sexta-feira, 17 de abril de 2026

Thiago Toledo Ferreira da Rocha: Ausência de hegemonia

O ano de 2026 chegou e as eleições convocam a crítica retrospectiva e projetiva. Em setores críticos ao governo, consolidou-se o diagnóstico de que o terceiro governo Lula resignou-se a se tornar um gestor da ordem neoliberal, recusando a mobilização popular e o confronto com o capital, desperdiçando, assim, a oportunidade de construir um novo projeto hegemônico capaz de se afirmar como resistência à inércia neoliberal. Ao fazê-lo, abriu espaço ao retorno do fascismo de extrema direita.

Tal diagnóstico está correto. No entanto, a questão inquietante é o porquê disso. O desafio consiste em compreender até que ponto se trata de uma escolha político-eleitoral, de falta de coragem ou desejo, e até onde tal paralisia é fruto de obstáculos sistêmicos impostos tanto pela dinâmica do capitalismo global quanto pelos entraves institucionais brasileiros.

Colocar boas perguntas é difícil; mais difícil ainda é enfrentá-las. Partamos do início, para enquadrar o governo no cenário maior em que está inscrito: o interregno global.

Advém de Antonio Gramsci a ideia de interregno. O conceito foi formulado pelo autor nos Cadernos do cárcere, escritos na prisão entre 1926 e 1936. O contexto foi o da Primeira Guerra Mundial e da avassaladora crise do capitalismo de 1929, que gerou milhões de desempregados e profunda desintegração social na Europa.

Nesse momento, as classes dirigentes capitalistas perderam sua legitimidade, e o projeto capitalista democrático perdeu sua força de adesão e consenso. Isso deixou um vazio que Antonio Gramsci, informado pela teoria da história de Karl Marx, afirmou que o socialismo preencheria por meio de um novo projeto político, econômico e ideológico. Caberia ao proletariado se preparar para isso.

No entanto, sabemos que não foi isso que ocorreu. Apesar das insurreições proletárias que despontaram nesse momento pela Europa e da Revolução Russa comandada por Vladímir Lênin e Leon Trótsky, a hegemonia socialista do proletariado não se consagrou. Mas não apenas o socialismo não se consagrou, como despontaram os fascismos históricos de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Diante disso, Antonio Gramsci afirmou que tais fenômenos mórbidos e regressivos eram resultado da combinação entre o sofrimento social no interregno e a ineficácia da esquerda em se colocar como nova força hegemônica.

Atualmente, o mundo ocidental vive um interregno análogo ao descrito pelo autor. Como mostrou Wolfgang Streeck, em O tempo comprado, depois do colapso financeiro de 2008, a ordem neoliberal perdeu sua legitimidade, mas prossegue em modo zumbi e com frequência de modo abertamente autoritário. Entende-se aqui por neoliberalismo o processo que se inicia na década de 1970, marcado pelo desmonte do Estado de bem-estar social, desregulamentações, privatizações massivas e austeridade fiscal, o que acarretou o fenômeno da financeirização.

Para Wolfgang Streeck, ainda que o neoliberalismo definhe, o novo – seja um socialismo, seja um novo pacto social-democrata – não consegue nascer, em parte por conta dos entraves sistêmicos legados pelo próprio neoliberalismo, em parte pela ausência de alternativas políticas, econômicas e ideológicas da esquerda mundial. O resultado é um longo período de inércia desordenada, incerteza, degradação e agudização do sofrimento social.

Com efeito, o ponto de Wolfgang Streeck é mostrar como, ao retirar do âmbito democrático grande parte das decisões acerca da política econômica, os governos tornaram-se impotentes para implementar seus programas – algo que Francisco de Oliveira já havia notado ao sublinhar a convergência programática entre PT e PSDB no início dos anos 2000.

À medida que esquerda e direita se tornavam cada vez mais parecidas, a revolta social gerada pela ausência de transformações profundas e pelo aprofundamento da precarização estimulou a adesão a movimentos de extrema-direita. Esse seria, para Wolfgang Streeck, o vínculo entre a crise do capitalismo, datada de 2008, e a crise da democracia, cujo marco é a eleição de Donald Trump em 2016.

