Moraes
x Mendonça: os bastidores da 'guerra civil' entre ministros do STF
A
tensão entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, que já vinha
sendo sentida de forma velada nos corredores do Supremo Tribunal Federal (STF)
há algumas semanas, segundo relatos colhidos pela BBC News Brasil, parece ter
chegado ao ápice na terça-feira (1/9).
O
estopim da nova crise na mais alta Corte do país foi a retirada do sigilo de um
relatório elaborado pela Polícia Federal (PF), a pedido de Mendonça, sobre
mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e supostamente enviadas a um
contato salvo em seu celular com o nome de Alexandre de Moraes.
Até o
momento, não houve nenhuma manifestação oficial ou extraoficial de Alexandre de
Moraes sobre o assunto.
Vorcaro
está preso e é suspeito de comandar uma organização criminosa que praticou
crimes contra o sistema financeiro nacional por meio do Banco Master.
O
relatório da PF levantou suspeitas de que Vorcaro possa ter recebido
informações privilegiadas sobre investigações contra ele fornecidas por Moraes.
A PF
também mostrou, em detalhes, contratos mantidos por Vorcaro e o escritório de
advocacia da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, no valor de R$ 129
milhões.
Em
nota, o escritório Barci de Moraes disse que não foi identificada previsão de
atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação.
A nota
diz ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo
o Banco Master".
Mendonça
também deu prazo de cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República (PGR)
se manifestasse sobre a possibilidade de abertura de uma investigação contra
Moraes.
Na
noite de terça-feira, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a
anulação do caso argumentando que Mendonça teria que ter consultado o plenário
do STF antes de solicitar à PF que produzisse um relatório.
Agora,
segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o plenário deverá ter que
decidir tanto sobre o pedido de anulação do caso quanto sobre uma possível
investigação contra Moraes.
É um
caso sem precedentes, por isso os ritos e desdobramentos a partir daqui são
repletos de incógnitas, disseram os entrevistados.
A
decisão de Mendonça de retirar o sigilo expôs ao público uma rivalidade que,
até então, vinha sendo percebida de forma silenciosa pelos corredores do STF.
Uma
rivalidade que colocou frente a frente ministros tidos como os mais poderosos
da Corte.
De um
lado, Moraes, que ganhou notoriedade por conduzir o inquérito das Fake News e
relatar o processo que acabou com a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL) por crimes como tentativa de golpe de Estado, em 2025.
Do
outro, Mendonça, indicado pelo mesmo Bolsonaro que Moraes ajudou a condenar, e
que hoje é relator de investigações como as do Banco Master e sobre o filho
mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conhecido como
Lulinha.
Mas
quando essa rivalidade começou? E quais os efeitos disso para a Corte?
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As primeiras tensões
A
relação entre Moraes e Mendonça até o final do ano passado foi descrita à BBC
News Brasil por três fontes como distante, mas cordial.
Em
2023, os dois, que se sentam lado a lado no Plenário da Corte, tiveram um
desentendimento durante o julgamento do primeiro réu dos processos relativos
aos atos de 8 de janeiro.
Enquanto
lia o seu voto, Mendonça, que havia sido ministro da Justiça durante parte do
governo de Jair Bolsonaro, criticou a postura do governo Lula durante o dia 8
de janeiro de 2023.
"Eu
não consigo entender, e também carece de resposta, como o Palácio do Planalto
foi invadido da forma como foi invadido", disse Mendonça. O argumento de
que teria havido falhas no planejamento da segurança por parte do governo
federal era defendido, à época, por políticos bolsonaristas.
Moraes,
então, interrompeu a fala do colega.
"Ministro
André, se me permite, já que vossa excelência entrou nesse caso. As
investigações demonstram claramente o porquê que houve essa facilidade. Cinco
coronéis comandantes da PM do DF estão presos, exatamente porque, desde o final
das eleições, se comunicavam por (WhatsApp) dizendo exatamente que iriam
preparar uma forma de, havendo manifestação, a Polícia Militar não
reagir", disse Mores. Mendonça rebateu. "Não sou advogado de
ninguém".
Apesar
do desentendimento, Moraes então pediu desculpas a Mendonça e a situação
pareceu, à época, contornada.
