STF
deve blindar Moraes de investigação, diz especialista
A
imagem de um Supremo Tribunal Federal (STF) neutro e distante da política já
não se sustenta há muito tempo, na opinião de Ivar Hartmann, doutor em Direito
e professor associado do Insper.
Por
isso, conclui, o tribunal já não tem "nada a perder" com o impacto do
caso Master em sua imagem pública — mesmo que seu Plenário eventualmente decida
por rejeitar que o ministro Alexandre de Moraes seja formalmente investigado
pela Polícia Federal.
Em um
relatório da Polícia Federal (PF) cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira
(01/09), Moraes aparece como possível interlocutor do banqueiro Daniel Vorcaro,
dono do Banco Master que está preso.
Nos
diálogos, Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao
diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República (PGR),
Paulo Gonet. Também teria discutido antecipadamente uma possível operação da PF
que poderia atingi-lo.
A
retirada do sigilo do relatório da PF foi solicitada pelo ministro André
Mendonça, relator do caso Master no STF.
"Eu
não acho que essa crise pode gerar qualquer perda para o tribunal como
instituição ou para os ministros individualmente. Nem mesmo para ministro
Alexandre de Moraes", avalia Hartmann, que foi coordenador do projeto
Supremo em Números quando era pesquisador da FGV Direito Rio.
"Eu
ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário."
Para o
professor, mesmo em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na corrida
presidencial, Moraes e outros ministros ainda estariam blindados de
impeachments devido ao "arranjo institucional" que vincula os
interesses de senadores e de integrantes da Corte.
O
ministro André Mendonça pediu que a situação de Moraes seja avaliada pelo
Plenário do STF em uma sessão aberta e "transparente" — onde Hartmann
acredita que o corporativismo vai prevalecer.
"Por
mais que existam fatores aparentemente inéditos aqui, elementos chocantes, eu
continuo muito cético de que o uma maioria do plenário Supremo votaria para
autorizar a abertura de investigação ou formalizar que a investigação já em
curso passe a ser sobre o ministro Alexandre de Moraes", avalia o
professor, que faz pesquisas sobre o STF há mais de dez anos.
>>>>
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
• O ministro André Mendonça retirou o
sigilo do relatório da PF que implica o ministro Alexandre de Moraes, mas ele
não tinha feito isso anteriormente com um outro relatório envolvendo o ministro
Dias Toffoli, também no âmbito do caso Master. Isso revela uma animosidade de
Mendonça em relação a Moraes?
Ivar
Hartmann - Não acho que a remoção do sigilo, isoladamente, é necessariamente um
elemento de animosidade. Dependendo do objetivo do Mendonça, sim, mas ela
poderia ser também o contrário de animosidade.
Ou
seja, poderia ser pior para algumas das pessoas envolvidas que o sigilo não
fosse removido, que o acesso fosse mais difícil e que o sigilo fosse removido
mais na frente, depois que mais coisa está inserida nos autos.
A gente
não sabe o que tem pela frente daqui a duas semanas, daqui a um mês. Quantas
vezes surgiram revelações e aconteceram coisas que pegaram a gente de surpresa,
mas pessoas no alto escalão já tinham aquela informação há mais tempo.
• Mas de toda forma, essa retirada do
sigilo não rompe com um corporativismo do STF?
Hartmann
- O corporativismo dos ministros do Supremo não envolve a ausência de ataques e
a impressão pública de paz entre eles, de concordância entre eles.
Parte
do corporativismo que é central no Supremo é: se a gente olha para as decisões
sobre processos e sobre méritos dos casos, ali a gente não vê uma decisão cujo
efeito é a erosão de poder individual [de cada ministro]. Eles se protegem
assim. Esse é o corporativismo.
• Discordâncias verbais, leituras
diferentes sobre processos judiciais são algo bem diferente de você abrir o
sigilo de uma investigação que expõe um outro ministro. Não me recordo de
nenhum outro caso assim.
Hartmann
- Mas o que tem de inédito aqui é a investigação da PF sobre o ministro. Isso é
o mais raro, e não a decisão sobre a publicidade de um processo ser tomada com
um efeito que é ruim para um dos ministros.
Não é
como se a gente tivesse a informação de que existem dezenas de investigações
tendo por alvo um ministro do Supremo, e aí só nesse caso [Master] o sigilo foi
levantado. Quantos casos existiram de um ministro do Supremo sendo efetivamente
investigado nos últimos cinco anos? Tem o caso do Toffoli, mas qual mais?
Os
últimos dias estão indicando que o ministro Mendonça quer que seja levado ao
plenário essa discussão sobre se o ministro Alexandre de Moraes vai ser
investigado formalmente ou não. Vamos ver se isso realmente vai ser submetido
ao plenário. Vamos ver se a discussão vai ser pública. Vamos ver se a decisão
vai ser sigilosa ou pública. E vamos ver qual vai ser a decisão.
Por
mais que existam fatores aparentemente inéditos aqui, elementos chocantes, eu
continuo muito cético de que o uma maioria do plenário Supremo votaria para
autorizar a abertura de investigação ou formalizar que a investigação já em
curso passe a ser sobre o ministro Alexandre de Moraes.
Tenho
muita dificuldade de ver isso acontecendo, porque esse sim acho que é o
corporativismo no tribunal.
• Necessariamente é um cenário de derrota
para o Supremo? Porque se rejeitar uma investigação contra Moraes, a imagem
pública do STF fica prejudicada. Mas se aceitar, há uma crise interna.
Hartmann
- Acho que uma coisa é dizer: "Qualquer que seja o resultado, o Supremo
não vai se beneficiar."
Uma
outra coisa muito diferente é dizer que o Supremo vai perder.
Eu
ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário.
O que o
Toffoli perdeu? Ele foi removido, ele foi "impichado"? Onde que está
a derrota? Onde que está a redução de poder?
Redução
de prestígio, sim.
Mas
será que os ministros ainda estão preocupados com o que a opinião pública pensa
sobre Toffoli, pensa sobre Alexandre de Moraes, pensa sobre Mendonça?
Faz
muito tempo que são criticados, faz muito tempo que decisões suas são
consideradas absurdas. Eles estão aí.
• Pedidos de impeachment e projetos no
Legislativo querendo limitar os poderes e mandatos de ministros do STF não são
uma ameaça real a eles?
Hartmann
- Quantas vezes já apareceu projeto de limitar mandato? Nunca andou.
• Isso não seria mais possível num
eventual governo de Flávio Bolsonaro?
Hartmann
- [Jair] Bolsonaro não fez nada [concreto nesse sentido] em quatro anos. Por
que é que o Flávio vai fazer?
• Mas desde então, Jair Bolsonaro foi
preso por decisão de Alexandre de Moraes.
Hartmann
- Eu diria que a probabilidade continua sendo a mesma de um ministro sofrer um
impeachment de quando Jair Bolsonaro era presidente.
• Por quê?
Hartmann
- Foro privilegiado. Os mesmos senadores que votariam o impeachment são
senadores que são investigados e processados pelo Supremo. Esse é o arranjo
institucional que mantém esse equilíbrio há muito tempo.
Enquanto
esse aranjo estiver em vigor, enquanto existir essa latitude bem grande que o
Supremo tem, seja de julgar e processar, de atuar no foro privilegiado...
Enquanto
existir essa latitude do Supremo, eu não consigo ver nenhum ministro do Supremo
sofrendo impeachment e não consigo ver os poderes individuais dos ministros do
Supremo sendo externamente restringidos.
• Nem em um caso revelador e inédito como
o de Moraes?
Hartmann
- Não faz nem cócegas. Acho que os ministros têm essa segurança, eles sentem
essa segurança.
O
Alexandre Moraes nunca achou que seria um problema o contrato multimilionário
da esposa. Ele sempre se sentiu seguro de que isso ia se tornar público e não
ia acontecer nada. De fato, não aconteceu nada, né?
A
maioria dos brasileiros achou aviltante quando a informação sobre esse contrato
veio à tona. Mas não aconteceu nada.
Acho
que o STF não vai perder absolutamente nada [após o caso Master].
Em
termos da sua imagem, ele não tem mais nada a perder. A imagem de que é neutro,
de que evita politizar as questões... Não tem mais nada a perder.
Eu não
acho que essa crise pode gerar qualquer perda para o tribunal como instituição
ou para os ministros individualmente. Nem mesmo para ministro Alexandre de
Moraes.
• Mesmo com esse quadro grave que você
está desenhando para a Corte, tem esperança de reformas no STF?
Hartmann
- Eu tenho esperança nessas reformas. O problema é que essas reformas passam
por votações e precisam de apoio de muita gente no Congresso. E essas pessoas
estão na mão dos ministros do Supremo por causa do foro privilegiado.
Hoje, a
única forma de punição ou de reconhecimento de que um ministro do Supremo fez
algo errado é só o máximo do impeachment. Não tem meio termo.
Ou ele
é invulnerável, ou é a solução "nuclear" do impeachment. Não tem
gradação, não tem nada no caminho.
Nesse
cenário, eu acho que o único caminho viável de a gente ver mudanças em relação
à instituição é um ministro do Supremo sofrer impeachment. Se isso acontecer,
eu acredito que nós vamos ver mudanças.
Óbvio
que o impeachment de ministro pelas razões erradas vai trazer o tipo de
consequência que a gente não quer. Então não dá para dizer, se acontecer o
impeachment de ministro, necessariamente a gente vai ficar melhor do que está
hoje.
Dependendo
das razões do impeachment, pode ser que a gente fique pior.
Mas
mesmo um impeachment com as piores razões possíveis, ele ainda traria um silver
lining [expressão em inglês que indicam que toda situação, inclusive as ruins,
têm um lado positivo]. Quer dizer, ele pode ser 95% ruim, mas ele ainda traria
necessariamente aquele 5% positivo de quebra dessa lógica de que o ministro do
Supremo pode fazer o que ele quiser e não responde a ninguém.
• A possibilidade de um Código de Conduta,
que vem sendo defendida por alguns integrantes do STF, inclusive pelo
presidente da Corte Edson Fachin, é uma proposta convincente de real mudança,
ou apenas uma solução de fachada?
Hartmann
- Acho que se fosse um arremedo de solução, uma coisa de estão jogando para a
plateia, já teriam aprovado esse código e ele já existiria. Para mim, um
indício de que é não é algo pro forma, de que não é inofensivo para os
ministros, é justamente o fato de que ele está dividindo o tribunal.
Existem
ministros que estão enxergando uma ameaça ao seu poder e por isso que o
tribunal está dividido em relação a isso. Acredito que o ministro Fachin tem
boas intenções.
• A oposição entre Moraes e Mendonça é
impulsionada também por fatores políticos, já que Moraes se tornou alvo de
bolsonaristas e, ao mesmo tempo, Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro como
ministro do STF. Essa indicação pode estar pesando nas decisões de Mendonça no
caso Master?
Hartmann
- Essa ideia de que um ministro demonstra fidelidade em relação a quem o
indicou, ela já morreu há muito tempo. Ela é muito sedutora, mas ela já morreu
há muito tempo.
O
exemplo acho que mais contundente disso é [ex-ministro do STF] Joaquim Barbosa
no Mensalão.
Se a
gente for olhar o período mais recente, talvez o maior aliado do ministro André
Mendonça nessa linha de se "algo de errado aconteceu, precisa ser
investigado" talvez seja o ministro Fachin, que não foi uma indicação do
Bolsonaro [o ministro Edson Fachin foi indicado pela ex-presidente Dilma
Rousseff, do PT].
A
expectativa seria de que o Fachin fosse contra o Alexandre de Moraes ser
investigado. Mas talvez ele seja, nesse momento, o maior aliado do André
Mendonça. Então essa coisa de lealdade do ministro [ao grupo político que o
indicou] a gente nunca viu se provar nos dados.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário