A
extraordinária vida de Richard Burton, explorador inglês que falava 26 línguas,
percorreu o Brasil e se infiltrou em Meca
Existem
biografias que parecem não caber em uma vida só.
A vida
do explorador, espião, diplomata, militar, tradutor e pesquisador antropológico
britânico Richard Francis Burton (1821-1890) dá a impressão de se estender para
além do espaço e do tempo, para tentar englobar todas as façanhas e
controvérsias dos seus 79 anos de existência.
O
aventureiro mais extravagante da era de ouro da exploração vitoriana falava 26
idiomas. Mas, se contarmos os dialetos que ele também dominava, chegamos a 40
línguas.
Burton
se infiltrou na cidade sagrada de Meca (hoje, na Arábia Saudita) e nos bordéis
masculinos de Karachi (hoje, no Paquistão).
Ele
também procurou as nascentes do rio Nilo e traduziu o Livro das Mil e Uma
Noites e o Kama Sutra para a pudica sociedade britânica. Sua tradução
transformou o clássico indiano em um dos livros proibidos mais pirateados da
língua inglesa.
Mas
Burton não viajou pelo mundo apenas para ampliar as fronteiras do Império
Britânico. Como cônsul do Reino Unido no Brasil, Burton viajou do Rio de
Janeiro até o interior de Minas Gerais, navegou de canoa pelo rio São Francisco
e registrou os relatos dos campos de batalha da Guerra do Paraguai (1864-1870).
Ele
também explorou "outras coisas que teriam dado um infarto fulminante à
rainha Vitória [1819-1901]: deuses e religiões exóticas, drogas experimentais
e, sobretudo, sexo e erotismo", destaca o escritor e acadêmico britânico
Redmond O'Hanlon, na sua série sobre exploradores do século 19.
"Alguns
o descrevem como um gênio", prossegue ele. "Outros acreditam que ele
foi um pervertido."
Richard
Burton nasceu em Torquay, no sudoeste da Inglaterra, em 1821. Ele foi criado em
diversos países europeus, incluindo a França e a Itália, onde se estabeleceu
com sua família.
Dotado
de uma capacidade surpreendente para aprender idiomas (e também com pouca
modéstia), Burton afirmava ter aprendido latim com 3 anos de idade e grego, com
4.
Ele foi
admitido no Trinity College de Oxford, no Reino Unido. Ali, aprendeu árabe,
falcoaria, aperfeiçoou a esgrima, cultivou um "esplêndido bigode" que
foi obrigado a raspar, se entediou, desrespeitou normas e foi finalmente
expulso em 1842, por assistir a corridas de revezamento sem permissão.
Advertido
pelas autoridades universitárias, ele as censurou por tratarem os estudantes
como crianças, "fez uma cerimoniosa reverência" e foi embora.
Mas o
fez com estilo: alugou uma carruagem a cavalos com outro aluno infrator, e os
dois saíram pela rua principal de Oxford, tocando um trompete de folha de
flandres, para se despedir dos amigos, beijando as mãos das vendedoras.
Sua
teatralidade e rebeldia o acompanharam por toda a vida, valendo a ele um
apelido: "Dick, o rufião".
Ele
próprio se definia como "um vagabundo, um extraviado... um lampejo de luz,
sem rumo fixo". E, talvez pela sua infância na Europa, longe do seu país
de origem, ele se queixava de que "a Inglaterra é o único país onde nunca
me sinto em casa".
Diferentes
biografias o descrevem como um homem de superlativos e excessos, que
frequentava bordéis e bibliotecas, tavernas e drogas, com grande cultura e
curiosidade infinita que o impulsionaram a explorar as diferentes sociedades
dos locais por onde viajou.
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O relatório de Karachi
Uma
história curiosa conta como Burton viveu intensamente, sem medo de entrar de
corpo e alma em tudo aquilo que o rodeava.
Depois
de abandonar Oxford, ele entrou para o exército da Companhia Britânica das
Índias Orientais, onde serviu sob o comando do impiedoso general Charles Napier
(1786-1860).