Hoje, as possibilidades políticas no interregno oscilam entre uma reconfiguração autoritária do próprio neoliberalismo, à la Donald Trump, Javier Milei e Jair Bolsonaro; um novo modelo capitalista, como o ensaiado pelo governo de Joe Biden; tentativas reformistas corajosas de resistência como o caso de Gustavo Petro; ou manejos que administram a inércia do modelo neoliberal em decadência, como é o caso de Gabriel Boric no Chile e do governo Lula.

A China, por sua vez, desponta na contramão, como nova superpotência mundial, com um arranjo político-econômico surpreendente, candidatando-se à hegemonia mundial, enquanto desaceleram as economias capitalistas dos países da OCDE. Nesse sentido, as atuais guerras no Oriente Médio e as tentativas de subjugação da América Latina por Trump via tarifas, ameaças e violações de soberania nacional assinalam as saídas violentas da decadência da hegemonia estadunidense. Ainda, em meio a inúmeras guerras e disputas de hegemonia, o mundo tem que lidar com um enorme desafio, que exige articulações políticas coordenadas: o colapso ecológico. 

Nesse cenário, governos progressistas, imersos em inúmeras dificuldades, hesitam em se contrapôr à inércia neoliberal, tornando-se gestores dessa situação. A esquerda assumiu, nas duas últimas décadas, a tarefa rebaixada de oferecer avanços – inegociáveis, mas insuficientes – em políticas de reconhecimento social de minorias sociais, abandonando transformações sócio-econômicas profundas. Algo que Nancy Fraser batizou de “neoliberalismo progressista”.

No ano de 1967, quando convidado a falar para estudantes perplexos com o crescimento do partido fascista de extrema direita na Alemanha anos depois do trauma do nazismo, Theodor Adorno insistiu que o fascismo sempre foi o resultado de uma democracia que nunca esteve à altura do seu conceito, que jamais foi capaz de realizar o igualitarismo e o universalismo que prometeu. A democracia liberal capitalista sempre teria guardado o perigo de que a revolta pelo sofrimento social por ela gerada fosse cooptada contra ela mesma.

Teria sido essa a razão para a ascensão de Hitler e Mussolini, a mesma em jogo naquele momento. De forma análoga, o fascismo contemporâneo é fruto da precarização da vida social e do sofrimento social no interior do interregno atual. Ele surge oferecendo respostas desastrosas para problemas muito reais, acolhendo à sua maneira, a revolta social e a rebeldia anti-sistema que outrora fora marca da esquerda.

E o Brasil no meio deste interregno? Pois então. O neoliberalismo penetrou no Brasil nos anos 1980 e se intensificou a partir do governo FHC. A partir de 2016, através dos governos de Michel Temer e sobretudo Jair Bolsonaro, intensifica-se a precarização econômica com um projeto político de extrema direita abertamente autoritário. Sob a retórica de combate à crise fiscal e redução da dívida pública, foi aprovado o teto de gastos em 2017, que atrofiou dramaticamente a capacidade de investimento público.

Na mesma direção, foram aprovadas reformas retrógradas como a reforma trabalhista; além, é claro, de privatizações, ataques a empresas públicas, desmanches de políticas sociais como o Bolsa família, Mais médicos e Minha Casa Minha Vida, redução do investimento em pesquisa, ciência e tecnologia, e a aprovação, em 2021, da independência do Banco Central.

Conforme mostra o livro Brasil no Inferno Global, organizado por André Singer, da perspectiva do interregno, durante os governos do PT, especialmente com Lula, houve um neoliberalismo redutor da pobreza, que se beneficiou do boom das commodities para incluir os mais pobres através de transferências de renda e de crédito. Em 2016, com a crise econômica e o impeachment, entra em cena um neoliberalismo predador, de austeridade fiscal rígida, redução de direitos e reformas antipopulares.

Já com Jair Bolsonaro – nosso fenômeno mórbido – viu-se um projeto autoritário de desmantelamento das instituições democráticas e construção de inimigos internos. Mas, eis que depois de Jair Bolsonaro, Lula vence as eleições. Isso deveria nos lembrar que o interregno explicita um espaço vazio a ser ocupado. Ou seja, ou bem a esquerda se apresenta como esta tendência de futuro, capaz de oferecer um horizonte que resolva o interregno atual, ou a extrema direita o fará – como liás, já o faz.

