“Operação”
Master expõe crise histórica do STF, conexões com o bolsonarismo
No
mesmo dia em que surgiram novos repasses de Vorcaro para o filme de Jair
Bolsonaro, novas revelações e vazamentos do caso Master elevaram a crise
envolvendo Alexandre de Moraes a uma crise histórica do STF. Metadados
analisados pela PF e publicados pela imprensa indicam que o ministro participou
da edição da minuta do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório
Barci de Moraes, pertencente à sua esposa e a seus filhos, acordo que previa
pagamentos que poderiam alcançar aproximadamente R$ 131 milhões. O próprio
escritório confirmou que Moraes teve acesso ao documento, sustentando que sua
participação teria se limitado à análise de eventuais impedimentos. A
informação, entretanto, torna insustentável a imagem de um ministro
completamente alheio à relação milionária estabelecida entre sua família e o
banco de Daniel Vorcaro.
A
situação se torna ainda mais grave diante das mensagens encontradas no celular
de Vorcaro. Em uma delas, o banqueiro pergunta ao interlocutor atribuído a
Moraes se não seria possível “reverter” determinada situação com Paulo e
Andrei, aparentemente em referência ao procurador-geral da República, Paulo
Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Pouco antes de
sua prisão, Vorcaro também perguntou ao mesmo interlocutor se deveria estar
fora do país na segunda-feira. Até o momento, essas mensagens não comprovam que
Moraes tenha de fato tomado medidas para favorecer Vorcaro, no entanto colocam
para toda opinião pública a pergunta: por que um banqueiro sob investigação
considerava plausível discutir com um ministro do Supremo formas de reverter
uma situação envolvendo justamente as instituições encarregadas de
investigá-lo?
O
escândalo também está conectado diretamente com o bolsonarismo e pode,
possivelmente, se desdobrar em atingi-lo novamente. Daniel Vorcaro, agora
utilizado por Flávio Bolsonaro para atacar Moraes, é também o banqueiro que
financiou com dezenas de milhões de reais o projeto Dark Horse, concebido para
construir uma obra de propaganda política de Jair Bolsonaro. Há novas
informações sobre um repasse adicional milionário que até então Flávio
Bolsonaro vinha negando. Flávio teria negociado a entrega de R$143 milhões e
recebido o repasse de pelo menos R$ 60 milhões. Ainda que o candidato da
extrema-direita esteja buscando apresentar sua participação como secundária,
áudios já divulgados o mostram negociando diretamente com Vorcaro os recursos
destinados não só ao projeto, mas a outros empreendimentos políticos do clã
Bolsonaro, inclusive com evidentes sinais de proximidade (chamando-o de
“irmão”). E o emaranhado de vazamentos deixa ainda mais complexa a relação de
Moraes, Vorcaro e os Bolsonaristas. Fábio Faria, muito próximo ao clã
Bolsonaro, teria sido responsável por articular o contato e um dos encontros
entre Moraes e Vorcaro. Isso em si mesmo coloca em questão o quanto Flávio
poderá explorar o tema, ainda que os impactos sobre Moraes possam ser maiores.
Por
isso, seria um erro reduzir a operação por trás do caso Master a um novo
capítulo da disputa entre bolsonarismo e STF, ainda que possam estar se
expressando disputas fortes entre esses setores. Por trás das relações de
Vorcaro com personagens de diferentes campos políticos aparece um problema mais
profundo, construído durante décadas. O Judiciário brasileiro acumulou um
extraordinário poder político, se convertendo progressivamente em ator capaz de
interferir diretamente na política brasileira, nas relações entre os poderes e
no destino das principais figuras políticas do país. Em distintos momentos
implementando políticas de setores do imperialismo norte-americano, como vimos
com o golpe institucional em diversas decisões políticas importantes desde então.
Essa
tendência pode ser caracterizada por um aumento de um autoritarismo judicial,
que chamamos de bonapartismo judicial. Trata-se da autonomização relativa de
uma parcela do aparato estatal que, em momentos de crise, procura elevar-se
acima das instituições representativas e dos conflitos políticos, reivindicando
para si a condição de árbitro dos antagonismos da sociedade. A história
brasileira conhece bem essa lógica. Durante o Império, ela encontrou uma forma
constitucional no Poder Moderador. Durante grande parte do século XX, as Forças
Armadas reivindicaram para si a prerrogativa de intervir sobre a política em
nome da defesa da ordem, apoiando no imperialismo contra a classe trabalhadora
e o povo. Nas últimas décadas, parcelas crescentes dessa função passaram a ser
exercidas pelo Judiciário, agora legitimadas pela linguagem da defesa da
Constituição, do combate à corrupção e, mais recentemente, da defesa da
democracia.
Depois
do reacionário Moro e sua Lava Jato, Alexandre de Moraes tornou-se a expressão
mais acabada desse processo. A concentração de relatorias de enorme peso
político, investigações sobre empresários, parlamentares, militares e
dirigentes partidários, decisões envolvendo redes sociais e bloqueios de
perfis, somadas à sua centralidade no enfrentamento institucional ao
bolsonarismo, conferiram a um único ministro um grau de poder extraordinário
mesmo pelos padrões das democracias liberais contemporâneas.
Parte
da esquerda, para não dizer toda ela, e dos setores ligados ao governo Lula
contribuíram para legitimar essa arquitetura institucional dizendo que o
Supremo seria a última barreira contra Bolsonaro. As articulações golpistas da
extrema direita eram reais, mas disso não significa que o STF e Alexandre de
Moraes deveriam ser transformados nos supostos baluartes da defesa da
democracia e que seus métodos fossem diferentes do que na Lava Jato o Sérgio
Moro utilizava. Ao aceitar que a defesa das liberdades democráticas dependesse
da expansão das prerrogativas de ministros, que inclusive não são eleitos por
ninguém, esses setores ajudaram a transformar medidas apresentadas como
“excepcionais” em instrumentos permanentes de intervenção política. Como a história
já mostrou mais de uma vez, o problema dos poderes ditos excepcionais é
precisamente que eles permanecem para além das circunstâncias que foram
utilizadas para justificá-los, e se voltam contra os trabalhadores.
A
própria prisão de Lula deveria ter sido uma forte advertência de qualquer
ilusão sobre o caráter supostamente progressista desse processo. Em abril de
2018, o STF, articulado à cúpula das Forças Armadas, rejeitou por seis votos a
cinco o habeas corpus preventivo apresentado pela defesa de Lula, mantendo
naquele momento a possibilidade de execução da pena após condenação em segunda
instância. Sérgio Moro determinou sua prisão no dia seguinte. Lula, que
liderava as pesquisas presidenciais, foi impedido de disputar as eleições.
Posteriormente, o próprio Supremo anulou suas condenações ao reconhecer a
incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e reconheceu a parcialidade de
Moro no processo do triplex. O juiz que condenara o principal candidato
presidencial tornou-se, meses depois, ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, e
daí pra frente todo mundo já sabe o fim da história.
A Lava
Jato demonstrou até onde pode chegar o protagonismo político de setores do
judiciário. Delações premiadas, conduções coercitivas, operações espetaculares,
vazamentos seletivos e divulgação fragmentada de investigações passaram a
funcionar não apenas como procedimentos jurídicos, mas como mecanismos de
produção de fatos políticos.
É nesse
contexto que deve ser examinada também a ascensão de André Mendonça, como analisamos mais profundamente
nesse artigo.
Com Moraes colocado na defensiva pelo caso Master, Mendonça está ganhando
protagonismo em investigações que podem adquirir enorme peso político
justamente às vésperas da disputa eleitoral. Ainda que por ora precisamos ver
em que medida métodos lava-jatistas poderiam ser ampliados, desde já não é
impossível esquecer suas lições.
A
trajetória de Mendonça permite ainda abordar uma dimensão internacional desse
problema, com suas evidentes relações com setores do Estado americano. Em 2010,
quando atuava na Advocacia-Geral da União, ele participou nos Estados Unidos do
Anti-Corruption Program for Brazilian Government Officials, realizado em
Washington em parceria com o Institute of Brazilian Issues da George Washington
University. Em 2019, já como advogado-geral da União de Bolsonaro, participou
da abertura da Semana de Combate à Corrupção Transnacional, cujo programa
incluía representantes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, do FBI e
da Securities and Exchange Commission em atividades relacionadas à legislação
anticorrupção norte-americana, investigação de suborno internacional e
cooperação entre FBI e Departamento de Justiça. E de sua relação com
bolsonarismo, é impossível esquecer a cena de Michelle Bolsonaro orando em
línguas pela confirmação de sua indicação ao Supremo.
