 shows, mais de 20 países e mais de 467,5 milhões de dólares arrecadados com três milhões de ingressos vendidos, segundo a Billboard.

Nesse contexto, a governadora Jenniffer González viajou a Nova York para tocar o sino de abertura da Bolsa de Valores. Sua mensagem: Porto Rico está “open for business”.

“Este caos, este desastre, é criado de propósito, para tentar brincar com nossas emoções. Para tentar fazer com que desistamos, que vamos embora, e eles possam continuar vendendo a ilha parte por parte, e cumprir sua missão de um Porto Rico sem porto-riquenhos”, disse Bad Bunny diante de dezenas de milhares de pessoas, antes de começar com “De aquí nadie me saca”.

A mensagem resume uma resistência do povo porto-riquenho que atravessa décadas de corrupção e privatização de bens públicos.

<><> A realidade da resistência 

Porto Rico exibe uma estabilidade macroeconômica sustentada artificialmente por fundos federais de reconstrução (HUD, FEMA, CDBG-DR), mas as fissuras estruturais não foram sanadas. O desemprego gira em torno de 6%, embora apenas entre 43% e 44% da população em idade de trabalhar participe ativamente da força de trabalho: mais da metade depende do governo ou da economia informal.

Entre 41% e 43% vive abaixo da linha da pobreza, com um coeficiente de desigualdade superior a 0,54, o mais alto sob a bandeira estadunidense. A renda familiar mediana mal supera os 24 mil dólares anuais, enquanto o custo da eletricidade e da água é o dobro ou o triplo do de várias cidades dos Estados Unidos.

A emigração, acelerada após o furacão Maria (2017) e os terremotos de 2020, reduziu a população para 3,22 milhões, uma queda de quase 17% desde 2004. A Lei 60, que isenta investidores estrangeiros de impostos, deslocou moradores de zonas costeiras como Rincón, Aguadilla, Luquillo e Vieques, encarecendo a moradia.

A violência também atinge a população: em média, duas mortes violentas por dia e 15 homicídios para cada 100 mil habitantes, a taxa mais alta sob jurisdição estadunidense, mais de 90% vinculados ao narcotráfico que utiliza o Caribe como corredor em direção ao continente.

<><> A desmontagem legal das leis ambientalistas 

Enquanto o povo fazia fila por água, a Associação de Jornalistas de Porto Rico realizava sua Assembleia Anual em San Juan, onde o advogado ambientalista e professor aposentado de Direito Pedro Saadé Lloréns advertiu que o país enfrenta uma perda histórica de suas proteções ambientais.

“Se antes era importante o papel do jornalismo, e em particular do jornalismo ambiental, mais importante é agora”, assinalou, ao descrever como o governo utiliza o discurso de “agilizar trâmites” para transferir funções de agências de proteção — como o Departamento de Recursos Naturais e Ambientais e o Instituto de Cultura Porto-riquenha — para o Departamento de Desenvolvimento Econômico e Comércio.

Saadé alertou que dois projetos legislativos delegariam a essa agência comercial a palavra final sobre se uma espécie protegida será conservada ou se uma descoberta arqueológica será estudada, ameaçando abrir as portas para a privatização das praias. Como advertência, citou o caso do megaprojeto Esencia, cuja consulta de localização foi aprovada em apenas dez dias úteis sob a figura de “projeto estratégico”, evitando audiências públicas.

Essa lógica alcança o aquífero que sustenta o país. O engenheiro Abel Vale Nieves, presidente da organização Ciudadanos del Karso, denunciou que o Projeto da Câmara 1079 elimina o reconhecimento legal do carste* — 27,5% do território nacional — como recurso “insubstituível”, para reclassificá-lo como matéria-prima. Essa zona abriga a maior reserva de água subterrânea da ilha, da qual dependem a agricultura, a indústria farmacêutica e comunidades inteiras do norte.

“Cada sumidouro que é selado e cada zona de recarga que é pavimentada são águas que este país não terá na próxima seca, e já sabemos o que isso significa”, advertiu Vale Nieves, que lembrou que 40 cientistas e 8.774 cidadãos solicitaram audiências públicas sem obter resposta legislativa. “Já não se trata apenas de uma reivindicação dos cidadãos: os cientistas que há décadas estudam esses sistemas colocaram isso por escrito e assinaram… Se os projetos são tão bons quanto seus autores afirmam, que resistam ao escrutínio público”.

Vale advertiu, além disso, que essa reforma não pode ser analisada separadamente de uma reforma geral do sistema de licenças que daria supremacia à nova lei sobre qualquer outra legislação ambiental, o que abriria as portas para projetos como o Esencia em outras áreas da ilha, incluindo Naguabo e Loíza.

Entre a sede, a resistência científica e a festa multitudinária de um ídolo global que cantou “daqui ninguém me tira”, Porto Rico encerra agosto de 2026 como começou: disputando, litro a litro e assinatura a assinatura, o direito de continuar sendo um país.

*O carste em Porto Rico é uma zona geológica formada principalmente por rocha calcária que cobre cerca de 27% do território da ilha.

¨      Trump sugere revisar posição dos EUA sobre Ilhas Malvinas

O presidente Donald Trump declarou nesta segunda-feira (31/08) que não descarta revisar a posição de neutralidade dos EUA em relação à soberania sobre as Ilhas Malvinas.

Os Estados Unidos, assim como a maioria das nações ocidentais, reconhecem a administração do arquipélago pelo Reino Unido, mas não adotam uma posição oficial sobre a questão da soberania, reivindicada pela Argentina.

Segundo o jornal londrino The Daily Telegraph, a proposta está na lista de medidas que o Pentágono elabora como coerção para obter o compromisso de gastos de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

“Eu sempre reviso todas as posições. Essa é apenas uma entre muitas”, disse Trump no Salão Oval, ao ser questionado se os EUA estavam revisando sua postura sobre as Malvinas.

Ao ser perguntado se queria que o governo do novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, aumentasse seus atuais compromissos de gastos militares, Trump respondeu: “O Reino Unido tem alguns problemas, mas eles serão resolvidos”.

Em abril, quando surgiram os primeiros relatos de uma possível revisão, o Departamento de Estado declarou à agência de notícias AFP, que a posição dos EUA sobre as ilhas permanecia de neutralidade.

<><> Conflito armado em 1982

Quatro décadas após o conflito, as tensões permanecem elevadas entre o Reino Unido e a Argentina. Jogadores argentinos exibiram uma faixa com os dizeres “As Malvinas são argentinas” após derrotarem a Inglaterra por 2 a 1 numa semifinal da Copa do Mundo, no início deste ano. A FIFA multou a Associação de Futebol Argentino em 321 mil dólares.

A disputa histórica entre Argentina e Reino Unido levou a um conflito armado entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, que se encerrou com a rendição do país sul-americano e a morte de 649 argentinos, 255 britânicos e três habitantes das ilhas.

Forças argentinas invadiram as ilhas, levando a então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, a enviar uma força naval para retomá-lo.

O então presidente dos EUA, Ronald Reagan, adotou inicialmente uma postura neutra, mas, após o fracasso das negociações de paz, Washington forneceu apoio militar e de inteligência ao Reino Unido.

 

Fonte: : Por Geraldina Colotti em Resumen LatinoAmericano - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global/La Jornada/Opera Mundi

 

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