O
golpe por dentro do Supremo
Às
vésperas da eleição presidencial, André Mendonça transforma elementos de uma
investigação ainda sem conclusão judicial em combustível para uma guerra
interna no STF, rompendo – de forma brutal e sem arcabouço constitucional que o
embase – o equilíbrio institucional da Corte. Uma frente de desestabilização
que converge com os interesses da extrema direita brasileira e com a ofensiva
dos Estados Unidos contra a soberania política e digital do Brasil.
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Quando o Estado é colocado contra o próprio Estado
A pouco
mais de um mês da eleição presidencial, o golpe mudou de lugar. Em 8 de janeiro
de 2023, foi preciso quebrar vidraças, arrombar portas e invadir o Supremo
Tribunal Federal. Agora, a desestabilização avança por dentro da própria
institucionalidade. André Mendonça, ministro do STF, vice-presidente do
Tribunal Superior Eleitoral e um dos magistrados responsáveis pela condução do
processo eleitoral, retirou o sigilo de material ainda submetido à apuração,
expôs uma investigação que alcança integrantes das mais altas estruturas do
Estado e lançou o Supremo numa guerra interna cujas consequências ultrapassam
qualquer disputa pessoal com Alexandre de Moraes.
É
preciso dizer desde o início o que está e o que não está em discussão. Não
existe, até aqui, conclusão judicial que permita condenar Moraes pelas
informações que emergiram do caso Banco Master. Se houver crime, que seja
investigado, provado e punido. O problema é precisamente outro. Antes que a
Justiça produzisse uma verdade processual, a suspeita foi lançada ao espaço
público como fato político. Em poucas horas, Moraes, Paulo Gonet, Andrei
Rodrigues, servidores do Banco Central e Gabriel Galípolo passaram a habitar a
mesma atmosfera de suspeição de forma centripetra e possivelmente coordenada
com a imprensa e vazadores que desde a Lava Jato operam impunes. A extrema
direita imediatamente transformou essa matéria bruta em arma eleitoral. O STF
deixou de aparecer como instituição capaz de processar uma crise e passou a
aparecer como parte da própria crise.
É aqui
que o acontecimento revela sua verdadeira dimensão. Um golpe no século XXI não
precisa começar com tanques diante do Congresso. Pode começar quando os
mecanismos do Estado são utilizados de maneira a destruir a confiança no
próprio Estado, quando o procedimento antecede a prova, quando o vazamento
produz sentença social antes do contraditório e quando uma instituição é
empurrada para a guerra contra si mesma. O que André Mendonça abriu não é
apenas uma crise no Supremo. É uma fissura no centro do sistema de contenção
democrática brasileiro no momento exato em que esse sistema será colocado à
prova pelas eleições de 2026. Mendonça hoje foi mais eficaz que as turbas
ensandecidas a depredar o Supremo no dia do Golpe.
Se
Cunha iniciou o golpe de 2016. Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de
2027 dando tons de messianismo constitucional ao que podemos taxar de conduta
totalmente inconstitucional para com seus pares.
O
Supremo é julgado por um plenário e não pela imprensa. Mendonça não opera mais
dentro das quatro linhas do estado de direito.
O
ministro terrivelmente lavajatista Mendonça não apenas recebeu informações
produzidas pela Polícia Federal. Ele movimentou a máquina. Determinou que a PF
elaborasse, em 72 horas, um relatório específico sobre referências a Alexandre
de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, separou esse material em uma nova
frente processual, abriu vista à Procuradoria-Geral da República e, antes mesmo
de uma manifestação conclusiva do Ministério Público, retirou o sigilo e
empurrou o caso para o centro da arena pública. Depois, pediu que o assunto
fosse levado a uma sessão presencial do Plenário. A sucessão dos atos importa
porque revela algo maior do que uma divergência jurídica: uma investigação
ainda em formação foi convertida, por decisão institucional, em acontecimento
político nacional.
É nesse
ponto que o método se torna tão grave quanto o conteúdo. A direção da Polícia
Federal reagiu duramente e passou a questionar se o relator havia ultrapassado
a função de supervisionar a investigação para assumir um papel ativo na
produção de uma linha investigativa própria. Ministros do Supremo falaram em
ruptura das regras internas e em um ambiente de vale-tudo. A PGR foi colocada
numa posição ainda mais delicada, porque aparece ao mesmo tempo como
instituição responsável por controlar juridicamente a investigação e como uma
das estruturas atingidas pelas referências reveladas. O resultado é um
curto-circuito institucional: quem investiga passa a ser questionado, quem
fiscaliza passa a integrar a crise e quem deveria arbitrar o conflito passa a
lutar pela própria legitimidade.
