quinta-feira, 16 de abril de 2026

Jeferson Miola: Terrorismo eleitoral com pesquisas

Criou-se um clima de suspense prévio em torno da pesquisa Datafolha divulgada no último sábado, 11 de abril, com uma expectativa antecipada de que traria novidades bombásticas para a reeleição do presidente Lula.

Os resultados não animam o governo, por óbvio. Porém, os números nem de longe justificam a animação de setores anti-Lula que usam pesquisas para a prática de terrorismo eleitoral e pânico político.

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Nesta mesma época de 2022, no mês de março daquele ano, o mesmo instituto Datafolha publicou pesquisa na qual 48% das pessoas reprovavam o governo Bolsonaro e apenas 25% aprovavam. No entanto, em outubro, Bolsonaro perdeu por apenas 1,8% de diferença.

Seria ignorância contraproducente se desprezar os indicadores preocupantes das pesquisas de opinião em relação ao governo, que estão significativamente abaixo do esperável diante de tantas realizações deste terceiro mandato do presidente Lula.

O desempenho exitoso na economia, com a mais baixa inflação num mandato presidencial, combinado com os menores níveis de desemprego da história e o crescimento real da renda do trabalho, seriam fatores suficientes para catapultar os índices de aprovação do governo.

Além disso, o governo Lula reconstruiu as políticas de Estado de todas as áreasvduramente alvejadas pela destruição devastadora do governo fascista-militar com Bolsonaro –SUS, institutos federais, universidades, educação, assistência social, transferências de renda, instrumentos de crédito e de geração de emprego e renda e outras.

Até a primeira década e a metade da segunda deste século, um governo com o padrão de investimentos, obras e realizações como esse do Lula 3 obteria níveis altíssimos de aprovação.

Em 2010, por exemplo, Lula elegeu como sucessora Dilma e terminou seu segundo mandato com 87% de aprovação popular.

É evidente que existem hoje, no mundo inteiro, fatores estruturais que limitam a aprovação de governos, todos eles, a despeito dos seus desempenhos efetivos, e dos efeitos concretos das suas políticas na vida das pessoas.

Há uma correlação direta desse fenômeno com a colonização preponderante das redes sociais e plataformas digitais pelas vozes de extrema-direita, fascistas e autodeclaradas “antissistema”.

Essas forças políticas polarizam o debate público de modo apelativo e se apresentam como alternativas populistas e salvacionistas à crise do neoliberalismo, que durante as últimas décadas descumpriu todas suas promessas [irrealizáveis] de uma vida próspera e de oportunidades para as pessoas no marco do capitalismo ultra-financeirizado.

Na realidade brasileira existe, ainda, um aspecto estrutural, que no curso dos últimos anos se tornou fonte de um mal-estar difuso: o Brasil é um país rico, está dentre as dez maiores economias mundiais, mas tem uma apropriação de renda obscenamente concentrada e brutalmente desigual.

Essa realidade, derivada do modelo escravocrata, rentista e agroexportador dominante, gera um país com um povo pobre, em que mais de 80% da população sobrevive com até dois salários mínimos, o que é insuficiente para uma vida com um mínimo de dignidade para uma família de quatro pessoas.

O fenômeno do endividamento, que requer respostas urgentes do governo, se inscreve neste contexto, e é exponenciado pelo cassino das apostas, que precisa ser imediatamente banido no país.

A eleição municipal de 2024 evidenciou o descolamento de parte do eleitorado que conforma a base eleitoral lulista e petista –pessoas com rendimentos de até dois salários mínimos e menor escolaridade– e seu deslocamento para candidaturas oposicionistas, em especial as identificadas com o bolsonarismo.

As pesquisas vêm mostrando que essa dinâmica eleitoral persiste, e isso cobra do governo respostas imediatas para atenuar, antes da eleição de outubro, o mal-estar com uma vida em muitos casos invivível das imensas maiorias sociais. É fundamental, neste sentido, enfrentar o endividamento e aumentar a capacidade de compra do salário.

Mais além disso, a campanha Lula 4 também precisa sinalizar novas esperanças e novas místicas para o povo brasileiro. Precisa sinalizar como horizonte do próximo governo um conjunto de mudanças redistributivas e de igualdade social, como por exemplo um programa incremental, a ser materializado nos próximos anos, de garantia do salário mínimo de R$ 7.425,99 definido pelo DIEESE para cobrir despesas básicas de uma família de quatro pessoas.

•        Números das pesquisas oscilam, mas Lula não se abala, faz aquecimento. Por Denise Assis

As oscilações das pesquisas, se não preocupam o presidente Lula, servem para colocá-lo cada vez mais envolvido com a disputa eleitoral de outubro, quando concorrerá ao seu quarto mandato. Em entrevista, hoje (14/04/2026), ao Brasil 247, à Revista Fórum e ao DCM, Lula marcou posição e o que se viu foi um candidato indignado, mobilizado e, sim, irritado com uma guerra que se mostrou suja nos primeiros passos dessa estrada, que ele vai percorrer até as urnas.

Não só. Outro ponto que ele tem trazido às suas falas, com indignação, é o das “bets”, que suga para a “jogatina” - jeito como costuma se referir às apostas em jogos eletrônicos viciantes -, não só os jovens, como os pais de família que não sabem explicar em casa onde vai parar o salário no final do mês. Quietos, se endividam e levam junto para as privações, a família.

Cuidadoso, Lula sabe que na sua pauta contra o endividamento terá que colocar esse item em discussão, mas tem consciência também de que esse é um tema espinhoso, que envolve grandes conglomerados de mídia, empresários poderosos, jogadores famosos, times de futebol e outros segmentos que podem abalar os alicerces de sua candidatura. Terá que enfrentá-lo, mas com o cuidado de quem limpa uma cristaleira.

Para não dizer que não fala aos jovens – para os quais não tem ainda um discurso pronto, porque o mundo da política mudou, a linguagem para chegar neles é outra e a naturalização de crimes e desmandos durante o governo anterior resultou nessa massaroca que temos visto nas redes -, Lula se volta para exaltar a educação e acenar para os que, mais pobres, enfrentam o mercado cruel das empresas de entregas. Quer cuidá-los, amenizar um pouco a crueza do cotidiano dos que levam na garupa o que não comem, sem ter nem sequer onde parar para um xixi ou para carregar o celular, o seu instrumento de trabalho.

Lula demonstrou na conversa que ter no seu calcanhar a nulidade de um Flávio Bolsonaro, com um histórico que está mais para folha corrida do que para currículo de candidato, o faz corar e falar com a veemência que usava em seus palanques de campanha. Demonstrou, ainda, uma certa impaciência, a de quem vê o concorrente nadar de braçada numa campanha antecipada, às vistas grossas de quem deveria cuidar, enquanto ele, se erguer o braço, já será cancelado e acusado de ultrapassagem proibida.

Não há nos desvalidos que ele beneficiou, nenhum reconhecimento. “Não fez mais do que a obrigação”, parecem dizer, numa época em que as redes e as igrejas neopentecostais ditam as regras na política. Dá mostras de que está doido para entrar em campo, voltar para as ruas e enfrentar a concorrência no seu velho estilo. Mas, até lá, vai ter que avaliar se seu estilo está mesmo velho. Se o tal “olho no olho”, de que tanto fala, ainda resulta na faísca que hipnotiza o eleitor e o arrasta para apertar o 13. Isso é trabalho para a sua equipe. O que Lula quer mesmo é entrar logo no jogo.

Os números, ainda que não confesse, o preocupam. Certamente que o preocupam. Basta lembrar que nesse mês, o de abril de 2022, o cenário eleitoral mostrava Jair Bolsonaro em segundo lugar, tentando reduzir a vantagem sobre ele, que liderava as pesquisas de intenção de voto. Não é possível que a vantagem, ainda que por uma margem mínima, do opositor, não mexa com os seus nervos.

Àquela atura, em 2022, a pesquisa Quaest (divulgada em 07/04/2022), no principal cenário de primeiro turno, mostrava Lula liderando e Bolsonaro na luta, com crescimento em relação aos meses anteriores (29%), mas apenas aproximando-se da casa dos 30%, enquanto Lula tinha 44%.

Sergio Moro (União Brasil), o que foi sem nunca ter sido, patinava em 6%, e Ciro Gomes (PDT) apresentava magros 5%. Aquele mês, (abril de 2022), porém, foi definidor para que se instalasse, de vez, a tal da polarização. Naquele momento, as pesquisas indicavam recuperação de Bolsonaro, com uma tendência de subida gradual, impulsionada pela saída de Moro da disputa presidencial (o que ocorreu no final de março) e pela melhora em alguns indicadores de percepção econômica, por puro empuxo natural, pós pandemia.