Ao
longo das últimas décadas, parcelas importantes do Judiciário, do Ministério
Público, da Polícia Federal e dos órgãos brasileiros de controle foram
incorporadas a circuitos permanentes de formação e cooperação com instituições
norte-americanas. Nesses circuitos circulam não apenas técnicas jurídicas, mas
concepções sobre delação premiada, compliance, terrorismo, crime organizado,
recuperação de ativos, inteligência e cooperação internacional. A Lava Jato,
como se sabe desde os “wikileaks” e depois se comprovou ainda mais na chamada
“Vaza Jato” , exibiu de forma mais chamativa essa relações com o imperialismo
norte-americano, mas está longe de se resumir a estes atores.
Há,
nesse sentido, uma continuidade evidente entre diferentes momentos da crise
brasileira. Moro e Deltan Dallagnol eram um juiz de primeira instância e um
procurador da República e, mesmo assim, adquiriram capacidade de interferir
decisivamente na sucessão presidencial. Hoje, as disputas atravessam
diretamente o Supremo Tribunal Federal e alcançam autoridades que ocupam
simultaneamente posições centrais no sistema judicial e eleitoral.
Nada
disso transforma o bolsonarismo menos suscetível a processos judiciais e
punições, como alguns dos seus seguidores podem querer fazer. Flávio Bolsonaro
procura explorar a crise de Moraes enquanto que seu próprio pai teve sua
eleição garantida através das ações desse mesmo Judiciário. Mais grave ainda,
procura transformar Vorcaro em instrumento de denúncia contra Moraes enquanto
precisa explicar sua própria relação política e financeira com o banqueiro.
Por
outro lado, as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro não reduzem a gravidade
das informações envolvendo Moraes. As relações de Moraes com Vorcaro tampouco
tiram a importância do escândalo de financiamento do Dark Horse. O caso Master
recoloca, assim, um problema decisivo para as eleições de 2026. Se aparecerem
provas de que Moraes interferiu nas investigações para favorecer Vorcaro, a
crise do Supremo assumiu dimensões ainda maiores. Se surgirem novos vazamentos
sobre contrapartidas políticas associadas ao financiamento do Dark Horse,
Flávio Bolsonaro poderá sofrer consequências eleitorais importantes. E se
investigações conduzidas por Mendonça ou por outras autoridades seguirem
produzindo vazamentos seletivos, operações espetaculares ou decisões sincronizadas
com o calendário eleitoral, estaremos novamente diante do risco de que uma
disputa presidencial seja condicionada por instituições que não receberam um
único voto.
As
relações de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes mostram o verdadeiro caráter
de classe do Judiciário, que mantém negócios privados com grandes banqueiros,
enquanto defendem a reforma trabalhista e o encarceramento em massa da
população negra. O que o caso Master revela é uma crise mais profunda do regime
político brasileiro, e seu papel como balcão de negócios do capital financeiro.
Durante sucessivas crises, transferiram-se parcelas crescentes de poder das
instituições representativas e da soberania popular para uma cúpula judicial
composta por onze ministros não eleitos e dotados de enorme autonomia. A
extrema direita procura instrumentalizar esse poder quando lhe convém (em
geral, para atacar os trabalhadores) e denunciá-lo quando se volta contra seus
interesses. A esquerda institucional, por sua vez, ajudou a legitimá-lo quando
prometia que seria ele o contentor do bolsonarismo, esvaziando as ruas e
paralisando seus sindicatos a fim de evitar qualquer mobilização séria contra a
extrema-direita e na defesa de direitos, em prol da estabilidade da Frente
Ampla.
Nenhuma
dessas alternativas pode oferecer uma saída para as grandes maiorias populares.
A defesa das liberdades políticas e o combate à extrema direita não podem
repousar sobre um novo Poder Moderador togado e nem na adaptação a este regime
degradado como fazem o PT e PSOL, assim como outros setores da esquerda que
hoje se mantêm em silêncio frente a denúncia das relações de Moraes com
Vorcaro. Tampouco a denúncia dos abusos do Supremo pode servir de plataforma
para o bolsonarismo recuperar iniciativa política. Na verdade, os rumos
políticos do país devem ser decididos pela ampla maioria da população através
da mobilização independente dos trabalhadores, e não por uma cúpula judicial
convertida em árbitro permanente da República.
Por
isso, uma saída verdadeiramente democrática para essa crise não pode vir de uma
recomposição do próprio STF, da substituição de um ministro por outro ou de uma
nova acomodação entre Congresso, governo e Judiciário. Também não poderá vir de
resultados eleitorais que perpetuam esse status quo com conciliação e a verdade
é que a enorme apatia que perpassa esse processo eleitoral com candidatos que
não conseguem empolgar é uma comprovação disso. É necessário colocar a
perspectiva uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela
mobilização dos trabalhadores e das grandes maiorias populares, sem tutela do
Congresso, do STF, das Forças Armadas ou dos grandes grupos econômicos. Uma
Constituinte que não seja convocada para remendar as instituições existentes,
mas para permitir que milhões discutam e decidam diretamente sobre os grandes
problemas estruturais do país.
Uma
Constituinte dessa natureza deveria colocar em discussão questões que o atual
regime político procura permanentemente retirar das mãos da população. O fim da
escala 6x1, que neste momento é ameaçado mais uma vez diante dessas crises, e a
redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a reversão das reformas
que retiraram direitos, a resposta às agressões imperialistas contra o Brasil e
a ruptura das relações de subordinação aos Estados Unidos, o controle sobre os
bens naturais comuns e os recursos estratégicos do país, começando pelo
petróleo e as terras raras, assim como uma reorganização radical do Poder
Judiciário. Se os juízes exercem tamanho poder sobre a vida de milhões, não
existe justificativa democrática para que sejam escolhidos por mecanismos
inacessíveis à população e transformados numa casta dotada de privilégios
extraordinários. Juízes e ministros deveriam ser eleitos pelo voto popular, ter
mandatos revogáveis e receber um salário equivalente ao de uma professora da
rede pública, acabando com os supersalários e privilégios que os separam das
condições de vida da maioria da sociedade. O Senado, que vem mostrando seu
papel ao travar a pauta da 6x1, deveria ser abolido.
Naturalmente,
nenhuma Assembleia Constituinte será verdadeiramente livre e soberana se
permanecer submetida ao poder econômico dos grandes bancos, empresários,
latifundiários e multinacionais que dominam a sociedade brasileira. Por isso,
essa perspectiva não pode ser concebida como uma saída parlamentar ou como uma
nova etapa de conciliação institucional. Uma Constituinte capaz de enfrentar os
interesses das classes dominantes somente poderá ser conquistada pela força da
luta de classes, mediante a mobilização independente dos trabalhadores, da
juventude e dos setores oprimidos, com seus sindicatos e organizações colocados
a serviço dessa luta e desenvolvendo para isso organismos de auto-organização.
É
justamente nesse processo que as grandes maiorias populares poderiam fazer uma
experiência política mais profunda com a degradada democracia burguesa
brasileira. Uma democracia que vale dizer também impede que trabalhadores e
jovens possam livremente se candidatar nas eleições o que perpetua um dos
regimes eleitorais mais anti-democráticos. Ao colocar frente a frente as
necessidades elementares da maioria da população e os interesses sociais que
sustentam as atuais instituições, poderia ficar ainda mais evidente que os
limites da democracia brasileira não decorrem simplesmente da existência de
maus políticos ou de ministros excessivamente poderosos. Eles estão enraizados
numa sociedade organizada para preservar a propriedade e os interesses de uma
pequena minoria capitalista.
Ao mobilizar milhões para decidir sobre aquilo que hoje lhes é negado e ao
confrontar suas aspirações com os limites impostos pela propriedade capitalista
e pelo Estado que a protege, pode contribuir para que setores cada vez mais
amplos tirem suas próprias conclusões sobre os limites dessa democracia e sobre
a necessidade de ir além dela. A perspectiva estratégica não é aperfeiçoar
indefinidamente um regime construído para administrar os interesses das classes
dominantes, mas abrir caminho para um governo dos trabalhadores, apoiado em
seus próprios organismos de luta e disposto a romper com o capitalismo e com a
subordinação imperialista.
O caso
Master mostra até onde chegou um regime em que banqueiros podem circular entre
ministros do Supremo, empresários e candidatos presidenciais, enquanto a
maioria da população permanece afastada das decisões fundamentais do país,
amargando precarização e os resultados das privatizações. A resposta a essa
crise não pode ser escolher qual ministro terá mais poder ou qual fração das
instituições exercerá a tutela sobre as próximas eleições. Que sejam os
trabalhadores e as grandes maiorias populares, através de sua própria
mobilização, que imponham uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana e abram
a discussão sobre que país querem construir e qual classe deve governá-lo.
Fonte:
Por Danilo Paris, em Esquerda Diário

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