quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Coaching, maromba e redpill

Nos últimos anos, três fenômenos culturais ganharam enorme espaço nas redes sociais brasileiras: a onda dos coaches de mentalidade e desenvolvimento pessoal, a cultura maromba e o movimento redpill. Embora apresentem discursos, objetivos e públicos diferentes, há entre eles um elemento comum que permite compreendê-los como manifestações de uma mesma transformação cultural: a construção de uma visão de mundo profundamente hierárquica, na qual os indivíduos são classificados em diferentes categorias e sua posição social é interpretada como resultado de características pessoais.

No universo dos coaches, especialmente daqueles que trabalham com uma versão mais abstrata do chamado mindset, tornou-se frequente a ideia de que a diferença entre pessoas pobres e ricas estaria fundamentalmente na maneira de pensar. Nessa perspectiva, circunstâncias econômicas, origem familiar, oportunidades, estrutura do mercado de trabalho e contexto socioeconômico perderiam importância diante de uma suposta mentalidade capaz de determinar o destino individual. A pobreza e a riqueza deixam, assim, de ser compreendidas como fenômenos também sociais e econômicos e passam a ser interpretadas como consequências de características internas do indivíduo.

Trata-se de uma espécie de forma religiosa da ideologia da meritocracia: resultados concretos são convertidos em atributos abstratos da pessoa. Quem enriqueceu teria demonstrado possuir a mentalidade correta; quem permanece pobre, por consequência, teria alguma deficiência de comportamento, disciplina, ambição ou pensamento. A riqueza não seria necessariamente consequência de uma mudança objetiva de renda proporcionada por uma profissão, um negócio ou uma oportunidade econômica, mas da transformação do indivíduo em uma categoria supostamente superior de ser humano.

Essa concepção pressupõe uma sociedade organizada em uma hierarquia que vai muito além da renda. A posição econômica seria apenas a superfície de uma estrutura social mais profunda, na qual as pessoas ocupam diferentes lugares de acordo com características comportamentais, psicológicas e físicas. O objetivo deixa de ser simplesmente melhorar as próprias condições materiais e passa a ser mudar de categoria: tornar-se um indivíduo superior.

É nesse ponto que a cultura maromba apresenta uma conexão importante com essa lógica. No universo do culto ao corpo, a mesma visão hierárquica é aplicada à estética e à performance física. O mundo passa a ser dividido entre aqueles que possuem shape e aqueles que não possuem; entre os fortes e os fracos; entre os disciplinados e os considerados desleixados. O corpo deixa de ser apenas uma dimensão da vida individual e passa a funcionar como uma espécie de marcador de posição social.

A lógica meritocrática é, então, transferida para o corpo. O físico passa a ser interpretado como uma demonstração visível de disciplina, força de vontade e superioridade pessoal. Nesse ambiente, especialmente em suas versões mais radicalizadas, podem surgir discursos de desprezo tanto contra pessoas gordas quanto contra pessoas muito magras. Até mesmo o uso de anabolizantes pode ser racionalizado como um preço necessário para abandonar uma categoria inferior e alcançar uma categoria superior de corpo, força e reconhecimento.

A lógica redpill leva essa estrutura hierárquica ainda mais longe. A sociedade passa a ser descrita por meio de categorias como “alfa” e “beta”, estabelecendo uma hierarquia rígida entre os indivíduos. Em suas versões mais extremas, essa visão não apenas coloca homens e mulheres em posições hierárquicas distintas, como também sustenta a existência de uma divisão supostamente natural e biológica entre os próprios homens.

Características físicas, comportamentais e até elementos específicos da aparência, como o formato do queixo, podem ser utilizados como supostos indicadores da categoria humana à qual determinada pessoa pertenceria.

Apesar das diferenças entre esses três universos, existe uma estrutura comum: a transformação da sociedade em uma hierarquia de indivíduos. O coach classifica pessoas de acordo com sua mentalidade e seus resultados financeiros; a cultura maromba, de acordo com sua aparência e performance física; e a redpill, de acordo com atributos relacionados a gênero, comportamento e supostas características biológicas. Em todos esses casos, a posição ocupada pelo indivíduo tende a ser apresentada como expressão de sua própria natureza, e não como resultado de uma combinação complexa entre circunstâncias sociais, condições materiais, escolhas individuais e contingências.

Essa visão também ajuda a explicar por que essas três ondas frequentemente se encontram nas mesmas figuras públicas e nos mesmos ecossistemas digitais. Não é incomum encontrar influenciadores que transitam simultaneamente entre desenvolvimento pessoal, musculação, estética, masculinidade e discursos redpill. Os conteúdos podem mudar de tema, mas preservam uma estrutura narrativa semelhante: existe uma hierarquia, existem indivíduos superiores e inferiores, e cabe ao indivíduo trabalhar sobre si mesmo para subir nessa hierarquia.

Nesse sentido, o que une coaching, cultura maromba e redpill não é necessariamente um conjunto específico de ideias, mas uma determinada maneira de enxergar o mundo. É a passagem de uma concepção horizontal da sociedade para uma concepção hierárquica, na qual diferenças econômicas, físicas, comportamentais e sexuais são frequentemente transformadas em diferenças de valor entre seres humanos.

É nesse ambiente que determinados elementos associados ao pensamento neofascista podem encontrar terreno fértil. A ideia de que a sociedade é naturalmente hierárquica, de que os indivíduos podem ser classificados em categorias superiores e inferiores e de que determinadas características físicas ou comportamentais definiriam o valor de uma pessoa possui afinidades importantes com formas autoritárias de pensamento. Isso não significa que todo coach, todo praticante de musculação ou toda pessoa que consome conteúdo redpill seja neofascista. A relação está na estrutura de determinadas ideias quando elas são levadas a suas formas mais radicalizadas.

Assim, a popularização simultânea dessas três ondas não precisa ser entendida como uma coincidência. Elas podem ser vistas como diferentes expressões de uma mesma tendência cultural: a transformação da desigualdade social em uma hierarquia moral e individual. A pobreza torna-se sinal de uma mentalidade inferior; o corpo fora do padrão, sinal de falta de disciplina; a dificuldade nas relações afetivas, sinal de pertencimento a uma categoria masculina inferior.

É justamente por isso que coaching, maromba e redpill podem ser compreendidos como fenômenos que ultrapassam seus respectivos nichos. Eles expressam uma mudança mais profunda na maneira como sucesso, fracasso, corpo, masculinidade, riqueza e valor humano são interpretados. E, em um contexto de crise das antigas promessas de progresso social, essa visão hierárquica pode adquirir uma força cultural que vai muito além das redes sociais, tornando-se parte de uma disputa mais ampla sobre o significado de sucesso, mérito e posição social no mundo contemporâneo.

 

Fonte: Por Bruno Machado em A Terra é Redonda

 

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