O
que é violência algorítmica e como enfrentar esse problema
Há dez
anos, o influenciador digital e cientista da comunicação Christian Gonzatti, de
33 anos, denuncia a violência algorítmica, argumentando que os algoritmos de
redes sociais costumam dar menos visibilidade a alguns conteúdos de temática
LGBTQIA+ produzidos por ele sem transparência quanto aos termos que seriam
supostamente "proibidos" pelo sistema.
Gonzatti,
que também é professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos),
começou a publicar conteúdos culturais classificados como "nerd"
dentro do segmento LGBTQIA+ em um canal chamado Viado Nerd.
"O
algoritmo não lê contexto. Não via ‘viado' como uma ressignificação, da maneira
que historicamente o movimento faz a partir de termos criados originalmente
para difamar e caluniar. A página começou a ser denunciada e a plataforma as
acatou, como se o espaço fosse de veiculação de discursos de ódio",
recorda ele.
De lá
para cá, mesmo rebatizando o projeto de Diversidade Nerd, ele continua sendo
frequentemente classificado de forma errônea pelas plataformas ou, acredita,
muitas vezes tendo seus posts rebaixados em relevância conforme algumas
terminologias adotadas. "Se coloco a palavra gay ou lésbica na legenda,
por exemplo, o alcance é menor", afirma.
Esse
não é um caso específico. Há violência algorítmica quando sistemas de
reconhecimento facial classificam de forma pejorativa traços ligados a etnias
não brancas, quando a inteligência artificial (IA) produz e distribui deep
fakes para destruir a reputação de alguém e até quando modelos automatizados
buscam interferir no comportamento das pessoas.
"Muitas
vezes estou já dirigindo há 10 horas, 12 horas, sem parar e, quando penso em
encerrar o dia, recebo mensagem no aplicativo que estou a uma corrida de ganhar
um bônus. Quando vejo, fico 14 horas trabalhando direto, sem parar nem para
comer", conta um motorista de aplicativo que atua em São Paulo – mas pede
para não ser identificado.
"Neste
caso, os algoritmos forçam as pessoas a aumentar a produtividade de um jeito
que não reconhece os limites naturais da humanidade. É violência", afirma
o cientista da computação e jornalista Alexandre Gonçalves, professor e
pesquisador na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.
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Agressão automatizada
Professor
de mídia e democracia na Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, o
jornalista Daniel Trielli explica que violência algorítmica é um "tipo de
agressão ou ataque que depende ou se integra a sistemas computacionais
automatizados". Isto inclui não só algoritmos de redes sociais, mas também
plataformas de vigilância digital e ferramentas de inteligência artificial.
Esses meios podem intensificar os modos tradicionais de violência e também
possibilitam novas maneiras de violência.
O
exemplo mais corriqueiro seria a disseminação de fake news via redes sociais.
"Quando alguém espalha esse conteúdo, os algoritmos amplificam o alcance
de mensagem que têm apelo emocional", explica Trielli.
O termo
violência algorítmica passou a ser utilizado no início da década passada – por
acadêmicos, intelectuais e artistas engajados na problemática. Pesquisadores na
Unisinos, a jurista e professora Haide Maria Hupffer e o advogado Gabriel Cemin
Petry explicam que o termo foi fundamentado com propriedade a partir do livro
Topologia da Violência, do filósofo Byung-Chul Han.
"Não
há uma pessoa única que tenha ‘inventado' a expressão. Ela faz parte de um
campo mais amplo de debates sobre discriminação algorítmica, opressão, racismo,
colonialismo de dados e injustiça automatizada", comenta a assistente
social Bruna Irineu, professora na Universidade Federal de Mato Grosso e
coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.
No
cerne da questão está o fato de que os algoritmos não são neutros. Criados por
pessoas, empresa e instituições que foram alçadas a ocupar papéis hegemônicos
em sociedades alicerçadas em pilares de racismo, sexismo e outras desigualdades
estruturais, esses sistemas tendem a reproduzir este "pensamento"
preponderante. Afinal, de forma muito simplificada, as ferramentas de
inteligência artificial são treinadas a partir da exposição de milhões de
conteúdos e decisões oriundos da mente humana.
