Após
passagem da BYD pela Lista Suja da escravidão, chefe da fiscalização é demitido
QUATRO
DIAS após a BYD ter sido incluída na Lista Suja do Trabalho Escravo do governo
federal, o secretário nacional de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de
Mello, foi dispensado de suas funções no Ministério do Trabalho e Emprego. A
saída foi assinada pela Casa Civil da Presidência da República, na sexta (10),
e publicada nesta segunda-feira (13) no Diário Oficial da União.
A
gigante chinesa dos automóveis elétricos foi inserida na atualização semestral
do cadastro no último dia 6, mas obteve decisão liminar da Justiça do Trabalho,
sendo retirada dois dias depois. A entrada da montadora na Lista Suja teve
repercussão até em Pequim. Instado a comentar sobre o caso, o Ministério das
Relações Exteriores chinês afirmou que o país atribui grande importância à
proteção dos direitos dos trabalhadores e exige que suas empresas cumpram as
leis.
A
reportagem procurou o Ministério do Trabalho e Emprego, órgão ao qual a
secretaria está subordinada, em busca de uma posição. O texto será atualizado
assim que ela for enviada.
A SIT
(Secretaria Nacional de Inspeção do Trabalho) é responsável pela fiscalização
do cumprimento das normas e leis em território nacional, resultando na autuação
dos infratores, aplicação de multas e, eventualmente, interdição de
estabelecimentos que coloquem em risco a vida de pessoas. Entre as atribuições,
está o combate ao trabalho escravo e ao trabalho infantil.
A
Anafitra (Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho) manifestou
repúdio à exoneração, vinculou-a à inclusão da BYD na Lista Suja e afirmou, em
nota, que “o episódio ocorre em meio a uma sequência de interferências” do
ministro do Trabalho, Luiz Marinho.
“O
combate ao trabalho escravo é uma política de Estado, não pode ficar sujeito à
vontade de governos ou autoridades de ocasião”, afirma Rodrigo Carvalho,
auditor fiscal do trabalho e membro da coordenação executiva da associação.
O
Sinait (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho) também publicou
nota, informando a saída do secretário, agradecendo o apoio às demandas
apresentadas pela categoria.
<><>
Fiscais resgataram 163 chineses de obra da BYD na Bahia
O
cadastro de empregadores responsabilizados por mão de obra análoga à de
escravo, a chamada Lista Suja, é atualizado semestralmente pela SIT desde
novembro de 2003, quando foi criado. Nela, são inseridas as empresas e pessoas
físicas cujas autuações foram confirmadas após o empregador ter direito à
defesa administrativa em duas instâncias.
Na
atualização de abril, 169 novos nomes foram incluídos, totalizando 613
empregadores. A relação é considerada pela ONU um dos mais relevantes
instrumentos de combate ao trabalho escravo no mundo.
A BYD
foi incluída na Lista Suja por ser considerada diretamente responsável por
submeter 163 trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão durante a
construção de sua fábrica em Camaçari (BA). O número foi identificado na
primeira operação de fiscalização, realizada por uma força-tarefa em dezembro
de 2024. Posteriormente, com o avanço das apurações, o total de trabalhadores
resgatados chegou a 224.
Os
auditores fiscais do MTE não acataram a alegação da empresa de que os
trabalhadores eram de uma empresa terceirizada e, portanto, não estavam sob sua
responsabilidade. Também apontaram a montadora chinesa como a empregadora dos
trabalhadores resgatados e afirmam que a companhia estabeleceu vínculo
empregatício direto com eles.
Segundo
a fiscalização, contratos analisados previam jornada de dez horas por dia, seis
dias por semana, com possibilidade de extensão — o que levaria a uma jornada
semanal de 60 a 70 horas, muito maior do que o limite legal no Brasil, de 44
horas.
Também
foram constatadas condições degradantes nos alojamentos. Um deles contava com
um único vaso sanitário para 31 trabalhadores. Segundo a fiscalização, muitos
dormiam sem colchões. Também não havia armários: os alimentos se misturavam a
roupas e pertences pessoais, criando um ambiente insalubre.
A BYD
foi procurada pela Repórter Brasil no momento da inclusão no cadastro, mas não
respondeu. Dois dias depois, o juiz Luiz Fausto Marinho de Medeiros, da 16ª
Vara do Trabalho de Brasília, suspendeu a inclusão na lista, afirmando não ver
vínculo da empresa com os trabalhadores, apontando que o STF reconhece a
legalidade da terceirização e vendo risco de prejuízo à montadora se
permanecesse no cadastro. O mercado usa a lista como referência para o
gerenciamento de risco de seus negócios.
