quarta-feira, 15 de abril de 2026

Mário Maurici: Qual o preço da eleição de Flávio Bolsonaro?

O discurso de Flávio Bolsonaro na CPAC (Conservative Political Action Conference) foi uma das mais graves manifestações de defesa do intervencionismo dos Estados Unidos e de subordinação dos interesses brasileiros àquele país. Seu conteúdo revela uma orientação política clara, que coloca em risco a soberania nacional. O evento é considerado o maior encontro de líderes, ativistas e organizações da extrema direita no mundo. Diante dessa plateia, o pré-candidato à Presidência fez um pedido claro, quase explícito, de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

Trata-se de um flerte perigoso com situações que, no passado, já resultaram em inúmeras tragédias na América Latina e no Caribe. Um movimento que ganha densidade histórica quando observado à luz da Doutrina Monroe, formulada em 1823, e que enxerga a América Latina como "quintal" dos Estados Unidos. Sob Donald Trump, essa tese, agora renomeada de doutrina Donroe, voltou a ser adotada de modo explícito, com sinais recorrentes de interferência, direta ou indireta, em dinâmicas políticas da região, como aconteceu recentemente nas eleições presidenciais de Honduras e legislativas na Argentina. Com o presidente Lula, temos resistido com êxito, como se viu na imposição do tarifaço. Mas a postura seria oposta em uma eventual ascensão de Flávio Bolsonaro.

Um dos pontos mais sensíveis do discurso dele foi sobre as chamadas terras raras. Delas, são extraídos elementos essenciais para tecnologias avançadas, como inteligência artificial, equipamentos militares e a transição energética, o que nos coloca no centro da disputa global por poder e autonomia tecnológica. Foi o equivalente a passar com um cachorro em frente a um açougue com carnes suculentas. Nesse momento, Flávio pôs sobre a mesa a recompensa por uma eventual ajuda estadunidense à sua campanha.

Para Flávio Bolsonaro, o Brasil poderia ser "a solução" para que os Estados Unidos reduzam sua dependência da China no fornecimento de minerais críticos. Ao apresentar o nosso país como alternativa estratégica para a segurança nacional estadunidense, ele desloca o eixo da discussão: os recursos naturais brasileiros deixam de ser considerados como instrumentos de desenvolvimento nacional e passam a ser tratados como ativos a serviço de uma potência estrangeira.

Esse posicionamento ganha ainda mais peso quando associado a outros elementos do seu discurso. Flávio Bolsonaro também defendeu que países estrangeiros acompanhem e pressionem o funcionamento das instituições brasileiras e o processo político nacional. Pediu que os Estados Unidos exerçam "pressão diplomática" para que o pleito ocorra sob "valores democráticos americanos". Talvez ele entenda como valores democráticos a invasão do Capitólio estimulada por Trump para tentar reverter sua derrota eleitoral e replicada na fracassada tentativa de golpe de 8 de janeiro no Brasil. A combinação desses fatores — oferta de recursos estratégicos e apelo à intervenção externa — dá as cores do que será um eventual retorno da extrema direita ao comando do nosso país.

Não foi só na CPAC que o discurso de Flávio Bolsonaro caiu bem. Estes absurdos receberam apoio de deputados estaduais da Assembleia Legislativa de São Paulo, alinhados com o governador Tarcísio de Freitas, que se afastaram de seus mandatos para participar presencialmente do evento nos Estados Unidos. É a extrema direita unida, entreguista, portadora do complexo de vira-lata, mostrando que, nesse jogo, vale até mesmo abrir mão da nossa soberania.

É justamente esse ponto que estrutura a reação crítica e a posição oposta defendida por Lula. O presidente tem reiterado que o Brasil não aceitará qualquer forma de tutela externa e que sua política internacional deve ser guiada pela autonomia e pelo interesse nacional. Em meio a tensões com os Estados Unidos, Lula afirmou que o país não aceitará interferências e que a soberania brasileira é um princípio inegociável.

Recursos estratégicos, como as terras raras, não podem ser explorados apenas como commodities voltadas à exportação. Muito menos ceder o seu controle por meio de acordo de preferência para um determinado parceiro comercial. Precisamos utilizá-los como base para o desenvolvimento industrial e tecnológico interno, agregando valor e reduzindo a dependência histórica do Brasil na divisão internacional do trabalho. É a nossa oportunidade de inverter a lógica de subordinação que os Estados Unidos tentam nos impor e ocupar novos espaços no tabuleiro geopolítico internacional.

Dar asas às ambições imperialistas estadunidenses é um jogo arriscado. A chilena Marcela Rios Tobar, diretora para a América Latina no Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral, esteve recentemente no Brasil para participar de um evento da União Europeia sobre combate à desinformação e avaliou existir uma preocupação real de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

E essa não é uma ameaça enfrentada apenas por nós. Peru e Colômbia também vão às urnas para escolher seus presidentes em cenários bastante acirrados. Certamente, eles também estão na mira de Trump. Mas o Brasil é a "joia da coroa" pelo peso que tem na América e no mundo, pela sua população, economia e dimensão territorial.