Burton
aprendeu grande parte das línguas locais, como gujarati, punjabi, telugu,
pashto, marati e hindustâni, além do persa e do árabe, que já dominava. Com
isso, ele se tornou peça importante para os serviços de inteligência.
Para se
camuflar entre a população local e conseguir entrar onde o homem branco nunca
poderia colocar os pés, Burton deixou o cabelo crescer até os ombros, além de
cultivar uma barba grande e espessa.
Ele
também tingia as mãos e as pernas com henna, para se passar por "Mirza
Abdullah". Ele afirmava ser comerciante do Golfo Pérsico, com ascendência
árabe-persa, para camuflar seus possíveis erros de pronúncia.
Sendo o
único oficial britânico que sabia falar sindi (a língua da região onde fica
Karachi), Napier o destacou em 1845 para investigar os bordéis homossexuais da
cidade. Seu objetivo era pôr fim à prostituição masculina.
Acompanhado
de amigos locais, "Mirza Abdullah" visitou, noite após noite,
diferentes bordéis.
Burton
teria realizado seu trabalho com tamanha atenção aos detalhes que causou um
grande rebuliço na sociedade vitoriana. Com isso, ele acabou prejudicando seu
futuro no exército para sempre.
Seu
relato de que grande parte dos clientes dos bordéis era composta de soldados e
oficiais britânicos também não serviu à sua carreira, segundo algumas
biografias.
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Destino: Meca
Burton,
então, voltou à Inglaterra, onde escreveu diversos livros sobre os costumes dos
vários povos indianos. Mas o comichão da aventura e da exploração não o
abandonou.
Um dos
seus grandes desejos era visitar Meca e Medina, as cidades sagradas de
peregrinação dos muçulmanos. A entrada em Meca era proibida para os que não
professam o Islã, como acontece até hoje.
Naquela
época, quem violasse a proibição enfrentava a pena de morte. Mas isso não
assustou Burton.
Ele
passou anos estudando "teologia muçulmana, aprendeu grande parte do Corão
de memória e se transformou em um 'especialista na oração'", segundo sua
exaustiva biografia escrita por Thomas Wright em 1909, The Life of Sir Richard
Burton (A vida de Sir Richard Burton, em tradução livre).
Para se
camuflar, desta vez, ele adotou a aparência de um médico pashto, com o nome
"Sheij Abdullah", e afirmava ser procedente da região do Afeganistão.
Burton
raspou a cabeça e deixou crescer novamente a barba. Um amigo seu afirmou que
ele chegou a ser circuncidado, para dar ainda mais realismo ao personagem.
Desta
forma, Burton viajou da Inglaterra para o Cairo em 1953, onde comprou seu traje
de peregrino e realizou os preparativos para viajar até a Terra Santa do Islã.
Isso,
não sem antes sair para beber com um capitão albanês que acabara de conhecer.
Quando a notícia se espalhou, Sheij Abdullah achou melhor partir o quanto
antes.
Ele
começou uma viagem de camelo até Suez (hoje, no Egito), por meio de "uma
terra desértica, infestada de feras selvagens e de homens ainda mais
selvagens", segundo a biografia escrita por Wright.
Em
Suez, ele conheceu alguns moradores de Medina e Meca, que seriam seus
companheiros de viagem.
Um
deles era "Sa'ad, o Demônio" — "um negro que levava duas caixas
de roupas elegantes para suas três esposas de Medina". Outro era Sheij
Hamid, "um 'árabe alto e magro, com cheiro de suor', que nunca fazia suas
orações porque tinha preguiça de retirar roupa limpa da sua caixa".
Este
tipo de detalhe fez do livro sobre a viagem, Pilgrimage to El-Medinah and
Meccah (Peregrinação a Medina e Meca, em tradução livre), um grande sucesso na
Inglaterra, um país ao mesmo tempo preconceituoso e ávido por relatos exóticos.
Após
uma travessia de barco, eles atingiram o porto de Yanbu (hoje, na Arábia
Saudita). Dali, eles conseguiram chegar a Medina, depois de serem atacados por
beduínos no caminho.
