“Massacre
de Eldorado do Carajás tinha um objetivo: impedir a territorialização do MST”
Após 30
anos do Massacre de Eldorado do Carajás, no fatídico 17 de abril de 1996, em
que uma tropa de 164 policiais militares do Pará preparou uma emboscada contra
1.500 famílias do MST, mobilizadas no município de Eldorado do Carajás pela
desapropriação da Fazenda Macaxeira, no Pará, resultando no assassinato de 21
trabalhadores rurais, a violência contra os trabalhadores Sem Terra segue
derramando sangue dos mártires da terra na região sul e sudeste do Estado.
Este
ano, mais uma vez o MST realiza a Jornada Nacional de Luta pela Reforma
Agrária, que acontece de 13 a 17 de abril, com um caráter histórico em memória
dos trabalhadores massacrados, com marchas, a organização do 20º Acampamento
Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves, e um conjunto de ações de
denúncia e reivindicações pela democratização da terra e a Reforma Agrária
Popular no país.
Mesmo
após três décadas o Massacre segue impune, com somente duas pessoas
responsabilizadas pelos crimes: o coronel Mário Colares Pantoja (sentenciado a
228 anos) e o major José Maria Pereira Oliveira (sentenciado a 154 anos), que
comandaram os policiais, além da falta de reparação por parte do Estado
brasileiro às famílias das vítimas e a continuidade da violência no território
paraense.
Para
entender melhor esse contexto de impunidade na região do Massacre, a Página do
MST conversou com o agente e advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do
sul e do sudeste do Pará, José Batista Afonso. Ele fala sobre a questão da
impunidade e de como o Massacre não pode ser visto como um caso isolado, mas
precisa ser analisado a partir da articulação de segmentos poderosos da região,
que seguem perpetuando a violência no campo contra os trabalhadores Sem Terra.
Segundo
Afonso, as regiões sul e sudeste do Pará concentram o maior número de
assassinatos no campo do país. “Essa região sempre foi marcada por muitos
conflitos, que se agravaram com a Guerrilha do Araguaia, em que as lutas pelo
acesso e defesa dos territórios sempre foram tratadas pela polícia a ferro e
fogo, com muitos dos camponeses e suas lideranças assassinadas”, denuncia.
Confira
a entrevista na íntegra:
• Por que só duas pessoas foram
responsabilizadas pelo Massacre de Eldorado do Carajás, quando havia um
conjunto de responsáveis a serem responsabilizados, direta e indiretamente
envolvidos no crime?
O
Governador [do Pará na época, Almir Gabriel (PSDB)], o secretário de Segurança
Pública e o comandante geral da Polícia Militar eram os chefes das polícias
civil e militar. Tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil abririam
investigações sobre o ocorrido, mas estava claro que os subordinados não iriam
investigar seus chefes. Eles nem foram investigados nem tiveram que responder a
algum inquérito em razão das mortes.
Quem
poderia alterar essa situação seria o Ministério Público, na pessoa do
procurador geral, que à época também não demonstrou nenhum interesse em
desenvolver qualquer tipo de investigação que responsabilizasse essas
autoridades. Inclusive, tempos depois, o então procurador do Ministério Público
se tornou secretário de Segurança Pública do Governo do Estado. De acordo com
denúncias dos movimentos sociais à época, a promoção, sem dúvida, tinha relação
com o comportamento dele em não requerer investigação do governador, secretário
de Segurança Pública e do comandante da Polícia Militar da época.
• Como foram realizadas as investigações
do Massacre?
As
investigações foram mal conduzidas, não teve perícia no local do crime, não
teve reconstituição, além de outros procedimentos que seriam obrigatórios. Em
razão disso, não avançaram no sentido de identificar todos os policiais que
tiveram participação direta nos crimes. A gente sabe que participaram da
operação que resultou no Massacre de Eldorado do Carajás — eram 164 policiais
militares, incluindo soldados e oficiais, mas somente 155 foram a julgamento
popular, em que oito eram oficiais e 147 eram soldados. A investigação deveria
ter feito um esforço de individualizar as condutas sobre quais policiais
realmente atiraram e quais policiais foram os autores dos homicídios, e quais
tiveram algum tipo de participação em relação às mortes. Mas todos foram denunciados
sem individualizar a responsabilidade de cada um.
Esse
fato acabou favorecendo a absolvição dos policiais no Tribunal do Júri, porque
no Tribunal do Júri há a necessidade de individualização das condutas e, não
havendo essa individualização, julgar coletivamente os policiais acabou
favorecendo a impunidade em relação à totalidade deles. Somente os dois
comandantes foram condenados.
• O que poderia ter sido feito para
corrigir esse problema?
Acho
que deveria ter concentrado mais esforços e pressão para que a polícia federal
pudesse ter colaborado no processo de investigação. Não se tratava de
federalização, pois, não existia essa possibilidade jurídica ainda, mas acho
que poderia atuar de forma paralela, instaurando um inquérito para investigar
os crimes.
Isso
foi feito, por exemplo, em relação ao assassinato da missionária Dorothy Stang
e em relação ao massacre de Pau D’Arco. E foi graças aos inquéritos abertos
pela Polícia Federal e conduzidos por ela que foi possível prender todos os
responsáveis pela morte da missionária Dorothy e individualizar e
responsabilizar os policiais civis e militares que participaram do massacre de
Pau D’Arco, em 2017.
• Após o massacre com o assassinato de 21
trabalhadores rurais do MST, que outros crimes ocorreram por falta de
responsabilização e punição dos envolvidos no Massacre?