Estamos diante de uma encruzilhada. A depender de suas escolhas, a América Latina pode desempenhar um papel subalterno, exportando riqueza bruta e importando dependência, ou assumir o protagonismo que nossos recursos e nossa capacidade histórica permitem. A extrema direita que sustenta Flávio Bolsonaro já escolheu o seu lado, assim como os partidos progressistas que apoiam Lula.

Proteger as nossas riquezas estratégicas, fortalecer a nossa soberania e blindar as nossas instituições contra interferências externas não são somente opções ideológicas: são pilares para que o Brasil e a América Latina decidam seu próprio destino.

•        Flávio é o esqueleto ambulante da extrema direita. Por Moisés Mendes

Até por jornalões procuram os esqueletos no armário de Flávio Bolsonaro, enquanto o próprio candidato cata os ossos da fome do desgoverno do seu pai, para atribuir a ossada ao governo de Lula. O efeito da nova busca ao passado do filho ungido pode ser zero. Nada.

Todo mundo sabe o que ele fez por suas relações e até homenagens a criminosos e pela capacidade de escapar dos cercos do sistema de Justiça. Sabem ou fingem não saber, porque a imagem de Flávio está, como dizem no mercado financeiro, precificada há muito tempo.

Flávio tem preço, tem etiqueta, tem especificação do material de que foi feito e tem alertas sobre os danos que pode sofrer se for exposto à luz. Mesmo assim, o Estadão publicou no sábado, dia 11, que o filho é uma página em branco.

O jornal deu na capa, em destaque, a chamada para a entrevista do marqueteiro Jorge Gerez, que trabalha para Ratinho Júnior. Segundo o especialista em imagem pública, ninguém sabe de onde Flávio veio e o que pretende da vida. Essa seria a sua vantagem.

Esse mesmo marqueteiro vai pisando no que diz e chega ao ponto de dizer, ao comparar Flávio e o gângster argentino da criptomoeda, que “Milei é um cientista, uma pessoa com muito conteúdo”. Pelos disparates, a entrevista seria um desastre até uns 10 anos atrás. Hoje, não dá nada.

Tanto que o mesmo Estadão, que apresentou o mais novo extremista moderado como se fosse um Collor de 1989, informa nesta segunda-feira, dois dias depois, que o filho tem um passado sombrio. E publica no título do editorial: “Os ‘esqueletos’ de Flávio Bolsonaro”.

O jornal adverte: “Não demorou para que o passivo do senador – sobre rachadinhas e milicianos – começasse a aparecer. E o candidato, ao dizer que não sabia de nada, escolheu ofender a inteligência do eleitor”.

E aí vem a lista, no Estadão e nos jornalões que redescobrem a folha corrida do filho escolhido, tudo o que se sabe sobre o envolvimento de Flávio com suspeitas e investigações de desvios de verbas públicas, com milicianos e com a compra de imóveis da família com dinheiro vivo ou morto.

É um passivo sem fim. O Globo destacou hoje que o delegado da Polícia Federal Erick Ferreira Blatt, flagrado furtando um vidro de carpaccio de trufa (que custa R$ 300) em um supermercado do Recife, é ‘conhecido’ dos Bolsonaros. Não é amigo há uma década, é conhecido. Seria amigo se a relação fosse com Lula.

Quem sai a pesquisar no Google para saber quem é o delegado desdobre que ele engavetou uma investigação contra Flávio em 2022, sobre um dos casos brabos de ocultação de imóveis e lavagem de dinheiro.

Nessa busca, aparecem links aleatórios para outros textos e lá está a seguinte chamada, no Globo de 11 de fevereiro de 2022: “Flávio Bolsonaro diz que se encontrou com Queiroz e tratou de eleição: Ele é ficha-limpa, falei para ir à luta”.

Queiroz foi e não se elegeu deputado estadual. Flávio recomendava ao ex-assessor que se virasse, enquanto já estavam engavetadas, por decisão do STF, as investigações sobre as rachadinhas.

Agora, há uma semana, em 6 de abril, em entrevista a um podcast, Flávio disse ao tentar se afastar do ex-parceiro:

"O Queiroz cuidava de uma parte da minha assessoria que trabalhava na rua, fazia panfletagem, evento, e tinha autonomia sobre esse pessoal. Ele falou que, de algumas pessoas que ele tinha empregado, ele cobrava uma parte do salário, mas obviamente não tinha minha concordância. Ele fala que eu jamais tive conhecimento disso."

Em 2022, Flávio deu corda para que Queiroz buscasse um mandato, mas agora é mais cuidadoso. O que se sabe é que o ex-assessor virou subsecretário da Segurança e Ordem Pública de Saquarema, no Rio de Janeiro.

O sistema de Justiça que pegou Braga Netto, o mais poderoso general da era Bolsonaro, não consegue pegar Flávio nem Queiroz. Como não pegou e talvez nunca mais pegue os grandes financiadores do gabinete do ódio, dos bloqueios de estradas e da invasão de Brasília no 8 de janeiro.

