quarta-feira, 15 de abril de 2026

Por que o bloqueio naval ao Irã é uma medida arriscada de Trump — e o papel que a China pode ter para que ele funcione

Ninguém duvida que as Forças Armadas americanas sejam capazes de estabelecer um bloqueio dos navios que entram e saem do Golfo Pérsico. A pergunta é: qual o objetivo?

"Acho que é viável", declarou à BBC o contra-almirante americano Mark Montgomery, na manhã de segunda-feira (13/4). "E, certamente, é menos perigoso que a alternativa, que seria forçar os iranianos a criar as condições para um comboio."

Algumas das opções ventiladas nas últimas semanas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seriam a tomada da ilha de Kharg ou a escolta militar de comboios através do Estreito de Ormuz. Ambas teriam sido perigosas e possivelmente de alto custo.

As forças americanas envolvidas teriam se exposto a ataques de mísseis, drones e lanchas rápidas iranianas. E a possível presença de minas na água teria aumentado ainda mais o grau de perigo.

Por outro lado, o bloqueio permite que os navios de guerra americanos naveguem com segurança, longe do litoral nas águas do Golfo de Omã, rastreiem os navios que surgirem de portos iranianos e os interditem à vontade.

"Existe menos risco aqui do que na área mais confinada do estreito", diz Montgomery.

Com as forças especiais, helicópteros e suas próprias lanchas rápidas disponíveis, a Marinha americana detém tudo o que é necessário para esta operação. Os recentes bloqueios da Venezuela e de Cuba demonstraram isso.

No início de janeiro, a apreensão do petroleiro russo Marinera no norte do oceano Atlântico, mostrou que a Marinha americana pode conduzir essas operações quase em qualquer parte do mundo.

O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês) afirma que este bloqueio "será executado imparcialmente contra navios de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras do Irã", mas que os navios que usarem portos não iranianos não serão detidos.

Navios transportando insumos humanitários serão permitidos, "sujeito a inspeção", segundo o Centcom.

<><> Mas será que vai funcionar?

A lógica parece clara.

Desde que a guerra começou, o Irã continua exportando com sucesso seus produtos petroquímicos através do Golfo, ganhando bilhões de dólares, enquanto outros países do Golfo não conseguem exportar seu próprio combustível.

Um bloqueio americano bem-sucedido poderá impedir este fluxo, retirando do regime iraniano a receita tão necessária do petróleo e enfraquecendo ainda mais sua economia.

Mas o Irã já demonstrou enorme resiliência, frente a mais de um mês de ataques dos Estados Unidos e Israel. E o país pode também sentir que pode aguentar mais esta tempestade — especialmente porque qualquer novo bloqueio, provavelmente, irá elevar ainda mais os preços do petróleo.

"Eles acreditam que podem suportar isso", afirma à BBC David Satterfield, ex-enviado especial dos Estados Unidos para assuntos humanitários no Oriente Médio. E também "que os Estados Unidos sofrerão com os preços do petróleo, e os Estados do Golfo acabarão pressionando os Estados Unidos para abrir novamente o estreito."

Para ele, Washington não levou em conta a férrea determinação iraniana. "Eles acham que venceram", dis Satterfiled. "Os iranianos acreditam que podem suportar mais dificuldades que seus oponentes, por um período mais longo."

Especialistas em navegação acompanham o escoamento dos navios vindos de portos iranianos pelo Estreito de Ormuz, para observar qual será o impacto do bloqueio americano.

"Estou literalmente observando os navios que estão passando agora", conta a analista de inteligência marítima Michelle Wiese Bockmann. "Se eu fosse marinheira, estaria muito preocupada."

"Observamos alguns navios darem meia-volta após o anúncio original de Trump na noite passada", contou na segunda-feira (13/4) o editor-chefe da publicação Lloyd's List, Richard Meade.

Segundo Meade, houve nas 48 horas anteriores o período mais movimentado de tráfego através do Estreito de Ormuz desde o início da guerra, no final de fevereiro. Foram cerca de 30 trânsitos rastreáveis, ou seja, embarcações navegando com seu equipamento de identificação automática ligado.

"Parecia uma corrida de navios tentando sair", ele conta.

Com muito poucas embarcações atualmente em movimentação, pode levar algum tempo (ou não) para vermos a Marinha americana interceptando navios entrando ou saindo de portos iranianos.

Com o cessar-fogo ainda em vigor, a guerra no Irã, no momento, se transformou em uma batalha entre dois bloqueios concorrentes, com a economia global presa em meio à disputa.

Com a China supostamente tendo colaborado para convencer o Irã a participar das extensas discussões diplomáticas do último fim de semana em Islamabad, no Paquistão, Washington talvez espere que esta nova fase gere mais pressões por parte de Pequim.

A China é o maior importador mundial de petróleo iraniano. E, embora detenha vastas reservas estratégicas, o país não pode permitir uma interrupção prolongada do fornecimento.

A última jogada de Donald Trump é uma aposta. E seus impactos poderão ser sentidos em breve.

•        Petroleiro chinês atravessa o Estreito de Ormuz apesar do bloqueio dos EUA

Um petroleiro chinês sancionado pelos Estados Unidos passou pelo Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14), apesar do bloqueio americano, segundo dados de navegação.

Segundo dados da LSEG, MarineTraffic e Kpler, o Rich Starry seria o primeiro navio a atravessar o estreito e a sair do Golfo desde o início do bloqueio.

O navio-tanque e sua proprietária, a Shanghai Xuanrun Shipping Co Ltd, foram alvo de sanções dos Estados Unidos por negociarem com o Irã. Não foi possível contatar a empresa imediatamente para comentar o assunto.

Segundo os dados, o Rich Starry é um navio-tanque de médio porte que transporta cerca de 250 mil barris de metanol. A carga foi carregada em seu último porto de escala, Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos.

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Os dados mostraram que o petroleiro de propriedade chinesa tem tripulação chinesa a bordo.

<><> Bloqueio em Ormuz

Começou na segunda-feira (13) o bloqueio das forças dos Estados Unidos contra navios que entram e saem de portos iranianos, incluindo o Estreito de Ormuz.

“O bloqueio será aplicado imparcialmente contra embarcações de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras iranianas, incluindo todos os portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã”, afirmou o comunicado do Comando Central dos EUA.

Navios que não estiverem viajando para ou de portos iranianos poderão passar livremente pelo Estreito de Ormuz, de acordo com o Comando Central dos EUA, que destacou que o bloqueio “não impedirá a liberdade de navegação” dessas embarcações.

Após o bloqueio ter entrado em vigor, Donald Trump fez uma publicação nas redes sociais ameaçando eliminar embarcações iranianas de "ataque rápido".

"Aviso: Se algum desses navios se aproximar do nosso BLOQUEIO, será imediatamente ELIMINADO, usando o mesmo sistema de eliminação que usamos contra os traficantes de drogas em barcos no mar", adicionou.

A medida pode aumentar o preço do petróleo, enquanto os EUA tentam pressionar o Irã em meio ao cessar-fogo.

Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, respondeu à ameaça de um bloqueio naval publicando nas redes sociais um mapa dos preços da gasolina em postos próximos à Casa Branca.

“Aproveite o preço atual da gasolina. Com o que está sendo chamado de "bloqueio", você logo sentirá falta da gasolina a US$ 4 ou US$ 5”, comentou.

•        Petroleiros atravessam Ormuz após bloqueio dos EUA, mostram dados

Um terceiro petroleiro ligado ao Irã estava entrando no Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14), no primeiro dia completo do bloqueio dos Estados Unidos a embarcações que atracam em portos iranianos, segundo dados de navegação.

O presidente americano, Donald Trump, anunciou o bloqueio no domingo (12), após as negociações de paz do fim de semana em Islamabad entre os EUA e o Irã não terem resultado em um acordo.

Como as três embarcações que transitavam pelo estreito não se dirigiam a portos iranianos, elas não estão sujeitas ao bloqueio.

O navio-tanque Peace Gulf, de médio porte e com bandeira do Panamá, está a caminho do porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos, segundo dados da LSEG.

O navio normalmente transporta nafta iraniana, matéria-prima petroquímica, para outros portos do Oriente Médio fora do Irã, para exportação à Ásia, segundo dados da Kpler.

Antes disso, dois petroleiros sujeitos a sanções dos EUA passaram pelo canal.

O petroleiro Handy Murlikishan está a caminho do Iraque para carregar óleo combustível em 16 de abril, de acordo com dados da Kpler. A embarcação, anteriormente conhecida como MKA, já transportou petróleo russo e iraniano.

Outro navio-tanque sancionado, o Rich Starry, seria o primeiro a atravessar o estreito e sair do Golfo desde o início do bloqueio, segundo dados da LSEG e da Kpler.

O navio-tanque e seu proprietário, a Shanghai Xuanrun Shipping Co Ltd, foram sancionados pelos Estados Unidos por negociarem com o Irã. Não foi possível contatar a empresa imediatamente para comentar o assunto.

O Rich Starry é um navio-tanque de médio porte que transporta cerca de 250 mil barris de metanol, segundo dados. Ele carregou a carga em seu último porto de escala, Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos, conforme mostram os dados.

Os dados mostraram que o petroleiro de propriedade chinesa tem tripulação chinesa a bordo.

O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou nesta terça-feira (14) que o bloqueio dos EUA aos portos iranianos é "perigoso e irresponsável", alertando que isso só agravaria as tensões. Não mencionou se navios chineses estavam passando pelo estreito.

<><> O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

Desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, Teerã restringiu a passagem para quase todas as embarcações, pelo Estreito de Ormuz, afirmando que a navegação só seria permitida sob controle iraniano e mediante o pagamento de uma taxa.

A via marítima é uma das mais importantes do mundo, por onde passa quase um quinto do petróleo e gás mundial.

Após a falha da tentativa de negociação, com o objetivo de pôr fim à guerra entre os EUA e o Irã, o presidente Donald Trump anunciou que as forças americanas bloqueariam a entrada e saída de navios de portos iranianos, incluindo o Estreito de Ormuz.

Teerã ameaçou atingir navios de guerra que atravessassem o estreito e retaliar contra os portos de seus vizinhos do Golfo, após o anúncio dos americanos.

Enquanto isso, o cessar-fogo de duas semanas segue em vigor na região do Oriente Médio, com a campanha de bombardeios EUA-Israel contra Teerã suspensa e o ataques iranianos contra países da região também interrompidos.

 

Fonte: BBC News/CNN Brasil

 

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