<><>
Ministro do Trabalho passou a dar a palavra final, gerando críticas
Auditores
fiscais do trabalho vêm acusando a gestão do ministro Luiz Marinho de
interferir no resultado das operações, o que beneficiou empresas
responsabilizadas por esse crime, como a JBS. Uma paralisação dos resgates de
trabalhadores chegou a ocorrer no ano passado, afetando a maioria das
superintendências regionais do Ministério do Trabalho e Emprego.
Em
setembro, Marinho havia avocado a decisão final sobre a entrada da JBS Aves na
Lista Suja. Ou seja, chamou para si a análise de processos administrativos já
concluídos pela fiscalização, impedindo a publicação dos nomes das empresas no
cadastro.
O
ministério afirma que a avocação é prerrogativa prevista na CLT para o chefe da
pasta. Contudo, o Ministério Público do Trabalho afirma que isso entra em
choque com tratados internacionais ratificados pelo Brasil.
Vale
lembrar que, em setembro do ano passado, o empresário Joesley Batista, dono da
JBS, empenhou-se em ajudar o governo Lula a flexibilizar o tarifaço imposto
pelos Estados Unidos, de Donald Trump, a produtos brasileiros. A medida, que
gerou perda de empregos e prejuízo às empresas, havia sido articulada pelo
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados a fim de pressionar o
Brasil a não condenar Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. Com
forte presença nos EUA, Joesley teve reunião com Trump para tratar do tema.
Outras
três pessoas jurídicas vieram na sequência, beneficiadas pela mesma decisão,
mas por razões diferentes.
Em
visita ao Brasil no ano passado, o relator especial da ONU para formas
contemporâneas de escravidão, Tomoya Obokata, recomendou ao país garantir que
não houvesse interferência política em questões relacionadas à Lista Suja.
• Diesel ‘verde’ feito nos EUA tem elo com
empresa condenada em caso de desmate
A DGD
(Diamond Green Diesel), fabricante de biocombustíveis dos Estados Unidos que
exporta diesel “verde” e combustível sustentável de aviação (SAF) para a
Europa, comprou sebo bovino de um fornecedor abastecido por um frigorífico
diretamente implicado em um caso de criação clandestina de gado dentro da Resex
(Reserva Extrativista) Jaci Paraná, em Rondônia.
Em
2022, num documento judicial acessado pela reportagem, a exportadora de gordura
animal Pacífico informou que o frigorífico Distriboi era o seu principal
fornecedor de matérias-primas. Dois anos depois, o frigorífico foi condenado ao
pagamento de danos materiais e morais por adquirir, entre agosto de 2020 e
janeiro de 2022 , animais oriundos da Resex Jaci Paraná. Segundo autoridades
ambientais de Rondônia, a instalação de pastagens na reserva está ligada ao
desmatamento de uma área equivalente à do município de São Paulo.
A
Pacífico está localizada em Cacoal, Rondônia, e exportou para a DGD, entre 2023
e 2025, quase 15 mil toneladas de sebo bovino, insumo usado na produção de
combustível classificado pela empresa como “sustentável”. A informação foi
obtida em documentos alfandegários acessados em investigação realizada com o
apoio do Journalismfund Europe, e conduzida em parceria com a Unearthed.
Neste
mesmo período, ainda segundo dados alfandegários, a companhia norte-americana
exportou milhares de toneladas de biodiesel e SAF (combustível sustentável de
aviação, em inglês) para a Europa. Foram 176 mil toneladas destinadas ao Reino
Unido em 2024 e 2025, além de 261 mil toneladas exportadas para Holanda,
Noruega e Bélgica apenas em 2025.
Em
setembro de 2025, outra investigação da Repórter Brasil já havia mostrado que a
DGD comprou sebo de graxarias com histórico de aquisição de resíduos do abate
oriundos de frigoríficos abastecidos por
fazendas autuadas por desmatamento ilegal.
A
Pacífico é subsidiária do Grupo Fasa, uma empresa brasileira de processamento
de subprodutos da indústria do abate. A Fasa pertence desde 2022 à
multinacional norte-americana Darling Ingredients, que, por sua vez, também é
uma das donas da DGD por meio de uma joint venture com a Valero Energy. A
Valero Energy é uma das maiores refinarias de petróleo dos Estados Unidos.
Procuramos
todas as empresas desse grupo econômico para comentar a conexão de fornecimento
indicadas no processo judicial, na ação que gerou a condenação da Distriboi e
nos dados aduaneiros.
A
Darling Ingredients afirmou que está comprometida em garantir que suas
matérias-primas “sejam livres de desmatamento.” Também disse que “a Pacífico
não recebe matéria-prima do frigorífico Distriboi, em Ji-Paraná”, mas não
esclareceu se recebe insumos da outra planta abate da empresa, em Rolim de
Moura, ou se já recebeu no passado da unidade de Ji-Paraná — a planta
diretamente implicada no caso que deu origem à condenação judicial do
Distriboi.