O delegado amigo de Flávio, que engavetou a investigação de 2022, o ex-assessor agora xerife da guarda municipal de Saquarema, os amigos milicianos homenageados solenemente – todos estão por aí, descontando-se os que já foram executados em queima de arquivo.

Flávio, o sujeito que o Estadão apresenta como página em branco, para dar voz na capa aos que falam por ele, mesmo que sejam bobagens, é também o homem dos esqueletos que a grande imprensa escondeu até agora.

Decidiram mostrar alguns ossos, mas em cena rápida, e quem não viu não verá mais. Porque esse é o jogo dos jornalões. Mostram, em flashes eventuais, os podres da extrema direita, mas querem mesmo é bater todos os dias em Lula.

Por isso é ilusória a sensação de que em algum momento todos os ossos escondidos pela família irão desabar sobre Flávio. Porque são ossos expostos há muito tempo. Todo mundo conhece cada detalhe desse acervo, o crânio, a clavícula, o fêmur, a tíbia.

Todos conhecem a fíbula que segura a tornozeleira de Bolsonaro. Conhecem ossadas avulsas e cadáveres inteiros. Poucas páginas são mais preenchidas do que o histórico da família de Flávio Bolsonaro, que o Estadão apresentou como sendo imaculada.

Se encontrarem amanhã um cemitério ocupado só com ossos do bolsonarismo, a reação pode ser a mais natural, porque não é nessa área que Flávio será abalado.

Essa é a eleição em que valores e referências sobre bons modos não valem um fêmur descarnado. Até porque Flávio é o próprio esqueleto vivo e ambulante da extrema direita. Os outros são os outros.

•        Flávio Bolsonaro avança em negociações com PP e União Brasil

O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) intensificou as articulações políticas para consolidar uma aliança com partidos do centrão, especialmente a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, informa a Folha de São Paulo. A sinalização positiva dessas siglas está condicionada à continuidade de um discurso mais “moderado’, movimento considerado estratégico para ampliar sua base eleitoral.

Segundo os dirigentes envolvidos nas negociações, a adesão depende diretamente da postura política de Flávio Bolsonaro ao longo das próximas semanas.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), afirmou que o apoio está próximo, mas depende da manutenção do tom adotado pelo pré-candidato. “Hoje, só depende de Flávio. Se ele continuar essa pessoa equilibrada, falando para o centro, para o Brasil virar a página dessa disputa, ele vai ter nosso apoio. Se virar um candidato de extrema direita, que acho que não vai acontecer, [ele não terá]… Ele tem tudo para receber nosso apoio”, declarou.

Na mesma linha, o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, destacou que a tendência é favorável à aliança, desde que o senador mantenha um perfil conciliador. “A tendência é essa. Se Flávio for um nome para unir o Brasil, não teremos dificuldades”, afirmou.

A exigência de moderação reflete a disputa interna na direita por protagonismo político. Partidos do centrão buscam ampliar sua influência e reduzir o espaço de correntes mais radicais, priorizando candidaturas com maior capacidade de diálogo e alcance eleitoral.

De acordo com interlocutores das siglas envolvidas, as negociações avançam em ritmo frequente e incluem tratativas sobre candidaturas em diversos estados. A expectativa é que um eventual acordo seja formalizado até o fim de maio, prazo considerado necessário para resolver pendências regionais e avaliar a viabilidade eleitoral do senador.

Aliados de Flávio Bolsonaro avaliam que o crescimento nas pesquisas pode acelerar a consolidação da aliança. O grupo cita resultados recentes que indicam desempenho competitivo do senador, o que tende a atrair partidos interessados em compor uma eventual base de governo.

A estratégia de campanha tem sido marcada por mudanças em relação ao histórico político do grupo. O senador tem adotado um discurso mais moderado, reduzindo ênfases em pautas religiosas e temas sensíveis, além de fazer acenos ao eleitorado feminino e evitar confrontos diretos. Essa postura tem facilitado a interlocução com diferentes forças políticas.

Uma aliança com União Brasil e PP é considerada estratégica não apenas do ponto de vista político, mas também eleitoral. Juntas, as duas siglas somam 98 deputados federais, o que impacta diretamente o tempo de propaganda no rádio e na televisão — um dos principais ativos em campanhas presidenciais.

Estimativas apontam que, caso o acordo seja concretizado, Flávio Bolsonaro poderá ampliar significativamente seu tempo de exposição, reduzindo a vantagem de adversários nesse quesito. A distribuição oficial será definida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base principalmente no tamanho das bancadas na Câmara.

Apesar dos avanços, o senador ainda enfrenta dificuldades em ampliar o diálogo com outras legendas do centrão. Tentativas de aproximação com Republicanos e PSD não avançaram, e a possibilidade de apoio dessas siglas, por ora, permanece incerta. No caso do PSD, liderado por Ronaldo Caiado, as conversas não resultaram em acordo, deixando uma eventual aliança para um possível segundo turno.

 

Fonte: Brasil 274

 

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