Um
advogado que atua em casos nos tribunais superiores, entre eles o STF, disse à
BBC News Brasil em caráter reservado que a crise entre Moraes e Mendonça
começou de fato após a mudança no comando do inquérito sobre o caso Master, em
fevereiro deste ano.
Mendonça
assumiu a relatoria do caso depois que o ministro Dias Toffoli abriu mão desse
processo.
A
decisão de Toffoli foi tomada em meio à pressão da opinião pública depois que a
imprensa revelou que fundos ligados a empresas de Daniel Vorcaro haviam
repassado pelo menos R$ 35 milhões a um resort no interior do Paraná no qual
Toffoli tinha participação societária.
Na
ocasião, a PF enviou um relatório ao presidente do STF, Edson Fachin, com
informações sobre as supostas ligações entre Toffoli e Vorcaro. O relatório
levantava a possibilidade de que Toffoli fosse retirado do caso por conta de
sua ligação com o esquema investigado.
Na
ocasião, Fachin convocou uma reunião a portas fechadas com todos os 10
ministros (desde outubro de 2025, a Corte está com um membro a menos).
Uma
nota publicada pelo STF após a reunião reconheceu a renúncia de Toffoli sobre a
relatoria do caso mas rejeitou a possibilidade de Toffoli ser tido como
"suspeito" (ou não neutro, em termos jurídicos) para tocar o caso.
A saída
foi interpretada à época como uma forma de preservar Toffoli e o STF em meio a
suspeitas de envolvimento de um magistrado no caso Master.
No
entanto, o ponto sensível para Moraes é que, desde dezembro de 2025, já se
sabia que Vorcaro havia contratado o escritório de sua mulher e já havia
suspeitas de que o ministro havia trocado mensagens com o banqueiro em momentos
anteriores à prisão deste.
Em
fevereiro, pouco depois de assumir o inquérito, Mendonça determinou que a
equipe da PF destinada a investigar o Caso Master estava proibida de repassar
informações sobre o assunto para a chefia da PF.
A
medida gerou insatisfação na cúpula da PF, comandada pelo delegado-geral Andrei
Rodrigues, de quem Moraes ficou próximo durante procedimentos relativos aos
inquéritos das Fake News e dos atos de 8 de janeiro de 2023, ambos relatados
por Moraes.
O
advogado ouvido pela BBC News Brasil diz que as tensões entre Mendonça e Moraes
se avolumaram nos meses seguintes, quando a defesa de Vorcaro tentou firmar um
acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal e com a PGR.
Entre
maio e junho, ao menos duas propostas foram feitas pela defesa, mas rejeitadas
pela PF e pela PGR, que entenderam que elas acrescentavam pouco àquilo que os
investigadores já haviam conseguido descobrir.
Segundo
o advogado, Mendonça, a quem caberia homologar ou não o acordo, teria dito à
defesa que não aceitaria um acordo "pela metade".
A
interpretação, de acordo com ele, é que um acordo de colaboração de Vorcaro
também deveria tratar das suas relações com integrantes do Judiciário, o que
poderia incluir Moraes.
Em
junho, as tensões em torno do acordo de colaboração de Vorcaro, que acabou não
saindo, vieram a público em uma sessão do STF. Na ocasião, Mendonça respondeu a
comentários de Gilmar Mendes sobre o assunto.
O
Supremo julgava um pedido de liberdade de familiares de Vorcaro, que acabou
rejeitado.
Mendonça
reagiu dizendo que não aceitaria uma colaboração seletiva.
"Chegou
uma proposta por um advogado. Perderam o pudor. Queriam fazer uma delação
seletiva. Na minha cara. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação
seletiva, comigo, não", afirmou o ministro.
A
declaração aumentou a percepção, nos bastidores, de que Mendonça pretendia
levar as investigações a pontos considerados especialmente sensíveis dentro da
própria Corte.
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Pesos e medidas
Um
interlocutor de um ministro do STF que falou à BBC News Brasil em caráter
reservado disse que a crise entre Mendonça e Moraes expõe ministros com dois
perfis bastante diferentes.