São duas perguntas que emergem daí. A primeira é: por que Lula não o fez? A segunda pergunta, talvez mais desafiadora, consiste em pensar o que é um projeto hegemônico de esquerda hoje.

Comecemos pela primeira. Tem razão aqueles que denunciam a falta de desejo e coragem política de Lula. A implementação do arcabouço fiscal elaborado por Fernando Haddad mostrou, desde o início, a concessão do governo à política fiscal neoliberal de austeridade fiscal e cortes de gastos sociais. As promessas de campanha de revogação das reformas trabalhista e do ensino médio foram abandonadas, e não houve a tentativa prometida de reestatizar a Eletrobrás.

Foram concedidos enormes subsídios ao agronegócio via plano Safra e postura descompromissada com o meio ambiente; discurso ambíguo e pouco incisivo relativo à diminuição da jornada de trabalho e descompromisso com pautas clássicas da esquerda ligadas à reforma agrária. Novamente, o lulismo mostrou sua face de força despolitizadora e sua estratégia eleitoral de não confrontação ao capital em defesa da classe trabalhadora. Diferente de Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro, por exemplo, as tentativas de mobilização popular a fim de pressionar o congresso por pautas pró-classe trabalhadora foram praticamente nula: quase não se fez pronunciamentos públicos em TV aberta e mobilizações populares.

Por outro lado, a resposta à pergunta “por que Lula não o faz” não pode ser explicada apenas por escolhas políticas ou falta de desejo. É preciso considerar também os entraves estruturais que limitam a ação de governos progressistas hoje. Pois a própria confecção de um projeto hegemônico de esquerda e a viabilidade de sua implementação depende da identificação dessas estruturas bloqueadoras a fim de superá-las. No Brasil, esses obstáculos operam em dois níveis articulados: o nível global, relacionado à dinâmica do capitalismo contemporâneo, e o nível nacional, ligado à configuração institucional e à correlação de forças no sistema político brasileiro.

Em nível global, os dois entraves estruturais são a financeirização vinculada ao processo de descolamento da economia em relação às democracia de massas, e a posição periférica do Brasil na divisão do trabalho internacional.

Conforme argumenta Wolfgang Streck, a autonomia dos Bancos centrais limitam a soberania dos Estados sobre sua política econômica e produzem exigências de austeridade fiscal, enfraquecendo o poder do Estado e pressionando por cortes de gastos e reformas anti-populares. Em países como o Brasil, dependentes de capital estrangeiro e cuja dívida pública é observada por investidores internacionais, as tentativas de ampliação de investimentos sociais são contidas pela pressão dos mercados por equilíbrio fiscal, contenção da dívida pública e austeridade com elevação de juros e pressões por ajustes orçamentários.

Em relação à posição periférica no capitalismo global, sabemos como quase toda África e América Latina são dependentes da exportação de commodities (soja, cana-de-açúcar, minérios e petróleo). No Brasil, a prevalência e força política do agronegócio, bem como a enorme concentração fundiária por ele gerada, bloqueia projetos de reforma agrária e de transição energética voltada ao combate às desigualdades, além, é claro, de provocar danos ambientais brutais e irreversíveis.

A esse respeito, foi Robert Kurz quem mostrou, em O colapso da modernização, como ao longo do século XX, a automação da produção industrial advinda da incorporação da alta tecnologia nos países centrais do capitalismo tornou os países periféricos – que outrora forneciam mão de obra barata às fábricas estrangeiras e competiam com produtos de média complexidade no mercado internacional – simplesmente inúteis e sem competitividade produtiva alguma.

Isso gerou, em países como o Brasil, processos de desindustrialização, por um lado – acarretando em precarização do trabalho e desemprego – e, de outro, endividamento crônico, por conta da dependência de créditos de órgãos como o FMI e Banco Mundial para financiamento de seus próprios gastos públicos. Isso levou Robert Kurz a afirmar, com razão, que, para a periferia, a modernização tão sonhada já foi, a única possível dentro de um sistema onde sua única função possível é a de suporte de expropriação para a exploração e extração do mais-valor no centro do sistema.

À nível nacional, os dois entraves estruturais dizem respeito ao modo de funcionamento do presidencialismo brasileiro e a fragmentação da classe trabalhadora no capitalismo de plataforma. Tais entraves, uma vez articulados, impossibilitam transformações profundas por meio do funcionamento normal das instituições e bloqueia a força popular das ruas.