A
guerra híbrida opera exatamente nessa zona cinzenta. Ela não precisa fabricar
documentos falsos quando pode explorar documentos verdadeiros fora de seu tempo
processual. Fora da logica constitucional e dos direitos e garantias
fundamentais. Não precisa inventar uma acusação quando pode retirar um
fragmento de contexto, lançá-lo na circulação pública e deixar que o
ecossistema político produza a condenação. O tempo jurídico exige prova. O
tempo informacional exige impacto. Quando esses dois tempos entram em choque,
vence primeiro quem controla a percepção.
Por
isso, o ato mais poderoso não foi a descoberta de uma mensagem, mas a
transformação da investigação em espetáculo antes que a própria investigação
pudesse dizer o que aquelas mensagens significavam. A partir desse instante, a
Justiça deixou de conduzir sozinha o processo. A opinião pública, as redes, as
campanhas eleitorais e os interesses políticos passaram a disputar o sentido do
material em tempo real. E quando o sentido é capturado antes da prova, o
processo continua aberto nos autos, mas a sentença política já começou a ser
executada nas ruas.
As
portas de um novo golpe com STF com tudo estão abertas: um novo golpe com o
supremo fragilizado e vilipendiado como estamos vendo por um dos seus próprios
ministros sera matéria fácil para ser tragado pelo próximo golpista de plantão
em eleições.
É aqui
que a crise deixa de ser apenas jurídica e revela sua natureza histórica. A
guerra híbrida não precisa destruir o Estado de uma vez. Sua forma mais
eficiente é fazê-lo perder progressivamente a capacidade de reconhecer quem o
ataca, enquanto suas próprias instituições são empurradas umas contra as
outras. O conflito passa a utilizar a legalidade, a informação, a economia, a
tecnologia e a disputa eleitoral como partes de uma mesma correlação de forças.
Tudo continua aparentemente funcionando. Os tribunais julgam, a polícia
investiga, a imprensa publica, as plataformas distribuem, os candidatos
discursam. Mas, por baixo dessa normalidade, a autoridade que sustenta o
conjunto começa a ser corroída.
A
contradição é brutal. O STF, que depois de 8 de janeiro se tornou uma das
principais barreiras institucionais contra a extrema direita golpista, passa
agora a produzir diante do país a imagem de uma Corte dividida, desconfiada de
si mesma e incapaz de estabelecer sequer um terreno comum para processar a
própria crise. A Polícia Federal contesta o procedimento de um ministro do
Supremo. A Procuradoria-Geral da República é chamada a fiscalizar uma
investigação na qual seu próprio chefe aparece mencionado. O Banco Central
entra no circuito da suspeição. Em vez de uma instituição proteger a
estabilidade da outra, forma-se uma cadeia de atritos capaz de consumir a
legitimidade de todas.
Essa é
uma das formas mais perigosas da guerra política contemporânea porque
transforma a força do Estado em matéria-prima de sua própria vulnerabilidade.
Não é preciso fechar o Supremo se for possível esvaziar sua autoridade. Não é
preciso dissolver a Justiça Eleitoral se for possível fazer milhões de pessoas
duvidarem de sua neutralidade antes da votação. Não é necessário impedir
formalmente o funcionamento da democracia quando se consegue destruir a
confiança coletiva sem a qual suas instituições se tornam apenas edifícios,
cargos e ritos.
Para um
país do Sul Global, essa dinâmica tem um peso ainda maior. Estados submetidos
historicamente à dependência econômica, tecnológica e informacional não
enfrentam apenas disputas domésticas. Suas crises internas são atravessadas por
interesses externos capazes de explorar cada fissura. É nesse ponto que o
conflito brasileiro deixa de ser apenas uma guerra entre ministros e passa a
revelar uma disputa pela capacidade do próprio Brasil de decidir seu destino. O
golpe híbrido começa exatamente assim: não quando a Constituição desaparece,
mas quando as forças que deveriam sustentá-la passam a corroer umas às outras.
A essa
altura, a crise já não pertence apenas ao Supremo. Ela entra diretamente na
disputa eleitoral e encontra uma estrutura de interesses muito maior do que a
briga entre ministros. Mendonça é vice-presidente do TSE e atua na propaganda
das eleições de 2026. O primeiro turno está a pouco mais de um mês. No mesmo
momento em que o STF se fragmenta, a extrema direita transforma o material do
caso Master em arma de campanha, desloca o centro do debate e converte
suspeitas ainda não julgadas em certezas políticas prontas para circular nas
redes. O que a Justiça ainda precisa investigar, a máquina eleitoral já
aprendeu a explorar.
É
também nesse ponto que a crise brasileira encontra Washington. O governo dos
Estados Unidos já transformou decisões do STF sobre plataformas digitais em
questão estratégica, aplicou sanções contra Alexandre de Moraes, utilizou
tarifas e instrumentos comerciais como pressão sobre o Brasil e tratou a
regulação das Big Techs como conflito de interesse nacional norte-americano.
Moraes tornou-se alvo não apenas da extrema direita brasileira, mas de uma
estrutura de coerção externa que enxerga nas decisões brasileiras sobre
plataformas, dados e soberania digital um obstáculo aos interesses econômicos e
políticos dos Estados Unidos.
Não há
prova de que André Mendonça receba ordens de Washington. E afirmar isso sem
evidência destruiria a força do argumento. O que existe é algo mais concreto e,
do ponto de vista do realismo político, suficiente para exigir atenção: uma
convergência objetiva de interesses. A extrema direita precisa enfraquecer o
STF para reconstruir sua capacidade de ação. As Big Techs precisam reduzir a
capacidade regulatória do Estado brasileiro. Washington pressiona as
instituições que impõem limites às empresas norte-americanas e à sua projeção
política. E, no centro dessa correlação de forças, uma crise interna aberta
pelo próprio Supremo atinge exatamente a instituição que vinha funcionando como
uma das últimas barreiras contra esses interesses.
É assim
que a guerra híbrida amadurece. Ela não exige que todos os atores estejam
reunidos na mesma sala. Basta que forças distintas descubram que podem avançar
na mesma direção. O capital transnacional quer liberdade para operar. A extrema
direita quer recuperar poder. Washington quer disciplinar um Brasil que regula
plataformas, fortalece o BRICS e reivindica autonomia estratégica. As redes
digitais precisam apenas converter cada fissura em espetáculo, cada dúvida em
indignação e cada indignação em comportamento político. O tabuleiro se move sem
que seja necessário um comando único.
Para um
país periférico, esse é o ponto em que a disputa interna deixa de ser
doméstica. O Brasil não enfrenta somente uma eleição. Enfrenta a tentativa
permanente de decidir se continuará sendo um Estado capaz de impor regras ao
capital, às plataformas e às potências estrangeiras ou se voltará à condição
histórica que o sistema internacional reservou ao Sul Global: mercado,
território, fonte de dados e espaço político administrado de fora para dentro.
Quando a instituição que deveria conter essa pressão começa a se romper
internamente, o problema deixa de ser apenas jurídico. Torna-se uma questão de
soberania.
É
preciso chegar ao fim sem cair na armadilha mais fácil: transformar Alexandre
de Moraes em símbolo intocável. Não é disso que se trata. Se houver crime, que
se investigue. Se houver prova, que se puna. A defesa da democracia não pode
depender da blindagem de pessoas. Ela depende da preservação de regras,
procedimentos, instituições e da capacidade coletiva de distinguir investigação
de condenação, indício de prova, informação de sentença.
É
exatamente essa fronteira que está sendo destruída. A suspeita começou em
Moraes, alcançou Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e
Galípolo, e já produz o ambiente necessário para atingir o próprio governo.
Esse é o mecanismo. Não é necessário provar que todo o Estado está corrompido.
Basta produzir a percepção de que nenhuma instituição merece confiança. Quando
tudo parece contaminado, qualquer ruptura pode ser apresentada como limpeza.
O
Brasil conhece esse caminho. Em 2016, a ruptura foi construída por dentro das
instituições, legitimada por procedimentos formalmente existentes e alimentada
por uma máquina política e midiática que transformou exceção em normalidade. Em
8 de janeiro de 2023, a extrema direita tentou converter a deslegitimação
acumulada em força física. Em 2026, o método pode estar atingindo um estágio
mais sofisticado: utilizar as próprias contradições do Estado para enfraquecer
sua capacidade de resistir.
É isso
que precisa ser denunciado agora, antes que a fumaça esconda o incêndio. Golpes
não começam no momento em que a Constituição é rasgada. Começam quando a
sociedade é preparada para acreditar que ela já não serve, que seus tribunais
não merecem confiança, que suas instituições são inimigas e que somente uma
força externa ao pacto democrático pode restaurar a ordem.
Desta
vez, talvez não precisem invadir o Supremo.
Basta
fazê-lo desabar por dentro.
A lava
jato mais uma vez, ao nunca ser corretamente enfrentada pelos três poderes,
ganhou.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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