Coaching,
maromba e redpill
Nos
últimos anos, três fenômenos culturais ganharam enorme espaço nas redes sociais
brasileiras: a onda dos coaches de mentalidade e desenvolvimento pessoal, a
cultura maromba e o movimento redpill. Embora apresentem discursos, objetivos e
públicos diferentes, há entre eles um elemento comum que permite compreendê-los
como manifestações de uma mesma transformação cultural: a construção de uma
visão de mundo profundamente hierárquica, na qual os indivíduos são
classificados em diferentes categorias e sua posição social é interpretada como
resultado de características pessoais.
No
universo dos coaches, especialmente daqueles que trabalham com uma versão mais
abstrata do chamado mindset, tornou-se frequente a ideia de que a diferença
entre pessoas pobres e ricas estaria fundamentalmente na maneira de pensar.
Nessa perspectiva, circunstâncias econômicas, origem familiar, oportunidades,
estrutura do mercado de trabalho e contexto socioeconômico perderiam
importância diante de uma suposta mentalidade capaz de determinar o destino
individual. A pobreza e a riqueza deixam, assim, de ser compreendidas como
fenômenos também sociais e econômicos e passam a ser interpretadas como
consequências de características internas do indivíduo.
Trata-se
de uma espécie de forma religiosa da ideologia da meritocracia: resultados
concretos são convertidos em atributos abstratos da pessoa. Quem enriqueceu
teria demonstrado possuir a mentalidade correta; quem permanece pobre, por
consequência, teria alguma deficiência de comportamento, disciplina, ambição ou
pensamento. A riqueza não seria necessariamente consequência de uma mudança
objetiva de renda proporcionada por uma profissão, um negócio ou uma
oportunidade econômica, mas da transformação do indivíduo em uma categoria
supostamente superior de ser humano.
Essa
concepção pressupõe uma sociedade organizada em uma hierarquia que vai muito
além da renda. A posição econômica seria apenas a superfície de uma estrutura
social mais profunda, na qual as pessoas ocupam diferentes lugares de acordo
com características comportamentais, psicológicas e físicas. O objetivo deixa
de ser simplesmente melhorar as próprias condições materiais e passa a ser
mudar de categoria: tornar-se um indivíduo superior.
É nesse
ponto que a cultura maromba apresenta uma conexão importante com essa lógica.
No universo do culto ao corpo, a mesma visão hierárquica é aplicada à estética
e à performance física. O mundo passa a ser dividido entre aqueles que possuem
shape e aqueles que não possuem; entre os fortes e os fracos; entre os
disciplinados e os considerados desleixados. O corpo deixa de ser apenas uma
dimensão da vida individual e passa a funcionar como uma espécie de marcador de
posição social.
A
lógica meritocrática é, então, transferida para o corpo. O físico passa a ser
interpretado como uma demonstração visível de disciplina, força de vontade e
superioridade pessoal. Nesse ambiente, especialmente em suas versões mais
radicalizadas, podem surgir discursos de desprezo tanto contra pessoas gordas
quanto contra pessoas muito magras. Até mesmo o uso de anabolizantes pode ser
racionalizado como um preço necessário para abandonar uma categoria inferior e
alcançar uma categoria superior de corpo, força e reconhecimento.
A
lógica redpill leva essa estrutura hierárquica ainda mais longe. A sociedade
passa a ser descrita por meio de categorias como “alfa” e “beta”, estabelecendo
uma hierarquia rígida entre os indivíduos. Em suas versões mais extremas, essa
visão não apenas coloca homens e mulheres em posições hierárquicas distintas,
como também sustenta a existência de uma divisão supostamente natural e
biológica entre os próprios homens.
Características
físicas, comportamentais e até elementos específicos da aparência, como o
formato do queixo, podem ser utilizados como supostos indicadores da categoria
humana à qual determinada pessoa pertenceria.
Apesar
das diferenças entre esses três universos, existe uma estrutura comum: a
transformação da sociedade em uma hierarquia de indivíduos. O coach classifica
pessoas de acordo com sua mentalidade e seus resultados financeiros; a cultura
maromba, de acordo com sua aparência e performance física; e a redpill, de
acordo com atributos relacionados a gênero, comportamento e supostas
características biológicas. Em todos esses casos, a posição ocupada pelo
indivíduo tende a ser apresentada como expressão de sua própria natureza, e não
como resultado de uma combinação complexa entre circunstâncias sociais,
condições materiais, escolhas individuais e contingências.
Essa
visão também ajuda a explicar por que essas três ondas frequentemente se
encontram nas mesmas figuras públicas e nos mesmos ecossistemas digitais. Não é
incomum encontrar influenciadores que transitam simultaneamente entre
desenvolvimento pessoal, musculação, estética, masculinidade e discursos
redpill. Os conteúdos podem mudar de tema, mas preservam uma estrutura
narrativa semelhante: existe uma hierarquia, existem indivíduos superiores e
inferiores, e cabe ao indivíduo trabalhar sobre si mesmo para subir nessa
hierarquia.
Nesse
sentido, o que une coaching, cultura maromba e redpill não é necessariamente um
conjunto específico de ideias, mas uma determinada maneira de enxergar o mundo.
É a passagem de uma concepção horizontal da sociedade para uma concepção
hierárquica, na qual diferenças econômicas, físicas, comportamentais e sexuais
são frequentemente transformadas em diferenças de valor entre seres humanos.
É nesse
ambiente que determinados elementos associados ao pensamento neofascista podem
encontrar terreno fértil. A ideia de que a sociedade é naturalmente
hierárquica, de que os indivíduos podem ser classificados em categorias
superiores e inferiores e de que determinadas características físicas ou
comportamentais definiriam o valor de uma pessoa possui afinidades importantes
com formas autoritárias de pensamento. Isso não significa que todo coach, todo
praticante de musculação ou toda pessoa que consome conteúdo redpill seja
neofascista. A relação está na estrutura de determinadas ideias quando elas são
levadas a suas formas mais radicalizadas.
Assim,
a popularização simultânea dessas três ondas não precisa ser entendida como uma
coincidência. Elas podem ser vistas como diferentes expressões de uma mesma
tendência cultural: a transformação da desigualdade social em uma hierarquia
moral e individual. A pobreza torna-se sinal de uma mentalidade inferior; o
corpo fora do padrão, sinal de falta de disciplina; a dificuldade nas relações
afetivas, sinal de pertencimento a uma categoria masculina inferior.
É
justamente por isso que coaching, maromba e redpill podem ser compreendidos
como fenômenos que ultrapassam seus respectivos nichos. Eles expressam uma
mudança mais profunda na maneira como sucesso, fracasso, corpo, masculinidade,
riqueza e valor humano são interpretados. E, em um contexto de crise das
antigas promessas de progresso social, essa visão hierárquica pode adquirir uma
força cultural que vai muito além das redes sociais, tornando-se parte de uma
disputa mais ampla sobre o significado de sucesso, mérito e posição social no
mundo contemporâneo.
Fonte:
Por Bruno Machado em A Terra é Redonda

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