De um
lado, Moraes teria um perfil midiático marcado pela notoriedade ao conduzir o
inquérito das Fake News e o processo que acabou na condenação de Jair Bolsonaro
(PL) por crime de golpe de Estado.
Ele
seria próximo da ala liderada pelo ministro Gilmar Mendes, atual decano da
Corte, e teria um perfil considerado progressista. Próximo a esse grupo também
está o ministro Flávio Dino.
Nos
últimos anos, em meio aos processos contra Bolsonaro, Moraes passou a ser
defendido por políticos de esquerda e recebeu apoio do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) quando o governo dos Estados Unidos impôs sanções econômicas
contra o ministro e sua mulher.
Do
outro lado está Mendonça, que é evangélico, foi indicado por Bolsonaro, tem um
perfil reservado, é distante do grupo liderado por Gilmar Mendes e identificado
com o campo conservador. Próximo a ele estaria o ministro Kássio Nunes Marques,
também indicado por Bolsonaro.
Esse
interlocutor ouvido pela BBC News Brasil questiona a postura de Mendonça na
condução do caso envolvendo Moraes e sua atitude quando o ministro no radar era
Toffoli.
Segundo
ele, Mendonça teria aceitado a solução que evitou uma exposição maior de
Toffoli, mas agora, em relação a Moraes, teria feito questão de expor o colega
de Corte.
Um
membro do Ministério Público Federal (MPF) com trânsito no Supremo falou à BBC
News Brasil em caráter reservado que essa diferença de tratamento pode ter
acontecido por dois motivos.
O
primeiro foi a atuação da maioria dos ministros da Corte durante as revelações
envolvendo Toffoli.
Ali,
segundo ele, criou-se um espírito de corpo contra o qual Mendonça não teria
visto margens para agir.
O
segundo motivo seria o avanço das apurações sobre Moraes e Vorcaro e o fato de
Mendonça não estar disposto a "passar a mão" sobre o assunto.
Entretanto,
para Ivar Hartmann, doutor em Direito e professor associado do Insper, a
retirada do sigilo do relatório da PF que implica Moraes não necessariamente é
um sinal de hostilidade partindo de Mendonça contra seu colega. Pode ser que
sim, mas também pode ser o contrário.
"Poderia
ser pior para algumas das pessoas envolvidas que o sigilo não fosse removido,
que o acesso fosse mais difícil e que o sigilo fosse removido mais na frente,
depois que mais coisa está inserida nos autos", explica Hartmann.
"A
gente não sabe o que tem pela frente daqui a duas semanas, daqui a um
mês", diz o pesquisador, apontando que experiências anteriores já
mostraram que muitas vezes membros do alto escalão de Brasília, incluindo
ministros do STF, já têm em mãos informações que só chegam ao público tempos
depois.
Uma
hipótese é que pode ter sido melhor para Moraes que a citação do seu nome no
relatório da PF tenha vindo à luz neste momento através de uma retirada do
sigilo decidida por um ministro do STF do que daqui a algum tempo, em um novo
contexto, através de um vazamento para a imprensa, por exemplo.
Hartmann
também é cauteloso com a colocada de Moraes e Mendonça em campos opostos devido
a razões políticas, como o fato de Moraes ser hostilizado por bolsonaristas ou
de Mendonça ter sido indicado ao cargo por Jair Bolsonaro.
"Essa
ideia de que um ministro demonstra fidelidade em relação a quem o indicou, ela
já morreu há muito tempo", aponta o professor associado do Insper.
"A
gente nunca viu se provar nos dados."
Para
ele, o que é inédito nesse caso não é tanto um ministro levantar o sigilo de um
documento que expõe um colega do STF, e sim a própria investigação envolver um
ministro do STF.
"Não
é como se a gente tivesse a informação de que existem dezenas de investigações
tendo por alvo um ministro do Supremo, e aí só nesse caso [Master] o sigilo foi
levantado. Quantos casos existiram de um ministro do Supremo sendo efetivamente
investigado nos últimos cinco anos?", indaga Hartmann.
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Fratura exposta
André
Mendonça pediu uma sessão "pública" para que o envolvimento de Moraes
no caso fosse deliberado, em contraposição à sessão reservada em que o tema foi
discutido quando Toffoli estava no alvo da pressão da opinião pública.
