Terapia
nutricional intravenosa não tem respaldo científico para uso estético ou de
bem-estar
Nesta
semana, a influenciadora digital Virgínia Fonseca usou as redes sociais para
falar que havia feito uma sessão de soroterapia e que estava se sentindo muito
mais disposta após o tratamento. O vídeo postado no Instagram reacendeu um
debate: a popularização da soroterapia como produto de bem-estar, longevidade e
estética.
Enquanto
clínicas de estética e consultórios particulares espalhados pelo Brasil
comercializam os chamados "coquetéis do bem-estar" intravenosos para
aumentar a disposição, fortalecer a imunidade, retardar o envelhecimento,
acelerar o emagrecimento ou melhorar a performance física, especialistas
alertam que muitas dessas indicações não possuem respaldo científico e podem
expor pacientes a riscos desnecessários.
"O
fato de uma substância ser administrada diretamente na veia não significa que
seja mais eficaz ou saudável. Significa apenas que ela chega imediatamente à
circulação, sem passar pelo processo normal de absorção gastrointestinal. Isso
também faz com que eventuais doses excessivas, incompatibilidades ou reações
adversas tenham potencial para ocorrer de maneira mais rápida”, explica Lizanka
Marinheiro, endocrinologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da
Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).
<><>
O que é a soroterapia
Conhecida
como terapia nutricional endovenosa, a soroterapia consiste na aplicação de
líquidos contendo diferentes substâncias, como vitaminas, minerais,
aminoácidos, antioxidantes, eletrólitos ou medicamentos diretamente na corrente
sanguínea.
A
técnica é utilizada com o objetivo de repor determinadas substâncias de forma
mais direta, principalmente em casos em que há deficiência nutricional ou uma
necessidade específica identificada por avaliação médica.
Na
medicina, a infusão intravenosa é um recurso consolidado e indispensável em
diversas situações clínicas. Pacientes internados podem precisar de hidratação,
reposição de eletrólitos, antibióticos ou nutrientes injetados diretamente na
veia quando não conseguem se alimentar adequadamente ou apresentam deficiências
específicas.
O
problema surge quando esse procedimento, tradicionalmente reservado para
indicações médicas bem estabelecidas, passa a ser comercializado como um
produto de beleza e bem-estar.
"É
preciso separar bem as coisas: a terapia intravenosa de verdade faz parte da
medicina e tem indicações muito sérias e bem estabelecidas, como quando um
paciente está desidratado no hospital ou não consegue absorver nutrientes pela
boca. O grande problema é quando essa prática vira uma solução geral para
qualquer pessoa, sem uma avaliação individual ou sem que se identifique uma
real necessidade”, diz Sandra Fernandes, nutróloga da Kora Saúde.
<><>
O que dizem as evidências
Os
especialistas ouvidos pela reportagem da DW Brasil são unânimes em afirmar que
pessoas saudáveis, com alimentação equilibrada e sem deficiência nutricional
diagnosticada, dificilmente obtêm benefícios ao receber vitaminas diretamente
na corrente sanguínea.
Isso
ocorre porque o organismo possui mecanismos bastante eficientes para absorver
nutrientes por via oral. Quando não existe deficiência, fornecer doses elevadas
de vitaminas nem sempre produz um efeito adicional.
"Grande
parte dessas alegações é baseada em relatos pessoais, percepção subjetiva de
bem-estar e estratégias de marketing, e não em ensaios clínicos robustos e bem
controlados. A melhora relatada por algumas pessoas também pode estar
relacionada à hidratação, ao repouso durante o procedimento, ao efeito placebo
ou à regressão natural de sintomas inespecíficos, como cansaço”, detalha
Marinheiro.
Em
alguns casos, o excesso de substâncias inseridas de maneira venosa sem a real
necessidade é simplesmente eliminado pela urina, principalmente no caso das
vitaminas hidrossolúveis, como a vitamina C e as vitaminas do complexo B.
"Para
pessoas que são saudáveis, que não apresentam nenhuma deficiência nutricional
comprovada ou doença que prejudique a absorção de nutrientes, não existem
evidências científicas de boa qualidade de que infusões de vitaminas e
aminoácidos aumentam a imunidade, melhorem energia, promovem o
rejuvenescimento, aceleram o metabolismo ou façam a suposta desintoxicação que
que o pessoal vem referindo”, explica Dhianah Santini, endocrinologista e
professora Instituto de Educação Médica.
Há
situações específicas em que a administração intravenosa de nutrientes é
indicada. Pessoas com síndromes de má absorção intestinal, pacientes submetidos
à cirurgia bariátrica, indivíduos com desnutrição grave ou algumas doenças
crônicas podem precisar de reposição por via venosa. Também existem
deficiências vitamínicas severas que exigem tratamento específico.
