Autuados
pelo Ibama já doaram R$ 6,6 milhões a 136 candidatos
GOVERNADOR
DE MINAS GERAIS e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD) recebeu R$ 200 mil
como doação de campanha de um empresário do agronegócio autuado por
desmatamento ilegal.
No
Paraná, o deputado federal Zeca Dirceu (PT), novamente postulante a uma vaga na
Câmara, recebeu a mesma quantia de um empresário do setor madeireiro autuado
seis vezes pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis).
Ambos
fazem parte de uma lista de 136 candidatos que receberam R$ 6,6 milhões em
doações de pessoas autuadas pelo Ibama por infrações ambientais como
desmatamento, descumprimento de embargo e funcionamento de atividade
potencialmente poluidora sem licença.
Levantamento
exclusivo da Repórter Brasil identificou 267 doadores de campanha com autos de
infração lavrados pelo Ibama desde 1º de janeiro de 2000. Juntos, eles
destinaram exatos R$ 6.615.680,04 às eleições deste ano.
A
análise cruza as prestações de contas de campanha da base do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral) gerada até 31 de agosto deste ano com os autos de infração
registrados nos CPFs dos doadores. Infrações atribuídas a empresas das quais
eles são sócios não foram incluídas.
Entre
os doadores autuados estão investidores, grandes produtores rurais, empresários
da madeira e nomes ligados ao agronegócio. Eles repassaram os valores para
candidatos de diferentes campos ideológicos. Além de Simões e Dirceu, aparecem
políticos do PL, PSDB, Republicanos, Avante, PSB, entre outros.
Um auto
de infração não equivale a uma multa definitiva nem a uma condenação criminal.
A medida pode ser contestada administrativamente, cancelada ou permanecer sob
recurso. Porém, mesmo que o auto seja convertido em multa posteriormente paga
pelo infrator, não há garantia de recomposição do dano ambiental.
Os
valores citados na reportagem são os valores nominais registrados pelos Ibama
na época da autuação, sem correção pela inflação.
Procuradas,
as campanha de Mateus Simões e Zeca Dirceu não responderam os questionamentos
enviados pela Repórter Brasil.
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Governador de MG recebeu doação de empresário com R$ 178 mil em autos de
infração
Um dos
beneficiados é o governador mineiro Mateus Simões (PSD). Advogado e ex-vereador
de Belo Horizonte, ele foi secretário-geral do governo Romeu Zema (Novo),
tornou-se vice-governador em 2023 e assumiu o Palácio Tiradentes em março deste
ano, após Zema deixar o cargo para disputar a Presidência.
Simões
recebeu R$ 200 mil de José Maria Bortoli, cofundador do Grupo Bom Futuro,
conglomerado do agronegócio fundado no Mato Grosso, com atuação em grãos,
algodão e pecuária. A contribuição representa 18% dos R$ 1,088 milhão em
recursos privados arrecadados pelo governador até o recorte da reportagem — a
campanha de Simões também recebeu R$ 2,7 milhões em recursos de partido
político.
Bortoli
aparece em quatro autos do Ibama que somam R$ 178,6 mil em valores nominais. Um
deles, de R$ 56 mil, foi cancelado. Os demais envolvem desmatamento, dano em
área de reserva e exploração de madeira sem licença válida, entre 2000 e 2011.
Procura
pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa do Grupo Bom Futuro também não
se pronunciou.
No
Paraná, Zeca Dirceu (PT) recebeu R$ 200 mil de Odacir Antonelli, fundador do
Grupo Repinho, ligado à indústria de madeira, compensados e reflorestamento. A
contribuição representa cerca de 89% dos R$ 223,9 mil privados arrecadados pelo
deputado até 31 de agosto. Filho do ex-ministro José Dirceu, que neste ano
disputa uma vaga na Câmara por São Paulo, Zeca está no Congresso desde 2011 e
tenta o quinto mandato consecutivo.
Antonelli
tem seis autos do Ibama em seu nome, somando R$ 3,81 milhões em valores
nominais. Três foram aplicados em julho de 2022, em Inácio Martins (PR): R$
2,45 milhões por destruir 49 hectares de vegetação nativa em área de
preservação permanente; R$ 609 mil por queimar 58 hectares de Mata Atlântica em
estágio médio de regeneração; e R$ 530 mil por impedir a regeneração de 106
hectares de floresta nativa. Em novembro de 2023, recebeu outros três autos, de
R$ 75 mil cada, por não cumprir determinações para retirar pinus e eucaliptos
das áreas atingidas.
Em nota
enviada à Repórter Brasil, o Grupo Repinho afirmou que “não possui ingerência
sobre atos, manifestações, relações ou questões de natureza estritamente
particular de seus sócios, razão pela qual não lhe compete prestar informações,
emitir juízos ou se manifestar sobre assuntos relacionados à esfera privada de
qualquer um deles”.
O
posicionamento informa também que a companhia recorre nas esferas
administrativa e judicial. “Enquanto não houver decisão definitiva, a empresa
considera inadequada qualquer antecipação de conclusões acerca das matérias
ainda submetidas à apreciação das autoridades competentes”, afirma na nota
enviada.
<><> Ruralistas autuados bancam campanhas em Mato
Grosso
Mato
Grosso concentra vários casos de financiamento eleitoral por infratores
ambientais. Um dos favorecidos é Antonio Galvan (Avante), candidato a uma das
duas vagas ao Senado. Produtor rural, ele ganhou projeção nacional à frente da
Aprosoja Brasil, representante de produtores de grãos, e tornou-se uma das
vozes políticas mais conhecidas do agronegócio durante o governo de Jair
Bolsonaro.
Dos R$
324 mil privados arrecadados por Galvan, R$ 200 mil vieram dos irmãos Felipe e
Rafael Bilibio. Os dois são produtores rurais em Vera, no norte de Mato Grosso,
e sócios da Agropecuária Irmãos Bilibio, dedicada principalmente ao cultivo de
soja. Rafael preside o Sindicato Rural do município.
Felipe
tem quatro autos do Ibama, no total de R$ 1,1 milhão. Rafael tem três, somando
R$ 1,37 milhão. Todos são de 2016. Há registros de corte raso de vegetação
amazônica, impedimento de regeneração natural e intervenção em área embargada.
Em um
dos autos, Rafael foi autuado em R$ 1,28 milhão por impedir a regeneração de
255 hectares de vegetação nativa amazônica na Fazenda Floresta I, em Vera,
segundo o Ibama. A área estava embargada (interditada) desde 2007.
A
advogada que representa os irmãos Bilibio disse que não pode informar sobre os
andamentos das autuações. “Razão pela qual o mérito ou pormenores das demandas
não será comentado”, afirmou. “Também não é possível que eu responda quais as
motivações pessoais dos meus clientes para doações que os mesmos decidam ou não
realizar”, complementou.
Em
2021, quando presidia a Aprosoja Brasil, Galvan foi investigado no STF (Supremo
Tribunal Federal) por suspeitas relacionadas ao financiamento dos atos
antidemocráticos de 7 de Setembro daquele ano.
Na
época, a Repórter Brasil mostrou que ele próprio havia sido multado por
desmatamento de 500 hectares e respondia a disputas judiciais sobre possível
plantio clandestino de soja e suposta tentativa de invasão a uma fazenda
vizinha. A assessoria de imprensa de Galvan não respondeu aos questionamentos
da reportagem.
Já
Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato ao governo de Mato Grosso, recebeu
R$ 150 mil de dois financiadores com autos no Ibama.
Osmar
Ribeiro de Mello, responsável por R$ 100 mil em doações, tem quatro autos em
seu nome que somam R$ 2 milhões. O maior, de R$ 1,2 milhão, foi aplicado em
2013, por destruir 251 hectares de floresta amazônica em Feliz Natal, segundo o
Ibama. Em 2017, recebeu outros dois, de R$ 525 mil e R$ 215 mil, por destruição
ou dano a 146,8 hectares de vegetação nativa.
Os
outros R$ 50 mil vieram do ex-prefeito de Lucas do Rio Verde e fundador da
Fiagril Marino José Franz, autuado em R$
793 mil em 2015 por executar manejo florestal em 792 hectares das fazendas
Taipas I e II, em Nova Maringá, sem autorização prévia do órgão ambiental,
segundo o Ibama. Nem a campanha de Pivetta, nem seus doadores responderam às
perguntas enviadas pela Repórter Brasil.
Também
em Mato Grosso, Samantha Brunini (PL) disputa uma vaga na Assembleia
Legislativa. Esposa do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), ela foi a
vereadora mais votada da capital em 2024 e neste ano concorre com o nome de
urna “Samantha do Abilio”.
Até 31
de agosto havia recebido R$ 301,8 mil em recursos privados, dos quais R$ 300
mil vieram de uma única pessoa: Elizeu Zulmar Maggi Scheffer, empresário do
Grupo Scheffer.
A
candidatura de Samantha também recebeu o apoio explícito de Michelle Bolsonaro.
No fim de agosto, a ex-primeira-dama apareceu em vídeo ao lado da candidata e
de Abilio Brunini afirmando que Samantha era “minha candidata a deputada
estadual”.
O Grupo
Scheffer atua na produção de soja, algodão e milho, pecuária, armazenagem e
fertilizantes. Scheffer foi autuado pelo Ibama em 2002 em R$ 24 mil por
desmatar 200 hectares de Cerrado na Fazenda Rafaela, em Sapezal.
Elizeu
é o fundador do grupo, criado depois que sua família chegou a Mato Grosso em
1980. Nem a candidata nem o grupo Scheffer retornaram aos questionamentos da
reportagem.
Fonte:
Reporter Brasil

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