“Estamos
em processo de exigir que todos os fornecedores de matérias-primas atestem que
seus produtos são livres de desmatamento”, afirmou a empresa em nota.
A DGD,
a Valero e a Pacífico não responderam até a publicação desta reportagem. O
texto será atualizado caso haja manifestação delas.
Por
meio de seus advogados, a Distriboi disse que não se pronunciaria sobre os
processos em curso, “em respeito ao Código de Ética da OAB (Ordem dos Advogados
do Brasil), à legislação pertinente e às cláusulas contratuais de
confidencialidade”. A íntegra da resposta pode ser lida aqui.
<><>
Reserva com quase 800 fazendas ilegais
Criada
em 1996, Jaci-Paraná é uma unidade de conservação estadual onde só são
permitidas atividades de subsistência de comunidades tradicionais que ajudam a
preservar a Amazônia, como seringueiros e catadores de castanha e açaí. Nas
últimas duas décadas, porém, extrativistas deixaram seus territórios e
abandonaram suas casas após sofrerem ameaças de morte, de acordo com a PGE
(Procuradoria Geral do Estado) de Rondônia.
Em
2024, a Procuradoria estadual constatou que existiam 778 fazendas ilegais de
criação de gado em áreas que deveriam ter a floresta preservada. O órgão move
52 ações civis públicas para responsabilizar grileiros e empresas que teriam se
beneficiado da ocupação ilegal. A PGE de Rondônia cobra mais de R$ 538 milhões
em indenizações, multas e valores para recuperação florestal nas ações.
“Se é
gado oriundo do crime, da grilagem, do desmatamento ilegal, esse combustível
não é verde. É combustível oriundo do crime ambiental. E é assim que tem que
ser tratado”, critica Neidinha Suruí, liderança indígena da região que atua na
preservação da Amazônia e recebeu um Prêmio Emmy em 2025 pelo documentário O
Território. “Os prejuízos para a biodiversidade foram terríveis!”, lamenta.
Segundo
a Sedam (Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental) de Rondônia, os
danos ambientais na resex alcançam R$ 5,2 bilhões. Pelos cálculos do órgão de
2024, dos 197 mil hectares de floresta originais de Jaci-Paraná, cerca de 151
mil viraram pasto e, no momento da avaliação dos danos, havia mais de 200 mil
cabeças de gado ilegal no local. Ao menos duas das ações civis públicas
resultaram em condenações, uma delas contra o frigorífico Distriboi, como já
mencionado.
“Essas
descobertas são muito frustrantes do ponto de vista climático, mas,
infelizmente, não muito surpreendentes”, lamenta Cian Delaney, que é um dos
coordenadores da organização europeia Transport & Environment. “Há anos
estamos alertando que o sebo animal e o óleo de cozinha usado são
particularmente suscetíveis a fraudes [na produção de biocombustíveis]”,
completa.
<><> Produto com selo sustentável
O
combustível “verde” vendido na Europa pela DGD tem a certificação ISCC
(International Sustainability Carbon Certification), que atesta critérios de
sustentabilidade. Segundo a entidade, o certificado verifica as etapas da
cadeia produtiva desde a origem da matéria-prima, para avaliar se ela atende
aos requisitos exigidos.
Mas o
sebo bovino é tratado como resíduo do abate, e por conta disso o ponto de
origem considerado para a certificação não é a fazenda, e sim a unidade que
processa os subprodutos animais — neste caso, a Pacífico.
Em
nota, o ISCC esclareceu que não é a certificação que define se o sebo é ou não
um resíduo. A instituição disse que apenas “aplica as definições e regras
estabelecidas pela legislação pertinente”.
Segundo
a entidade, classificar o sebo como resíduo baseia-se no princípio de que o
objetivo principal da pecuária e dos matadouros não é a produção do insumo, e
que, portanto, o subproduto é tratado de
forma diferente na contabilização de gases de efeito estufa. Seu posicionamento
completo pode ser lido aqui.
Heron
Martins, pesquisador do Instituto Dados, organização brasileira que acompanha
cadeias de produção para analisar seus impactos, salienta que a localização das
unidades de produção de sebo ligadas à Darling Ingredients na Amazônia suscita
preocupações. “Como recebem subprodutos do abate de gado, podemos identificar
uma área provável de abastecimento. E essa área coincide exatamente com o arco
de desmatamento da floresta”, comenta.
“Se o
gado que fornece a gordura para o combustível tiver sido criado em florestas
desmatadas ilegalmente, o sebo resultante provavelmente tornaria o
biocombustível inelegível sob rigorosos critérios de sustentabilidade,
independentemente do cálculo de suas emissões”, afirma Haniyeh Hajatnia,
doutoranda especializada em avaliação do ciclo de vida para sustentabilidade na
Universidade de Bath, do Reino Unido.
Fonte:
Repórter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário