quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ryan Grim: Guerra no Irã ameaça investimentos em IA e venda da Warner Bros

Os fundos soberanos do Golfo Pérsico estão conduzindo uma revisão ampla dos investimentos nos Estados Unidos, movidos por uma combinação entre necessidade comercial e recalibragem política impulsionada pela guerra no Irã, segundo fontes próximas das deliberações nos contratos financeiros de alto nível.

Em especial, a fusão planejada entre a Paramount Skydance e a Warner Bros Discovery, que se tornou possível a partir do financiamento do Golfo, está sendo objeto de um novo olhar. Uma reunião adiada do conselho da Autoridade de Investimentos do Catar acontecerá na semana que vem, enquanto o fundo recalibra sua abordagem de investimentos, segundo uma fonte que conhece as deliberações. “Mesmo de uma perspectiva puramente numérica, é preciso olhar para isso novamente”, diz a fonte do setor, que pediu anonimato para falar livremente sobre questões de investimento que raramente são discutidas em público.

Não é esperado que nenhum anúncio decorra da reunião, segundo a fonte, considerando que o Catar está pouco inclinado a desistir unilateralmente do negócio sem que a Arábia Saudita acompanhe. Retirar-se do acordo seria considerado um golpe político contra Israel e os Estados Unidos, que o Catar considera que não teria condições de sustentar sozinho nas atuais circunstâncias.

A fusão entre os dois conglomerados de mídia foi anunciada em 27 de fevereiro de 2026. No dia seguinte, os EUA e Israel lançaram um ataque surpresa contra o Irã, que respondeu, como prometido, atacando os países do Golfo que abrigam bases militares estadunidenses. Esses mesmos países do Golfo são os principais apoiadores financeiros da fusão, de acordo com os documentos arquivados na Securities and Exchange Commission, SEC, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. Fundos soberanos ligados à Arábia Saudita, ao Catar e aos Emirados Árabes Unidos se comprometeram com 24 bilhões de dólares (121 bilhões de reais) para financiar o acordo, que custou cerca de 111 bilhões de dólares (561 bilhões de reais).

No cenário atual, continua parecendo provável que o o acordo da Paramount se mantenha, mas isso pode mudar caso a guerra dure pelo menos mais um mês, e os ativos de petróleo e gás do Golfo sofram um ataque ainda maior. Trump voltou sua atenção para a infraestrutura de petróleo do Irã, e o Irã prometeu retaliar atacando ativos de petróleo do Golfo. No entanto, mesmo as circunstâncias atuais estão obrigando os fundos soberanos a olharem com mais profundidade para todo o conjunto de negócios em suas carteiras. Um representante da Paramount não quis se manifestar. Representantes do Fundo de Investimento Público (Reino da Arábia Saudita), L’imad Holding Company PJSC (Emirados Árabes) e Autoridade de Investimentos do Catar não responderam aos pedidos de comentários.

O que está em risco é o cerne da economia dos EUA, que atualmente é movida pelo crescimento das empresas de IA e dos data centers que as alimentam. Jason Furman, economista de Harvard, calculou que mais de 90% do crescimento do PIB dos Estados Unidos no primeiro semestre de 2025 foi impulsionado pela IA e investimentos relacionados. Grande parte da construção de data centers é financiada com dinheiro do Golfo, e as empresas dos EUA também estão construindo intensamente no Golfo.

Tudo isso agora ficou incerto. “A história não é apenas sobre os negócios especificamente, mas se você pensar nos data centers de IA e todo o crescimento que está chegando nos próximos anos, de onde vem a maior parte desse capital?”, diz o pesquisador. “Boa parte vem do Golfo. E se o Golfo – não politicamente, mas até mesmo apenas de uma perspectiva financeira – não puder se comprometer com isso, quais são os efeitos sobre essas empresas e a economia dos EUA? Acho que ninguém fez essa conta, mas tem algo aí, sem dúvida.”

“Os hiperescaladores” – em referência às maiores empresas, como a OpenAI – “estão bem, esses caras são enormes, podem pagar por isso, mas e o próximo nível?”, disse, pensando na extensa categoria de empresas que podem afundar sem apoio do Golfo.

Uma segunda fonte, com estreitas relações com os principais líderes do Golfo, disse que os países estão olhando atentamente para todos os acordos que fecharam, diante das novas realidades financeiras em jogo.

No começo de março, o jornal Financial Times informou que a Arábia Saudita, o Catar, os Emirados Árabes e o Kuwait estava coletivamente reavaliando os investimentos, com o objetivo de cancelar alguns, segundo uma autoridade do Golfo. “Vários países do Golfo começaram uma análise interna para determinar se as cláusulas de força maior podem ser invocadas nos contratos vigentes, ao mesmo tempo em que revisam compromissos de investimento atuais e futuros para aliviar parte da tensão econômica prevista para a atual guerra”, a autoridade teria dito ao FT. “Especialmente se a guerra e as despesas relacionadas continuarem no mesmo ritmo.”

A guerra e as despesas relacionadas não apenas continuaram, mas se aceleraram. A fonte do setor disse que o desinvestimento provavelmente aconteceria sem alarde, mas era inevitável. “Apenas matematicamente, vai ter que acontecer”, ele disse. “Não acho que será óbvio, não acho que será transmitido dessa forma. Mas acho que vai acontecer. E quando as coisas voltarem a se acumular, as pessoas vão se perguntar, são as mesmas pessoas que estão envolvidas agora ou mais tarde, e vai haver o questionamento: elas vão fazer a mesma coisa de novo? Elas vão pensar em diversificar? Essa é a questão.”

Segundo ele, os investidores do Golfo “simplesmente não terão condições de manter a escala em que haviam se comprometido”.

A Paramount é dirigida por David Ellison, filho de Larry Ellison, fundador da Oracle, um dos homens mais ricos do mundo e o maior doador da ONG Amigos das IDF (Forças de Defesa de Israel). Larry Ellison investiu bilhões para cobrir a fusão de seu filho com a Warner Bros. Os Ellison compraram o veículo The Free Press, da jornalista Bari Weiss, e deram a ela o controle da emissora CBS News, a partir da admiração de David Ellison pelo apoio de Weiss a Israel. Weiss comemora a guerra, incomodando os jornalistas de sua redação, mesmo quando ameaça o império midiático de seu patrocinador. A aquisição da Warner Brothers também dará a Ellison o controle da CNN.

Em última análise, mesmo que a preferência da agência do Catar seja por deixar o acordo, o fundo permanecerá a não ser que a Arábia Saudita também saia. “Não é uma decisão do Catar. Não é uma decisão entre os sauditas e os Emirados Árabes. É uma decisão dos sauditas, porque todos os três países precisam estar comprometidos para que o acordo faça sentido, a menos que seja possível encontrar outros investidores asiáticos”, disse a fonte do setor. O fundo soberano Tencent, da China, estava envolvido anteriormente, mas desistiu para que a transação não precisasse passar por investigação federal nos EUA por motivos de segurança nacional.

O resultado mais provável da próxima reunião, segundo a fonte do setor, é que o fundo continue com uma abordagem de esperar para ver, levando em conta o rápido desenvolvimento da situação política e econômica. “Se os sauditas entrarem, o Catar vai atrás. Se os sauditas não entrarem, o Catar não vai seguir, vão apenas adiar, adiar, adiar e ver o que acontece. Todos ainda podem dizer ‘não, não, estamos comprometidos, estamos comprometidos. E há milhões de formas, caso isso se estenda por mais um mês, é possível usar força maior, é possível fazer qualquer coisa.”

Uma fonte do Catar com informações sobre o processo também disse que o acordo ainda tem grandes chances de se concretizar.

A decisão de Trump de humilhar publicamente Mohammad bin Salman, ou MBS, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, também jogou areia no relacionamento com os sauditas. Na conferência de investimentos apoiados pela Arábia Saudita, Trump falou sobre seu relacionamento com MBS. “Pouco tempo atrás, estávamos juntos, e ele olhou para mim e disse: ‘sabe, um ano atrás você era um país morto. Agora, você é o país mais em alta no mundo'”, disse Trump. “Ele não achou que isso iria acontecer. Ele não achou que estaria puxando meu saco, realmente não achou. Ele achou que eu seria só mais um presidente americano que é um perdedor com um país que está indo ladeira abaixo, mas agora ele precisa ser legal comigo. Diga a ele que é melhor ser legal comigo, que ele tem que ser.”

Na mesma conferência, o fundo soberano da Arábia Saudita anunciou um corte de 15% em investimento de capital.

Steve Bannon, aliado de Trump, se juntou ao escárnio. “Talvez possamos ficar com dois ou três desses príncipes uniformizados”, disse em seu podcast, The War Room (A Sala de Guerra). “Tem algum filho nas forças especiais? Vamos reunir essas famílias reais e ver o tamanho do que elas estão dizendo.”

O insulto contribuiu para o ar de incerteza em relação ao financiamento da Paramount, segundo a fonte do setor. “Olha, isso que aconteceu uns dias atrás não é pouca coisa. Quer dizer, nós conhecemos o MBS. Foi uma conduta muito ofensiva. Não sei se a palavra é ‘vingativo’, mas ele estaria disposto a tomar medidas drásticas com base nas emoções”, disse.

Segundo ele, a maior parte do setor ainda está presa na névoa da guerra a não ensaiou cenários de longo prazo. Ele diz que Trump também não parece ter pensado muito nas coisas, especialmente em relação à promessa do presidente de fornecer energia para a Europa. “Os efeitos indiretos serão imensos, quem vai fornecer GNL e gás para a Europa nos próximos anos? São os EUA. Mas quem também precisa desse gás para ampliar os data centers? São os EUA. Então, algo tem que ceder.” O acesso ao hélio, um componente essencial da indústria da IA, também está em risco em decorrência da guerra.

Os principais atores – China, Rússia e até a Arábia Saudita – todos têm incentivos para continuar, ele explica.

A Arábia Saudita “não está sendo tão afetada por essa guerra quanto as pessoas podem pensar, seus preços à vista subiram, eles são, logisticamente, o centro de tudo agora”, diz. “Isso está fazendo diferença.”

“Se você pensar em quem realmente tem incentivos para desescalar agora, não sobram muitos. O Irã está satisfeito se isso continuar. Israel está satisfeito se continuar. Os EUA aparentemente não se importam. Não parece afetá-los. E então vem a China, e a China talvez não queira, mas a Rússia está se beneficiando mais do que ninguém. Então é realmente o Catar que precisa desescalar para sua própria segurança. O Kuwait está ferrado. O Bahrein está ferrado, mas eles não são realmente atores.”

¨      Irã se torna potência mundial após 1,5 mês da guerra com EUA e vence nas conversas, diz analista

O Irã está em melhor posição após negociações com os Estados Unidos em Islamabad, afirmou à Sputnik Maria Kicha, orientalista russa.

Na avaliação de Kicha, Teerã provou ao mundo que é possível conversar com Washington a partir de uma posição de força.

"O Irã é o grande beneficiado dessas negociações. Em apenas um mês e meio, tornou-se uma potência mundial. É o Irã que negocia com os EUA em uma posição de força e dispõe de mecanismos de pressão sobre Washington", ressaltou.

Segundo a analista, para os Estados Unidos e Israel, a única opção de vitória continua sendo o desmantelamento completo do Estado iraniano, mas isso não aconteceu.

Além disso, a especialista salientou que o Irã é o vencedor da primeira rodada de negociações com os EUA em Islamabad.

Ao mesmo tempo, Kicha concluiu que o Irã resistiu à agressão dos Estados Unidos e de Israel e agora tem tempo para se reagrupar e recorrer ao seu arsenal de mísseis escondido em armazéns subterrâneos.

O Irã e os Estados Unidos iniciaram negociações em Islamabad no dia 11 de abril, após o presidente estadunidense, Donald Trump, anunciar que havia chegado a um acordo com Teerã sobre um cessar-fogo de duas semanas.