Burton
visitou os lugares sagrados da cidade e presenciou a entrada em Medina de uma
"grande caravana procedente de Damasco [hoje, Síria], composta por 7 mil
pessoas: grandes senhores em magníficas liteiras verdes e douradas, enormes
dromedários sírios brancos, cavalos e mulas ricamente adornadas, devotos hajis
[peregrinos], vendedores de sorvete, carregadores de água e uma imensidão de
camelos, ovelhas e cabras".
Impossível
não ser seduzido por tamanho espetáculo.
Burton
se juntou a uma caravana que seguia em direção a Meca, onde chegou no dia 11 de
setembro de 1853. Ali, como mais um membro da umma, a comunidade islâmica, ele
realizou todos os ritos religiosos.
Burton
deu sete voltas em torno da Caaba, a construção sagrada em direção à qual os
muçulmanos orientam suas orações. E chegou a gerar uma pequena contenda com
alguns persas, a quem seu criado Mohamed chamou de porcos, ao abrir caminho
para conseguir beijar a Pedra Negra, a rocha sagrada engastada em um dos cantos
da Caaba.
"Enquanto
a beijava e friccionava minhas mãos e minha frente contra ela, eu a observei
detidamente e saí dali convencido de que se tratava de um aerólito",
escreveu Burton.
Ele fez
anotações e desenhos escondidos da Caaba e imaginou que, entre todos os fiéis
que choravam agarrados às cortinas que cobrem o lugar sagrado, nenhum deles
sentia uma emoção mais profunda do que ele, ainda que reconhecendo que se
tratava do "êxtase do orgulho satisfeito".
É
possível que Burton não tenha sido o primeiro ocidental a entrar em Meca, mas
foi o primeiro a narrar minuciosamente os rituais e costumes muçulmanos, sem
poupar detalhes sobre a sua aventura, alimentando assim sua própria lenda.
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Em busca das nascentes do Nilo
Seu
livro foi um sucesso. Mas, em vez de voltar à Inglaterra para desfrutá-lo,
Burton decidiu viajar para outro lugar que, na época, também era proibido para
os não muçulmanos: a cidade de Harar, no chifre da África, onde hoje fica a
Etiópia.
Desta
vez, ele chegou vestido de mercador turco e conseguiu com que o amir (príncipe)
da cidade permitisse que ele se alojasse ali por dez dias.
Burton
era arrojado, mas tinha consciência, como destaca Thomas Wright.
"Quando
pensava que estava sob o teto de um príncipe intolerante e sanguinário, com
suas sujas masmorras ressoando com os gemidos de prisioneiros acorrentados e
quase mortos de fome, em uma cidade que detestava os estrangeiros, ele, como o
único europeu que já havia cruzado aquele inóspito umbral, se sentia
naturalmente incomodado."
Depois
de incluir Harar na sua lista de façanhas, Burton se voltou para as lendárias
nascentes do Nilo, um mistério que corroía a curiosidade de muitos
exploradores.
Dos
dois principais ramos que alimentam o rio, sabia-se que o Nilo Azul tem sua
origem na Etiópia, mas não se sabia onde nasce o Nilo Branco.
Sua
primeira tentativa de chegar às nascentes foi frustrada quando sua expedição
foi atacada por cerca de 300 nativos berberes. Dela também participava o
oficial e explorador inglês John Speke (1827-1864),
Os
guerreiros mataram alguns membros do grupo e feriram Speke no ombro e nas
pernas. Burton recebeu uma lança no rosto que deixou sua característica e
assustadora cicatriz.
Ele
viajou para a Inglaterra para se tratar. Depois, Burton foi voluntário na
guerra da Crimeia (1853-1856) e retomou a aventura em busca das nascentes do
Nilo.
Ele
partiu da ilha de Zanzibar (hoje, parte da Tanzânia), com Speke e 132
transportadores. E, em vez de percorrer o Nilo rio acima, Burton imaginou que a
forma mais rápida de encontrar as nascentes seria atravessando o continente a
partir do Oceano Índico.
Sua
expedição sofreu todos os males possíveis, atravessando florestas, pântanos e
sofrendo picadas de todo tipo de insetos.