Apesar da subida de Bolsonaro, Lula mantinha uma liderança sólida, vencendo em todos os cenários de segundo turno projetados pelos institutos (com margens que variavam entre 15 e 20 pontos de vantagem) naquele cenário. A tal da terceira via nunca vingou, como também agora não emplaca, deixando patinar candidatos como Ciro Gomes e João Doria, que enfrentavam dificuldades para romper a barreira dos dois dígitos. Somavam, então, menos do que os dois líderes isolados, ainda que seja preciso destacar que, naquele período, as coligações ainda estavam sendo fechadas, o que trazia variações dependendo da lista de candidatos apresentada por instituto.

Lula demonstrou na entrevista, não ter ainda um discurso pronto e acabado para a classe média. Essa mesma, endividada no cartão de crédito, nas páginas digitais da Shein, da Temu e outras pragas, que levam todo o dinheiro das famílias.

Enquanto o vício dos homens são os tigrinhos, as bets, as mulheres se afogam em promoções de blusas, bolsas e calçados nos sites de compras pela internet. Lula, como descreveu, sabe onde aperta os sapatos da classe média, adquiridos via online.

Percebe as mudanças rapidamente, mas ainda persegue a solução. Enquanto pensa e intui, com a rapidez dos que apertam a tecla dos celulares, pula para assuntos onde se sente confortável, sem deixar pergunta sem resposta, mas com mais segurança ao falar dos institutos e faculdades que implantou e ainda sonha implantar. Acena para os jovens com o futuro no conhecimento.

Vai dar tratos à bola para buscar saída fora do empenho do FGTS dos trabalhadores nessa conta. Haverá de apresentar uma solução para que essa classe, onde sobram votos ainda indefinidos, perceba que além do aumento de suas dívidas no consignado, o governo conseguiu segurar o dólar, que caiu abaixo de cinco reais, elevar a movimentação da bolsa de valores e a oferta de emprego.

O difícil é traduzir para o povo que quando esses índices vão bem, a vida melhora. Ainda que a inflação ande pulando a cerca do teto da meta. Lula aguarda no aquecimento a hora de explicar, com a sua linguagem clara, o que é fascismo, o que é defasagem salarial, e por que, afinal, o que é dito lá fora, reverbera aqui, e sacode o preço da gasolina.

O presidente não teme os números das pesquisas, onde uma hora aparece empatado, noutra ultrapassa a ponto se avaliar que pode vencer no primeiro turno. Não se abala. Teme, isto sim, as fake News. E vai para o enfrentamento, a julgar pelo puxão de orelhas que já deu nos produtores de falsos Powerpoints, na TV.

•        Lula não deixa dúvidas sobre candidatura e promete 4º mandato melhor que o 3º

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou com as dúvidas referentes à sua candidatura à reeleição, afirmando que esta decisão está diretamente ligada às circunstâncias políticas e ao seu compromisso com o país, indicando, ainda, um quarto mandato com avanços superiores aos alcançados no atual governo. A declaração foi feita em entrevista à TV 247, em parceria com a Revista Fórum e o DCM, nesta terça-feira (14), quando Lula abordou temas como economia, democracia, inclusão social, segurança pública, política internacional e imprensa.

<><> Candidatura e defesa da democracia

Lula afirmou que sua decisão de disputar a reeleição não é motivada por vontade pessoal, mas pelo contexto político e pela necessidade de preservar conquistas democráticas. “Não se trata de querer um quarto mandato. As circunstâncias políticas e o momento eleitoral que você vive decidem”, disse.

O presidente destacou ainda o que considera um compromisso histórico. “É um compromisso moral, ético - e eu diria, até, cristão - não permitir que os fascistas voltem a governar este país”, afirmou, ao relembrar a trajetória democrática brasileira desde o fim do regime militar.

Ele também declarou estar em boas condições para continuar na vida pública. “Me sinto fisicamente muito bem, politicamente muito bem. Estou com a saúde muito bem preparada e motivado, porque tem muita coisa para fazer pelo Brasil. A razão da minha candidatura é essa. Tenho um compromisso com o país e o povo brasileiro”, afirmou.

<><> Economia e promessa de desenvolvimento

Ao tratar da economia, Lula afirmou que o Brasil voltou a crescer após seu retorno ao governo. “A economia brasileira não crescia acima de 3% desde que eu deixei a Presidência em 2010. Só voltou a crescer acima de 3% quando voltei em 2023”, disse.

Ele destacou resultados na indústria, no comércio exterior e no crédito. “Abrimos 518 novos mercados em três anos e meio para produtos brasileiros. O Brasil voltou a ser levado a sério no mundo inteiro”, afirmou.

Lula também indicou que um eventual novo mandato teria metas mais ambiciosas. “Eu jamais concorreria a um mandato para fazer as coisas darem errado. Meu quarto mandato é para fazer esse país dar um salto definitivo e se transformar em um país desenvolvido”, declarou.

<><> Mercado e políticas de inclusão social

O presidente reconheceu divergências com o mercado financeiro, especialmente em relação às prioridades econômicas. “O mercado sempre vai querer outro candidato. O mercado não quer políticas de inclusão social. Ele quer política para pagar a taxa de juros deles”, afirmou.

Segundo Lula, seu governo pretende ampliar investimentos sociais. “Nós vamos fazer muito mais investimento em política de inclusão social, porque o povo brasileiro merece ter mais do que tem”, disse.

Ele afirmou ainda que suas decisões são guiadas pela realidade da população. “Eu converso com as pessoas para saber o seguinte: ‘como está sua vida? Seu salário? Como você gasta seu dinheiro?’”, declarou.

<><> Bets, endividamento e combate ao crime

Lula também demonstrou preocupação com o impacto das apostas online na renda das famílias. “As pessoas gastam R$ 300 ou R$ 400 por mês com internet [...] e agora tem as bets para assaltar o povo. Agora o cassino está dentro da sua casa”, afirmou.

O presidente disse que o governo prepara medidas para enfrentar o problema. “Estamos preparando um programa para resolver parte da dívida das pessoas, como já fizemos com o Desenrola”, declarou.

Ele também relacionou o tema ao crime organizado. “Tem muita lavagem de dinheiro nesse mundo. E se a gente quiser combater o crime organizado, a gente vai ter que atacar todos os flancos”, disse.

<><> Política internacional e críticas a Trump

Ao comentar o cenário internacional, Lula criticou a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Trump faz um jogo na tentativa de agradar o povo americano”, afirmou.

Ele relatou uma conversa com o líder norte-americano. “Eu disse para o Trump: ‘a gente tem que escolher se a gente quer ser temido ou amado’”, disse.

Lula defendeu o diálogo como base da liderança global. “Ninguém precisa ter medo de ninguém [...] minha guerra é no argumento”, declarou.

<><> Democracia e papel das instituições

O presidente também destacou a importância das instituições democráticas. “Fora da democracia, qualquer coisa é pior”, afirmou.

Ele ressaltou que o regime democrático exige convivência com divergências. “A democracia é um regime difícil porque você tem que conviver com imprensa, sindicato, com oposição, Congresso… Mas essa é a riqueza da democracia”, disse.

<><> Privatizações e controle estatal

Lula criticou privatizações realizadas nos últimos anos, especialmente no setor energético. “Na privatização da BR [...] e a mesma coisa vale para a Eletrobras. São dois escândalos”, afirmou.

Ele indicou que pretende ampliar a presença do Estado nesses setores. “Ainda sonho que a gente vai ter uma empresa distribuidora de gás e de combustível”, declarou.

<><> Segurança pública e combate à corrupção

O presidente afirmou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública, caso seja aprovada a PEC da Segurança Pública no Congresso. “Na hora que for aprovada a PEC [...] esse país vai ter segurança pública com Polícia Federal com mais gente e mais inteligência”, disse.

Sobre corrupção, Lula afirmou que investigações tornam os crimes mais visíveis. “Quando você apura a corrupção [...] aparece a corrupção. Aparece no governo de quem combate a corrupção”, declarou.

Ele também citou casos como Banco Master e INSS, associando a origem ao governo Jair Bolsonaro (PL).

<><> Críticas à imprensa e memória da Lava Jato

Lula criticou a atuação de parte da imprensa em episódios passados, como a cobertura da Lava Jato. “Não posso permitir que eles achem que eu esqueci o que eles fizeram”, afirmou.

Ele citou o episódio de um PowerPoint exibido pela Globo e relatou ter cobrado explicações. “Tive uma conversa com o dirigente da Globo, para mostrar a irresponsabilidade daquele PowerPoint”, disse.

Apesar das críticas, o presidente defendeu liberdade de imprensa, com responsabilidade. “Seja livre. Fale mal, mas fale a verdade. Não invente história”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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