"Podemos
dizer que violência algorítmica acontece quando sistemas automatizados,
plataformas digitais, inteligências artificiais, mecanismos de busca, redes
sociais ou bancos de dados produzem, reproduzem e amplificam desigualdades
sociais", define a antropóloga Larissa Pelúcio, professora na Universidade
Estadual Paulista (Unesp) e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas
LGBTQIAPN+.
"Ela
aparece quando uma tecnologia decide quem será visto, quem será silenciado,
quem será considerado suspeito, quem terá acesso a oportunidades, crédito,
emprego, circulação, reconhecimento ou proteção", acrescenta.
Irineu
completa frisando que a violência algorítmica não cria a desigualdade, mas
organiza, amplifica, potencializa, automatiza e dá mais relevância a uma
desigualdade que já estava presente na sociedade.
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Discriminação digital
No
Brasil, o problema é potencializado por diversas razões. Pelúcio ressalta que a
sociedade brasileira já é marcada por formas "naturalizadas de violência
institucional". No caldo nacional, há uma combinação peculiar entre
"intensa presença digital e profundas desigualdades sociais".
Para a
antropóloga, são ingredientes fundamentais para conferir gravidade à questão.
Ela frisa ainda que há, no panorama brasileiro, uma "centralidade da
violência contra populações negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+".
Hupffer
e Petry dão um exemplo que ilustra o problema. Em 2021, o Conselho Nacional de
Justiça criou um grupo de trabalho para realizar um diagnóstico em processos
criminais para evitar condenação de inocentes. Partiram de estudos da
Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro que demonstravam os efeitos do
racismos estrutural no sistema, em âmbito nacional. Segundo a pesquisa, em 83%
dos casos de reconhecimento facial equivocado que levou pessoas inocentes à
prisão preventiva, os encarcerados eram pessoas negras.
Se
dados assim forem usados para treinamento de algoritmos, argumentam os
pesquisadores, a consequência seria a automatização de falhas que prejudicam os
afrodescendentes. É o racismo estrutural, portanto, se tornando racismo
digital.
Além
disso, para as pesquisadoras Pelúcio e Irineu há a questão do "pânico
moral" ligado às plataformas digitais. "Os algoritmos de engajamento
tendem a favorecer conteúdos que provocam medo, indignação e conflito. Isso faz
com que discursos de ódio e desinformação ganhem escala e velocidade",
pontua Irineu.
O
cientista da computação Gonçalves explica que esse cenário tende a ser mais
complicado no Brasil pelo papel periférico que o país ocupa na construção
dessas tecnologias. Como é um setor que importa muito as soluções, os dados
muitas vezes não são adequados para as diferenças demográficas brasileiras.
"Pode gerar decisões ainda mais enviesadas", argumenta ele.
Mas os
juristas Hupffer e Petry lembram que o Brasil "explicitamente
reconheceu" a proteção de dados pessoais como um direito fundamental, a
partir de emenda constitucional de 2022. Além disso, a Lei Geral de Proteção de
Dados do país carrega o princípio da não discriminação. Ou seja: ao menos no
arcabouço jurídico e legislativo, há um amparo.
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Educação e regulação
Não há
uma panaceia para resolver o problema. Há um conjunto de medidas que precisam
ser tomadas. A começar pela educação, os esforços de letramento digital em
busca do exercício consciente de uma cidadania online. "É muito importante
educar para que todos entendam a maluquice que é o fato de darmos todos os
nossos dados para as empresas de tecnologia", comenta Gonçalves.
Especialistas
também cobram regulação do setor das big techs. "Precisamos de leis e
políticas públicas que responsabilizem plataformas e empresas de tecnologias
por danos algorítmicos", afirma a antropóloga Pelúcio. O influenciador
Gonzatti também defende que as plataformas tenham mais transparência em suas
diretrizes algorítmicas.
Em um
espectro mais profundo, Pelúcio e Irineu entendem ser necessária uma técnica
amparada por justiça social, em um esforço envolvendo auditorias independentes
e revisão em bases de dados com participação de grupos afetados pelo desenho
das tecnologias. "Não se trata de corrigir viés como se fosse um pequeno
defeito técnico, mas de reconhecer que muitos sistemas são construídos sobre
desigualdades históricas", afirma Irineu.
Fonte:
DW Brasil

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