Por
isso, Burton e Speke chegaram acometidos de malária e quase cegos ao lago
Tanganica, que nenhum homem branco havia visto até então.
Speke
se recuperou mais rapidamente e, quando ambos comprovaram que o lago Tanganica
não era a nascente do Nilo, ele seguiu caminho em direção a uma outra grande
massa de água que, segundo seus homens, ficava a várias semanas de viagem para
o norte.
Speke
deixou Burton para trás se recuperando e chegou ao local, a que ele deu o nome
de Lago Vitória, em homenagem à monarca britânica. Atualmente, o lago é
compartilhado por Uganda, Quênia e Tanzânia.
Speke,
então, concluiu ter resolvido o mistério. Mas sua descoberta gerou um ácido
confronto com Burton, que não acreditou nele. E a disputa foi aumentando quando
eles regressaram à Inglaterra.
Uma
segunda expedição de Speke ao lago Vitória confirmou sua teoria, manchando
ainda mais a reputação de Burton. Mas aquela não foi a última aventura do
explorador.
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Cônsul e tradutor
Burton
viajou para os Estados Unidos para estudar os mórmons em Salt Lake City. Ele
escreveu um livro a respeito, intitulado The City of the Saints (A cidade dos
santos, em tradução livre).
Ele se
casou com uma aristocrata e foi enviado como cônsul a Fernando Pó, onde ficava
a capital da então colônia espanhola Guiné Equatorial.
Dali,
ele lançou novas expedições para diferentes pontos da África e escreveu pelo
menos mais cinco livros sobre os costumes dos povos que ele encontrava, com
seus fetiches, canibalismo e rituais sexuais.
Burton
também esteve no Brasil. Ele foi cônsul britânico em Santos (SP), onde traduziu
para o inglês Os Lusíadas e outros escritos de Luís de Camões (c.1524-c.1579).
Suas
obras (escritas originalmente em inglês) também incluem Viagem de Canoa de
Sabará ao Oceano Atlântico (Ed. Garnier, 2019), Viagem do Rio de Janeiro a
Morro Velho (Ed. Itatiaia, 1976) e Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai
(Ed. Ponto da Leitura, 2001).
Burton
também trabalhou como cônsul em Damasco e, em 1872, aceitou o consulado de
Trieste, na Itália, seu último destino.
Em
Trieste, longe do exotismo que perseguiu por toda a vida, Richard Burton se
dedicou à literatura. Ele escreveu sobre a Islândia e os etruscos e traduziu
Catulo (c.84 a.C.-c. 54 a.C.) e Giambattista Basile (1566-1632).
Agora,
ele viajava com a imaginação e sua própria erudição.
Talvez
essa curiosidade sem complexos, especialmente em relação aos aspectos mais
íntimos das relações humanas, tenha oferecido a ele os rendimentos que
permitiram que ele vivesse confortavelmente na velhice.
Correndo
o risco de ser preso, Burton traduziu e publicou secretamente o Kama Sutra. Com
isso, ele trazia para o Ocidente a sabedoria sexual dos manuais orientais sobre
o amor.
E
também publicou uma versão sem censura do Livro das Mil e Uma Noites,
acompanhada de ensaios sobre pornografia, homossexualidade ou educação sexual
para mulheres.
"Traduzo
um livro duvidoso na minha velhice e imediatamente ganho 16 mil guinéus",
teria ele dito à sua mulher, Isabel. "Agora que conheço os gostos da
Inglaterra, nunca nos faltará dinheiro."
Mas
ela, católica praticante, não parecia tão satisfeita com os gostos do seu
marido.
No dia
seguinte à morte de Burton, temerosa da reputação póstuma que perseguiria seu
marido na pudica Inglaterra vitoriana, Isabel entrou no seu escritório e
queimou vários manuscritos.
Entre
eles, havia uma nova tradução do manual amoroso árabe do século 15, O Jardim
Perfumado. Ele havia passado os últimos 14 anos trabalhando na obra e incluído
um último capítulo sobre a homossexualidade, que nunca havia sido traduzido
antes.
Foi
preciso esperar quase cem anos para que outra tradução pudesse vir à luz.
Fonte:
BBC News Brasil

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