No entanto, mais tarde, o chefe da delegação norte-americana, o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, anunciou que não foi possível chegar a um acordo com o lado iraniano.

¨      Irã exige na ONU indenização de países árabes por cumplicidade em ataques de EUA e Israel

A Missão Permanente da República Islâmica do Irã junto às Nações Unidas (ONU) apresentou uma reclamação de indenização contra cinco países da região: Bahrein, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Jordânia. Teerã responsabiliza diretamente essas nações por sua participação e facilitação da guerra travada pelos Estados Unidos e Israel contra o território iraniano.

O Representante Permanente do Irã, Amir Saeid Iravani, denunciou esses Estados por se envolverem em atos internacionalmente ilícitos, violando suas obrigações soberanas e princípios fundamentais do direito internacional. Segundo a declaração oficial, essa cumplicidade ativa na agressão regional gera uma responsabilidade internacional inescapável que obriga os envolvidos a reparar integralmente os danos causados ​​por suas ações.

A exigência de Teerã inclui indenização integral por todos os danos materiais e morais resultantes das hostilidades. O diplomata iraniano enfatizou que o uso de territórios regionais ou de recursos logísticos para apoiar a ofensiva de Washington e Tel Aviv constitui uma violação da segurança coletiva e, portanto, os países envolvidos devem arcar com as consequências financeiras e jurídicas de seu alinhamento com as potências agressoras.

Esta ação judicial perante a ONU marca uma nova fase na estratégia de defesa da República Islâmica, que busca estabelecer um precedente quanto à responsabilidade dos Estados que facilitam ataques externos contra nações vizinhas. A exigência de indenização soma-se às acusações anteriores do Irã sobre a perda de soberania desses governos devido à influência do eixo imperialista no Oriente Médio.

A agressão que começou em 28 de fevereiro, perpetrada pelos EUA e por Israel sob o pretexto de uma “mudança de governo”, resultou em 3.375 mortes, incluindo 383 menores, após 39 dias de ataques.

A ofensiva não só teve como alvo instalações-chave como o terminal da Ilha de Kharg, o aeródromo de South Pars, a ponte B1 Karaj-Teerã e a escola Shajareh Tayyebeh, mas também devastou uma vasta rede de outras infraestruturas vitais em todo o país. Essas perdas massivas paralisaram os serviços de energia, saúde e transporte, violando direitos fundamentais da nação persa.

¨      EUA e Israel podem usar negociações para preparar operação terrestre no Irã, alerta Rússia

Os Estados Unidos e Israel podem usar as negociações de paz como forma de preparar uma operação terrestre contra o Irã, alertou nesta terça-feira (14) o Conselho de Segurança da Rússia em comunicado, "enquanto o Pentágono continua a aumentar o contingente de tropas norte-americanas na região".

Mais cedo, os Estados Unidos mobilizaram mais de 10 mil militares para monitorar o cumprimento do bloqueio naval ao Irã, determinado pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Além do contingente, pelo menos 12 navios e dezenas de aeronaves do país foram direcionados para a região.

Já Chas Freeman, ex-assessor do secretário de Defesa dos EUA para segurança internacional, afirmou à Sputnik que a medida não só mina o frágil cessar-fogo de duas semanas, mas, se estendido a navios não pertencentes ao Irã, significará uma ação militar contra terceiros países não envolvidos no conflito.

"Significará ações militares contra os países que usaram a diplomacia para obter a permissão do Irã para que seus navios passassem pelo estreito de Ormuz. Esses países incluem aliados americanos, como o Japão e a República da Coreia, além de grandes potências mundiais e regionais, como China, Índia e Turquia."

<><> Escalada no Oriente Médio

Já o órgão russo acrescentou que, caso não haja acordo nas negociações com o Irã, as hostilidades poderão ser retomadas com maior intensidade.

Segundo o comunicado divulgado pelo Conselho de Segurança, as autoridades iranianas mantêm o controle da situação interna e o sistema de governança estatal e militar segue estável. O texto também destaca que o Irã ainda possui quantidades significativas de armamentos.

 

Fonte: The Intercept/TeleSUR/Sputnik Brasil

 

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