É bom
lembrar que apenas dois anos após o Massacre, no ano de 1998, doze policiais
militares que participaram do massacre de Eldorado [do Carajás] se envolveram
em uma operação totalmente ilegal, na Fazenda Goiás Dois, no município de
Parauapebas, que resultou no assassinato de duas das principais lideranças do
MST na região [sudeste do Pará]: Valentim Silva Serra e Onalício Araújo Barros,
conhecido como “Fusquinha”. Nem os policiais sofreram algum tipo de condenação
e muito menos os fazendeiros que participaram conjuntamente da operação com os
policiais, e até hoje ninguém foi punido por esse crime.
No
período pós massacre de Eldorado, vários outros casos de assassinatos ocorreram
na região, inclusive com o assassinato de muitas lideranças sindicais,
políticas e ambientalistas, e, em raríssimos casos, poucos deles, os processos
foram concluídos e algum responsável punido, como no caso da missionária
Dorothy Stang, e o caso do sindicalista José Dutra da Costa. Nesses dois casos
houve julgamento e punição dos responsáveis pelos crimes; os demais, mais de
três dezenas de assassinatos, continuam totalmente impunes.
• Como o estado brasileiros e o poder
Judiciário colaboraram e seguem colaborando para a impunidade do Massacre de
Eldorado do Carajás, em 30 anos? Qual o papel desses poderes para assegurar a
justiça nesse caso?
De
acordo com os registros feitos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), nas
últimas quatro décadas, no Estado do Pará, ocorreram mais de 1 mil assassinatos
de camponeses. Desse total, mais de 90% dos casos continuam totalmente impunes,
sem nenhuma responsabilização para os executores, intermediários ou mandantes.
Esse é
um índice altíssimo de impunidade. Ele é resultado de relações históricas do
Estado brasileiro, do Poder Judiciário e das policias com o latifúndio, que
controlam o poder político econômico na região e têm influências políticas
fortes por dentro desses órgãos“.
• Por que a reparação às vítimas do
Massacre tardou tanto em chegar e de que forma isso se converte em mais crime e
descaso?
As
familiares das vítimas e os sobreviventes do Massacre, que receberam algum tipo
de indenização, foram graças a muita pressão feita pelo Movimento Sem Terra nos
anos posteriores ao massacre. Mas ainda há muitos familiares, muitos
sobreviventes que sequer receberam um centavo do Estado brasileiro até hoje.
Inclusive
em razão desse descaso com os direitos dos familiares das vítimas, a CPT, o
setor de Direitos Humanos do MST e o CEJIL [Centro pela Justiça e o Direito
Internacional] ingressaram com uma denúncia na Comissão Interamericana de
Direitos Humanos da OEA, contra o Estado brasileiro. Esse processo está
tramitando ainda e nós estamos aguardando sair uma decisão nesse processo de
responsabilização do Estado brasileiro.
• Como a impunidade do Massacre de
Eldorado do Carajás retroalimenta o poder do latifúndio e estimula mais
massacres e violência contra os trabalhadores dos movimentos populares no
campo, principalmente no Pará? Como enfrentar isso?
A
impunidade é uma das causas da violência no campo. Claro que existem outras
causas, como por exemplo, o processo da concentração histórica da terra e o
avanço dos interesses do grande capital em direção ao campo, controlando as
terras e o modo de produção.
Historicamente,
o Brasil foi um país marcado pela alta concentração da terra, formando grandes
latifúndios. E quem controla as terras não tem só um poder econômico muito
grande, mas tem também influências políticas muito fortes.
Esses
setores, a cada ano que passa, ampliam seus poderes dentro do espaço político
brasileiro. Basta olhar a composição hoje do Congresso Nacional. A grande
maioria dos deputados e senadores ou são ruralistas ou são financiados por eles
para se elegerem. Isso faz com que consigam se manter impunes em relação aos
crimes no campo e tenham a facilidade de controlar as terras, e com isso as
próprias riquezas.
• Por que o Massacre de Eldorados do
Carajás não foi um caso isolado na luta pela terra no estado do Pará e em todo
Brasil?
O
massacre de Eldorado não foi um caso isolado, mas uma articulação entre setores
da política do Estado do Pará, a Polícia Militar, os fazendeiros. O objetivo
era mais do que dar um recado para o MST. Era impedir a territorialização do
MST no sul e sudeste do Pará.
Essa
região sempre foi marcada por muitos conflitos, que se agravaram com a
Guerrilha do Araguaia, em que as lutas pelo acesso e defesa dos territórios
sempre foram tratadas pela polícia a ferro e fogo, com muitos dos camponeses
assassinados. Essa é a região com o maior número de assassinatos no campo, no
país.
Muitos
dos assassinatos foram praticados pelos próprios policiais. Basta lembrar que
os três massacres ocorridos na região — no massacre de Eldorado [do Carajás], o
massacre de Pau D’Arco e o massacre dos Garimpeiros na ponte do Rio Tocantins —
todas as mortes foram de autoria das Polícias Militar e Civil. Isso mostra que
a luta pela terra nessa região sempre sofreu perseguição, com muitos
assassinatos e a polícia, muitas vezes, atuou como braço do latifúndio e
exercendo o papel de pistoleiros. Então, o massacre tinha um objetivo: era
tentar impedir que o MST pudesse se organizar e se estruturar nessa região do
sudeste do Pará.
Fonte:
Por Solange Engelmann, da Página do MST

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