A cultura política que organiza o sistema político brasileiro desde a redemocratização estrutura-se pela distribuição de recursos políticos, como cargos e emendas parlamentares, e acomodação de alianças e interesses heteróclitos como meio de garantir governabilidade e estabilidade institucional. Essa dinâmica paralisa a implementação de programas políticos e mudanças estruturais mais profundas. A contradição dos governos petistas foi justamente a de utilizar o pemedebismo como estratégia para promover avanços sociais, o que teve como saldo uma regressão política, que naturalizou o pemedebismo e o conservadorismo como mecanismo normal das instituições brasileiras.

No atual governo Lula, formado por uma coalizão amplíssima de partidos ideologicamente distantes, claro está que a estratégia do pemedebismo, para a esquerda, chegou ao seu limite. O que sinaliza a urgência da retomada das articulações entre movimentos sociais e Estado e a luta por uma reforma política capaz de desmantelar a dinâmica conservadora do Estado brasileiro.

Se o sistema político trava mudanças profundas, a solução deveria advir das ruas, de movimentos que, ou criassem alternativas institucionais, ou que pressionassem sistematicamente o Estado por mudanças. No entanto, a desestruturação da classe trabalhadora no contexto do capitalismo de plataforma neoliberal, dificulta as mobilizações populares de esquerda. Estamos diante de outra classe trabalhadora, diferente daquela que elegeu os governos petistas.

O surgimento de capitalismo de plataforma, que produziu os fenômenos da uberização e da pejotização do trabalho, aprofundou esse processo de precarização do trabalho, redução e enfraquecimento dos sindicatos e das identidades coletivas, levando os trabalhadores a uma lógica individualista de sobrevivência, dificultando a construção de projetos políticos e movimentos organizados. Dinâmica que hoje se traveste sob o véu ideológico do empreendedorismo, que foi incorporado pela própria esquerda como maneira de se aproximar das aspirações de parte significativa da população.

Toda teoria crítica comprometida com a realização da justiça social, tenta, à sua maneira, identificar aquilo que bloqueia a emancipação, aquilo impede que os potenciais emancipatórios do presente se realizem. A dificuldade, hoje, talvez seja a de que os obstáculos estejam mais claros que os potenciais. Mas não esqueçamos: enquanto houver sofrimento social, haverá quem sonhe e lute pela emancipação. O compromisso, para aqueles que acreditam em possibilidades, será sempre o de olhar a realidade do ponto de vista do que ela poderia ser, mas ainda não é.

Há casos pelo mundo que mostram como o momento atual – o interregno – exige mais ousadia, radicalização e tentativas de ruptura por parte da esquerda: Zoham Mandami, em NY, Gustavo Petro, na Colômbia, Claudia Sheinbaum, no México, corroboram tal perspectiva. No Brasil, o crescimento político e midiático de um comunista como Jones Manoel, por exemplo, que recoloca no debate público ideias clássicas da esquerda, e que não teme em falar em socialismo brasileiro no século XXI, também é sugestivo nesse sentido.

Pela via inversa, lembremos como inúmeros governos progressistas pouco combativos foram sucedidos por governos fascistas de extrema: Dilma Rousseff sucedida por Michel Temer e Jair Bolsonaro, Alberto Fernandez por Javier Milei, Barack Obama por Donald Trump; além do crescimento alarmante da extrema direita no parlamento francês (Rassemblement Nacional) em meio ao governo Emmanuel Macron e da Afd na Alemanha. No Brasil, Flávio Bolsonaro está despontando nas pesquisas como alguém que pode vencer Lula.

O interregno atual, portanto, não é só um diagnóstico histórico meramente teórico. Ele é o momento em que a esquerda decidirá se continuará administrando o sofrimento social gerado pelas crises contemporâneas, ou se assumirá o desafio de renascer e produzir um novo tempo do mundo. Renascer significa, dentre outras coisas, reconhecer o tamanho do desafio e dos obstáculos a serem enfrentados.

Reconhecer que a inércia neoliberal e o sofrimento social que ela produz não podem ser nosso horizonte de futuro. O interregno é um campo de disputa. Mas, como mostra a experiência histórica, ele não permanece aberto para sempre. E o que a vida quer da gente é coragem.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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