Caso a
sessão sobre Moraes ocorra, os ministros deverão expor os seus votos e deixar
claras as suas posições sobre se o colega deve ou não ser investigado.
Um
advogado ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que a crise
está deflagrada. Segundo ele, se abrir a investigação, haverá desgaste para a
Corte. E se a decisão for por não autorizar o inquérito, esse desgaste também
ocorrerá.
Ele não
descarta, no entanto, uma solução de meio termo. Uma alternativa, ele disse,
seria a Corte decidir dar mais tempo para que a PF elabore um novo relatório
sobre Moraes. A estratégia seria ganhar tempo e diminuir as tensões.
Já Ivar
Hartmann acredita que o corporativismo entre os ministros vai prevalecer.
"Por
mais que existam fatores aparentemente inéditos aqui, elementos chocantes, eu
continuo muito cético de que uma maioria do plenário do Supremo votaria para
autorizar a abertura de investigação ou formalizar que a investigação já em
curso passe a ser sobre o Ministro Alexandre de Moraes", avalia o
professor.
Um
membro do MPF ouvido pela BBC News Brasil argumentou que, independente do
resultado dado pelo Plenário, o estrago está feito.
Segundo
ele, por mais que os ministros tentem encontrar uma solução técnica para o
caso, como um adiamento das investigações ou mesmo obter a nulidade das medidas
tomadas por Mendonça, a crise não seria mais de ordem jurídica, mas política.
Segundo
ele, o próprio STF teria contribuído com isso ao assumir posições supostamente
mais políticas que jurídicas nos últimos anos.
As
fontes ouvidas pela BBC News Brasil disseram não haver elementos concretos para
acreditar que a ação de Mendonça poderia ter objetivos eleitorais, a menos de
dois meses das eleições gerais.
Ao
longo dos últimos anos, a atuação de Moraes em casos envolvendo políticos
bolsonaristas fez com que ele fosse alvo de pedidos de impeachment e de
críticas à direita.
Seu
papel na condenação de Bolsonaro e sua proximidade com o governo Lula levantam
a possibilidade de que um desgaste de Moraes pode acabar desgastando, também, a
candidatura do petista.
Ao
mesmo tempo, André Mendonça é apontado por militantes da esquerda como alguém
identificado com a direita bolsonarista.
Em
junho, por exemplo, o deputado federal Lindbergh Faria (PT-RJ) ingressou com um
recurso no STF para tirar Mendonça da relatoria do caso que investiga o
financiamento do filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro que
recebeu recursos de Vorcaro.
A
medida foi vista internamente como uma tentativa de impedir que Mendonça,
indicado por Bolsonaro, ficasse responsável por apurar um caso com implicações
diretas sobre a família do ex-presidente. O caso, no entanto, continua sob a
relatoria de Mendonça.
Na
terça-feira (1/9), candidatos à Presidência de direita criticaram Moraes.
Flávio
Bolsonaro (PL) chamou as revelações de "muito graves" e disse que
Moraes deveria renunciar ao cargo.
"Ele
mais uma vez está trazendo um problema para toda a Corte, que não é dela.
Então, ele tem que dar as explicações que caibam a ele e a esposa dele",
disse Flávio.
Romeu
Zema (Novo) chamou Moraes de "projetinho de ditador" e declarou que
ele "merece cadeia".
"Impeachment
é pouco. Chega de intocável enriquecendo às custas do povo. Prisão pra ele e
que devolva todo o dinheiro", disse o ex-governador de Minas Gerais.
Já o
candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) defendeu que o mandato de
ministros do STF seja limitado a oito anos.
"Eu
tenho o respeito de vários ministros do Supremo, mas sou o único que fala
isso", afirmou Cury ao comentar o caso a jornalistas num evento no Rio
Grande do Sul.
Ronaldo
Caiado (PSD-GO) disse na rede social X que Vorcaro "contaminou todos os
Poderes".
Renan
Santos (Missão), por sua vez, disse que Moraes "não tem nenhuma condição
moral de estar em qualquer posição de poder em uma república minimamente séria
e democrática".
A
campanha de Lula não se manifestou sobre o assunto até o momento.
Fonte:
BBC News Brasil

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