Choque
reverso: os brasileiros que voltam do exterior
"O
que estou fazendo aqui? Será mesmo que eu deveria ter vindo?". Perguntas
como essas são recorrentes na mente de quem decide voltar ao seu país de origem
após viver como imigrante no exterior.
O
retorno à terra natal é bem mais complexo do que pode parecer. Seja por razões
voluntárias ou involuntárias, se tornar "ex-imigrante” é um processo
intenso, cheio de emoções conflitantes.
Em meio
a um embate entre expectativa vs. realidade, desejos viram frustrações,
reflexões se tornam outras, e a sensação de se sentir em casa já não é mais a
mesma. Sensações como essas fazem parte da síndrome do retorno, também chamada
de choque cultural reverso.
"Eu
costumo chamar de ‘ferida do retorno'", afirma a psicóloga intercultural
Andrea Sebben, que elaborou uma pesquisa com 500 brasileiros que viveram no
exterior e retornaram ao país.
"É
uma idealização, porque quando a gente está fora, literalmente fora do
contexto, a gente meio que rompe com a realidade. A gente se relaciona com o
país de origem muito mais no nosso imaginário. E você não tem dados de
realidade suficientes para saber como é morar no Brasil hoje. Os dados que você
tem habitam absolutamente no que é imaginário", diz Sebben.
A
psicóloga explica que o movimento de deixar o país costuma causar incertezas.
Já o retorno gera uma quebra de familiaridade. É assim que surge o estado de
ambivalência.
"Você
sabe o que está perdendo. Mas você não sabe o que está ganhando. A perda é
concreta, ela é dolorosa. Mas o que você está ganhando?", afirma a
pesquisadora. "Isso se chama ambivalência. Eu quero ganhar, mas eu não
quero perder. Eu quero conquistar, mas não quero abrir mão de nada."
<><>
Brasileiro, mas estranho no ninho
Com a
síndrome do retorno, a pessoa sente que perdeu dois países de uma só vez:
aquele no exterior (onde já se sentia em casa, apesar de ser imigrante), e
aquele em que ela já não se reconhece, embora seja seu local de nascimento.
Há
casos em que a pessoa decide retornar ao país para matar a saudade – da
família, da comida ou simplesmente do bairro em que cresceu. Já em outras
situações, não há escolha. É o que aconteceu com os mais de 3.000 brasileiros
deportados nos Estados Unidos em 2025, por exemplo.
Foi
também em 2025 que o Itamaraty publicou um guia online para os brasileiros
regressos. Com dicas do que e como fazer ao retornar ao país, o manual propõe
auxiliar ex-imigrantes. Os temas vão de reinserção profissional a transporte de
animais.
"No
período recente, nota-se um movimento de retorno de migrantes brasileiros ao
território nacional. Por um lado, esse fluxo pode ser explicado pelo
acirramento da retórica e das políticas anti-imigração, verificado em alguns
países que tradicionalmente recebem os migrantes. Por outro, a dinamização do
mercado de trabalho no Brasil constitui forte fator de estímulo ao regresso
voluntário", aponta o manual.
Mesmo
com contextos e motivos de regresso tão diferentes entre si, os ex-imigrantes
costumam partilhar a mesma tensão: um choque de desejos e frustrações.
"A
gente escuta muito isso: ‘Ah, eu esperava que voltando para o Brasil fosse
acontecer A, B ou C…' E não acontece", conta a psicóloga Sebben. Ela
também explica que a ambivalência emocional já se inicia quando a pessoa está
no aeroporto.
Essa
síndrome começou a ser estudada no início do século 20, a partir do abalo
psicológico que militares e civis sentiam ao se mudarem de país em meio à
Primeira Guerra Mundial.
Já no
Brasil, as pesquisas sobre a síndrome engataram nos anos 1980, com o
neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que estudou a saúde mental dos decasséguis –
brasileiros que tinham sido imigrantes no Japão. Nos relatos que colheu, o
médico notou sintomas de depressão, ansiedade e não pertencimento.
<><>
O paradoxo de desconhecer o conhecido
"Eu
sempre achava: ‘Ah, eu sinto falta do meu país, lá é minha terra, minha língua,
vou conseguir fazer tudo mais fácil'. Não foi muito bem assim, não", conta
a microempreendedora.
Ela
morou dez anos na Alemanha e, em 2025, decidiu voltar ao Brasil porque sentia
saudades da família, do clima e da cultura. Mas a adaptação não foi nada do que
ela tinha imaginado. Daí, após sete meses de muita frustração com a mudança, a
microempreendedora foi (de novo) para a Alemanha.
"Meu
pensamento primeiro foi: ‘cheguei em casa'", diz ela. "Não era a
mesma coisa. Porque eu acabei chegando no Brasil, mas sempre me lembrava como
era o meu estilo de vida aqui [na Alemanha]."
Muita
da dificuldade que Machado sentiu para se adaptar tem a ver com a mudança de
rotina. "Como a gente estava em Florianópolis, então, tudo o que você
precisava fazer era do norte da ilha até o centro. Era sempre muito trânsito,
muito carro, parecia que estava sempre cheio. Isso aí foi uma das coisas que me
pegou um pouquinho mais."
Não
existe fórmula mágica. É impossível saber como será retornar para (ou partir
do) seu país, nem se a readaptação será muito dolorosa ou "apenas"
complexa. Mas saber disso já ajuda a entender os próprios sentimentos, ter
paciência e lidar com o desafio.
Para a
psicóloga Sebben, o período de readaptação não é linear e, por isso, o ideal
seria esperar mais do que sete meses para tomar uma nova decisão. "A
migração não acontece do lado de fora. Ela acontece do lado de dentro. Então eu
diria: há que se preparar, na medida do possível, antes", afirma.
<><>
Difícil, mas não impossível
Enfrentar
o "luto migratório" é difícil, mas não impossível. Um exemplo é
Maucir Nascimento, autor de A Volta Dos Que Foram, livro que ele escreveu com
base na própria experiência.
"Eu
sempre vi outros imigrantes sofrendo muito com essa coisa da perda. E eu não
queria. Eu sou filho de mãe solteira. Aquela coisa toda, não tenho família
próxima, eu não tenho nada. Então, eu sempre entendi o valor da vida, o valor
da coisa de você valorizar aquelas pessoas que estão ali por você. É por isso
que eu decidi voltar", conta ele.
Maucir
Nascimento morou dez anos na Austrália e, em 2018, regressou ao Brasil. Ele diz
que não se arrepende das decisões que tomou, mesmo quando tem novas reflexões
sobre o assunto.
"Estaria
mentindo se eu dissesse para você que não passa pela cabeça, com certa
frequência, voltar para a Austrália. Ou ir para algum outro lugar do mundo.
Isso é da natureza do imigrante. Se você fizer essa opção, você sempre vai
ficar pensando em voltar. Do mesmo jeito que quem vai fica pensando em
voltar", afirma Nascimento, cujo livro se propõe a auxiliar quem passa ou
passará pela síndrome do retorno.
"Acho
que a questão de fazer tudo com pé no chão é muito importante. Sem esses
floreios das mídias sociais, essas coisas assim que todo mundo fala, cheio de
tipo assim... Ah, como deveria ser... Quem sabe... Não, cara, vai buscar a
realidade! Vai buscar a realidade do que é, do que não é para você. Muito
autoconhecimento. Quem não busca autoconhecimento para entender por que está
voltando, por que quer voltar, por que foi... O que era bom antes, o que não
era bom depois. Faz uma matriz aí de prós e contras."
Para
ele, o mais importante de todo esse processo é justamente se planejar bastante.
Imaginar o que pode (ou não) acontecer nesse novo ciclo da vida.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário