Por
que o bloqueio naval ao Irã é uma medida arriscada de Trump — e o papel que a
China pode ter para que ele funcione
Ninguém
duvida que as Forças Armadas americanas sejam capazes de estabelecer um
bloqueio dos navios que entram e saem do Golfo Pérsico. A pergunta é: qual o
objetivo?
"Acho
que é viável", declarou à BBC o contra-almirante americano Mark
Montgomery, na manhã de segunda-feira (13/4). "E, certamente, é menos
perigoso que a alternativa, que seria forçar os iranianos a criar as condições
para um comboio."
Algumas
das opções ventiladas nas últimas semanas pelo presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, seriam a tomada da ilha de Kharg ou a escolta militar de comboios
através do Estreito de Ormuz. Ambas teriam sido perigosas e possivelmente de
alto custo.
As
forças americanas envolvidas teriam se exposto a ataques de mísseis, drones e
lanchas rápidas iranianas. E a possível presença de minas na água teria
aumentado ainda mais o grau de perigo.
Por
outro lado, o bloqueio permite que os navios de guerra americanos naveguem com
segurança, longe do litoral nas águas do Golfo de Omã, rastreiem os navios que
surgirem de portos iranianos e os interditem à vontade.
"Existe
menos risco aqui do que na área mais confinada do estreito", diz
Montgomery.
Com as
forças especiais, helicópteros e suas próprias lanchas rápidas disponíveis, a
Marinha americana detém tudo o que é necessário para esta operação. Os recentes
bloqueios da Venezuela e de Cuba demonstraram isso.
No
início de janeiro, a apreensão do petroleiro russo Marinera no norte do oceano
Atlântico, mostrou que a Marinha americana pode conduzir essas operações quase
em qualquer parte do mundo.
O
Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês) afirma que
este bloqueio "será executado imparcialmente contra navios de todas as
nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras do Irã", mas que
os navios que usarem portos não iranianos não serão detidos.
Navios
transportando insumos humanitários serão permitidos, "sujeito a
inspeção", segundo o Centcom.
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Mas será que vai funcionar?
A
lógica parece clara.
Desde
que a guerra começou, o Irã continua exportando com sucesso seus produtos
petroquímicos através do Golfo, ganhando bilhões de dólares, enquanto outros
países do Golfo não conseguem exportar seu próprio combustível.
Um
bloqueio americano bem-sucedido poderá impedir este fluxo, retirando do regime
iraniano a receita tão necessária do petróleo e enfraquecendo ainda mais sua
economia.
Mas o
Irã já demonstrou enorme resiliência, frente a mais de um mês de ataques dos
Estados Unidos e Israel. E o país pode também sentir que pode aguentar mais
esta tempestade — especialmente porque qualquer novo bloqueio, provavelmente,
irá elevar ainda mais os preços do petróleo.
"Eles
acreditam que podem suportar isso", afirma à BBC David Satterfield,
ex-enviado especial dos Estados Unidos para assuntos humanitários no Oriente
Médio. E também "que os Estados Unidos sofrerão com os preços do petróleo,
e os Estados do Golfo acabarão pressionando os Estados Unidos para abrir
novamente o estreito."
Para
ele, Washington não levou em conta a férrea determinação iraniana. "Eles
acham que venceram", dis Satterfiled. "Os iranianos acreditam que
podem suportar mais dificuldades que seus oponentes, por um período mais
longo."
Especialistas
em navegação acompanham o escoamento dos navios vindos de portos iranianos pelo
Estreito de Ormuz, para observar qual será o impacto do bloqueio americano.
"Estou
literalmente observando os navios que estão passando agora", conta a
analista de inteligência marítima Michelle Wiese Bockmann. "Se eu fosse
marinheira, estaria muito preocupada."
"Observamos
alguns navios darem meia-volta após o anúncio original de Trump na noite
passada", contou na segunda-feira (13/4) o editor-chefe da publicação
Lloyd's List, Richard Meade.
Segundo
Meade, houve nas 48 horas anteriores o período mais movimentado de tráfego
através do Estreito de Ormuz desde o início da guerra, no final de fevereiro.
Foram cerca de 30 trânsitos rastreáveis, ou seja, embarcações navegando com seu
equipamento de identificação automática ligado.
"Parecia
uma corrida de navios tentando sair", ele conta.
Com
muito poucas embarcações atualmente em movimentação, pode levar algum tempo (ou
não) para vermos a Marinha americana interceptando navios entrando ou saindo de
portos iranianos.
Com o
cessar-fogo ainda em vigor, a guerra no Irã, no momento, se transformou em uma
batalha entre dois bloqueios concorrentes, com a economia global presa em meio
à disputa.
Com a
China supostamente tendo colaborado para convencer o Irã a participar das
extensas discussões diplomáticas do último fim de semana em Islamabad, no
Paquistão, Washington talvez espere que esta nova fase gere mais pressões por
parte de Pequim.
A China
é o maior importador mundial de petróleo iraniano. E, embora detenha vastas
reservas estratégicas, o país não pode permitir uma interrupção prolongada do
fornecimento.
A
última jogada de Donald Trump é uma aposta. E seus impactos poderão ser
sentidos em breve.
• Petroleiro chinês atravessa o Estreito
de Ormuz apesar do bloqueio dos EUA
Um
petroleiro chinês sancionado pelos Estados Unidos passou pelo Estreito de Ormuz
nesta terça-feira (14), apesar do bloqueio americano, segundo dados de
navegação.
Segundo
dados da LSEG, MarineTraffic e Kpler, o Rich Starry seria o primeiro navio a
atravessar o estreito e a sair do Golfo desde o início do bloqueio.
O
navio-tanque e sua proprietária, a Shanghai Xuanrun Shipping Co Ltd, foram alvo
de sanções dos Estados Unidos por negociarem com o Irã. Não foi possível
contatar a empresa imediatamente para comentar o assunto.
Segundo
os dados, o Rich Starry é um navio-tanque de médio porte que transporta cerca
de 250 mil barris de metanol. A carga foi carregada em seu último porto de
escala, Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos.
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Os
dados mostraram que o petroleiro de propriedade chinesa tem tripulação chinesa
a bordo.
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Bloqueio em Ormuz
Começou
na segunda-feira (13) o bloqueio das forças dos Estados Unidos contra navios
que entram e saem de portos iranianos, incluindo o Estreito de Ormuz.
“O
bloqueio será aplicado imparcialmente contra embarcações de todas as nações que
entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras iranianas, incluindo todos os
portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã”, afirmou o comunicado do
Comando Central dos EUA.
Navios
que não estiverem viajando para ou de portos iranianos poderão passar
livremente pelo Estreito de Ormuz, de acordo com o Comando Central dos EUA, que
destacou que o bloqueio “não impedirá a liberdade de navegação” dessas
embarcações.
Após o
bloqueio ter entrado em vigor, Donald Trump fez uma publicação nas redes
sociais ameaçando eliminar embarcações iranianas de "ataque rápido".
"Aviso:
Se algum desses navios se aproximar do nosso BLOQUEIO, será imediatamente
ELIMINADO, usando o mesmo sistema de eliminação que usamos contra os
traficantes de drogas em barcos no mar", adicionou.
A
medida pode aumentar o preço do petróleo, enquanto os EUA tentam pressionar o
Irã em meio ao cessar-fogo.
Mohammad
Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, respondeu à ameaça de um
bloqueio naval publicando nas redes sociais um mapa dos preços da gasolina em
postos próximos à Casa Branca.
“Aproveite
o preço atual da gasolina. Com o que está sendo chamado de
"bloqueio", você logo sentirá falta da gasolina a US$ 4 ou US$ 5”,
comentou.
• Petroleiros atravessam Ormuz após
bloqueio dos EUA, mostram dados
Um
terceiro petroleiro ligado ao Irã estava entrando no Golfo Pérsico pelo
Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14), no primeiro dia completo do bloqueio
dos Estados Unidos a embarcações que atracam em portos iranianos, segundo dados
de navegação.
O
presidente americano, Donald Trump, anunciou o bloqueio no domingo (12), após
as negociações de paz do fim de semana em Islamabad entre os EUA e o Irã não
terem resultado em um acordo.
Como as
três embarcações que transitavam pelo estreito não se dirigiam a portos
iranianos, elas não estão sujeitas ao bloqueio.
O
navio-tanque Peace Gulf, de médio porte e com bandeira do Panamá, está a
caminho do porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos, segundo dados da
LSEG.
O navio
normalmente transporta nafta iraniana, matéria-prima petroquímica, para outros
portos do Oriente Médio fora do Irã, para exportação à Ásia, segundo dados da
Kpler.
Antes
disso, dois petroleiros sujeitos a sanções dos EUA passaram pelo canal.
O
petroleiro Handy Murlikishan está a caminho do Iraque para carregar óleo
combustível em 16 de abril, de acordo com dados da Kpler. A embarcação,
anteriormente conhecida como MKA, já transportou petróleo russo e iraniano.
Outro
navio-tanque sancionado, o Rich Starry, seria o primeiro a atravessar o
estreito e sair do Golfo desde o início do bloqueio, segundo dados da LSEG e da
Kpler.
O
navio-tanque e seu proprietário, a Shanghai Xuanrun Shipping Co Ltd, foram
sancionados pelos Estados Unidos por negociarem com o Irã. Não foi possível
contatar a empresa imediatamente para comentar o assunto.
O Rich
Starry é um navio-tanque de médio porte que transporta cerca de 250 mil barris
de metanol, segundo dados. Ele carregou a carga em seu último porto de escala,
Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos, conforme mostram os dados.
Os
dados mostraram que o petroleiro de propriedade chinesa tem tripulação chinesa
a bordo.
O
Ministério das Relações Exteriores da China afirmou nesta terça-feira (14) que
o bloqueio dos EUA aos portos iranianos é "perigoso e irresponsável",
alertando que isso só agravaria as tensões. Não mencionou se navios chineses
estavam passando pelo estreito.
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O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?
Desde o
início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro,
Teerã restringiu a passagem para quase todas as embarcações, pelo Estreito de
Ormuz, afirmando que a navegação só seria permitida sob controle iraniano e
mediante o pagamento de uma taxa.
A via
marítima é uma das mais importantes do mundo, por onde passa quase um quinto do
petróleo e gás mundial.
Após a
falha da tentativa de negociação, com o objetivo de pôr fim à guerra entre os
EUA e o Irã, o presidente Donald Trump anunciou que as forças americanas
bloqueariam a entrada e saída de navios de portos iranianos, incluindo o
Estreito de Ormuz.
Teerã
ameaçou atingir navios de guerra que atravessassem o estreito e retaliar contra
os portos de seus vizinhos do Golfo, após o anúncio dos americanos.
Enquanto
isso, o cessar-fogo de duas semanas segue em vigor na região do Oriente Médio,
com a campanha de bombardeios EUA-Israel contra Teerã suspensa e o ataques
iranianos contra países da região também interrompidos.
Fonte:
BBC News/CNN Brasil

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