Cérebro
acompanha formato de cada respiração, revela estudo
Cientistas
liderados pela Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos,
revelam que o cérebro não responde à respiração como se fosse um ritmo
constante. Em vez disso, o formato de cada inspiração e expiração individual
está intimamente ligado à atividade neural em regiões cerebrais envolvidas na
cognição, emoção e memória. Os resultados do trabalho foram publicados nesta
segunda (31/08), na revista Journal of Neuroscience.
de uma
respiração para a seguinte. Uma inspiração mais longa, uma expiração mais lenta
ou outras mudanças no ritmo e na intensidade se refletem em padrões
correspondentes de atividade neural, revelando uma conexão muito mais precisa
do que as medidas tradicionais, como a frequência respiratória, conseguem
captar.
"Cada
respiração é diferente", diz a primeira autora do artigo, Eena Kosik-Rose,
doutoranda da UC San Diego. "Você pode pausar a respiração por vários
segundos, inspirar profundamente ou expirar superficialmente. O que estamos
mostrando é que essas diferenças no formato de cada respiração se refletem no
formato da atividade cerebral."
A
pesquisa levanta uma questão antiga na ciência cognitiva e no estudo do
comportamento humano, como algo aparentemente tão automático quanto a
respiração interage com os processos cerebrais que moldam o pensamento, a
emoção e a percepção. Cientistas já descobriram que o ritmo da respiração pode
influenciar a atenção e a memória. As pessoas têm um desempenho ligeiramente
melhor em uma tarefa de memorização quando recebem informações durante a
inspiração, em vez da expiração.
"Nossos
resultados mostram que a relação entre a respiração e a atividade neural é
muito mais complexa do que se imaginava anteriormente", disse Bradley
Voytek, coautor do estudo, professor e chefe do Departamento de Ciência
Cognitiva.
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Padrão ondulatório
De
acordo com Natalia Nasser Ximenes, neurologista do Hospital Santa Lúcia (HSL),
existem evidências de que a respiração pode modular circuitos relacionados à
atenção, memória e emoções, envolvendo estruturas como hipocampo e amígdala.
"Mas essa influência ainda está sendo investigada e certamente não é o
único fator que determina essas funções", esclarece a especialista.
Para
visualizar essa relação, cientistas representaram cada respiração como um
padrão ondulatório, com as subidas e descidas correspondendo às mudanças no
fluxo de ar à medida que a pessoa inspira e expira. Em seguida, compararam a
forma de cada onda com o padrão correspondente de atividade elétrica no
cérebro.
O
estudo analisou registros cerebrais invasivos de 16 pessoas submetidas a
monitoramento clínico para epilepsia resistente ao tratamento. Os pesquisadores
compararam a atividade elétrica registrada diretamente no cérebro com medições
da respiração de cada paciente, incluindo o fluxo de ar nasal e os movimentos
do tórax e abdômen.
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Cautela
Um dos
coautores do estudo, Brian Dlouhy, neurocirurgião da Universidade de Iowa e
estudioso da Sudep, destaca que pesquisas futuras poderiam investigar "se
o padrão respiratório fornece um aviso de que a respiração está prestes a parar
em casos de morte súbita inesperada em epilepsia".
Para a
equipe, as descobertas oferecem uma nova maneira de estudar um dos ritmos mais
fundamentais do corpo e podem, eventualmente, ajudar os pesquisadores a
entender melhor as condições em que a relação entre a respiração e o cérebro se
desregula perigosamente, como na morte súbita inesperada em epilepsia e na
síndrome da morte súbita infantil (SMSI).
"Agora
que sabemos que existe essa ligação incrivelmente estreita e complexa entre o
formato de cada respiração e o formato de cada onda cerebral, há um mundo
totalmente novo de opções que podemos explorar", disse Voytek.
Para
Ximenes, é preciso ter cautela. "O estudo reforça uma ideia muito
interessante, cérebro e respiração estão intimamente conectados. Porém, é
importante não supervalorizar o resultado: trata-se de uma evidência inicial,
que precisa ser confirmada, e não de uma explicação definitiva para memória,
emoções, epilepsia ou morte súbita."
O
estudo se baseou em registros intracranianos de alta precisão de pessoas
submetidas a monitoramento de epilepsia, os resultados também precisarão ser
testados utilizando métodos não invasivos em um número maior de pacientes. No
entanto, a ideia central é simples: uma respiração é mais do que um número.
Cada inspiração e expiração carrega informações, e o cérebro parece rastrear
essas informações com notável precisão — respiração por respiração, ciclo por
ciclo.
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Duas perguntas para Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede
Américas
• O que significa, do ponto de vista
neurológico, descobrir que o cérebro acompanha não apenas a frequência da
respiração, mas também as características de cada inspiração e expiração?
As
variações na frequência respiratória e no tempo de inspiração e expiração podem
modificar algumas variáveis fisiológicas, como o nível de oxigênio no sangue e,
principalmente, a concentração de gás carbônico. É sabido que o fluxo sanguíneo
cerebral responde de maneira diferente aos níveis de oxigênio e, sobretudo, aos
níveis de gás carbônico, ou CO2, presentes no sangue. Além disso, pode haver
pequenas flutuações no pH e em outras características físicas do sangue, que
também podem influenciar, de alguma forma, o funcionamento do cérebro e sua
atividade elétrica. Foi justamente essa atividade elétrica cerebral que os
pesquisadores registraram por meio de eletrodos profundos implantados em
pacientes submetidos a monitoramento para uma possível cirurgia de epilepsia.
• O estudo foi realizado em pacientes com
epilepsia submetidos a registros cerebrais invasivos. Até que ponto esses
resultados podem ser generalizados para pessoas saudáveis ou para pacientes com
outras doenças neurológicas?
Os
pacientes monitorizados com eletrodos invasivos constituem uma população
bastante específica. Esses registros ajudam muito na compreensão da
neurofisiologia, mas não é simples generalizar os resultados para a população
em geral.São pacientes cujos cérebros funcionam de maneira diferente do padrão
considerado normal. Eles convivem com uma doença grave, frequentemente precisam
utilizar diversos medicamentos para controlar as crises epilépticas e podem
apresentar circuitos cerebrais modificados ou afetados pela epilepsia de
difícil controle. Os dados também vêm de uma coorte pequena, formada por uma
população muito específica, e ainda são bastante iniciais. Por isso,
dificilmente podem ser transpostos diretamente para a população geral ou para
situações mais fisiológicas.
Fonte:
Correio Braziliense

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