Esses,
porém, são cenários médicos bem definidos e diferentes da utilização rotineira
como estratégia de promoção da saúde, bem-estar ou emagrecimento, como o
comumente oferecido por clínicas de estéticas e consultórios médicos.
"Estamos
falando de situações de desidratação importante, desnutrição ou deficiências
nutricionais graves, problemas de absorção no intestino, vômitos persistentes e
em cenários hospitalares onde a via oral simplesmente não funciona. Também
usamos a veia para aplicar alguns medicamentos, como reposições de ferro,
quando os comprimidos convencionais não resolvem ou causam muito mal-estar. Mas
essa indicação precisa sempre de uma avaliação médica detalhada”, acrescenta
Fernandes.
Mesmo
nessas circunstâncias, a composição, a dose, a velocidade de infusão e o tempo
de tratamento devem ser definidos de acordo com o diagnóstico, os exames
laboratoriais, a função renal e hepática, os medicamentos utilizados e as
características individuais de cada paciente.
<><>
Quais são os riscos
Apesar
de ser apresentada como um procedimento simples, a soroterapia também apresenta
riscos.
Toda
infusão intravenosa rompe uma barreira natural do organismo e pode causar
complicações como infecção, flebite (inflamação da veia), hematomas, dor local
e reações alérgicas.
Também
pode ocorrer náuseas, tontura, queda ou elevação da pressão arterial,
alterações do ritmo cardíaco, distúrbios dos níveis de sódio, potássio, cálcio,
magnésio e glicose; sobrecarga ou lesão renal e hepática; interações entre as
substâncias infundidas e os medicamentos utilizados pelo paciente.
Por
desconhecer esses riscos a gerente de marketing Soraia Dias, 54 anos, acabou
indo parar no pronto-socorro após uma sessão de soroterapia. Ela conta que foi
palestrar em um evento e horas antes de subir ao palco, foi lhe oferecido uma
sessão de soroterapia pela organização do evento. A promessa era de que a
infusão iria ajudar a ter melhor desempenho durante a palestra.
"A
infusão durou cerca de 10 minutos. Na sequência, fui para outra sala aguardar a
minha vez de dar a palestra e logo comecei a sentir tontura, as pernas
formigando e parecia que eu ia desmaiar. Eu mal conseguia ficar em pé”,
recorda.
Por
nunca ter tido sintomas semelhantes, Soraia foi juntamente com o marido até um
pronto-socorro próximo. No local, ela foi aconselhada a intensificar a
hidratação e ficou por duas horas em observação.
"Com
o passar do tempo, aquela sensação ruim foi melhorando. Eu consegui voltar para
o evento e fazer minha palestra, mas tiveram que mudar o horário para eu me
apresentar”, recorda.
Marinheiro
explica que a infusão intravenosa pode aumentar rapidamente a concentração de
determinada substância no sangue, podendo ocorrer toxicidade.
"Uma
concentração mais alta não significa necessariamente um benefício clínico
maior. O organismo possui mecanismos de regulação e, no caso de várias
vitaminas hidrossolúveis, elimina pela urina aquilo de que não necessita. Em
outros casos, especialmente com doses elevadas ou substâncias que se acumulam,
pode ocorrer toxicidade”, diz a endocrinologista.
O que
dizem as entidades médicas
Após
repercussão do caso envolvendo a influenciadora digital Virginia Fonseca, o
Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) emitiu um alerta
sobre os riscos do uso da soroterapia com finalidade estética ou para melhorar
a performance.
Segundo
o órgão, essa terapia endovenosa de vitaminas e minerais tem movimentado um
mercado movido por falsas promessas e impulsionado, principalmente, por
artistas e influenciadores.
"O
Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) alerta que a
indicação de soroterapia com a falsa promessa de oferecer benefícios, como
rejuvenescimento, perda de peso, ganho de massa muscular, combate à queda de
cabelo e aumento da vitalidade, não tem evidência científica.
Desde
2024, quando realizou uma plenária sobre o tema, o Cremego tem chamado a
atenção da sociedade sobre os ricos, inclusive fatais, do uso desnecessário da
soroterapia, que também já foi questionado pela maioria das Sociedades de
Especialidades Médicas e é condenado pela Resolução CFM número 2004/2012.
O
Cremego observa que a soroterapia é um tratamento sério, porém vem sendo usado
indiscriminadamente com a promessa de prevenir doenças que o paciente nem sabe
se virá a ter”, disse o órgão em nota.
Antes
mesmo do episódio dessa semana, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) já
havia emitido nota pública alertando para a falta de segurança e eficácia da
soroterapia.
"É
importante dizer que esses métodos não possuem evidências clínico-científicas
consistentes que comprovem a sua segurança e eficácia. A soroterapia não faz
parte do rol de procedimentos médicos. A prática da soroterapia com fins
dermatológicos carece de estudos científicos na literatura médica”, diz trecho
da nota.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário